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quarta-feira, 27 de março de 2013

"A Pablo", tela monumental de Wei Wei no Chile



O artista chinês Ai Wei Wei é o autor da gigantesca tela (900 metros quadrados) que cobre a fachada do Centro Cultural de Valparaíso, Chile, desde 23 de março, inaugurando o projeto “Of Bridges & Borders”.

As notícias sobre Wei Wei atraem sempre a minha atenção, acrescendo aqui o facto de Pablo Neruda ser um dos meus poetas preferidos desde a juventude. Valparaíso foi um dos três lugares chilenos onde Neruda escolheu viver e repetidamente evocou na sua poesia. Os outros dois lugares foram Santiago e a Ilha Negra. Do Chile, Neruda enviou para o mundo os seus poemas de amor e canções desesperadas, cheias de atitude social, sentido ético e militância política. Visitou algumas vezes a China nos anos 50, onde privou com o poeta Ai Qing, pai de Ai Wei Wei. Este, lembrando-se dessa amizade que atravessou o mundo, cravou na imensa tela agora exposta em Valparaíso alguns versos de um poema intitulado “Cabo de Chile”, que Ai Qing dedicou a Pablo Neruda: “Un hombre se levanta. / Con una lupa / Busca en el mapa / Un lugar en el que nunca ha estado”. O título da tela monumental é simultaneamente uma dedicatória e um agradecimento: “A Pablo”.

E por aqui percebemos como a obra de Wei Wei se desdobra em sentidos poéticos e políticos. A pintura representa as Ilhas Senkaku, que a China e Taiwan conhecem como Diaoyu e cuja posse reclamam desde 1969. A gigantesca tela cobre a fachada de uma antiga prisão transformada em centro cultural e parque das artes. A inauguração ocorre a poucos dias (8 de abril) da exumação dos restos mortais de Pablo Neruda para se investigar as suspeitas de assassinato do Nobel da Literatura de 1971 e apoiante de Salvador Allende. Oficialmente, Neruda morreu de cancro da próstata em 1973 mas a própria justiça chilena suspeita que foi assassinado, por ordem de Pinochet, 12 dias após o golpe de estado que derrubou e matou Allende. Nem por acaso, também os restos mortais de Allende, um filho de Valparaíso, foram exumados em 2011 para confirmar o suicídio, afastando a hipótese de assassinato. O presidente chileno encontrava-se no Palácio de La Moneda, cercado por tropas revoltosas, quando desferiu o tiro fatal.

O projeto “Of Bridges & Borders” leva à famosa cidade portuária chilena, até 26 de maio, obras de 20 artistas internacionais, promovendo a reflexão sobre o que une e separa as diversas culturas mundiais.

Poemas de Ai Qing
Poemas de Pablo Neruda

domingo, 10 de junho de 2012

NEVER SORRY



A realizadora e jornalista Alison Klayman realizou um documentário sobre o atista chinês Ai Wei Wei, Prémio especial do júri no Festival de Cinema de Sundance, 2012. Intitulado “Never Sorry”, o filme foi realizado quando Alison Klayman trabalhava na China e traça um retrato do conceituado e controverso artista.

sábado, 19 de maio de 2012

Ai Weiwei e a responsabilidade social do artista

O artista e ativista chinês Ai Weiwei

Apesar da crescente abertura ao mundo, após reaver Hong Kong e Macau e no seguimento dos convites a Taiwan para integrar a República Popular da China, o governo chinês mantém sob fortes restrições os direitos e liberdades dos cidadãos e reprime com vigor a dissidência política. Esta inflexibilidade do governo chinês, pouco condizente com os pacíficos ensinamentos da filosofia tradicional chinesa e prioridades humanistas do socialismo internacional, tem sido desastrosa para a imagem e ambições internacionais do gigante asiático, sobretudo quando suscita o envolvimento de organizações internacionais não-governamentais (ONGs) credíveis, como a Human Rights Watch ou a Amnesty International, e a mobilização da opinião pública através das atuais tecnologias de informação e comunicação.

A repressão exercida sobre ativistas como Liu Xiaobo (Prémio Nobel da Paz de 2010), ou Ai Weiwei (arquiteto e artista chinês), conhecida e condenada em todo o mundo, vai reavivando a memória dos lamentáveis incidentes ocorridos em 1989 na Praça Tiananmen, de onde saíram muitos destes ativistas, e não favorece a imagem internacional da República Popular da China.

O artista chinês Ai Weiwei (n. Pequim, 1957) é conhecido sobretudo pelas suas obras de escultura, arquitetura e instalação, cuja originalidade não dispensa um contínuo desejo e busca de rutura. Logo em 1978, foi um dos fundadores do grupo vanguardista de arte “Estrelas”, que se desfez quando Weiwei foi estudar para os EUA, na Parsons School of Design e na Art Students League, em Nova Iorque. Regressou à China em 1993, por doença do pai (o poeta chinês Ai Qing), onde deu início a alguns projetos que o tornaram conhecido nos meios artísticos internacionais, especialmente o arquivo de arte contemporânea China Art Archives & Warehouse, uma galeria para divulgar a arte experimental chinesa, em Pequim, e o estúdio de arquitetura e design FAKE.

O seu primeiro projeto arquitetónico foi a sua casa-estúdio em Caochangdi, em 1998, mas a sua obra mais grandiosa, mundialmente aplaudida, é o Estádio Nacional de Pequim, “Ninho de Pássaro”, construído para os Jogos Olímpicos de 2008. Até esse ano, a carreira artística internacional de Wewei era relativamente conhecida e apreciada pelo público em geral, apesar das suas participações nos principais certames e mostras coletivas internacionais, para além das várias exposições individuais em galerias e museus de referência, na Ásia, Austrália, América do Norte, América do Sul e Europa.

Apesar de sempre ter criticado as orientações políticas da República (os seus pais estiveram detidos em Xinjiang por delito político), foi na sequência das suas investigações sobre a dimensão humana do terramoto de Sichuan que caiu em desgraça junto do poder político. A sua insistência em contabilizar e divulgar a lista completa de jovens estudantes que perderam a vida na catástrofe devido à má qualidade da construção das escolas públicas irritou o governo, que fechou o seu blogue. Weiwei foi também agredido pela polícia quando se manifestava contra a prisão de um colega da investigação, tendo publicitado a cirurgia a que foi submetido em Munique para conter uma hemorragia cerebral, alegadamente em consequência da agressão policial. Desde então, agudizou-se o controlo e repressão do artista e ativista chinês, que foi impedido de sair da China por motivos de segurança nacional, e posteriormente detido sob a acusação de evasão fiscal. Libertado em junho de 2011, após prometer parar com as críticas e pagar uma multa milionária pela alegada fuga aos impostos (que foi paga com a ajuda de uma campanha internacional), Weiwei continua a ser uma referência incómoda na diplomacia interna e externa da China, no dia (19 de maio 2012) em que o ativista cego Chen Guangcheng deixou o país rumo aos EUA, após ter fugido da prisão domiciliária – onde se encontrava por exigir direitos para os deficientes chineses e condenar o aborto forçado nas comunidades rurais.

(Continua em: "Artistas chineses contemporâneos e a responsabilidade social do artista")

Ai Weiwei, "Ninho de Pássaro", Pequim, 2008