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sexta-feira, 31 de julho de 2015

O retrato de Cavaco Silva

Aproximando-se a irrevogável saída de Cavaco Silva da Presidência da República, pergunta-se qual o artista que escolherá para pintar o seu retrato presidencial, com lugar marcado na Galeria dos Retratos Oficiais no Museu da Presidência da República.
O 25 de Abril e 1974 arejou as mentalidades nacionais mas os antigos gostos artísticos persistiram durante mais alguns anos. No caso dos retratos presidenciais, nota-se a tensão entre os antigos e novos valores estéticos enquanto o cargo foi ocupado por militares.
António de Spínola foi retratado por Duarte Pimentel, entre outros, mas o seu retrato presidencial é da autoria de Francisco Lapa, filho do mestre Manuel Lapa, que em 1974 optou por conferir à obra alguns traços da pintura “naïf”. Joaquim Rebocho pintou Francisco da Costa Gomes em 1987, um retrato muito criticado mas fruto de uma época de irreverências e liberdades. O retrato de Ramalho Eanes foi pintado por Luís Pinto Coelho em 1991, e carateriza-se por uma excessiva rigidez, traduzindo em grande parte a imagem pública do primeiro Presidente eleito.
A arte contemporânea entrou com estrondo na Galeria dos Presidentes em 1992, graças ao retrato de Mário Soares por Júlio Pomar. A escolha surpreendeu o próprio Pomar, a quem Soares terá dito “Pinta-me como quiseres”. Jorge Sampaio seguiu o exemplo do seu antecessor e fez-se representar em 2005 por Paula Rego. Novamente, um retrato polémico, nada consensual, como aliás deve ser a arte contemporânea: inquieta, questionadora e irreverente.

E com Cavaco Silva, como vai ser?


o género do retrato na pintura possui caraterísticas muito próprias, realizando-se plenamente no subtil compromisso entre a habilidade técnica e a capacidade de observação / perspicácia psicológica do retratista. Mas há dias melhores e dias piores, até para os artistas, nem sempre o retratista consegue vencer as barreiras de imagem do retratado. Parece que aconteceu precisamente isto com Lucian Freud no retrato de Isabel II, o tamanho do suporte (15,2 x 23,5 cm) também não terá ajudado, assim como a escolha de um pintor compreensivelmente pouco à vontade perante os formalismos da pose real. No caso dos presidentes da nossa República, estes encomendaram os seus retratos preferencialmente a pintores amigos, irmanando-os nessa iconografia memorialista para a posteridade. Francisco Lapa e Joaquim Rebocho são artistas pouco conhecidos mas a história dos “pintores amigos” começa logo com Columbano, que pintou três amigos e correligionários, Manuel de Arriaga (1914), Teófilo Braga (1917) e Teixeira Gomes (1925). Na verdade, o retrato pintado é um género muito exigente e a maior parte dos pintores despacharam-no alegremente para os fotógrafos logo após a invenção da fotografia. Na escultura, a reprodução tridimensional é mais intuitiva do que a ilusão da profundidade e dos volumes no retrato pintado, havendo casos de excelentes escultores que também fracassaram em muitos bustos e estátuas, com encomendas canceladas e obras devolvidas. No retrato fotográfico, a habilidade técnica está simplificada pelos meios mecânicos e o fotógrafo pode "perseguir" o momento em que o retratado melhor se revela.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Entre as Margens* – As pontes são miragens

Vista parcial da exposição

*“Entre as Margens - Representações da Engenharia na Arte Portuguesa”,
Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto
22 de junho a 25 de agosto – prolongada até 22 de setembro de 2013

O 50º aniversário da Ponte da Arrábida foi o pretexto para uma retrospetiva da representação de pontes na arte portuguesa, apresentando grandes nomes da pintura do século XIX e XX. Uma exposição coorganizada pela Faculdade de Engenharia da UP, Faculdade de Belas Artes da UP e Museu Nacional de Soares dos Reis, reunindo obras de 64 dos principais artistas portugueses dos séculos XIX,XX e XXI,  selecionadas por Manuel Matos Fernandes e Bernardo Pinto de Almeida.

As margens começam por ser as do rio Douro, do lado do Porto e de Gaia. E nesse aspeto, sublinhe-se bem sublinhado, a exposição revela um grande trabalho prospetivo, de artistas portuenses que de algum modo representaram nas suas obras as pontes do rio Douro, a começar por Silva Porto – e na pintura, pois também na gravura haveria muito a evocar, para os entendidos, e muito para mostrar/revelar ao público em geral. E ainda outras margens – de outros rios que impressionam e inspiram. Rios e pontes que despertam memórias individuais e coletivas, com história. Património. Cultura.

O subtítulo da exposição, “Representações da Engenharia na Arte Portuguesa”, deixa contudo a exposição aquém das expetativas. Na verdade, as engenharias das pontes na arte portuguesa são presenças ocasionais, sombras omnipresentes, referências espaciais cenográficas. Poucos artistas se dedicaram ao tema, reduzindo frequentemente as pontes a silhuetas - das estruturas em ferro que se elevavam graciosamente no ar transmitindo simultaneamente uma sensação de leveza e de segurança, fenómenos funcionais, ou da robustez aventureira do betão, vencendo finalmente vãos até então invencíveis. Mais do que “uma passagem/miragem”, como os Jafumega referiam nos anos 80.

Qual será a resposta lisboeta nos 50 anos da Ponte 25 de Abril (6 de agosto de 1966) ou nos 20 anos da Ponte Vasco da Gama (29 de março de 1998)?

Amadeo de Souza-Cardoso, sem título (Ponte),1914,óleo s/tela – Museu Coleção Berardo

Vieira da Silva, “Le Pont”, 1954/60, óleo s/tela

Júlio Pomar, “Cais da Ribeira”, 1958, óleo s/tela

Manuel Gantes, “Gulliver”, 2006-2007, óleo s/tela

domingo, 7 de abril de 2013

Atelier-Museu Júlio Pomar abriu em Lisboa



Foi inaugurado na passada sexta-feira, em Lisboa, o Atelier-Museu Júlio Pomar, com a presença do artista, do arquiteto Álvaro Siza Vieira e do presidente da Câmara de Lisboa, António Costa, entre diversas entidades e convidados. Após a cerimónia oficial, o novo espaço museológico lisboeta abriu ao público, que pode visitá-lo de terça a domingo, gratuitamente até outubro.

O Atelier-Museu Júlio Pomar (não confundir com a Fundação Júlio Pomar, com sede provisória na Travessa da Piedade, 36) trata-se de um sonho que começou a ganhar forma em 2000, quando a CML adquiriu um antigo armazém do século XVII, ao Largo de Jesus, próximo da residência de Júlio Pomar. O projeto de recuperação foi concebido por Siza Vieira e as obras decorrem desde 2006, a várias velocidades, tendo ficado concluídas este ano, pelo 87º aniversário do artista. Integra a estrutura museológica do Município de Lisboa e o seu acervo compreende cerca de 400 obras, 100 das quais integram a exposição de abertura, intitulada “Em torno do Acervo”, selecionadas pela diretora, Sara Antónia Matos. Representativas do percurso artístico de Júlio Pomar, oferecidas pelo artista à Fundação, cedidas por familiares e emprestadas por entidades, entre as quais a Fundação Calouste Gulbenkian e a Culturgest (Caixa Geral de Depósitos).

Júlio Pomar afirmou-se no panorama artístico nacional pela porta do neo-realismo, na década de 1940, inspirado pela pintura muralista mexicana (de Rivera, Siqueiros e Orozco), evoluindo depois para uma figuração cada vez menos narrativa, uma pintura abstratizante (anos 1960) e finalmente abstrata, dominada pelo controlo da forma e pela cor (anos 1970), recorrendo também à colagem e “assemblage” de materiais e objetos do quotidiano. Regressou depois ao expressionismo, mantendo a exuberância cromática mas libertando a forma com pinceladas abertas, privilegiando a expressão do sentimento através do gesto. A reciclagem e os objetos adicionados ao quadro caraterizam a sua pintura na primeira década do século XXI, jogando com as relações formais e sentidos dos materiais e técnicas.

Entre as suas obras mais representativas das diversas fases e momentos da sua carreira artística, que o artista divide em ciclos (a série Maio e o ciclo do Arroz, nos anos 1940/50, a série Metro, Tauromaquia e o ciclo das corridas, nos anos 60, a série erótica dos anos 70, o ciclo dos Tigres nos anos 80, por exemplo, ou a recente e sugestiva série “Burros de Portugal”), destacam-se “O Gadanheiro” (1945) e “O Almoço do Trolha” (1947), “Mogiganga” (1963), “Le Bain Turc” (1971), “A Mesa do Arquiteto” (1977) e o polémico retrato oficial de Mário Soares, exposto na Galeria de retratos oficiais dos Presidentes no Museu da Presidência da República, em Belém - ao lado do igualmente polémico retrato do seu sucessor, Jorge Sampaio, da autoria de Paula Rego. A década de 1980 é particularmente produtiva, pela diversidade de temas (para além dos retratos de Mário Soares, Fernando Pessoa e Camões, a série Mitologia e Corvos) e a intensa produção inspirada pelas viagens ao Brasil, sobretudo pela Amazónia, onde esteve a convite de de Ruy Guerra, por ocasião das filmagens de "Kuarup" (1989).

Desde a sua primeira exposição, em 1945 (Sociedade Nacional de Belas Artes, Lisboa) mostrou o seu trabalho em diversas galerias e instituições nacionais e estrangeiras, com destaque para as Bienais de São Paulo (1953, 1975 e 1985), na Fundação Calouste Gulbenkian (1990), no Centro Cultural de Belém (2004), na Galeria Municipal de Matosinhos (2007), no Museu de Serralves (2008), no Museu do Neo-Realismo (2008) e uma exposição retrospetiva no Centro de Arte Contemporânea Manuel de Brito (2009). 

Em março 2013, foi inaugurado o seu painel “Contos Murais”, no Museu da cerveja, criado em Lisboa em junho de 2012 pela mesma equipa responsável pelo Museu do Pão, em Seia.

"Burro a tocar guitarra", 2013, da série "Burros de Portugal". Serigrafia editada pela Fundação J.P. para assinalar a abertura do Atelier-Museu Júlio Pomar


VER DOCUMENTÁRIO "Júlio Pomar - O Risco", de António José de Almeida (realização) e Anabela Almeida (guião) - Panavideo.