Antes do acordo ortográfico de 1911, escrevia-se assim. Grandes figuras da cultura portuguesa da época, entre as quais Fernando Pessoa, opuseram-se a este acordo ortográfico. Defendiam, em suma, que os portugueses deveriam escrever assim para todo o sempre... tal como os defensores do acordo ortográfico de 1945 pensam em relação às mais recentes alterações ortográficas. De notar que nenhum acordo ortográfico foi consensual e aplicado simultaneamente por todos os subscritores e o último (1990) está mesmo nos antípodas disso. As diversas polémicas e desentendimentos tiveram o mérito de levar as questões da língua para a discussão pública, com particular importância no presente, quando a globalização ameaça as especificidades linguísticas, bombardeando-as com termos anglófonos e fomentando o recurso a estrangeirismos.
segunda-feira, 4 de agosto de 2014
domingo, 3 de agosto de 2014
"Biba Portogal!"
Rua D. Manuel II, Porto
Numa rua portuense cujo nome evoca o último monarca a reinar em Portugal, uma enorme bandeira republicana tapa pudicamente "as vergonhas" de um velho edifício que se renova, apesar do crédito parado e mal parado. Uma nota alegre - de esperança? - na paisagem de fachadas sombrias.
sábado, 12 de julho de 2014
A Liberdade da Imagem
Até 26 de setembro, a exposição “A Liberdade da
Imagem – Design e Comunicação Visual em Portugal: 1974-1986” atravessa e une o
Porto, manifestando-se em sete dos seus melhores espaços destinados à arte e à
cultura, prometendo ficar como referência de divulgação do design português, no
ano em que o Governo pretende promovê-lo dentro e fora do espaço físico e
mental nacional.
Comissariada por Guta Moura Guedes e com curadoria de
José Bártolo, a exposição abriu em 29 de Maio em sete locais da cidade: Casa do
Infante; Casa-Museu Guerra Junqueiro; Museu Romântico da Quinta da Macieirinha;
Palacete dos Viscondes de Balsemão; Galeria Municipal Almeida Garrett; Casa da
Música (Sala dos Azulejos) e Museu de Serralves.
A exposição foi produzida pela Escola Superior de Arte e Design de Matosinhos em
co-produção com a Câmara Municipal do Porto e em parceria com a Fundação Casa
da Música, Fundação de Serralves e o Centro Documental 25 de Abril da
Universidade de Coimbra, entre outros, integrando-se nas Comemorações dos 40
anos do 25 de Abril e nos eventos do ano dedicado ao
Design Português, a decorrer entre Junho de 2014 e Maio de 2015.
Através de uma seleção de 500 obras produzidas entre 1974 e 1986, um
período de profunda transformação política, cultural e social em Portugal, a
exposição mostra como a liberdade da imagem foi construída e utilizada no
diálogo entre a revolução política e a revolução cultural que marcou o pós-25
de abril, com reflexos evidentes nos dias que vivemos, 40 anos após a Revolução
de 25 de Abril de 1974 e 28 anos depois da entrada de Portugal na União
Europeia (então CEE) a 1 de janeiro de 1986.
As obras distribuem-se por cinco módulos, tratando a
produção visual de conteúdo político (“Utopia e Ideologia” e “Cartazes de Abril”),
produção de vanguarda estética e projetos coletivos (“Situações, Performances,
Intervenções”), produção visual em suporte de filme ou vídeo (“Imagens em
Movimento”) e desenvolvimento do design português (“Design & Circunstância”.
“A Liberdade da Imagem” no site da ESAD (Matosinhos)
“A Liberdade da Imagem”, site oficial
sexta-feira, 11 de julho de 2014
Retrato de Rapaz, por Mário Cláudio
No quadro “São João Batista” (1513), Leonardo da Vinci retrata
o jovem Salai.
O mais recente romance de Mário Cláudio é uma séria viagem
à oficina de Leonardo da Vinci (1452-1519), com uma base histórica credível, focada
na relação do mestre com os seus dois discípulos, Gian Giacomo Caprotti e
Francesco Melzi, muito em particular o primeiro, a que Leonardo chamava Salai
ou Il Salaino, “pequeno diabo”, "diabrete".
A vida de Leonardo regista diversos factos que alguns
biógrafos entendem ser a prova da sua homossexualidade, hipótese que continua a
gerar polémica nos meios eruditos. Quando ainda trabalhava com Verrocchio,
Leonardo foi ilibado por falta de provas de uma acusação anónima, mas manteve
depois uma relação muito próxima com os seus discípulos. Era comum os mestres
da época, e não só nas oficinas de artistas, contratarem jovens para o serviço
das suas casas, onde cresciam como se fossem da família e aprendiam o seu ofício.
Salai chegou ao estúdio de Leonardo em 1490, com apenas 10 anos de idade. Melzi, filho
de um aristocrata milanês, tornou-se seu aprendiz em 1506.
Apesar dos defeitos de Salai, que Leonardo classificou nos
seus escritos como "ladrão, mentiroso, teimoso e glutão", o rapaz de
Oreno era o favorito do mestre, que o utilizou como modelo. O quadro mais conhecido, retratando Salai, é o São João Batista (1513), existindo um desenho erótico realizado sobre um retrato de Salai - ou sobre um esboço do quadro - intitulado "O Anjo Incarnado" (c. 1515), descoberto na Alemanha em 1991. Após a morte do aprendiz, provavelmente num
duelo, Leonardo manteve o seu retrato (como São João Batista) junto à cabeceira até ao
último suspiro, em França. Francesco Melzi acompanhou o mestre até à morte e
assegurou depois a publicação póstuma dos seus escritos, imortalizando o génio
de Leonardo da Vinci.
“Retrato de Rapaz” (D. Quixote, 139 páginas, 12,90€)
evoca o pintor, o escultor, o inventor, o anatomista, a pretexto de um mergulho
nas relações humanas e sociais de uma época que viu nascer o Humanismo. Pelo
arrojo do tema e pela coragem de abordar um aspeto controverso da vida de Leonardo da Vinci, este romance adquire particular relevância
na obra de Mário Cláudio, 30 anos depois de “Amadeo” (1984),
sobre o pintor Amadeo de Souza-Cardoso.
quarta-feira, 9 de julho de 2014
2014, o ano d’O Grego
Doménikos Theotokópoulos “El Greco”, Autoretrato, 1604
O grande acontecimento artístico ibérico de 2014 são as
comemorações do 4º centenário da morte de Doménikos Theotokópoulos, ou El Greco,
pintor nascido na Grécia (Creta) em 1541. Conhecido principalmente pela obra
que produziu em Toledo desde 1577, exibida com merecido orgulho nos maiores
museus espanhóis e uma referência artística na arte universal, El Greco só
adquiriu fama intemporal no final do século XIX, quando foi redescoberto por
pintores impressionistas e expressionistas que estudavam as obras de pintura
clássica no Museu do Prado.
Apesar de ter pintado para as elites do seu tempo, o facto
de ser conhecido por “o grego” e de ter ficado praticamente esquecido durante
quase três séculos deve-se sobretudo a uma secundarização do artista em favor
da figura maior da pintura espanhola, Diego Velázquez (1599-1660), embora
também seja evidente que o pintor emigrante teimava em sublinhar a sua origem
assinando as obras com o nome original, difícil de pronunciar e de memorizar.
Era então habitual os artistas que se fixavam em países estranhos adotarem
nomes locais, como aconteceu em Portugal com os pintores flamengos Francisco
Henriques e Frei Carlos, que ficaram na história do Renascimento português.
A originalidade de El Grego reside no modo como combinou
aspetos da arte bizantina, do renascimento e do maneirismo, uma sensibilidade
estética muito própria (que alguns estudiosos atribuem a doenças
oftalmológicas) e a exploração criativa dos limites dos cânones artísticos dominantes
nessa época. Viveu alguns anos em Veneza, onde trabalhou com Ticiano
(c.1485-1576) e também em Roma, pintando na capital do catolicismo várias obras
que lhe deram fama internacional entre os principais encomendadores de arte, os
ricos decisores católicos. O Espólio ou O Desnudamento de Cristo, iniciada no verão de 1577 e concluída em 1579
para o altar da Catedral de Toledo, foi uma encomenda do reitor da Catedral de
Toledo, Diego de Castilha, por influência do filho, Luis de Castilha, que
estava em Roma e era amigo de El Grego.
Em 1577 foi para Madrid com o objetivo de se tornar pintor
da corte do poderoso Filipe II, o único monarca que foi rei de Espanha, da
Inglaterra e de Portugal (Filipe I), senhor de territórios que se estendiam até
às Filipinas. Após desentendimentos com a corte, El Greco foi chamado a Toledo
(capital de Espanha até Filipe II ter mudado a corte para Madrid em 1561) onde pintou
obras-primas como “A Ascensão da Virgem” (1579) ou “A Santíssima Trindade”
(1579) e acabou por se fixar nesta cidade montando aí uma oficina de pintura em
1585.
As obras-primas emblemáticas de El Grego foram pintadas em
Toledo, entre as quais “O Espólio” (1579), o impressionante quadro “O
Enterro do Conde de Orgaz” (1587/88) e “Vista de Toledo” (1612), ficando o artista
para sempre ligado a esta belíssima cidade, recortada pelo rio Tejo, que
partilha com Lisboa. A maior exposição de obras de El Greco jamais realizada
foi a principal atração de Toledo entre março e junho de 2014, reunindo dezenas
de pinturas oriundas de coleções dos maiores museus do mundo e de
colecionadores privados a pinturas que nunca chegaram a sair de Toledo. Nos Espaços Grego, abertos todo o ano, as
pinturas encontram-se expostas nos seus lugares originais, para onde foram
concebidas pelo artista, regressando algumas delas a esses locais após décadas
de ausência.
A evocação de El Grego conta também com a participação de
artistas contemporâneos, chamados a criar peças artísticas para a exposição “Toledo
Contemporánea”, no Centro Cultural San Marcos, destacando a belíssima cidade
histórica – e a Arte Ibérica – nos roteiros turísticos internacionais.
Doménikos Theotokópoulos, “El Grego”, El entierro del Conde
de Orgaz, 1587/88, óleo s/tela, 480X360 cm, Igreja de São Tomé, Toledo.
Encomendado em 1586 pelo pároco da igreja de Santo Tomé, Andrés Núñez de Madrid,
o grandioso quadro era um tributo ao benemérito Senhor da vila de Orgaz, falecido
no início do século XIV, evocando o acontecimento prodigioso que, segundo a
tradição, terá ocorrido durante a transladação dos seus restos mortais em 1327:
durante o enterro, Santo Agostinho e Santo Estêvão desceram do céu para sepultarem
com as próprias mãos o Senhor de Orgaz. As exigências da encomenda, muito pormenorizada,
limitaram a criatividade do artista na metade inferior do quadro, representando
a terra, tendo maior liberdade na parte superior, pintando “um céu aberto de
glória”. À procissão de personalidades da época, de Santo Agostinho e Santo
Estêvão sepultando o Senhor de Orgaz, e até do próprio filho, retratado no
canto inferior esquerdo, El Greco contrapôs um céu de surpreendente
irrealidade, desajustado da realidade visível, com cores estranhas à própria
natureza, transformando uma mera composição imaginada por um pároco numa
obra-prima da arte universal.
quarta-feira, 18 de junho de 2014
Inimigos duplicados
Estreia hoje em Portugal o thriller "Enemy" (2014), cujo argumento, do espanhol Javier
Guillón, é baseado no romance “O Homem Duplicado”, do Nobel português José Saramago, publicado em 2002. Realizado por Denis Villeneuve, o filme chega já premiado (Prémio
Méliès d'Argent no Festival Internacional de Cinema Fantástico da Catalunha, em
Sitges) ao nosso país, contando com a participação dos atores Jake Gyllenhaal (“Brokeback
Mountain”, “Prince of Persia”, “Prisioners”), Mélanie Laurent, Sarah Gadon e
Isabella Rossellini.
O "Homem Duplicado" é uma história de suspense sobre o
conceito de identidade, saber quem somos enquanto indivíduos, únicos, numa época dominada pela imagem e por relações humanas
e profissionais baseadas na aparência. Segundo Saramago (1), a pergunta central do livro é "quem sou eu?" e não quem é o outro. A semelhança física extrema entre duas
personagens, os sósias Tertuliano Máximo Afonso, professor de História, e Daniel
Santa-Clara, ator, aproxima-os e lança-os no desafio de testarem a sua
semelhança trocando de identidade. Uma situação que se verifica também com
alguns gémeos, tentados a trocar de papéis usando as semelhanças físicas. A
ameaça identitária criada pela descoberta da duplicação só desaparece quando é
eliminada. O sobrevivente pode assim escolher uma das identidades disponíveis
mas o efeito perverso da duplicação é que, num mundo tão diverso, a duplicação
possa ser mais generalizada e o homem duplicado descobre que tem afinal não um
mas vários rivais. O fio da narrativa é tão forte em "O Homem Duplicado" que
chega a secundarizar o prazer do texto nessa obra de Saramago, apresentada pelo
próprio sob o lema “"O caos é uma ordem por decifrar" (Livro dos
contrários) e uma citação de Laurence Sterne, “Acredito sinceramente ter
intercetado muitos pensamentos que os céus destinavam a outro homem”.
quarta-feira, 11 de junho de 2014
Curta Artes
Os programas “Curta Artes”, "Museu Vivo", "Arte Documenta" e “Visita Guiada”, produzidos
pelo canal cultural de televisão SescTV, de São Paulo, Brasil, apresentam
artistas e obras de arte contemporâneas, com depoimentos dos artistas e visitas
guiadas às suas exposições.
São Paulo acolhe uma das três mais importantes bienais internacionais
de arte contemporânea e oferece museus de referência internacional, com
destaque para o MASP, assim como 32 centros culturais e desportivos.
30ª Bienal Internacional de São Paulo (2012). Juntamente com a Bienal de Veneza e a Documenta de Kassel, que se realiza de 5 em 5 anos, a Bienal de São Paulo domina o circuito internacional de arte contemporânea.
A programação de 24 horas da SescTV contempla a música,
dança, teatro e cinema, para além das artes plásticas e da arquitetura.
O Sesc (Serviço Social do Comércio) é uma impressionante
instituição nacional brasileira sem fins lucrativos que visa proporcionar
bem-estar e qualidade de vida aos trabalhadores do comércio, familiares e
sociedade.
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