quinta-feira, 25 de março de 2010

Sobre a estátua no túmulo de Afonso Costa

O escultor João da Silva e Afonso Costa


Quem procurar, no cemitério de Seia, o túmulo do advogado, político e estadista senense Afonso Augusto da Costa (Santa Marinha, Seia, 6 de março de 1871 — Paris, 11 de maio de 1937), depara com um jazigo subterrâneo enquadrado por duas esculturas: um anjo em granito, ao fundo, e uma grande estátua enigmática, no topo.

Estátua de Afonso Costa, da autoria de Dorita Castel-Branco, em Seia... no Largo Marques da Silva

O anjo é uma obra anónima interessante. As suas formas acompanham no geral a estética do “anjinho” barroco, mas o olhar vazio e o sorriso traquinas do anjo de pedra colocam aos pés do túmulo de Afonso Costa um autêntico arrepio tridimensional. No que respeita à estátua, datada de 1932, as suas características neo-góticas lembram de imediato a representação tradicional da Morte. Porém, vislumbra-se sob o pesado capuz um rosto feminino, belíssimo, cuja expressão doce, associada à sugestão funerária, evoca a Memória – certamente o sentido dessa escultura de João da Silva, escolhida para assinalar a última morada do controverso Afonso Costa.

Outra estátua de João da Silva muito semelhante à de Seia, pode ver-se no vão da escadaria principal do edifício da Reitoria, na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto. Conhecida por “A Santa” - ou “A Sabedoria”, quando é apresentada como símbolo da universidade, essa figura feminina neo-clássica em granito é, na realidade, um monumento aos estudantes da Universidade do Porto mortos na Guerra de 1914-1918, inaugurado a 16 de outubro de 1948, onze anos depois do lançamento da primeira pedra. Já a estátua de bronze que integra o monumento a Augusto Gil, inaugurado na Guarda em 1935, representa a Poesia lançando flores com a mão esquerda e amparando a música (uma cítara) com a direita. Resumindo, não deixa de ser curioso terem a Guarda e Seia duas estátuas de João da Silva, realizadas com a diferença de poucos anos mas com destinos bem diversos: a da Guarda é uma “bandeira” cultural da cidade, objeto de inúmeras referências bibliográficas e variada iconografia, e a de Seia nem sequer aparece referida nos roteiros turísticos locais.


Afonso Costa foi sepultado em 1937 em Neuilly-sur-Seine, no jazigo de Robert Burnay, trasladado em 1950 para o cemitério do Père-Lachaise, em Paris, e finalmente sepultado em Seia em 6 de março de 1971, 34 anos após o seu falecimento (1). Tal como a estátua de João da Silva, o seu túmulo deveria ser referido no roteiro turístico de Seia, sem preconceitos nem quaisquer aspas.



Monumento aos Estudantes da Universidade mortos na Guerra de 1914-1918 da autoria do escultor João da Silva.


“Escultor João da Silva”, retrato de Abel Manta, 1919, 116X87, Museu de Abel Manta - Gouveia


João da Silva (Lisboa, 1880-1960) distinguiu-se como escultor ainda jovem, em França, e poderia ter alcançado outra projeção internacional “se o amor à pátria não o tivesse feito recusar a nacionalidade francesa” (2). Estudou escultura e medalhística em Paris e Genebra mas acompanhou já em Lisboa os alvores da República. Esteve envolvido na polémica escolha do busto da República Portuguesa, sendo apontado como autor do busto que esteve na Assembleia Constituinte em 1911, depois desaparecido. Como medalhista, foi o autor da primeira moeda de ouro da República Portuguesa, em 1916, poucos anos antes do amigo Abel Manta, de Gouveia, o pintar em dois retratos (3). Na década de 30, João da Silva criou ainda a célebre série de moedas com a caravela, que circularam até aos anos 60. Concebeu também autênticas obras-primas da joalharia para Jaime Leitão, reputado joalheiro lisboeta, assim como algumas peças destinadas à produção cerâmica das conceituadas marcas portuguesas Vista Alegre e Candal e da alemã Rosenthal.

Em 1914, decidiu não renovar o contrato como professor da Escola Marquês de Pombal, onde lecionava desde 1909, e passou a residir em Paris até 1932. Era cunhado de António Sérgio, com quem Afonso Costa fundou na capital francesa a Liga de Defesa da República (1927), grupo que se opunha à situação política portuguesa criada pela ditadura de 1926 e ascensão meteórica de António Salazar. Através de Rodrigues Miguéis (4) ficamos a saber que João da Silva era um “destemido antifascista e livre-pensador”, e certo é que declinou em 1949 o Prémio Soares dos Reis, que lhe fora atribuído pelo Secretariado Nacional de Informação. Recusar um prémio do S.N.I. constituía uma afronta invulgar à ordem infalível defendida pelo Estado Novo.

Obteve a Medalha de Honra da SNBA, a 1ª Medalha nas Exposições Internacionais do Rio de Janeiro (1908), de S. Luís e de Sevilha.

A Casa Museu João da Silva, depositária do espólio do escultor (estuques, bronzes, porcelanas, medalhas e joalharia) funcionou até ao falecimento da sua filha, Gabriela Silva, aos 94 anos de idade. Decorre um litígio entre a SNBA, o Grupo de Amigos de Lisboa e a Câmara Municipal de Lisboa quanto ao direito e acesso ao inventário da colecção.

João da Silva "distingue-se pela pureza da sua arte neo-clássica, estuante de harmonia e de graça. De técnica poderosa, ele sabe descobrir o encanto secreto das coisas e dos seres" (5).


NOTAS


(1)-Seia Católica nº 424, julho 1971 - citado por J. Quelhas Bigotte, Monografia de Seia, 2ª edição, julho 1986, pág. 334.

(2) - Excerto do requerimento apresentado na A.R. pela deputada Isabel Pires de Lima em 17 de Novembro de 2004, onde se questionava o futuro da Casa-Museu do escultor

(3)-Retratos datados de 1919, um dos quais se encontra patente ao público no Museu Municipal de Arte Moderna Abel Manta, Gouveia.

(4)-Aforismos e Desaforismos de Aparício” (1996), obra póstuma de José Rodrigues Miguéis (1901-1980) – citado em http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/85920.html

(5)-Seia Católica, nº 424, Julho 1971 – citado por J. Quelhas Bigotte, Monografia de Seia, pág. 334.

(6)-Fernando de Pamplona, Dicionário de Pintores e Escultores Portugueses, 2ª edição, Vol. V, pág. 187, Civilização Editora, Lisboa, 1988.

LER ARTIGO no PE online (publicado a 30 de Junho 2011)







1 comentário:

Victor Fernandes disse...

Sou um admirador da obra e da pessoa do Dr. Afonso Costa, gostei do artigo, um bem haja pelo seu contributo à memória de um homem que em muito engradeceu o nome da Pátria portuguesa e tão injustiçado pela história.