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terça-feira, 23 de junho de 2015

Exposição retrospetiva da obra de Júlio Vaz Saraiva

 Vista parcial da exposição


Exposição retrospetiva da obra de Júlio Vaz Saraiva na galeria de exposições temporárias do Posto de Turismo de Seia, integrada na Artis XIII. JVS entrou com 16 anos para o gabinete de desenho da Empresa Hidroelétrica da Serra da Estrela. Até à data, a poucos dias de celebrar 87 anos, realizou diversos trabalhos na área do desenho e da ilustração, projetos de valorização do Património e artes decorativas.
Artigo sobre Júlio Vaz Saraiva no jornal Porta da Estrela nº 1011, 15 de maio 2015.



quarta-feira, 24 de junho de 2009

ANTÓNIO JÚLIO VAZ SARAIVA (J.V.S)

Exposição retrospectiva:
Cine-Teatro da Casa Municipal da Cultura, 3 a 5 de Julho 2009
Posto de Turismo de Seia, 6 a 31 de Julho de 2009 - Ver imagens desta exposição
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Foi recentemente divulgada a lista de personalidades do concelho a distinguir no dia 03 de Julho, Dia do Município de Seia, com a Campânula de Mérito Municipal. Entre as 22 personalidades da cultura, desenvolvimento social, indústria e desporto, figuram dois artistas: Maria Helena Pais de Abreu (Mérito Cultural) e António Júlio Vaz Saraiva (Mérito e Dedicação).

Helena Abreu vai receber, finalmente, uma distinção oficial da autarquia senense, sete anos após ter recebido o prémio “Senense no Exterior” na I Gala do Concelho de Seia, organizado pelo Jornal Notícias da Serra e Orfeão de Seia, em 29 de Junho de 2002.

Também já tardava o reconhecimento público (ver imagens) do trabalho diversificado de António Júlio Vaz Saraiva na valorização e promoção de Seia, onde nasceu a 09 de Maio de 1928. Terminou a sua vida profissional como chefe da secção de desenho da E.H.E.S.E. (Empresa Hidro-Eléctrica da Serra da Estrela), para onde entrou aos 16 anos como desenhador.

Desenhador e ilustrador com vasta obra dispersa, grande parte dela reproduzida em jornais locais, iniciou-se nas lides culturais ainda muito jovem, em 1946, fundando com o seu amigo Hermano Marques dos Santos (Seia, 1929) um semanário juvenil, “O Viriato” (Jornal do Centro Extra-Escolar Nº1, 1946), editado em papel heliográfico.


Hermano Marques dos Santos emigrou logo depois para África (Congo Belga, actual Zaire) e Júlio Vaz Saraiva entregou-se a outros desafios, a começar pela direcção artística de “A Voz dos Novos”, separata do jornal “A Voz da Serra”, publicada no início dos anos 50 do século XX.
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Em 1964, elaborou o Mapa Turístico da Serra da Estrela, para a Residência Serra da Estrela (então inaugurada em Seia, no edifício hoje ocupado pela Caixa de Crédito Agrícola).

Participou em algumas exposições colectivas de desenho e de fotografia, entre as quais a Exposição Nacional de Desenho/Prémio Tavares Correia/EPSE (Seia e Oliveira do Hospital, 1996) e na I e II Exposição Colectiva de Artistas Senenses (1999 e 2000).
Como fotógrafo amador, desde os anos 40, participou em vários concursos regionais e nacionais de fotografia. É também coleccionador, tendo reunido ao longo de décadas um vasto espólio fotográfico.
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O Património local é o tema principal dos seus desenhos, através dos quais evoca frequentemente a memória de recantos e lugares já desaparecidos, que o artista conheceu. Amante da sua terra natal, tem participado em diversos trabalhos de valorização e defesa do Património histórico de Seia e do concelho, colaborou na reconstrução do pelourinho de Loriga, em 1998, elaborando um projecto a partir da descrição do antigo pelourinho pelo Capitão Dr. António Dias, dos anos 50, e, com José Alberto Ferreira Matias, realizou o levantamento (medições e desenhos) de dois pequenos elementos do primitivo pelourinho de Seia (Porta da Estrela, 28-02-2006) que permitiram esclarecer as dúvidas sobre a sua forma original.
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Antiga cadeia de Seia - desenho de J.V.S.

Ilustrou obras do poeta de Seia, Fernando de Melo Sequeira Mendes (1925-2001), com destaque para os livros “Seia, Terra que Canto” (edição dos autores, 1994, e 2ª edição da Câmara M. de Seia, em 1995), “Raízes” (edição do autor, Julho de 1998), “Postais coloridos – Luís Ferreira Matias” (Câmara Municipal de Seia, 1996), selecção e organização de José Alberto Ferreira Matias e fotos de Eduardo Correia, “A Vila de Seia: subsídios históricos”, de Manuel da Mota Veiga Casal (edição do Clube de Pessoal da EDP-Seia, 1999), juntamente com José Alberto Ferreira Matias; 90º Aniversário da Fundação da EHESE – Empresa Hidroeléctrica da Serra da Estrela (Câmara Municipal de Seia, 1999), juntamente com Carlos Marrão dos Santos e Humberto Manuel Sena Mota Veiga, e para a rubrica “Figuras e Figurões”, publicada no Jornal de Santa Marinha nos anos 90, da qual resultou o livro “Figuras e Figurões” – 25 figuras senenses, tratadas em verso por Sequeira Mendes e caricaturadas por Júlio Vaz Saraiva (Seia, 1999).

Desenho de J.V.S para a capa de Seia, Terra que Canto

Em 1996, concebeu o painel de azulejos que envolvem a Fonte Nova, no início da avenida 1º de Maio, e assinou alguns cartoons em jornais senenses antigos e actuais (Voz da Serra, Jornal de Santa Marinha, Porta da Estrela), abordando (in)decisões controversas e outros temas da actualidade.

Projecto (1996) e foto do arranjo final da fonte

Coloriu uma gravura do pintor senense Lucas Marrão, que foi editada em serigrafia pela Câmara Municipal de Seia em 1997.

A litografia de Lucas Marrão colorida por J.V.S. (Edição CMS)

Tem colaborado com o Museu do Brinquedo de Seia, sendo o autor de um interessante desenho reconstituindo a zona da actual Praça da República antes do devastador incêndio de 27 de Outubro de 1916, editado pelo museu em formato postal – a propósito da exposição de Homenagem aos Bombeiros (2004). Ainda em 2004, editou o livro para colorir “A Minha Freguesia”, com 24 páginas de divulgação do património do concelho, uma obra que dedicou “a todos os jovens dos oito aos oitenta anos”. Eu acrescentaria “oitenta e muitos…” pois Júlio Vaz Saraiva, jovem de 81 anos, acaba de ver editado o seu álbum “Alminhas da Freguesia de Seia” (Junta de Freguesia de Seia, Junho de 2009) com prefácio de Júlio Rocha e Sousa.
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Retrato de Luís Ferreira Matias, por J.V.S

Fontes:
“Artistas Senenses – Júlio Vaz Saraiva”, Sérgio Reis, jornal Ecos da Nossa Escola, nº 7, Dezembro de 1999.
Porta da Estrela nº 385, 31/01/95;
“Ainda Os Viriatos e o jornal O Viriato”, de Hermano M. Santos, Jornal de Santa Marinha nº 123, 01 de Maio de 1998; “Histórias de Sena Serra” - Edição de autor, Março 2006, 327 pág.s – colectânea de crónicas publicadas no JSM desde Agosto de 1997 a 2004 e crónicas “A Partir Pedra”, publicadas na revista bimensal da Associação dos Industriais das Rochas Ornamentais;
Desdobrável da Exposição Temporária de Homenagem aos Bombeiros - Museu do Brinquedo de Seia, 2004.
Biblioteca Nacional de Portugal;
Jornal de Santa Marinha nº431, 18/06/2009 (Alminhas do Concelho de Seia);
Porta da Estrela nº865. 22 de Junho de 2009 (Mérito Municipal).
Porta da Estrela nº866, 30 de Junho de 2009.
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Jornal Ecos da Nossa Escola, Nº7, Dezembro de 1999
(clicar na imagem para ampliar)

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Lucas Marrão nasceu em Seia há 185 anos

Lucas de Almeida Marrão nasceu em Seia a 5 de Fevereiro de 1824, há 185 anos, na quinta do fidalgo senense Luís Pinto de Mendonça Arrais, futuro Visconde de Valongo, de quem seus pais eram caseiros.

Nascido na Casa das Obras, em Seia, a 04 de Julho de 1787, Luís Pinto de Mendonça Arrais tornou-se 1º Barão (1835) e depois 1º Visconde de Valongo (1842) pelo seu valoroso desempenho nas Lutas Liberais - comandando o Batalhão de Voluntários da Rainha D. Maria II que desembarcou numa praia próxima do Porto (e não no Mindelo, Vila do Conde) e nas batalhas travadas em Valongo em 1832 e 1833, onde quase perdeu a vida. Já com o título de Visconde, foi Governador Civil do Porto em 1847.

Reza a história que o próprio Visconde de Valongo descobriu a vocação do jovem Lucas, vendo-o esculpir num pedaço de madeira uma figura religiosa (Nossa Senhora, segundo Quelhas Bigotte; Santo António, na versão do Dr. Luís Pinto de Albuquerque, relatada pelo Dr. António Dias) e que o tomou sob a sua protecção. No entanto, a certidão de baptismo de Lucas Marrão mostra claramente que ele já vinha sendo protegido desde criança pois os seus padrinhos de baptismo eram fidalgos da Casa de Tourais, um oficial de nome Lucas Maximo de Frias, oficial do Regimento de Milícias da Covilhã, e sua mulher, Francisca Augusta Napoles. Sem colocar em causa a verdade historiável, não deixa de ser curiosa tanta preocupação fidalga com o filho de um simples caseiro.

Sob a protecção da família Mendonça Arrais, frequentou a aula de Desenho Histórico da Academia de Belas-Artes, entre 1847 a 1852, onde foi discípulo de António Manuel da Fonseca (1796-1890), pintor e escultor que exerceu larga influência no seu tempo. Ali, obteve prémios nos concursos de 1847/48, 1948/49 e 1949/50.

Participou na exposição da Academia Real de Belas Artes em 1852, com quatro telas originais e uma cópia de uma tela de Vieira Portuense (“Júpiter e Leda”), assim como na Exposição da Sociedade Promotora de Belas Artes de 1880 e na de 1884.

Entre as suas obras mais conhecidas, destacam-se o “Retrato da Infanta D. Isabel Maria” (col. Conde de Almarjão); “Defronte de um Altar”, de 1879 (col. D. Caetano de Portugal); “Retrato de El-Rei D. Luís” (Câmara Municipal da Seia). Retratou o Visconde de Valongo (1842), D. José Pinto de Mendonça Arrais (irmão do Visconde de Valongo, bispo de Pinhel e da Guarda) e o Dr. José da Mota Veiga, entre outros. (Ver AQUI alguns trabalhos de Lucas Marrão na Biblioteca Nacional Digital).

Em Seia, não restam (ao que se saiba) muitas obras de Lucas Marrão. Num artigo publicado no jornal “A Voz de Seia”, segundo notícia de José Alberto Ferreira Matias, o Dr. António Dias referia a existência de muitos desenhos desse autor na Casa das Obras de Vila Cova. Pintou as bandeiras da confraria do Santíssimo Sacramento e dois quadros com “Os Evangelistas” para a extinta capela do Morgado de Nossa Senhora das Preces. São-lhe atribuídos sete dos oito quadros representando a Via-sacra existentes nas paredes laterais da Igreja da Misericórdia – já que um deles é nitidamente de outro autor, tal como J. Quelhas Bigotte já havia notado pois omitiu-a. Várias pinturas de Lucas Marrão encontram-se na posse de descendentes do Visconde de Valongo - como a Viscondessa de Valdemouro, filha do 2º Visconde de Valdemouro, nascido em Seia em 1896 e falecido em Águeda em 1938.

A obra mais conhecida do artista senense, pelo nível artístico e insubstituível valor documental é a litografia “Vista da Villa de Cea, tirada do alto da Senhora do Rosário” (1845). Em 1997, foi editada pela Câmara Municipal de Seia uma reprodução dessa litografia, colorida pelo artista senense António Júlio Vaz Saraiva.


A litografia mostra com grande pormenor a Casa das Obras (da família do Visconde de Valongo, hoje Câmara Municipal de Seia), a Colegiada (destruída à passagem das tropas francesas invasoras), o castelo em ruínas e a zona envolvente, o Solar dos Botelhos, a Capela de S.Pedro e a Igreja da Misericórdia.

O Dr. António Dias levou aos jornais senenses do seu tempo, nos anos 40 do século XX, os ecos do trabalho publicado pelo Coronel Henrique de Campos Ferreira de Lima (“Dois artistas esquecidos - Lucas de Almeida Marrão e João Baptista Minas”) na “Revista de Guimarães”, em 1944, acrescentando-lhes o resultado da sua própria pesquisa, muito esclarecedora e incontornável para um estudo sério sobre Lucas Marrão. Em 1997, a propósito da edição, pela Câmara Municipal, da “Vista da Villa de Cea, tirada do alto da Senhora do Rosário”, José Alberto Ferreira Matias (filho do grande jornalista e insigne senense Luís Ferreira Matias) divulgou essa pesquisa em quatro artigos do Jornal de Santa Marinha (nº 96, 98, 100 e 101, de 1 de Março a 16 de Maio de 1997) ilustrados com as fotos e reproduções que aqui se mostram, com a devida referência e agradecimentos a José Alberto Ferreira Matias, a Serafim Correia (autor das fotografias dos quadros da Misericórdia), à Misericórdia de Seia e ao Jornal de Santa Marinha, na pessoa do seu Director, Eduardo Cabral.

As telas atribuídas a Lucas Marrão. Ao centro, o quadro de outro autor (fotos de Serafim Correia - JSM).


Outra obra muito conhecida de Lucas Marrão evoca o episódio político da Revolta do Porto, em Outubro de 1846, que degenerou em guerra civil: a prisão do Duque da Terceira e companheiros na Cadeia da Relação do Porto, por ordem de Silva Passos. Entre eles, estava o Visconde de Valongo, nomeado para comandar a 4ª Divisão Militar. Lucas Marrão também estaria com o Visconde de Valongo, considerando a pormenorizada descrição da cena na litografia de 1848, ou esse desenho terá sido inspirado e instruído pelo Visconde? Certo é que a Patuleia foi uma guerra civil cruel, que terminou em Junho de 1847, antecâmara da grave crise de 1849 (em que até os teatros fecharam), acontecimentos vividos por Lucas Marrão aos vinte e poucos anos, antes e durante a frequência da Academia de Belas Artes de Lisboa como “aluno voluntário”, ou seja, aluno externo. Aliás, a sua matrícula data de 10 de Novembro de 1847, ainda no rescaldo da guerra civil, mas no ambiente protector da capital. Vinte dias depois, o Visconde de Valongo é nomeado Governador Civil do Porto, onde os vapores revolucionários ainda pairavam. Já existia a Academia Portuense de Belas-Artes, criada por Passos Manuel em Novembro de 1836 e que ainda hoje funciona no mesmo edifício, como Escola Superior de Belas Artes da Universidade do Porto.

Lucas Marrão dedicou-se também à fotografia, uma novidade na época, que conciliou com a pintura. Abriu um estúdio em Lisboa, a “Photographia Artística”, chegando a realizar alguns trabalhos fotográficos para a Casa Real - segundo refere J. Quelhas Bigotte na sua Monografia de Seia.

Faleceu em Lisboa a 20 de Agosto de 1894. Em 1981, a Câmara Municipal de Seia atribuiu o seu nome a uma rua de Seia (junto ao Mercado Municipal, do lado do Solar de Santa Rita/Museu do Brinquedo) - ver Ruas de Seia com nome de artistas em "Escrita(s)".


Fontes:
Bigotte, J. Quelhas, “Monografia da Vila e Concelho de Seia”, 2ª edição,1986.
Bigotte, J. Quelhas, “Escritores e Artistas Senenses”, 1986.
H.C. Ferreira Lima, “Dois artistas esquecidos - Lucas de Almeida Marrão e João Baptista Minas” in “Revista de Guimarães”, vol. 54, Fasc. 1-2, 1944 - Biblioteca da Fundação Calouste Gulbenkian
Pamplona, Fernando, “Dicionário de Pintores e Escultores”, Vol. IV
Matias, José Alberto Ferreira, “A propósito duma litografia de Seia”, in Jornal de Santa Marinha nº 96, 98, 100 e 101, Seia, 1997.
Biblioteca Nacional de Portugal/Biblioteca Digital