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segunda-feira, 11 de julho de 2011

GóisOrosoArte' 11

Começa já na próxima sexta-feira a coletiva de Góis, este ano realizada em associação com o município galego de Oroso. A inauguração está marcada para as 18 horas, no Auditório da Casa do Artista.

Um dos artistas presentes na 15ª edição da coletiva de Góis será Mário Silva, na apresentação do livro de Licínia Girão, “Mário Silva: Pintor-Minotauro numa espécie de biografia” – no dia 16 de julho, sábado, pelas 19.30 horas.

Já apresentado na Figueira da Foz (81º aniversário de Mário Silva e lançamento oficial do livro) e em Vila Verde (Bienal Internacional de Arte Jovem), a obra não é uma biografia no sentido tradicional, como referiu a autora, mas sim uma viagem pela vida e obra do artista – que não terá apreciado o termo “Minotauro”. Segundo Licínia Girão, Mário Silva “é alguém que vive no labirinto da vida, alguém que continua a desenrolar o fio da vida».

Se puder, vá mais cedo, leve o fato de banho e dê um mergulho na excelente praia fluvial, a meia dúzia de metros do Auditório. Também se recomenda um passeio a pé pelo centro histórico e pelas margens do rio Ceira.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

"Sem Título: ...?", de Ricardo Cardoso

A performance de Ricardo Cardoso decorreu hoje, como pevisto, no espaço da sua exposição individual, na galeria de exposições temporárias do Posto de Turismo de Seia, com a presença de alguns amigos e curiosos. VER no YouTube.
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A PERFORMANCE

Numa sociedade produtora e reprodutora de lixo e detritos...
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... o jovem artista licenciado para produzir “obras de arte” trabalha incansavelmente mas sem o devido reconhecimento e merecida retribuição.

A revolta acumulada perante tal situação reflecte-se inicialmente na sua obra.

A fúria expressiva conduz à destruição da obra.

A negação da obra provoca a “morte” do artista, “que terá de se encaixar na sociedade de uma outra forma”.


No final da performance, o artista distribuiu pelos presentes o “Manifesto do nada”, apresentando e justificando a acção.

Intitulada ironicamente “Sem Título: ...?”, a performance questionava o papel do artista contemporâneo perante as exigências e contingências do mercado de arte, em particular as dificuldades sentidas pelos jovens artistas para se afirmarem num meio formalizado e muito concorrencial, nem sempre regido por normas claras e iguais para todos.

A maior parte dos jovens artistas sente hoje esta dificuldade, que nada tem a ver com talento ou com factores operacionais estritamente artísticos, entre os quais o interesse dos projectos. Muitos jovens artistas apagaram-se, ou deixaram-se apagar, da lista. Outros, protestaram. Alguns, simplesmente morreram. Eis alguns casos.

O enigmático Alvarez

O galego Dominguez Alvarez (1906-1942) naturalizou-se português para escapar à Guerra Civil Espanhola. Formou-se em pintura em 1940, com 20 valores, na Escola de Belas Artes do Porto. Era um personagem estranho, que fabricava e modificava as próprias tintas e pintava numa espécie de cave, um pequeno espaço que parecia “a casota de um cão” (Noémia Delgado, realizadora de “Quem Foste, Alvarez?”). Em 1939, o Secretariado da Propaganda Nacional recusou as suas obras na IV Exposição de Arte Moderna, apesar dos protestos de Mestre Dórdio Gomes, professor de Alvarez nas Belas Artes, e só aceitou expôr uma das suas obras em 1940. Morreu de tuberculose em 1942, aos 36 anos, e as suas obras não assinadas foram autenticadas por terceiros e avidamente disputadas após o seu desaparecimento.

Mário Silva contra o “fisco”

Em 1988, Mário Silva queimou parte da sua obra em frente à Câmara Municipal da Figueira da Foz, em protesto contra a avidez do fisco. Anos depois, noutra acção de protesto pelos mesmos motivos (embarcou num barco de pesca para rumar simbolicamente a Espanha), o artista explicou que só queimara os quadros de que não gostava.

Paulo Oliveira no Centro Cultural de Belém

Na tarde do dia 25 de Abril de 1994, o jovem pintor Paulo Oliveira queimou parte da sua obra frente ao Centro Cultural de Belém, protestando contra a falta de apoios intitucionais e alertando para a situação dos jovens artistas em Portugal. À imprensa, Paulo Oliveira disse: “Faz 20 anos que ficámos livres do obscurantismo, que ganhámos a liberdade de expressão, e nós, jovens artistas, só encontramos barreiras”.

A alternativa é – sugere Ricardo Cardoso – a “prostituição intelectual”, mas nem todos estarão dispostos a tanto, pois abdicar de alguns princípios estruturantes da personalidade pode ser desastroso para o artista – tal como aconteceu ao jovem “graffiter” americano de origem latina, Jean-Michel Basquiat (Brooklin, Nova Iorque, 1960-1988), que se tornou em poucos anos um dos mais famosos e controversos pintores neo-expressionistas de projecção internacional – uma espécie de EMINEM das artes mas ao contrário. Basquiat foi o primeiro artista negro a triunfar verdadeiramente no meio artístico americano e internacional.

A solidão de Basquiat

Conhecido como “SAMO” (“Same Old Shit”) entre os graffiters do bairro e “descoberto” pela intelectualidade vanguardista nova-iorquina, Basquiat sacrificou as suas raízes e os seus amigos ao sucesso. Quando alcançou a fama, com exposições em Nova Iorque e nas principais capitais europeias e com os maiores coleccionadores e museus a disputarem as suas obras, os seus antigos amigos de bairro escreveram por todo o lado “SAMO morreu”.

Apesar do seu sucesso, Basquiat sentia-se perseguido pela solidão, desacreditado pelos seus antigos amigos e acreditando que as pessoas não o aceitavam como ele realmente era. Morreu paranóico em 1988, aos 27 anos, de speedball (mistura de cocaína e heroína), no seu estúdio em Nova Iorque.

Orfeu no Inferno – ou o caso de Santa-Rita Pintor

História bem diversa deve-se a Santa-Rita Pintor (Lisboa, 1889-1918), o primeiro futurista português. O jovem artista condenou o seu tempo e os seus contemporâneos condenaram-no também. Em 1910, perdeu a bolsa que lhe permitia estudar Belas Artes em Paris, devido às suas ideias monárquicas e mau relacionamento com pessoas influentes, entre as quais se contava o embaixador português – mas também o pintor Amadeo de Souza-Cardoso, que criticava por usar o dinheiro do pai para viver “à larga” em Paris e fazer amigos. Defensor dos jovens artistas contra a apatia da velha geração, foi um dos organizadores do grande congresso de jovens artistas e escritores de 1915. Desiludido com o seu tempo, Santa-Rita Pintor deixou como última vontade que as suas obras fossem queimadas depois de morrer, o que sucedeu em 1918 – no mesmo ano em que Souza-Cardoso faleceu de gripe, em Espinho. Sobreviveram apenas 2 pinturas do artista: “Orfeu no Inferno” e “Cabeça”.

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“O mundo da arte pode tornar-se formalizado” e “tal formalidade é uma ameaça à fescura e à exuberância próprias da arte”.

George Dickie (citado por Ricardo Cardoso no “Manifesto do nada”)