domingo, 11 de maio de 2014

Artis XII - Festival de Artes Plasticas de Seia

Vista parcial da exposição de artes plásticas

Decorre mais uma edição do Artis, a 12ª desde a criação da Associação de Arte e Imagem de Seia em 2001, um conjunto de eventos culturais de índole artística realizado anualmente em maio e centrado na exposição coletiva de artes plásticas. Criada como Festa das Artes em Seia, evolução natural das três grandes exposições coletivas que animaram o panorama cultural senense em 1999, 2000 e 2001, o Artis atingiu um novo pico qualitativo em 2011. No regresso da Artis em 2013, constrangida pelo clima de aperto financeiro e embaraço geral provocado pela injustificada suspensão do festival em 2012, falava-se acertadamente em “emergência criativa”, pois só por aí iremos mais além nos próximos anos, mas faltou convocar e reunir de facto vontades e interesses para transformar a emergência num caso bem sucedido de reanimação, valorização e promoção dos artistas e das artes locais.

Este ano, a exposição de artes plásticas apresenta 46 obras de desenho e pintura e 12 esculturas, cobrindo um grande número de técnicas e um vasto leque de sensibilidades artísticas. Do naturalismo à abstração, passando pelo surrealismo e nova figuração, podemos aí encontrar obras que exemplificam diversas tendências da arte moderna e contemporânea através do desenho, colagem, pintura (aguarela, óleo, acrílico, técnicas mistas), escultura em madeira, pedra, gesso ou bronze e a curiosa instalação de Joanne Hovenkamp. O nível artístico é elevado, havendo a destacar a participação de muitos artistas com obra premiada noutros certames, assim como de alguns jovens artistas senenses promissores. Entre os artistas senenses com presença regular na Artis, Ricardo Cardoso acrescentou cor aos seus habituais desenhos monocromáticos de grande dimensão, a tinta da china e vieux chêne, e Virgínia Pinto continua a surpreender pela positiva, com uma peça recente muito interessante em termos formais e interpretativos: "Nação... Cabeças Ocas, Futuro!", peças de calcário natural unidas por parafusos e arames, formando uma cabeça, oca, desprovida de cérebro.

"Nação... Cabeças Ocas, Futuro!", Virgínia Pinto, calcário natural e metal

O tema proposto pela organização da Artis, “A magia da nossa montanha”, valorizando “as tradições culturais, produtos, paisagens e pessoas”, foi trabalhado por diversos artistas e abundantemente desenvolvido pelos fotógrafos. A exposição coletiva de artistas senenses acolheu a fotografia em 2004 e esta rapidamente adquiriu expressão e autonomia, passando a ser exposta separadamente em 2007. A exposição de fotografia da Artis XII, no foyer do cineteatro, reúne obras de 24 fotógrafos profissionais e amadores, a maioria dos quais buscou assunto nos encantos naturais da montanha, aprisionando os seus ecos mágicos em imagens magníficas, enquanto outros sublinham os aspetos culturais distintivos do sentir-agir regional, recorrendo por vezes a técnicas digitais para intensificar o sentido poético da imagem fotográfica.

Na inauguração oficial, na noite do dia 3 de maio, foram homenageados Ivo Mota Veiga e José António Baptista, o primeiro pela sua participação regular na Artis, tendo integrado a equipa organizadora da primeira exposição coletiva dos artistas senenses em 1999, e o segundo pelo seu percurso como animador educativo, na área da música e do teatro. Licenciado pela Escola Superior de Educação de Coimbra em Teatro e Educação, José Baptista lecionou a disciplina de Expressão Dramática/Teatro e foi um dos impulsionadores da Mostra de Teatro Infanto-juvenil (Motin). Desde 2000, foram homenageados os artistas Amílcar Henrique (homenagem póstuma), Pinho Dinis (2002), Helena Abreu (2003), Tavares Correia (2004), Xico Melo (2005), Sérgio Reis (2008), António Correia e Luiz Morgadinho (fotografia e pintura, 2009), Eurico Gonçalves, José Carlos Calado e Ricardo Cardoso (carreira artística, fotografia e pintura, 2010), António Nogueira e Jaime Reis (escultura e música, 2011), Ana Carvalhal e Carlos Moura (pintura e fotografia, 2013).

O programa  completo da Artis XII, até 29 de junho, pode ser consultado na página oficial da Câmara Municipal, Casa da Cultura e Artis de Seia.

Catálogo da Artis XII aqui.

"A Montanha Mágica", Sérgio Reis, 2014, acrílico s/tela

"Introspeção", Paula Bacelar, 2013, acrílico s/tela. "Mulher grávida", escultura, bronze.

"Horus Eye", Alberto D'Assumpção, óleo s/tela

"Who is Who #1", Carlos Osório, acrílico s/tela

S/título, Florentina Resende, óleo s/tela

"Tarda em Chover", Luiz Morgadinho, acrílico s/tela

"Lagoa do Covão do Curral", Rui Cristino da Silva, óleo s/tela

S/título, Tania Antimonova, 2014, óleo s/tela

"Serra da Estrela", Vera Mota, acrílico s/tela

"Visão da Serra", Xico Melo, 2013, óleo s/tela

Casa das Artes de Miranda do Corvo

Casa das Artes de Miranda do Corvo - Future Architecture Thinking

Projetada pela Future Architecture Thinking  (FAT), a Casa das Artes é já um ícone de Miranda do Corvo e uma referência no centro do país. O seu volume vermelho intenso não passa despercebido no envolvimento verdejante da bacia fértil de Miranda, tendo por fundo o verde frondoso da Serra da Lousã.

O jogo dos volumes geométricos praticamente sem aberturas e vértices elevados, com linhas inspiradas no perfil dos montes e nos telhados das casas mirandenses, juntamente com a cor quente e vibrante, conferem ao edifício inegáveis traços de contemporaneidade, confirmados pela conceção dos espaços interiores, lembrando o Children Discovery Museum (San José, EUA) e com algumas referências na Casa das Histórias - Paula Rego, Cascais, de Eduardo Souto de Moura (2009).

Inaugurada a 23 de agosto 2013, a Casa das Artes custou 2.5 milhões de euros (construção e equipamento) e o Programa Operacional Regional do Centro 2007-2013 assegurou 85% desse valor através da medida “Equipamentos para a Coesão”.

Ocupando uma área coberta de 1435 m2, o vistoso edifício possui uma sala de espetáculos com 266 pessoas lugares, sala multimédia e diversos espaços para exposições, permitindo a realização de espetáculos variados, congressos, exposições e pequenas feiras. Um anfiteatro no exterior permite a realização de espetáculos ao ar livre.


VER reportagem fotográfica de João Morgado

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Rui Mário Gonçalves (1934-2014)


Faleceu hoje Rui Mário Gonçalves, historiador e crítico de arte, figura de relevo no panorama artístico nacional.

Natural de Penafiel (1934) e irmão de Eurico Gonçalves,  dedicou-se ao estudo da arte portuguesa do século XX, tendo publicado diversas obras de referência e monografias sobre artistas nacionais (1), para além de desenvolver uma intensa atividade crítica na imprensa e como comissário de exposições. Em 1963 foi-lhe atribuído o Prémio Gulbenkian de Crítica de Arte e, mais tarde, presidiu à secção Portuguesa da AICA - Associação Internacional de Críticos de Arte e ocupou cargos diretivos na Sociedade Portuguesa de Belas Artes.
Lecionou na Sociedade Nacional de Belas Artes, nas Escolas de Teatro e de Cinema do Conservatório Nacional de Lisboa e na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Segundo informações colhidas na imprensa online, Rui Mário Gonçalves sentiu-se indisposto na noite de ontem e foi levado ao hospital, onde lhe foi detetado um aneurisma em estado muito avançado, acabando por falecer de ataque cardíaco na madrugada de hoje, dia 2 de maio.

VER - Palestra de Rui Mário Gonçalves sobre Joan Miró, realizada no Museu Coleção Berardo em fevereiro 2014, integrada no ciclo «As escolhas dos críticos»


(1)-Algumas obras fundamentais de RMG: Pintura e Escultura em Portugal, l940-1980 (1980); António Dacosta (1983); O Fantástico na Arte Portuguesa Contemporânea (1986); Pioneiros da Modernidade (1986); De 1945 à Atualidade (1986); Cem Pintores Portugueses do Século XX (1986); Arte Portuguesa nos Anos 50 (1996); O Que Há de Português na Arte Moderna Portuguesa (1998); A Arte Portuguesa do Século XX (1998); Vontade de Mudança (2004); Almada Negreiros (2005), Amadeo de Souza-Cardoso (2006), Cruzeiro Seixas (2007).

quinta-feira, 24 de abril de 2014

ARTIS regressa em Maio

De 3 de maio a 29 de junho decorrerá a ARTIS XII - Festival de Artes Plásticas de Seia, organizado pela Câmara Municipal em colaboração com a Associação de Arte e Imagem de Seia. Para além da exposição coletiva de artes plásticas e da exposição de fotografia, apresentando obras de dezenas de artistas e fotógrafos locais e nacionais, o XII Festival de Artes Plásticas conta com um vasto e diversificado conjunto de atividades a realizar sobretudo nos diversos espaços da Casa Municipal da Cultura de Seia.
Consulte o programa completo no blogue ARTIS e a lista de participantes.



quinta-feira, 17 de abril de 2014

Visitas guiadas a não perder, na Antena 1 e RTP2


A RTP2 apresenta semanalmente, à terça-feira, um interessante programa de divulgação do património nacional, intitulado “Visita Guiada”. É o regresso de Paula Moura Pinheiro ao pequeno ecrã, como autora e apresentadora, mantendo a entrevista como elemento estruturador do programa, visualmente muito enriquecido pois decorre no espaço em destaque, com visita guiada por historiadores, arquitetos e técnicos convidados. Nos 7 primeiros episódios, as visitas foram guiadas por Joana Ramôa Melo, historiadora de arte (Sé de Braga), Anísio Franco, historiador de arte (Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa), Giulia Rossi Vairo, historiadora de arte (Museu Machado de Castro, Coimbra), João Soalheiro, historiador (Museu de Alberto Sampaio, Guimarães), Dalila Rodrigues, historiadora de arte (Museu Grão Vasco, Viseu), Ana Paula Rebelo Correia, historiadora de arte (Museu de Lamego), João Paulo Martins, arquiteto (Convento de Cristo, Tomar). Um dos objetivos do programa é mesmo dar voz, sempre que possível, aos novos historiadores.

Em torno de uma obra de arte ou de um conjunto de peças selecionadas, evoca-se uma época histórica e o seu contexto social, o que permite destacar aspetos únicos ou diferenciadores do nosso Património, situando-o na Península Ibérica, na Europa e mesmo no mundo. Foi assim com o milenar cálice de São Geraldo (Sé de Braga), a cruz de D. Sancho I (Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa), o tesouro da Rainha Santa Isabel (Museu Machado de Castro, Coimbra), o tríptico da natividade (Museu de Alberto Sampaio, Guimarães), a representação do primeiro índio na arte ocidental (Museu Grão Vasco, Viseu), as tapeçarias flamengas do Museu de Lamego e o claustro principal do Convento de Cristo, Tomar, obra ao nível da melhor arquitetura renascentista europeia, encomendada por D. João III e terminada já no tempo dos Filipes. A banda sonora dos programas é igualmente relevante em termos de Património nacional, com música de compositores portugueses da época da peça tratada em cada programa.

Paula Moura Pinheiro foi autora e apresentadora do inesquecível “Câmara Clara” na RTP2, um programa criado em 2006 e que durou até final de 2012 (277 edições), afinal o tempo em que desempenhou o cargo de subdiretora desse canal da televisão pública. “Câmara Clara” acabou como tantos outros programas culturais da RTP2, com protestos. Quem não se lembra ainda do “Acontece”, de Carlos Pinto Coelho, ou de “Por Outro Lado”, de Ana Sousa Dias. Talvez por isso, "Visita Guiada" estreia primeiro na Antena 1, (sábados, 13:10 horas), adaptado para emissão radiofónica, apesar de se tratar de um programa sobretudo visual, dada a importância da imagem na exposição dos conteúdos, um programa que se vê com muito agrado e que contribui inegavelmente para a promoção e divulgação do Património nacional.

VER PROGRAMAS “VISITA GUIADA”
VER PROGRAMAS "CÂMARA CLARA"

quinta-feira, 20 de março de 2014

As viagens e as visitações de Alexandre Magno e Cristina Vouga

Vista parcial da exposição (sala principal)

Apesar das restrições orçamentais e desmotivação dos públicos, que têm desacelerado as dinâmicas culturais sobretudo no interior do país, algumas instituições privadas e organismos públicos continuam corajosamente a oferecer eventos culturais de relevo regional e até nacional, promovendo os valores locais e proporcionando espaços e momentos de interação e difusão culturais, perseguindo a melhoria dos padrões culturais das populações.
Esta constatação vem a propósito da já anunciada realização da ARTIS XII – Festival de Artes Plásticas de Seia, prometendo para maio e junho quase dois meses de exposições e iniciativas paralelas, da mostra de pintura a óleo de António Manuel Pires no Posto de Turismo de Seia e da excelente exposição de pintura e escultura de Alexandre Magno e Cristina Vouga patente nas galerias da Casa da Cultura até final de março.
Alexandre Magno e Cristina Vouga desenvolvem projetos artísticos diferentes com percursos artísticos em certa medida semelhantes: ambos nasceram em Angola na década de 1960, iniciaram os estudos artísticos superiores no Porto e concluíram licenciaturas em artes plásticas em Lisboa, começaram a expor os seus trabalhos sensivelmente pela mesma altura e têm estado muito presentes no centro-interior do país, expondo em Viseu, Tondela e Seia. Cristina Vouga participa atualmente noutra exposição conjunta, em Guimarães, com o pintor Alberto d´ Assunção – que expôs na Casa da Cultura de Seia em 2013.
Nas obras de Cristina Vouga (n. 1969) predomina o jogo de volumes, o modo como estes evoluem no espaço, e a invocação subtil de outras dimensões sensitivas do real através do recurso a materiais muito diversos. A artista articula nas suas obras características formais diversas – como a interação entre superfícies planas e curvas, o geometrismo cubista e as formas redondas polidas e orgânicas, na senda do surrealista Jean (Hans) Arp. Graças ao tratamento exterior com grafite, material indissociável do desenho, o frágil gesso adquire o aspeto compacto e pesado do metal, ludibriando a visão e até o tacto. Por outro lado, a combinação de materiais com caraterísticas opostas na mesma peça destaca correspondências entre formas de conjuntos e universos diferentes. Na peça “Obstado Adejo” (2012-13) a forma alada ou inflada pelo vento, no seu voo condicionado, tem por base uma superfície de pelo sintético que domina a vista principal da escultura, em gesso patinado a grafite.
Para além das esculturas, Cristina Vouga apresenta trabalhos bidimensionais de pequeno formato dominados pela preocupação com os volumes, apesar da relevância da cor e valores plásticos próprios do pastel seco.
Alexandre Magno (n. 1966) apresenta 30 trabalhos de pintura e desenho, com destaque para a pintura, que o artista destaca no seu projeto existencial como veículo de evasão, de libertação: “Com os meus quadros vou de viagem sempre que lhes pego” (1). Viagens que vai construindo a partir do nada, do espaço branco da tela, “para limpar a claridade a mais” (1) compondo laboriosa e progressivamente as formas que os fundos haverão de destacar ou absorver, uma construção intelectual e sensória que resulta na desconstrução da imagem, através de técnicas distintas interagindo no mesmo suporte, com destaque para o óleo e o acrílico. Viagens aventureiras, de reconhecimento e descoberta, emotivas e emocionantes, revelando as mil e uma facetas da forma, do modo de a percecionar e entender - tal como se perceciona e entende a própria vida, a individualidade, a relação com os outros e com o mundo. Nem por acaso, uma recente exposição do artista na Galeria Vieira Portuense intitulava-se “Percepcionista”.
A pintura de Alexandre Magno vibra de cor, energia e emoção. A composição cerrada, o espaço quase sempre fechado sobre as figuras, como se habitassem cavernas e túneis e tudo possa acontecer ao observador a partir do instante em que entra no mundo do quadro e se deixa passear por esse mundo de personagens enredadas em teias de cor, vibrante de emoção. Trata-se de uma linguagem plástica simultaneamente próxima dos “fauves” mas muito além do justificado pretensiosismo de juventude de Maurice de Vlaminck (1876-1958): “Transpus para uma orquestração de cor todos os sentimentos de que tinha consciência. Era um bárbaro, jovem e cheio de violência.” Na verdade, a sua obra enquadra-se na recuperação pós-moderna da pintura figurativa expressionista iniciada nos anos 1980, que ajudou ao renascimento da pintura alemã com os “novos selvagens” (Baselitz, Penck, Kiefer, etc.) e transformou as abordagens pictóricas neofigurativas no mundo artístico ocidental. A crise das bases ideológicas do Modernismo esteve na origem da rutura proposta pelos pós-modernistas, a convicção de que a arte já não consegue transformar a sociedade mas, ainda assim, consegue fazer-nos pensar, despertar consciências neste mundo cada vez mais dominado pela cultura de massas – essa sim, apontada para as audiências, para os lucros do consumo, e que vai mudando avidamente a sociedade e o mundo… para melhor?

(1)-“Alexandre Magno, pintor (pelo próprio)”, revista Anim’Arte, Viseu

Cristina Vouga, “Obstado Adejo”, 2012-13, gesso patinado a grafite, pelo sintético

Alexandre Magno, “Luta de Aves Raras”, 2008, óleo e acrílico s/tela

Vista parcial da exposição (galerias)

sábado, 11 de janeiro de 2014

Cildo Meireles em Serralves


“Amerikka” (1991-2013). Um chão de ovos e um teto de balas

A 26 de janeiro, termina em Serralves a exposição de Cildo Meireles, artista brasileiro (Rio de Janeiro, 1948) cujas obras de arte concetual se caraterizam pela espetacularidade e por uma linguagem crítica mais próxima do grande público e poderosamente bem disposta. Muitas das suas obras são interativas, transformando muitas vezes o espectador em participante ativo no funcionamento e entendimento da peça artística.

Conhecido pelas suas subtis provocações políticas durante a ditadura militar brasileira, Cildo constrói as suas obras concetuais orientando progressivamente o espectador para um sentido específico e acessível ao cidadão médio, remetendo para problemáticas comuns e não para construções filosóficas abstratas, funcionando como comentários críticos a realidades conhecidas de todos, com perspicácia e humor. Em “Olvido” ” (1987-89), uma tenda feita com milhares de notas de banco ergue-se no centro de um território coberto de ossos, rodeado por um muro circular de velas de cera. “Amerikka” (1991-2013) é o espaço compreendido entre um chão feito de 20.050 ovos e um teto com 40.000 balas de diversos calibres apontadas ao chão de ovos. O visitante é convidado a passear sobre os ovos (de madeira, em tamanho real) abstraindo da ameaça representada pelo teto de balas.

A obra mais impressionante da exposição é “Abajour” (2010), pela dimensão e meios envolvidos, interação de materiais e de linguagens artísticas, incluindo a instalação e a performance, mas sobretudo pela eficácia comunicativa. Inspirada num simples candeeiro, esta obra recorda-nos que o nosso mundo funciona e avança graças ao esforço anónimo de gente humilde, escravos de rotinas, que raramente compreendem a sua verdadeira importância pois vivem aprisionados em pequenos espaços físicos e mentais.

Organizada conjuntamente com o Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofia, com curadoria de João Fernandes (antigo diretor artístico do Museu de Serralves), a exposição completa-se com a peça “Nós Formigas” (2007/2013) no jardim, visível do piso inferior e visitável pelo exterior embora sob condições especiais. O visitante tem de descer a um buraco no solo e observar a obra de baixo para cima, debaixo de um cubo de pedra com várias toneladas suspenso por uma grua. Consegue-se ver a colónia de térmitas no fundo do cubo mas, confesso, entra-se naquele buraco com um nozito de receio teimoso na garganta.

 

“Olvido” ” (1987-89)


Outra proposta interessante: a desconstrução de escadas. Os elementos de escadas com 3 metros são recombinados criativamente. A perda da função prática conduz ao objeto artístico, intelectualmente mais interessante. Estes trabalhos foram expostos pela primeira vez em 2002, em Siena, Itália, completando a obra “Viagem ao centro do céu e da terra” – uma escada de ferro com 40 metros de comprimento, ao ar livre.

sábado, 14 de dezembro de 2013

Nos 105 anos de Manoel de Oliveira

Manoel de Oliveira cruzou a meta dos 105 anos. Não escrevi propositadamente “o realizador” pois Manoel de Oliveira é muito mais do que isso: uma grande figura da Cultura europeia do século XX e XXI, uma referência para sucessivas gerações em Portugal e no estrangeiro, um exemplo de vitalidade e de resistência – física, moral e cultural. Sobretudo, um artista do cinema, que  impôs internacionalmente uma estética cinematográfica muito própria, resistindo a todas as malfeitorias críticas, antes e depois de 1974, e aos “consensos culturais” que visam controlar a  política de subsídios para as artes nacionais. 

Há poucos dias, ficou a saber-se que Manoel de Oliveira chegou a acordo com a Fundação de Serralves para a instalação da Casa do Cinema Manoel de Oliveira no Parque, utilizando as antigas garagens da Casa de Serralves, com projeto de Siza Vieira. A Casa terá uma exposição permanente sobre a figura e obra de M. O. constituindo (mais) uma excelente aposta da Fundação e uma mais valia cultural para a cidade do Porto. A assinatura deste protocolo provocou uma declaração da CMP sobre o destino a dar ao edifício construído há anos na Foz para acolher a Casa do Cinema Manoel de Oliveira. Como é sabido, as divergências entre M. O. e o  executivo liderado por Rui Rio inviabilizaram a oportuna ocupação do edifício projetado por Souto Moura. Segundo o novo responsável pela Cultura do Porto, Paulo Cunha e Silva, o aproveitamento desse espaço será incluído na estratégia municipal para o cinema.

Uma faceta pouco divulgada de Manoel de Oliveira, cuja longevidade terá muito a ver com o seu gosto pela prática desportiva, é a de corredor de automóveis. Com o seu irmão Casimiro de Oliveira, participou em grandes provas de automobilismo, tendo alcançado excelentes resultados. Ao volante do Edfor (um Ford Especial, obra do engenheiro nortenho Eduardo Ferreirinha) venceu em 1938 a Rampa do Gradil e o terceiro prémio do Circuito da Gávea, no Rio de Janeiro (1). Nesse ano, realizou o documentário “Já se fabricam automóveis em Portugal”, destacando o esforço pioneiro dos irmãos Ferreirinha. Em Portugal, construíram-se carros de  marcas lusas como Edfor, Alba,  Marlei, FAP, Olda. O projeto de um Fórmula 1 (Bravo Marinho) não passou do papel em 1976.

Capa do livro de José Barros Rodrigues, vendo-se Manoel de Oliveira, então com 30 anos, junto do Edfor, desportivo de produção nacional e motor Ford V8. 


(1)-VI Grande Prémio da Cidade de Rio de Janeiro, 12 de junho  de 1938. O antigo circuito da Gávea, com 11 km de extensão, era muito rápido e perigoso, conhecido como “Trampolim do Diabo”. Algumas secções do circuito, ainda hoje sem bermas, assemelham-se à Circunvalação do Porto e à estrada marginal do Douro. As condições do piso, empedrado e cruzado pelos carris dos elétricos, também eram comuns no Porto. Manoel terminou a prova em 3º. Casimiro, em Bugatti 51, foi 5º.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

NADIR AFONSO (Chaves, dezembro de 1920-dezembro de 2013)


Formou-se em Arquitetura mas sempre quis ser Pintor. O Pintor, talvez para se vingar, ajudou pouco o arquiteto mas o inverso serviu-lhe para explorar as ligações entre a pintura e a geometria – tal como Almada já tinha feito em Portugal na década de 1960 e é bem típico dos arquitetos portugueses que se dedicaram – e dedicam – à pintura.
Trabalhou com Óscar Niemeyer e Le Corbusier. Gabava-se de ter furtado uma peúga de Picasso do estendal da sua casa em Paris. Era uma pessoa interessantíssima e um artista extraordinário.

Para além da sua herança artística, sem fronteiras, deixa uma importante marca cultural no interior do país, cada vez mais ostracizado e esquecido – apesar de uma boa parte dos políticos influentes serem naturais deste mesmo interior. Sentiremos (todos?) a falta de Nadir Afonso.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

A curiosa arte funerária do Gana


Desde a década de1940,os carpinteiros de Acra, capital do Gana, dedicam-se à confeção de caixões  artísticos personalizados. Essa arte funerária tornou-se a principal característica distintiva da arte popular na região do povo Ga e chegou  recentemente a todo o mundo através de um anúncio da Coca-Cola e da Internet. Agora é possível encomendar à distância um caixão personalizado, em forma de garrafa de Coca-Cola ou de automóveis de todas as marcas e modelos, aviões, telemóveis e objetos diversos, animais, frutos ou legumes.

A arte funerária teve expressão relevante ao longo da história da Humanidade, atingindo alto nível de sofisticação em determinadas civilizações, épocas e momentos históricos. Basta lembrar a arte funerária no antigo Egipto, a escultura tumular gótica, os aparatos funerários do Barroco ou a estatuária fúnebre do Romantismo e Simbolismo no século XIX.
No contexto da arte funerária, que inclui os mais diversos objetos e representações, destaca-se a arte tumular – ligada a rituais de sagração e conservação do corpo, condição fundamental no antigo Egipto (Livro dos Mortos) como no Cristianismo (ressuscitação de Lázaro – Evangelho segundo São João, ressurreição dos mortos - Apocalipse), mas támbém ligada a sistemas culturais de ostentação de poder e riqueza. As culturas nómadas ou que praticaram  a cremação, por razões práticas ou por motivos religiosos, quase não têm arte funerária.
No início do século XX, a nobreza nativa do Gana ainda viajava comodamente instalada em palanquins com formas e cores distintivas, inspiradas em formas naturais  ou na mitologia local. Em meados da década de 1940, um carpinteiro do Acra, Ataa Oko, decidiu homenagear a esposa falecida construindo-lhe um caixão inspirado nesses palanquins, a que acrescentou uma tampa.
A ideia foi bem acolhida na comunidade e seguida por outros carpinteiros de Acra, que a desenvolveram desde os primitivos caixões de tábuas toscas às estruturas atuais, mais elaboradas e incorporando materiais modernos. O objetivo desta curiosa arte tumular é que o caixão se identifique com o seu ocupante e, para tal, nada melhor que cada qual encomende a forma  do seu caixão – como acontecia nos antigos sarcófagos e nos túmulos medievais. Tal como outrora, os caixões do Gana veiculam o imaginário moderno do gosto popular, de formas naïves ou sofisticadas, de grande eficácia comunicativa e surpreendente realismo de formas e cores. Da simples galinha aos automóveis de luxo , passando pelos mais diversos objetos comuns, os carpinteiros de Acra praticamente não conhecem o impossível e há inclusive empresas que gerem as encomendas através das redes sociais e garantem a entrega da obra praticamente em todo o mundo – a tempo do funeral ou para figurar em coleções de arte.

 Apresentada pela primeira vez na Europa em  1989, no Museu Nacional de Arte Moderna em Paris, a curiosa arte  funerária do Gana merece crescente atenção das galerias e museus de arte internacionais, dando a conhecer a obra de artistas como Ataa Oko, Kane Kwei, Paa Joe, Kudjoe Affutu, Ata Owoo, Eric Kpakpo, Eric Adjetey. 

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Bienal internacional do design em Lisboa – EXD’13


Entre 7 de novembro e 22 de dezembro, Lisboa vai receber a EXD’13, a bienal internacional dedicada ao design, arquitectura e criatividade. O tema da bienal, “No Borders”, estabelece uma ponte com o Brasil, reforçada com o anúncio de uma bienal em São Paulo, a EXD’14, agendada para agosto de 2014.

O vínculo com a cidade de Lisboa é uma característica importante da bienal, centrada em duas zonas, Belém e Chiado. Belém “simboliza a relação de Portugal com o mundo”. O Chiado acolhe a experimentadesign há 15 anos e “afirma-se cada vez mais como uma das áreas mais ligadas à cultura e ao design”. Além disso, a exposição “Metamorphosis” e as intervenções urbanas “Pelo Tejo vai-se para o mundo…” visam o desenvolvimento de projetos para a indústria ou na cidade.

“Privilegiando ideias e indivíduos, o programa da Bienal tem por objectivo transmitir conteúdo e incentivo tanto a uma audiência especializada como ao público em geral”, a bienal desenrola-se em diversos espaços: Convento da Trindade (Lounging Space e a exposição “Identity - Identidade e Estratégia”); Auditório do novo Museu dos Coches (debates e conferências em parceria com o London Design Festival (LDF); Auditório do MUDE (debates); Praça do Império (intervenção urbana em colaboração com a CML); Palácio dos Condes da Calheta (exposição “(Un)Mapping the World” – em parceria com o Instituto de Investigação Científica Tropical).

Este não é claramente o mundo da Arte – II

Christopher Wool, “Blue Fool” - 5 milhões de dólares

A obra de Arte original, única, insubstituível, não tem preço. Seja antiga ou moderna, académica ou vanguardista, realista ou abstracta. Infelizmente, aceita-se (quando não se incentiva) que a sua importância artística e cultural, muitas vezes relativa e subjetiva, seja associada a um valor, um preço, sensível às leis do mercado, que visam quase sempre a especulação e o negócio lucrativo.

Para moldar valores e fixar preços que chegam a ser incompreensíveis, os agentes económicos estabelecem critérios de valorização e apreciação/avaliação, aceites por pequenos grupos de investidores multimilionários que disputam a posse dessas obras, quase sempre avançando elevadas quantias, autênticas fortunas. Os valores mobilizados pelos negócios da arte, que nada têm a ver com o âmbito puramente artístico, atingem quantias que estarrecem o cidadão comum e alimentam o universo das galerias e das leiloeiras.

Os valores não param de subir a cada troca de proprietário. Na verdade, quanto mais se anuncia o novo valor de uma obra, mais o mercado é tentado a estabelecer novos recordes. No entanto, não devemos encarar  todos estes negócios milionários pelo mesmo ângulo nem medi-los pela mesma bitola. Como em tudo na vida, há exceções. No mesmo patamar, coexistem realidades bem diferentes. 

Devemos no entanto intrigar-nos e refletir acerca dos valores atingidos por determinadas obras (1). Essa reflexão torna-se muito útil pois destaca a natureza e função da obra artística na sociedade actual. Que pedimos nós à arte no nosso tempo? Que arte é a do nosso tempo? Não será esta sobrevalorização do objecto artístico um sinal de revivalismo, uma tentativa de regresso desesperado à(s) virtude(s) perdida(s), numa época em que a arte concetual contesta o sentido tradicional de obra de arte e as vanguardas artísticas procuram afirmar-se como reserva moral e ética em plena crise de valores – afinal a autêntica raiz da crise financeira em que o ocidente mergulhou e o mais claro sinal de irreversível declínio.

(1)-Veja-se, por exemplo, a peça de Yasmina Reza, "Arte", protagonizada em Portugal por António Feio, José Pedro Gomes e Miguel Guilherme.

Gerhard Richter, “Blood red mirror” - 1,1 milhões de dólares

Ellsworth Kelly, “Green White” - 1,6 milhões de dólares

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Joana Ricou

Joana Ricou, “Nº14”, painel de madeira, 2012

Joana Ricou é uma artista portuguesa que vive e trabalha em Nova Iorque. O maior reconhecimento das pós-graduações, a maior e melhor oferta de oportunidades de desenvolvimento de projetos artísticos, o chamamento cultural das grandes metrópoles, experiências profissionais e emprego mais compensadores, afastam cada vez mais os jovens artistas nacionais do nosso país.

Nas suas obras com preocupações realistas, Joana Ricou explora a multiplicidade do ser, as tensões transformativas e seus reflexos na consciência da individualidade e identidade. A memória e as recordações de momentos passados são trabalhadas através de sequências de imagens inspiradas nos registos fotográficos de Edward Muybridge. As sequências fotográficas de Muybridge juntavam memórias de diversos momentos para criar a ilusão do movimento – o princípio do cinema.

No início de 2013, Joana Ricou mostrou o seu trabalho no Edge Arts em Lisboa, numa exposição que foi buscar o título a uma novela de Luigi Pirandello (“uno, nessuno e centomila”, 1926) – “um, nenhum e cem mil". 

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Museu do Prado em Lisboa

Hendrick Jacobsz Dubbels, “O Porto de Amsterdão no Inverno”, 1656-60, óleo s/tela. Museo Nacional del Prado

Foi anunciada para final de novembro a inauguração no Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa, da exposição “A Paisagem do Norte no Museu do Prado”, que reúne 36 pinturas de importantes artistas das escolas do norte pertencentes ao museu espanhol, com destaque para Rubens, Brueghel e Lorrain.

Os italianos chamavam “nórdicos” aos pintores dos países baixos e os pintores paisagistas nórdicos introduziram um novo género artístico, a paisagem, quando se afastaram dos temas heroicos tradicionais da pintura europeia para se dedicarem a temas do quotidiano.

Entre os artistas representados, encontram-se Tobias Verhaecht, mestre de Rubens, Jan Brueghel o Velho, Hendrick van Balen, Joos de Momper o Novo, David Teniers, Hendrick Jacobsz Dubbels, Adam Willaerts e Peeter Snayers.

Organizada pelo Museu do Prado com o apoio da Obra Social “la Caixa” e da Consejería de Cultura y Deporte de la Junta de Andalucía, a exposição passou por Valência, Saragoça e Sevilha e virá a Lisboa ao abrigo de um acordo recentemente estabelecido entre o Museu Nacional de Arte Antiga e o Museu do Prado. O acordo celebrado com a presença do secretário de estado da cultura do governo português possibilita o intercâmbio de obras e de exposições de ambos os museus. O acordo prevê o empréstimo do tríptico de Hieronymus Bosch, “Tentações de Santo Antão”, pertencente ao MNAA, para a grande exposição com que o Museu do Prado pretende assinalar os 500 anos da morte do pintor holandês, em 2016. Em troca, o MNAA receberá o famoso autorretrato de Albrecht Dürer, pintado em 1498.

Hieronymus Bosch “Tentações de Santo Antão “, 1495 e 1500, tríptico, óleo sobre madeira de carvalho. Museu Nacional de Arte Antiga. Wikimedia Commons.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Obras de Manuel Seita na A2

“Onde o tempo passa”, 2006, esculturas em bronze

O ceramista e escultor Manuel Seita nasceu a 10 de Junho de 1970 em Vila Verde de Ficalho. Licenciou-se em Escultura na ESAD – Caldas da Rainha em 2005. Dedica-se também à pintura e performance.

“Onde o tempo passa 1 e 2”, 2006, oito esculturas em bronze, área de serviço de Almodôvar da A2 - CEPSA Portuguesa S.A.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

CAM assinala trigésimo aniversário com uma grande exposição comemorativa

Arranca hoje, com Alberto Pimenta, o Ciclo de Performance


Assinalando o 30º aniversário do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste  Gulbenkian, em Lisboa, decorre até janeiro de 2013 um conjunto de iniciativas marcantes, entre as quais se destacam a exposição comemorativa, intitulada "Sob o Signo de Amadeo. Um Século  de Arte", e o Ciclo de Performance.

Centrada na exposição de 170 obras de Amadeo de Souza-Cardoso, quase todas as obras do pintor amarantino existentes no CAM, a exposição comemorativa percorre um século de arte, desde 1910 até ao presente, e pode ser visitada até 19 de Janeiro de 2014. Trata-se de uma grande exposição, com curadoria de Isabel Carlos, Ana Vasconcelos, Leonor Nazaré, Patrícia Rosas e Rita Fabiana, mobilizando um conjunto significativo de obras (350) da vasta coleção do Centro de Arte Moderna (cerca de 10 mil obras). Sob o signo de Amadeo, a exposição apresenta obras representativas do modernismo português e da arte internacional do século XX, em diálogo (átrio - obras de  arte pop britânicas), com interesse retrospetivo (Galeria 1 – obras-primas da arte moderna e contemporânea) abrangendo a pintura, desenho, escultura, fotografia e vídeo (Sala Polivalente – colecção de filme e de vídeo). A ideia do palco e da teatralidade é o fio condutor do conjunto diversificado de obras patentes na Sala de Exposições Temporárias. A exposição comemorativa abrange praticamente todos os espaços do CAM, inclusive os quartos de banho.

Em outubro e novembro, tem lugar o Ciclo de Performance, com a apresentação semanal (quintas-feiras, às 13h00 e às 17h00) de uma obra/artista. Alberto Pimenta, um dos percursores da performance em Portugal, será o primeiro (hoje, 17 de outubro), seguindo-se Pedro Tudela (24 de outubro) e Ramiro Guerreiro (31 de outubro). Em novembro, será a vez de Joana Bastos (dia 7), Musa paradisíaca (14), Martinha Maia (24) e Isabel Carvalho (28). As performances terão uma ligação ao espaço, coleção e história do museu.

Alberto Pimenta inaugura o Ciclo de Performances. Em 1977, Alberto Pimenta realizou no Zoo de Lisboa o happening “Homo Sapiens”. Fechou-se numa jaula com uma tabuleta onde se lia “Homo Sapiens”.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Liberdade às Imagens e Palavras – pintura de Luiz Morgadinho na Casa da Cultura de Seia

Luiz Morgadinho, “Reformados de Portugal”, 2011, acrílico s/tela. ©LM

Decorre até final de outubro, nas galerias da Casa da Cultura, a primeira exposição individual de Luiz Morgadinho em Seia. Intitulada “Liberdade às Imagens e Palavras”, a exposição reune 41 obras realizadas nos últimos anos, entre as quais duas séries de 7 pequenos quadros,“Tudo vê” e “Aldeia”, de 2013. Para além de uma linguagem plástica própria, deliberadamente fixada na área do “naïf”, o traço comum destas obras é o seu poder narrativo visual, irreverente e trocista, aliando uma estrutura comunicativa muito próxima do "cartoon" ao delírio imagético e culto do bizarro - hoje entendido como “surrealismo”.

Fundado há cerca de 90 anos em França por André Breton, o Surrealismo apresentava-se então como “Automatismo psíquico puro, pelo qual se pretende exprimir, quer verbalmente, quer pela escrita, ou por qualquer outra maneira, o funcionamento real do pensamento (…) na  ausência do controle  exercido pela razão, sem qualquer preocupação  estética ou moral”. As novas propostas de apreensão da realidade (1), a irreverência e liberdade criativa defendidas pelo movimento, em parte herdadas da revolução dadaísta, agrada sobretudo aos jovens artistas, o que ajudou à difusão internacional do movimento. No entanto, as obras estranhas dos surrealistas e a personalidade complexa dos principais ideólogos e artistas do movimento, transformaram o termo “surrealismo” em sinónimo de estranho, bizarro, absurdo. Em muitos países, os ideais ortodoxos do Surrealismo adaptaram-se às realidades locais e Portugal não foi exceção. Alguns artistas sobreviventes do Grupo  Surrealista de Lisboa, de Os Surrealistas e dos grupos do Café Gelo e do Café Royal, mantiveram aceso o culto do surrealismo original mas o surrealismo tem recebido, na última  década, um forte impulso renovador de artistas naturais e residentes na região centro. Com boas  relações com outros grupos surrealistas, sobretudo americanos e europeus, alguns destes artistas agruparam-se e viajam atualmente nas carruagens da frente do surrealismo internacional, expondo em diversos países da Europa e Américas ao lado dos seus congéneres locais.

Luiz Morgadinho é um desses artistas, um pintor de inspiração surrealista, ou, como ele próprio prefere dizer, um "operário plástico do naife e do bizarro". Em 2012, participou na exposição coletiva internacional “Surrealism in 2012”, realizada em Reading, EUA, com trabalhos individuais e obras coletivas executadas em parceria com elementos da Secção  surrealista do Mondego. Em 2013, participou na exposição coletiva itinerante “Somos todos criados pelo amor”, que levou obras surrealistas a  várias cidades da República Checa.

Natural de Coimbra (1964), Morgadinho reside em Santa Comba de Seia e dirige a Associação de Arte e Imagem de Seia. Em 2009, foi homenageado na ARTIS VIII - Festa das Artes e Ideias de Seia e recebeu em 2010 o Prémio Município de Oliveira do Hospital no âmbito do AGIRARTE 13, pela obra "No País dos Lambe Botas”. Este  título ilustra adequadamente o posicionamento crítico do artista relativamente ao seu tempo, como salienta Miguel de Carvalho: “Morgadinho é um desses arcanjos, um poeta da imagem que se aproxima subtilmente da crítica social e política, questionando a pertinência e a capacidade simbólica da vida tradicional, desfigurando profundamente os seus clichés e as suas convenções” (2).

Depois da exposição individual de pintura em Oliveira do Hospital, “Ontogénese do Quotidiano” e da exposição individual itinerante “Ad Instar… à semelhança de…”, que esteve patente em Trancoso e na Guarda, Luiz Morgadinho realiza finalmente uma grande exposição individual em Seia.


Notas:
(1)-Mais do que um movimento artístico, o surrealismo é uma maneira de ver, sentir e pensar o mundo. A experiência surrealista privilegia a imaginação, tentando por diversos meios superar a contradição entre objetividade e subjetividade, conciliar sonho e realidade numa sobre-realidade, a “surrealidade” (“surrealité”). Ou, nas palavras de Mário Cesariny, evocando o Primeiro Manifesto: "E para a idéia da Totalidade duma Vida Única nós acreditamos na conjugação futura desses dois estados, na aparência tão contraditórios, que são o Sonho e a Realidade. Acreditamos numa Realidade Absoluta, numa SURREALIDADE, se é lícito dizer-se assim." (“A Afixação Proibida”, Mario Cesariny de Vasconcelos)
(2)-Miguel de Carvalho, texto de apresentação da exposição.

Luiz Morgadinho, “Tudo vê – I”, 2013, acrílico s/cartão telado. ©LM

Luiz Morgadinho, “Civilização”, 2012, acrílico s/tela. ©LM

Luiz Morgadinho, “Olhando o futuro”, 2012, acrílico s/tela. ©LM

domingo, 29 de setembro de 2013

Este não é claramente o mundo da Arte

Pablo Picasso "Desnudo, hojas verdes y busto", 1932

Foi recentemente divulgada a descoberta no Uruguai de uma obra de Ticiano (c. 1473/1490 — 1576), o principal pintor veneziano do Renascimento. Este tipo de descobertas (verdadeiros "achamentos") não são cada vez mais raras e dão que pensar. Outro quadro de Ticiano foi encontrado em finais de 2012 na National Gallery, em Londres. As notícias sublinham o valor certamente exorbitante destas pinturas, sabendo-se que duas outras obras de Ticiano, realizadas décadas depois, foram vendidas em 2012 por 54 milhões de euros (“Diana e Calisto”) e 50 milhões de euros (“Diana e Actaeon”).

O valor exorbitante que certas obras artísticas atingem nos mercados nada tem a ver com Arte, apesar de chamarem a atenção – e ao conhecimento geral – determinadas obras de artistas universais. Terá mais a ver com os negócios especulativos com objetos únicos produzidos ou usados pelas personagens míticas vulgarmente conhecidos por “famosos”, na linha das cuecas sujas de Elvis Presley (2012, não licitada) e do vestido branco que Marilyn Monroe usou no filme “O Pecado Mora ao Lado” (vendido em 2011, na Califórnia, por 4,6 milhões de dólares).

Autores como Christopher Mason (1), consideram o negócio dos leilões como um dos mais nublosos e obscuros capítulos da Economia da Arte (outro, será o negócio das falsificações), tendo sido tema de vários estudos e inúmeros debates, motivando o surgimento de atitudes e movimentos artísticos que promovem a produção desinteressada de obras de arte, a arte pela arte, e a troca de bens artísticos.

Atualmente, qualquer rabisco ocasional de Pablo Picasso, por exemplo, vale milhões. Nem admira que muitos artistas contemporâneos conhecidos comercializem a própria assinatura, a autoria de algo independentemente das qualidades da obra produzida. O quadro de Picasso "Desnudo, hojas verdes y busto"  (Nu, folhas verdes e busto), de 1932, detém o recorde mundial na pintura, ao ser vendido em 2010 por 81 milhões de euros (106,4 milhões de dólares). A obra de Egon Schiele “Selbstdarstellung mit Wally” (Autoretrato com Wally), guache de 1914, foi vendido em 2013 por 9 milhões de euros, detendo o recorde para uma obra em papel.

(1)-Christopher Mason, “The art of the steal: inside the Sotheby’s-Christie’s Auction House scandal” (A arte de roubar: por dentro do escândalo das casas de leilão Sotheby’s e Christie’s).

Egon Schiele “Autoretrato com Wally", 1914, guache e lápis s/papel

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Entre as Margens* – As pontes são miragens

Vista parcial da exposição

*“Entre as Margens - Representações da Engenharia na Arte Portuguesa”,
Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto
22 de junho a 25 de agosto – prolongada até 22 de setembro de 2013

O 50º aniversário da Ponte da Arrábida foi o pretexto para uma retrospetiva da representação de pontes na arte portuguesa, apresentando grandes nomes da pintura do século XIX e XX. Uma exposição coorganizada pela Faculdade de Engenharia da UP, Faculdade de Belas Artes da UP e Museu Nacional de Soares dos Reis, reunindo obras de 64 dos principais artistas portugueses dos séculos XIX,XX e XXI,  selecionadas por Manuel Matos Fernandes e Bernardo Pinto de Almeida.

As margens começam por ser as do rio Douro, do lado do Porto e de Gaia. E nesse aspeto, sublinhe-se bem sublinhado, a exposição revela um grande trabalho prospetivo, de artistas portuenses que de algum modo representaram nas suas obras as pontes do rio Douro, a começar por Silva Porto – e na pintura, pois também na gravura haveria muito a evocar, para os entendidos, e muito para mostrar/revelar ao público em geral. E ainda outras margens – de outros rios que impressionam e inspiram. Rios e pontes que despertam memórias individuais e coletivas, com história. Património. Cultura.

O subtítulo da exposição, “Representações da Engenharia na Arte Portuguesa”, deixa contudo a exposição aquém das expetativas. Na verdade, as engenharias das pontes na arte portuguesa são presenças ocasionais, sombras omnipresentes, referências espaciais cenográficas. Poucos artistas se dedicaram ao tema, reduzindo frequentemente as pontes a silhuetas - das estruturas em ferro que se elevavam graciosamente no ar transmitindo simultaneamente uma sensação de leveza e de segurança, fenómenos funcionais, ou da robustez aventureira do betão, vencendo finalmente vãos até então invencíveis. Mais do que “uma passagem/miragem”, como os Jafumega referiam nos anos 80.

Qual será a resposta lisboeta nos 50 anos da Ponte 25 de Abril (6 de agosto de 1966) ou nos 20 anos da Ponte Vasco da Gama (29 de março de 1998)?

Amadeo de Souza-Cardoso, sem título (Ponte),1914,óleo s/tela – Museu Coleção Berardo

Vieira da Silva, “Le Pont”, 1954/60, óleo s/tela

Júlio Pomar, “Cais da Ribeira”, 1958, óleo s/tela

Manuel Gantes, “Gulliver”, 2006-2007, óleo s/tela

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

O Território do Desenho de Ventura Porfírio

Ventura Porfírio - foto do catálogo/divulgação da exposição

Entre 7 de junho e 22 de Setembro, o Museu Soares dos Reis apresentou uma pequena mostra de desenhos de Ventura Porfírio, realizados entre 1958 e 1967 com meios riscadores ainda muito pouco utilizados por artistas, nessa época – como as canetas de feltro.

Ventura Porfírio nasceu a 26 de Agosto de 1908 em Castelo de Vide em 1908. Faleceu em 1998 em Portalegre. A sua formação passou pela Escola Superior de Belas Artes do Porto e pelo atelier de Vasquez Dias em Madrid, entregando-se depois a diversas atividades e desempenhando vários cargos. Era conservador do Palácio Nacional de Queluz à data da aposentação, por motivo de doença. Regressou a Castelo de Vide em 1973, envolvendo-se ativamente  nas dinâmicas locais. Projetou e orientou as obras de decoração do do Salão Nobre dos Paços do Concelho de Castelo de Vide, da Fonte da Senhora da Penha e do túmulo do capitão Salgueiro Maia, em Castelo de Vide.

Desenho, caneta de feltro s/papel, 1965