quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Sobre a pintura de cenas marítimas, navios e batalhas navais

Nos 150 anos do Museu de Marinha (22 de julho 1863-2013)

Parte III – Saudades do Mar

António Delfim, “Navio Escola Sagres em Lisboa”, 2000, óleo s/tela - 1º Prémio de Pintura da Academia de Marinha em 2000

A Marinha portuguesa entrou no século XX com grande otimismo. A marinha mercante navegava “de vento em popa”, após a criação das grandes companhias de navegação no século XIX e a marinha de guerra sonhava com uma esquadra oceânica. Para dar corpo a essa “visão estratégica”, foram construídos e adquiridos novos navios e o primeiro submarino chegou a Portugal em 1913. Não houve tempo para mais. Pressionado pela situação internacional, o governo liderado por Afonso Costa mandou apresar 70 navios alemães que se encontravam em águas territoriais portuguesas, ousadia que levou a Alemanha a declarar guerra a Portugal em março de 1916. No entanto, a Marinha portuguesa não estava à altura das suas congéneres aliadas e perdeu prestígio para a aviação militar, a maravilha da época – que, curiosamente, ficou sob a alçada da Marinha até 1952.

Relegada para terceiro plano nos principais conflitos internacionais do século XX e na guerra colonial, apesar da sua participação meritória em inúmeras missões, a Marinha envolveu-se fortemente nas mais diversas áreas e atividades relacionadas com o mar, desde a investigação científica e tecnológica à cultura marítima e aos desportos náuticos, com destacada participação nos grandes eventos nacionais e internacionais que marcaram a história do século XX português – da Exposição Colonial no Palácio de Cristal do Porto em 1934 à Expo’98, passando pela Exposição Marítima do Norte de Portugal em 1939, Exposição do Mundo Português em Lisboa em 1940, XVII Exposição Europeia de Arte em 1983 e as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, de 1986 a 2002 – sem esquecer a Europália’91, na Bélgica, em que Portugal foi o país-tema. Um século agitado por variadas paixões “caseiras”, desde a paixão colonial à paixão pela educação – mas, como diz o ditado popular, “não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe”.

As artes nacionais refletiram naturalmente esta agitação política e cultural, contribuindo com obras encomendadas ou espontaneamente, em iniciativas paralelas – sobretudo exposições individuais e coletivas. Pintores, desenhadores e aguarelistas como Souza Pinto, João Vaz, Roque Gameiro, Fausto Sampaio, Sousa Lopes, Cândido Teles, João Carlos Celestino Gomes, Eduardo Malta, Alberto Sousa, Alfredo de Morais, Artur Guimarães ou Telmo Gomes (1), entre outros, já vinham tomando o simples barco de pesca como assunto principal nos quadros, destacando globalmente as sua características formais (casco, tipo de vela) e colorido distintivo. Grande parte da sua obra pode ser encontrada nos vários (e excelentes) Museus nacionais ou municipais sobre o mar e as atividades marítimas (2). Nem todos foram, porém, dedicados pintores do género – como o setubalense João Vaz ou o ílhavo Cândido Teles – e a pintura de paisagens marinhas com barcos e navios ficou muito longe do que se fazia na Europa.

Entre os grandes pintores europeus de marinha e navios, destaca-se o francês Albert Brenet (1903-2005), nomeado Pintor da Marinha Nacional  francesa em 1936, Pintor do Ar (Força Aérea) em 1936 e pintor do Exército (1959). Outros grandes pintores franceses de marinhas no século XX foram  Marin-Marie (1901-1987) e Roger Chapelet (1903-1995). O Museu de Marinha português dispõe de uma pintura de Chapelet representando a “Fragata D. Fernando II e Glória”, a última nau da Índia e o último navio de guerra da Marinha portuguesa a navegar exclusivamente à vela.

O “Albert Brenet português” é o pintor e aguarelista Alberto Cutileiro (1915-2003), antigo Diretor do Museu de Marinha e autor de uma obra notável, de investigação e ilustração históricas. Algumas das suas principais pinturas a óleo e aguarelas encontram-se expostas no Museu de Marinha e foram reproduzidas em vários livros de referência, na Revista da Armada e outras publicações das Forças Armadas Portuguesas. Na verdade, destacou-se também na investigação e inventariação de uniformes militares, publicando a obra em 3 volumes “O Uniforme Militar na Armada – Três Séculos de História” (1983), profusamente ilustrado com aguarelas da sua autoria.

A valorização da cultura popular trazida pelo 25 de abril de 1974 (3) suscitou um crescente interesse pelas atividades tradicionais ligadas ao mar e aos rios portugueses, que já eram estudadas devotadamente pelo Arquiteto Octávio Lixa Filgueiras  (Foz do Douro, 1922-1996), entre outros (4). Estes esforços inseriam-se num movimento mais alargado de valorização, estudo e promoção do Património Cultural nacional, mais além dos tipicismos provinciais propostos pelo Estado Novo (casas e trajes típicos), com boa resposta dos ilustradores. A nova abordagem, por ser mais científica, suscitou um realismo mais preciso e direcionado da representação, um realismo documental com preocupações etnográficas – do qual Fernando Galhano (Porto, 1904-1995) é um bom exemplo, ilustrando sistematicamente a investigação de Ernesto Veiga de Oliveira. Galhano foi um elemento fundamental no grupo criado em 1947 por Veiga de Oliveira para renovar os estudos etnográficos em Portugal.

As preocupações neorrealistas de muitos artistas já haviam chamado à tela (na pintura mas também no cinema) a vida difícil dos pescadores nas praias e portos portugueses ou enfrentando tempestades no mar alto abraçando apenas a boia da devoção religiosa, ou quase perdidos nas brumas e águas geladas da Terra Nova, onde pescavam o bacalhau à linha a bordo de pequenas embarcações individuais, os “dóris”. São verdadeiros tesouros do cinema nacional filmes como “Douro, Faina Fluvial” (Manuel de Oliveira, 1931), “Ala Arriba!” (Leitão de Barros, 1942) ou “Nazaré” (Manuel de Guimarães, 1952) – que podem ser vistos acionando os respetivos links (5) – mas foram inúmeros os pintores que escolheram como tema a condição social do pescador português: Souza Pinto, Júlio Pomar, Avelino Cunhal, Augusto Gomes, Tomás de Melo, Guilherme Camarinha, entre outros.

A melhoria das condições económicas, a invasão das praias pelo turismo de verão e a caudalosa legislação comunitária que penalizou fortemente as atividades marítimas tradicionais, reduziram a pesca artesanal e as atividades agromarítimas a curiosidades turísticas, postal ilustrado e a cores de um país folclórico que na realidade já não existe. E seguindo a moda do postal ilustrado, a pintura imita a fotografia – como acontece (e bem) com as pinturas fotorrealistas de António Delfim. Nem por acaso, foi-lhe atribuído em 2000 o 1º Prémio de Pintura da Academia de Marinha – o braço cultural da Marinha Portuguesa.

Apesar das questões que possam ser colocadas relativamente às preocupações realistas da representação de navios e barcos após o aparecimento da fotografia a cores e dos milagrosos programas e aplicações informáticas para otimizar a informação visual nas fotografias digitais, acresce sublinhar a estreita ligação entre a investigação histórica – no caso, no âmbito da arqueologia naval – e o trabalho do ilustrador/artista. Se esse inventário visual, essa recolha documental mobilizando o desenho e a pintura, fazia sentido antes do aparecimento da fotografia, por serem então os únicos meios para recolher imagens da realidade envolvente, continua hoje a fazer sentido pois a fotografia existe mas os navios desapareceram. Muitas Câmaras Municipais, Museus e Associações têm promovido a recuperação e/ou a construção de réplicas de embarcações tradicionais (6), a criação de pequenos museus e núcleos museológicos, a realização de encontros temáticos, demonstrações náuticas e reconstituições históricas. Todos os esforços serão poucos para preservar o que ficou à nossa guarda, a mensagem que herdámos e que deve necessariamente passar aos nossos filhos e netos. Se mais não for, para sabermos o que se perdeu com o que ganhámos. Ou vice-versa.
SR
(Parte I - "Sobre a Pintura de Cenas Marítimas..."; Parte II - "Veleiros e Vapores"

João Vaz, Praia de Espinho, óleo s/tela

José Júlio de Souza Pinto, A Vinda dos Barcos, 1891, óleo s/tela

Guilherme Camarinha, Faina Fluvial no Douro, 1962, óleo s/tela

Alberto Sousa, Praia com Barco de Pescadores, 1953, aguarela

Cândido Teles, A Arte da Xávega, 1984, pintura sobre tela

Alberto Cutileiro, “Nau Frol de la Mar “ do séc. XVI, 1960, óleo s/tela, Messe de Oficiais de Cascais. A “Frol de la Mar” (Flor do Mar) era na realidade um galeão. Foi utilizada na carreira da Índia e nas conquistas de Goa e Malaca. Naufragou em 1511.

Roque Gameiro, Praia de Vieira de Leiria, aguarela

Humberto Santos, Barco junto da Ponte de Requeixo, arte digital. A ponte de Requeixo situa-se na confluência do rio Cértima com o rio Águeda

António Delfim, “Limpando o Barco”, óleo s/tela

Notas:

(1)-O arquiteto Telmo Gomes realizou várias exposições de pintura e ilustrou alguns livros sobre navios e navegação, com destaque para a sua obra “Navios Portugueses - Séculos XIV a XIX”, Edições Inapa, 1995.

(2)-Com destaque para o Museu de Marinha, que celebra 150 anos, e para o Museu Marítimo de Ílhavo, fundado em 1937. Entre os museus municipais, a título de exemplo, refiram-se o Museu Municipal de Etnografia e História da Póvoa de Varzim, fundado por Santos Graça em 1937, o Museu Dr. Joaquim Manso na Nazaré, o Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal e o Museu Etnográfico Regional de Faro.

(3)-O sucesso da Revolução deve-se à coragem e determinação dos Capitães de Abril mas, sobretudo, ao enorme apoio popular que se fez sentir nas ruas e inspirou a aliança Povo-MFA. Esta aliança informal, tida pelos militares como compromisso de honra e pelos partidos progressistas como base programática, consolidou-se desde logo com a satisfação das principais aspirações das classes desfavorecidas, através da melhoria das condições de vida, campanhas de alfabetização e diversas iniciativas de valorização e promoção da cultura popular.

(4)-A. Cabral Neves, A. Gomes da Rocha Madahil, António Santos Graça, D. José de Castro, Ernesto Veiga de Oliveira, Fernando Galhano, Luís de Magalhães, Manuel Silva, Vicente de Almeida d’Eça,…

 (5)-"Douro, Faina Fluvial" (1931); “Ala Arriba!" (1942); “Nazaré” (1952). Mas também o famoso “Maria do Mar” (Leitão de Barros, 1930), a primeira docficção portuguesa, ainda no tempo do cinema mudo, “Quando o Mar Galgou a Terra” (Henrique Campos, 1954) filmado na Ilha de São Miguel, Açores, e "Avieiros" (Ricardo Costa, 1975).

(6)-Por exemplo, a Junta de Freguesia de Lanheses (Barco d’Água Acima do Rio Lima, 2010), o Clube Naval Povoense e a CM da Póvoa de Varzim (Lancha poveira, 1991), Núcleo Museológico de Vila Chã, Vila do Conde (2 Catraias poveiras, 2011 e 2012), CM Nazaré (Barca do Galeão, Neta ou Barco da Xávega, Barco do Candil), CM do Montijo (Varino, 1981), CM do Barreiro (Varino), CM Seixal (Fragata), CM Sesimbra/Clube Naval de Sesimbra (Barca "Santiago", 1998), CM Alcácer do Sal e Reserva Natural do Estuário do Sado (3 Galeões do Sal); CM Olhão (Caíque “Bom sucesso”, 2002). Em muitos portos, inclusive na Madeira e Açores, várias empresas tên recuperado antigas embarcações de pesca e transporte para fins turísticos.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Prémio Abel Manta de Pintura 2013




As luminosas sinfonias visuais de Alberto D’Assumpção


Na Casa Municipal da Cultura de Seia

Alberto D'Assumpção, “Arco-íris”, óleo s/tela

Sedimentos de um céu perdido” é o título da exposição de pintura de Alberto D’Assumpção que decorre nas galerias da Casa da Cultura de Seia até 30 de agosto (1), um título recuperado de uma exposição na Livraria Barata em 2003, mas vou buscar à exposição anterior, na Galeria Vieira Portuense (2012), a expressão feliz que me parece intitular melhor a interessante obra do artista: “Sinfonia Luminosa”. “Sedimentos de um céu perdido” é uma excelente exposição mas, a meu ver, merecia um som ambiente adequado, que este tipo de imagens inevitavelmente sugere: experiências sonoras e musicais fraturantes da área da música estocástica (gerada por processos matemáticos) e eletrónica.

O imaginário de Alberto D’Assumpção explora o Universo de geometrias dinâmicas emergindo das profundezas escuras do cosmos, irradiando energia – luz e movimento. Tal como seu pai, Manuel Trindade D'Assumpção (1926-1969), possui um grande poder de composição e cromatismo, embora na área do abstracionismo geométrico, assim como esmerado domínio da técnica a óleo.

Alberto D’Assumpção nasceu em Lisboa em 1956 e reside em Ponte, Guimarães. Expõe regularmente desde 1989, dedicando-se em exclusivo à pintura em 1990.


É membro da Royal Society of Arts (RSA), de Londres. Com os artistas Adrian Bayreuther, Constantin Severin, Izabella Pavlushko, Olga Dmytrenko e Philippe Nault constitui o Grupo Internacional “3º Paradigma”. É igualmente membro da Sociedade Portuguesa de Autores, do International Illustrated Letter Writing Society, do grupo “Artists For Peace” e do “Archetypal Expressionism.

(1)-Sugere-se um contacto prévio com a Casa da Cultura pois vem constando que o seu horário de funcionamento vai ficar muito limitado em agosto (!!!) - Telf.: 238 310 293 / 238 310 230.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Sobre a pintura de cenas marítimas, navios e batalhas navais

Nos 150 anos do Museu de Marinha (22 de julho 1863-2013)

Parte II - Veleiros e vapores

João Pedrozo, "Fragata, Barco do Tejo", 1868, gravura

As viagens e expedições científicas mas sobretudo a revolução industrial e os seus reflexos económicos e militares, impulsionaram até ao limite a construção naval e a navegação no século XIX. A concorrência do comboio reduziu drasticamente o tráfego fluvial mas o transporte internacional de matérias-primas e mercadorias continuou exclusivamente a fazer-se por mar, até se tornar confiável deslocar grandes cargas por meios aéreos, no início do século XX.

Graças às boas relações comerciais internacionais com diversos países e aos frequentes contactos por via marítima com as colónias ultramarinas, o litoral português de oitocentos viveu numa azáfama marítima constante. Na falta de portos, como hoje os entendemos, os grandes veleiros e os navios a vapor ancoravam ao largo ou em rios profundos, sendo grande a movimentação de barcos que asseguravam o transporte de passageiros e mercadorias, para além dos milhares de barcos de pesca que procuravam diariamente o mar, acolhidos em praias ou em pequenos portos naturais.

“Vista da Serra do Pillar e ponte pênsil sobre o rio Douro na Cidade do Porto”, por Joaquim Mestre das Neves, realizada entre 1842 e 1852. Os perigos que rodeavam a entrada dos grandes navios na barra do Douro exigiram a construção de um verdadeiro porto de mar, em Leixões. O naufrágio do vapor “Porto” (à direita, na imagem) em 1852, apressou a decisão. O problema não existia em Lisboa pois o estuário do Tejo é um imenso porto natural.

A pesca artesanal com artes tradicionais foi progressivamente abandonada na segunda metade do século XIX junto dos grandes centros urbanos, onde estavam concentradas as indústrias e vivia a população operária, devido à concorrência dos grandes armadores que forneciam a indústria conserveira entretanto instalada em Portugal (1) e à correspondente melhoria das condições de trabalho, que atraíram os jovens pescadores (2).

Tal como aconteceu noutros países europeus, os aspetos negativos da revolução industrial suscitou grandes divisões na burguesia – afinal a classe onde nasciam e labutavam os conservadores mais radicais e os revolucionários mais apaixonados. Para muitos, eram inegáveis as vantagens do progresso, que devia ser intensificado a todo o custo, enquanto outros condenavam a “desumanização” trazida pelo desenvolvimento industrial desenfreado e defendiam a reconciliação do homem com a natureza, o regresso aos valores do passado, a começar pela literatura, arte e arquitetura (3). Em 1846, Almeida Garrett apresentou a questão pela perspetiva liberal em “Viagens na Minha Terra”, obra muito divulgada à época,  mas, poucas décadas depois, Eça de Queirós mobiliza o melhor do seu realismo crítico em “A Cidade e as Serras”, para dar conta das perplexidades burguesas do final de século. As críticas à industrialização eram então mais consensuais (4) e os valores rústicos ancestrais começavam a parecer mais autênticos e encantadores – à distância, quase esquecidas as provações e privações que moldaram esses valores ao longo de um século marcado por invasões francesas, a fuga da família real para o Brasil, revoltas populares, traições inomináveis, lutas fratricidas… e finalmente o ultimato inglês, que colocou todo o país em pé de guerra e originou o hino nacional extremamente belicista que ainda hoje cantamos.

Em suma, o século XIX acaba por fundamentar as conquistas científicas e os avanços tecnológicos com o estudo apaixonado dos factos do passado, centrado nos grandes momentos históricos da nacionalidade, muito particularmente através de Alexandre Herculano e Pinho Leal. Acompanhando os tempos, as Academias de Belas-Artes de Lisboa e do Porto foram criadas com um plano de estudos que incluía cadeiras de Desenho Histórico, Pintura Histórica, Gravura Histórica, Arquitetura Civil e Naval. Por outro lado, a crescente democratização da arte (em marcha desde o século XVIII, graças ao acesso mais alargado à obra artística, sobretudo através da gravura, e multiplicação de museus), promoveu o conhecimento artístico e vulgarizou a prática do desenho.

Ao longo de todo o século, os principais artistas portugueses abordam quase obrigatoriamente o tema da paisagem marinha, os pescadores e os seus barcos na praia, privilegiando a expressão sensível dos ambientes de mar e alegorias marítimas. No entanto, graças aos contactos privilegiados entre Portugal e Inglaterra, começou a ser conhecida em Portugal a obra de pintores de marinha ingleses, que não instigou imediatamente a representação pictórica dos grandes navios portugueses da época mas contribuiu para inspirar as gerações seguintes.

Na segunda metade do século XX, fruto do conhecimento científico e da valorização crescente dos factos históricos do passado, desenvolvem-se os estudos sobre os descobrimentos portugueses, ao nível da publicação de fontes e de algumas obras de referência, em parte justificadas com o 4º Centenário de Colombo (1492-1892) e com o forte envolvimento da Academia Real de Ciências de Lisboa: “Os Descobrimentos Portugueses e os de Colombo”, de Pinheiro Chagas, e “Estudos Sobre Navios Portugueses dos Séculos XV e XVI”, do comandante Henrique Lopes de Mendonça – oficial da Marinha, historiador, arqueólogo naval e escritor, celebrado autor da letra do Hino Nacional, “A Portuguesa”.

Entre os diversos oficiais de Marinha que começaram então a debruçar-se sobre os navios dos Descobrimentos, avulta o Contra-almirante João Brás de Oliveira  (1851-1917), professor auxiliar de Desenho de Hidrografia e de Construção Naval. Interessado pela História e pela arqueologia naval, mobilizou as suas competências na área do desenho e da pintura para representar e dar a conhecer os navios dos séculos XV e XVI. Realizou conferências e publicou as suas teorias e desenhos, com destaque para “Os Navios das Descobertas”, com quinze ilustrações da sua autoria.

O Capitão de navio Luís Ascêncio Tomasini (1832-1902) foi igualmente um pintor reconhecido, embora tardio, dedicando-se por inteiro à pintura de marinhas e navios após se retirar da vida do mar, durante a qual foi realizando diversos apontamentos visuais e estudos. A obra de Tomasini encontra-se representada no Museu de Marinha através da pintura "Barcos no Tejo perto da Torre de São Julião da Barra", de 1885.

Na pintura portuguesa de então, destaca-se o pintor, gravador e desenhador João Pedrozo (Lisboa, 1825-1890), especializado na representação de navios, com obras expostas no Museu de Marinha.

Pintores como Silva Porto (Porto, 1850-1893), Alfredo Keil (Lisboa, 1850-1907) ou João Vaz  (Setúbal, 1859-1931) exploraram o tema dos barcos tradicionais do Tejo, de inegável beleza e complexidade náutica – como a Muleta, que envergava diversas velas na faina para melhor manobrar as redes de arrasto à deriva. A Muleta foi, aliás, um dos barcos do Tejo mais representados, em pintura, aguarela, desenho ou gravura.

Falando de pintura de navios e cenas de mar, não poderíamos esquecer o inegável mestre ibérico, Rafael Monleón y Torres (Valencia, 1843-1900), que foi piloto náutico antes de tornar pintor e conservador do Museu Naval de Madrid. A sua obra pode ser vista no Museu do Prado e influenciou a pintura ibérica do género, que se tornou mais exata e rigorosa, com interesse estético, plástico e documental. Todas as publicações espanholas sobre barcos e navegação reproduzem obras suas pois pintou exaustivamente a história da navegação e a história naval de Espanha para o Museu Naval de Madrid, que acolhe grande parte dos seus trabalhos.

Outro pintor famoso, com obras em museus navais um pouco por todo o mundo, inclusive no Museu da Marinha, em Lisboa, é Antonio Jacobsen  (1850-1921), um pintor dinamarquês naturalizado americano, especializado em embarcações a vapor – que deixaram má memória no Porto em 1852. Exatamente 43 anos depois do desastre da ponte das barcas (29 de março de 1809), o vapor “Porto” naufragou à entrada da Barra do Rio Douro, tirando a vida a 61 pessoas. O desastre chocou o país, lançando dúvidas sobre o rumo do progresso. A segurança dos novos transportes era então quase inquestionável mas os passageiros do vapor acabaram por perder a vida num acidente à vista de terra, aguardando pelo socorro que chegou demasiado tarde pois o salva-vidas da Foz tinha sido desativado.

O famigerado vapor “Porto” navegando no rio Douro (pormenor de uma gravura da época)

Apesar da atribulada história do século XIX português, os últimos monarcas de Portugal prestaram particular atenção aos assuntos do mar. Foi criado o primeiro Ministério da Marinha (5), realizou-se um importante inventário das pescas em Portugal (6) e o rei D. Carlos I impulsionou a oceanografia portuguesa. Os monarcas D. Fernando II, D. Luís I e D. Carlos I foram, aliás, grandes entusiastas das artes e apreciavam a pintura de temas ligados ao mar. D. Luís abriu a primeira galeria de arte em Portugal (7) e fundou o Museu de Marinha, que celebra 150 anos de existência em 2013 (22 de julho). D. Carlos revelou-se um notável pintor naturalista, sobretudo na aguarela. Aguardava-o, porém, um triste destino – assim como à família real.

Os últimos instantes de D. Manuel, D. Amélia e D. Maria Pia em solo pátrio, no areal da Ericeira, foram divulgados pelos republicanos através de fotografias e ilustrações publicadas na imprensa da época. Nessa tarde do dia 5 de outubro de 1910, a família real embarcou precipitadamente no Iate “Amélia” IV recorrendo a um simples barco de pesca para os conduzir ao navio.

(Parte I - Sobre a pintura de cenas marítimas, navios e batalhas navais"; Parte III - Saudades do Mar)

 Silva Porto, “Barcos Ancorados” (Varinos no Tejo)

Alfredo Keil, “Cacilhas”, óleo s/tela

 João Vaz, “Muleta do Barreiro”, óleo s/tela

 Braz de Oliveira, “Bergantim – 1510”, 1894, desenho à pena. Navio de vela e remos, com um ou dois mastros de galé, utilizado pelos portugueses no Oriente desde o século XVI.

 Luís Ascêncio Tomasini, "Barcos no Tejo perto da Torre de São Julião da Barra", 1885.

 Rafael Monleón yTorres, “A Fragata Numancia”, 1867, óleo s/tela. A fragata blindada Numancia devolveu aos espanhóis o orgulho naval perdido em Trafalgar. Foi o primeiro navio de guerra a circum-navegar o mundo, em 1867. Em 1916, encalhou junto a Sesimbra e foi desmantelada no local mas ainda se encontram restos do outrora imponente navio de guerra espanhol a 5/6 metros de profundidade.


João Hilário Pinto de Almeida, Muleta navegando a todo o pano, desenho. João Almeida ilustrou abundantemente o relatório do comandante Baldaque da Silva sobre o “Estado Actual das Pescas em Portugal, comprehendendo a pesca marítima, fluvial e lacustre em todo o continente do reino, referido ao anno de 1886”, Imprensa Nacional, 1892.


 Antonio Jacobsen , “Vapor Dona Maria”, 1897, óleo s/tela, Museu de Marinha, Lisboa

 D. Carlos de Bragança, “Iate D. Amélia”, Sesimbra, 1897. Comprado em segunda mão, o navio foi batizado com o nome da futura rainha de Portugal, D. Amélia, servindo de base móvel aos primeiros trabalhos oceanográficos de D. Carlos. Devido à pouca estabilidade da embarcação, o que comprometia algumas pesquisas científicas, D. Carlos trocou este Iate por outro, também batizado como “D. Amélia”.

Notas:

(1)-Devido à abundância e qualidade do pescado mas, sobretudo,  à escassez de sardinha na costa bretã, os franceses vieram instalar as primeiras fábricas de conservas em Portugal

(2)-Os armadores usavam o cerco americano, arte que usava enormes redes para cercar e capturar os cardumes. Cada armação envolvia vários barcos, cada qual com a sua função, e mobilizava dezenas de pescadores, com salário certo, e diversos auxiliares em terra. As grandes embarcações de pesca com cerco americano foram substituídas cerca de 1920 pelos Vapores do Cerco, grandes traineiras a vapor que empregavam uma companha de 40 a 50 homens cada, logo substituídos pelas traineiras a diesel. Devido à dificuldade em obter gasóleo durante a guerra, os vapores continuaram a carvão até finais da década de 1940.

(3)-Desde logo o romantismo, com os seus diversos desenvolvimentos geográficos. Em Inglaterra, as ideias de John Ruskin estão na base da ação dos pintores Pré-Rafaelitas, a primeira vanguarda artística a merecer essa designação. Ruskin desenvolve a sua teoria a partir da comparação de dois monumentos venezianos (“The Stones of Venice”, 1851-53), erguidos frente a frente e representando a melhor arquitetura de duas épocas bem distintas: a Idade Média e o Renascimento. Ruskin conclui preferir a primeira, apoiando movimentos revivalistas como o neogótico e o neorromânico. Em Portugal, os principais estilos revivalistas na arquitetura foram o neomanuelino e o neoárabe.

(4)- As cidades tornaram-se ruidosas e inseguras para o gosto burguês conservador, bonacheirão e pacto, incentivando quem pode a procurar refúgio fora delas, nas quintas dos arrabaldes. Os bairros operários tornaram-se em pouco tempo espaços sobrelotados, insalubres, focos de doenças e de indigência No final do século XIX, uma epidemia de peste bubónica alastra no Porto, com origem nas “ilhas” (bairros operários).

(5)- Em meados do séc. XIX, a Secretaria de Estado dos Negócios da Marinha passou a Ministério em Portugal, com a designação de Ministério da Marinha e Ultramar. Mudou novamente de nome em 1910 mas, com a criação do Ministério das Colónias em 1911, passou a designar-se Ministério da Marinha. Pode conhecer os navios da Marinha portuguesa no séc. XIX aqui e aqui.

(6)-“Estado Actual das Pescas em Portugal”, A. A. Baldaque da Silva, Lisboa, Imprensa Nacional, 1892. Exaustiva, a obra inclui um precioso vocabulário náutico (capítulo XIV).

(7)-Apaixonado pela pintura, D. Luís criou uma coleção de obras da artistas famosos, portugueses e estrangeiros, e abriu ao público a primeira galeria de arte, que funcionou durante cerca de seis anos, antes da existência de qualquer museu. Apesar de ter sido um rei constitucional, com poderes limitados, o reinado de D- Luís I teve um saldo  muito positivo. Basta lembrar a abolição da pena de morte para crimes civis (o código de justiça militar manteve-se em vigor) e a abolição da escravatura, que fizeram de Portugal um dos pioneiros dos direitos humanos. Mas também o início das obras dos portos de Lisboa e Leixões e a construção do Palácio de Cristal no Porto - que acolheria a Exposição Internacional do Porto em 1865.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Sobre a pintura de cenas marítimas, navios e batalhas navais


Nos 150 anos do Museu de Marinha (22 de julho 1863-2013)

Armada que levou a Itália a Infanta D. Beatriz em 1521. Pintura atribuída a Gregório Lopes.

No século XV e XVI, Portugal foi uma das principais potências marítimas graças à sua construção naval, conhecimentos de navegação, espírito aventureiro, determinação expansionista. A relação com o mar moldou a nossa história e cultura, mantendo-se ao longo de séculos a influência portuguesa nos mais diversos cantos do mundo, visitados e ocupados pelos portugueses. No entanto, a construção naval portuguesa está hoje paralisada, dispomos de uma Marinha modesta (ver lista de navios), a frota pesqueira foi drasticamente reduzida por imposição comunitária e/ou interesses industriais e verificam-se elevados índices de desocupação dos pescadores, frequentemente impedidos de sair ao mar (1), assim como de subaproveitamento de técnicos e investigadores - apesar da enorme área marítima portuguesa e dos vastos recursos por explorar. Claro que vai longe o tempo em que Portugal e Espanha dividiram entre si o mundo descoberto e a descobrir (Tratado de Tordesilhas, 1494), razão pela qual ainda hoje o castelhano e o português se encontram entre as línguas mais faladas em todo o mundo (2), mas a atual área marítima portuguesa é 18,7 vezes a área terrestre nacional, o que coloca o mar português nas principais rotas marítimas atlânticas.

Ao contrário de antigas e modernas potências marítimas como a França, Inglaterra, Holanda ou EUA, Portugal não tem tradição de pintura de navios históricos, navegação e batalhas navais. Nesses países, o tema do mar e da navegação abrange a pintura do mais diverso material flutuante e a atividade de pintor de assuntos marinhos é prestigiada a ponto de existirem cargos especializados nos respetivos museus marítimos e associações nacionais que promovem especificamente o trabalho desses artistas. A título de exemplo, refira-se a  American Society of Marine Artists (EUA), Association des Peintres Officiels de la Marine (França); Australian Society of Marine Artists (Austrália); Dutch Society of Marine Artists (Holanda); Les Peintres de Marine Belges; Royal Society of Marine Art (Grã-Bretanha). Em Portugal e Espanha, os pintores que se dedicam a esta especialidade da pintura marinha encontram-se dispersos pelas associações genéricas.

A representação de embarcações através de desenhos, pintura e escultura (incluindo modelos em barro e madeira), remonta pelo menos a 12 000 a.C. (petróglifos em Gobustan, Azerbeijão) mas a pintura de cenas marítimas com navios e batalhas navais sistematizou-se nos séculos XV e XVI graças aos pintores flamengos, como Jan van Eyck (1380/90-1441) e Pieter Breughel / Breugel (1525-1569) antes do seu período dourado, entre os séculos XVII e XIX. Os pintores flamengos (atual Bélgica e Holanda) revolucionaram a pintura europeia com os seus jogos de luz, limpidez da imagem pintada, atenção ao pormenor.

Gaspard van Eyck (1613-1673), “Paisagem Marítima”, c.1650, oleo s/tela

Em Portugal, a epopeia dos descobrimentos inspirou e acompanhou grande parte da arte portuguesa desde a tomada de Ceuta (1415), descrita no final do séc. XV numa das célebres tapeçarias de Pastrana (3), realizadas nas oficinas flamengas de Tournai. Pelo menos duas obras do início do século XVI, atribuídas ao pintor régio Gregório Lopes (c. 1490-1550), atestam as capacidades representativas da pintura portuguesa de então. Uma delas, pertencente ao Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa, mostra todo o pormenor de uma carraca (4) de três mastros, com destaque para o aparelho das velas. A outra pintura, que alguns estudiosos atribuem ao holandês Cornelis Anthonisz, representa a portentosa carraca Santa Catarina do Monte Sinai que, em 1521, levou a Itália a Infanta D. Beatriz (filha de D. Manuel I) para o seu casamento com Carlos III de Sabóia e conduziu Vasco da Gama à Índia, em 1524, para assumir o cargo de viso-rei.

No entanto, a mais impressionante obra de representação de navios produzida no século XVI e que chegou até aos dias de hoje, deve-se aos ilustradores anónimos que realizaram por encomenda o levantamento de todos os navios das armadas da carreira da Índia entre o ano da viagem de Vasco da Gama, 1497, e 1567: os códices “Livro de Lisuarte de Abreu” (1565) – que inclui desenhos de batalhas navais entre navios portugueses e galés turcas – e o imediatamente posterior “Livro das Armadas” (5). Os códices mostram desenhos esquemáticos a cores, de paleta muito reduzida, mas com algum pormenor, evidenciando semelhanças com as representações flamengas da época (por exemplo, Pieter Breughel). Embora as representações do livro de Lisuarte de Abreu (que encomendou a primeira parte da obra) tenham sido feitas no oriente, por terem resultado de uma encomenda do Governador da Índia, a linguagem gráfica é claramente ocidental. Apesar da influência europeia levada pelos portugueses, os artistas locais mantinham-se fiéis aos princípios da arte oriental – como acontecia no Japão com a Arte Namban, nesse mesmo século XVI.

Pieter Brueghel, “Batalha Naval no Golfo de Nápoles (O Porto de Nápoles)”, c.1558, óleo s/madeira

“Livro das Armadas”, ano de 506, página 10 do códice. “No ano de 506 – Partiram para a Índia a seis de março Tristão da Cunha e Afonso de Albuquerque, por capitães-mores de 16 velas (…)”

A pintura flamenga expandira-se pela Europa, influenciando a pintura praticada em diversos países, inclusive Portugal, e na Inglaterra, onde adquiriu particular expressão graças ao pintor holandês Willem van de Velde (c. 1611-1693). Chamado a Londres para pintar algumas obras para o rei Carlos II, van de Velde acabou por fixar os parâmetros da pintura de marinha britânica, com as paisagens de mar e os navios da época. A novidade foi bem acolhida por comerciantes e capitães, que contratavam pintores para pintar os seus navios e acompanhá-los nas suas viagens, sobretudo no século XVIII. O prestígio e os lucros do ofício somados à oportunidade de viajar e conhecer o mundo, tornaram o cargo apetecível entre os artistas, aumentando a concorrência e a especialização dos pintores – e desenhadores. Um dos mais conhecidos foi William Hodges (1744-1797), que acompanhou o Capitão James Cook, e os mais representativos pintores do século XVIII britânico pintaram a bordo de navios:  Robert Cleveley (1747-1809), George Chambers (1803-1840), Nicholas Pocock (1740-1821) e Thomas Luny (1759 – 1837). Outro importante cliente – antes dos museus navais que começavam então a surgir um pouco por toda a Europa – era o Almirantado. 

Em França, Luís XV encarregou Claude-Joseph Vernet  (1714-1789) de pintar os portos do reino em 1753, incumbência que despertou a atenção dos franceses para esse género de pintura. Os quadros de Vernet constituem importantes documentos visuais sobre as cidades portuárias dessa época e o seu sucesso originou a criação do cargo de pintor da Marinha. Em 1830, seriam nomeados dois, número que sobiu para quatro em 1860 – sendo um deles Morel-Fatio, autor de um quadro existente no Museu de Marinha sobre “A Batalha Naval do Cabo de São Vicente”, travada a 5 de julho de 1833 entre a esquadra de D. Miguel e a de D. Maria II. Tal como acontecera na Inglaterra, muitos pintores franceses do século XIX procuraram especializar-se nesse género de pintura e disputaram entre si os títulos de pintor oficial da Marinha. A confusão era tal que o governo se viu obrigado a decretar, em 1901, o número máximo de 20 pintores e, em 1920, a legislar sobre o estatuto do pintor de marinha.

Em Portugal, os artistas que armavam os cavaletes nas praias e portos nacionais para pintar paisagens marinhas e barcos de pesca varados na praia, ficaram – é adequado dizê-lo – a “ver navios”. 

(Parte II: “Veleiros e vapores”; Parte III: Saudades do Mar)

Notas:

(1)- “Entre 2001 e 2011, a população empregada na pesca diminuiu 18,0%” (menos 2 892 empregos). No que respeita a embarcações, 4 653 embarcações tiveram autorização para operar em 2012. Em 2011, foram abatidas 68 embarcações em 2011 e 123 em 2012, sobretudo de grande porte, o que representa um aumento de 140% em relação a 2011. Fonte: INE e DGRN, “Estatísticas da Pesca – 2012”.

(2)-2º e 4º, respetivamente, em número total de falantes, segundo o Observatório da Língua Portuguesa.

(3)-A exposição “A invenção da glória - D. Afonso V e as tapeçarias de Pastrana” esteve patente em 2010 no Museu Nacional de Arte Antiga. Uma das tapeçarias descreve a entrada dos portugueses em Ceuta e outras três narram a conquista de Arzila e Tânger (1471) com uma linguagem próxima da banda desenhada. As tapeçarias foram encomendadas para glorificar o reinado de D. Afonso V mas não chegaram a Portugal, ficando à guarda da Colegiada de Pastrana.

(4)-A carraca era uma nau de grande porte, o maior navio do seu tempo. Era utilizada para transporte de mercadorias, armada com peças de artilharia de vários calibres.

(5)-Pertence à The Pierpont Morgan Library, Nova Iorque, o “Livro de Lisuarte de Abreu” regista o nome de quem encomendou a primeira parte da obra. A terceira parte, a representação das armadas, foi realizada por ordem do Governador da Índia e abrange as Armadas desde 1497 e 1563. O “Livro das Armadas” ("Memória das Armadas que de Portugal passaram à Índia") existente na Academia das Ciências de Lisboa é uma representação exaustiva das naus das Armadas da Índia (e do que lhes sucedeu na viagem) entre 1497 e 1567.

(6)- Em meados do séc. XIX, a Secretaria de Estado dos Negócios da Marinha passou a Ministério em Portugal, com a designação de Ministério da Marinha e Ultramar. Mudou novamente de nome em 1910 mas, com a criação do Ministério das Colónias em 1911, passou a designar-se Ministério da Marinha.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Susana Chasse e Henrique do Vale distinguidos em Marco de Canavezes


Susana Chasse, "A Ponte" (Prémio Carmen Miranda 2013)

O Prémio Carmen Miranda 2013 foi atribuído à obra “A Ponte”, de Susana Chasse.  O júri atribuiu ainda uma Menção Honrosa a "A cana é boa às vezes", de Henrique do Vale (Malange, Angola, 1959).

Das numerosas obras a concurso, subordinado aos temas "Marco de Canaveses - a História e o Património do Concelho" e "2013 Ano Europeu dos Cidadãos", foram selecionadas 17  para a exposição, a decorrer de 14 de julho a 4 de agosto 2013 no Museu Municipal Carmen Miranda, no Marco de Canaveses.

Artistas com obras selecionadas: André Lemos Pinto, Balbina Mendes, Daniel David, Dulce Cariano, Emília Viana, Fábio Dias, Gabriel Marques Costa, Henrique do Vale, José Santos, Keshav Malla, Miguel Neves Oliveira, Miguel Tepes, Silvério Cardoso, Susana Chasse e Susana Ribeiro.

Susana Chasse nasceu em Lisboa em 1972. Mestre na área de Design e Cultura Visual no IADE, o seu currículo refere ainda um Curso de Desenho da Sociedade Nacional de Belas Artes. Lecionou Desenho nessa instituição durante anos e leciona atualmente o Nextart, em Lisboa. Foi Diretora de Arte em agências de publicidade e comunicação e Comissária de Programação da Trienal de Desenho 2012.
Participou em diversas exposições coletivas de artes plásticas e expôs individualmente em Lisboa (“Open Links”, 2007), na Pousada de Santa Marinha (2005) e no Convento dos Cardaes (“Relembrar”, 2005).
Premiada em Lérida – Espanha, Granada – Espanha e Bragança com 3ºs prémios de pintura, em 2013, 2012 e 2007, respetivamente..


As praias portuguesas na Pintura

II Parte
(I Parte: Das paisagens marinhas aos retratos de praia)

José Malhoa, “Dois Artistas Pintando à Beira-mar”, 1918, óleo s/tela

Com 940 quilómetros de costa só no território continental, Portugal não poderia deixar de ter uma grande quantidade de pintores dedicados ao tema do mar e em particular das praias portuguesas, luminosas, de areia quente, água fria e bem iodada no norte, límpida e refrescante no sul.

As paisagens marinhas foram um género de eleição entre os artistas portugueses na viragem do século XIX para o XX, após a introdução do Naturalismo em Portugal por João Marques de Oliveira e Silva Porto na década de 1870 e da projeção que lhe deu o Grupo do Leão. Constituído por artistas que se reuniam na cervejaria Leão de Ouro, em Lisboa, o grupo realizou oito exposições, com muito sucesso.

Columbano Bordalo Pinheiro, “Grupo do Leão”, 1885, óleo s/tela, Museu do Chiado. 
Sentados, da esquerda para a direita: Henrique Pinto, José Malhoa, João Vaz, Silva Porto, António Ramalho, Moura Girão, Rafael Bordalo Pinheiro e Rodrigues Vieira. Em pé, da esquerda para a direita: Ribeiro Cristino, Alberto de Oliveira, o empregado de mesa Manuel Fidalgo, Columbano Bordalo Pinheiro (que se autorretratou de cartola), um desconhecido (o proprietário da cervejaria?) e Cipriano Martins.

Naturalismo surgiu em França como oposição aos ideais do Romantismo, defendendo a representação fiel da natureza, e adquiriu rapidamente uma vertente crítica denominada Realismo – que não teve grande expressão em Portugal. Os temas naturalistas (as paisagens de vários tipos, as cenas rústicas e burguesas, os costumes pitorescos, o retrato, …) eram consensuais: agradáveis e pacatos, mostravam a riqueza paisagística nacional, os monumentos, os grandes vultos e feitos da nossa história, os bons costumes e as tradições nacionais. Os clientes burgueses da pintura queriam que a realidade por eles experienciada perdurasse perante os seus olhos nas paredes das suas salas, permitindo-lhes recordar, com um simples olhar, situações, rostos, emoções, aprender o mundo pelas janelas das imagens. E por se ligar tão bem com a nostalgia nacional, foi apoiada pelo público, adquirida pelos clientes burgueses e pelas mais ilustres instituições do nosso país, instalou-se na academia e vingou pelo século XX dentro em concorrência com o Modernismo.

Os campos e praias nacionais foram assim pintados ao longo de décadas pelos mais merecedores artistas, a começar por Marques de Oliveira (Porto, 1853-1927) e Silva Porto (Porto, 1850-1893), depois João Rodrigues Vieira  (Lisboa, 1856-1898), Manuel Henrique Pinto  (Cacilhas, 1853-1912), José Moura Girão  (Lisboa, 1840-1916), António Carneiro  (Amarante, 1872-1930), António Ramalho Júnior (Barqueiros – Mesão Frio, 1859-1916), Henrique Pousão (Vila Viçosa, 1859-1884), José Malhoa (Caldas da Rainha, 1855-1933), Columbano Bordalo Pinheiro (Lisboa, 1857-1929), José Souza Pinto (Angra do Heroísmo, 1856-1939), Carlos Reis  (Torres Novas, 1863-1940), João Vaz  (Setúbal, 1859-1931), João Cristino da Silva, (1858 - 1948) Agostinho Salgado (Leça da Palmeira, 1905-1967), Mário Augusto (Alhadas - Figueira da Foz, 1895-1941), Luciano Freire  (Lisboa, 1864-1935), Artur Loureiro  (Lisboa, 1850-1907), Alfredo Keil  (Lisboa,  1850-1907), D. Carlos de Bragança (Lisboa, 1863-1908), Aurélia de Sousa (Valparaíso, 1866-1922), Carlos Reis (Torres Novas, 1863-1940), Veloso Salgado (Ourense, 1864-1945), Mily Possoz (Caldas da Rainha,  1888-1968), Falcão Trigoso (Lisboa, 1879-1956), Manuel Jardim (Coimbra, 1884-1923), Augusto Gomes (Matosinhos, 1910 - 1976), Lázaro Lozano (Nazaré, 1906-1999), entre outros. Quase todos pintaram praias e cenas de praia com pescadores, barcos de pesca, banhistas, turistas. Os pintores nascidos em localidades com atividade piscatória tradicional (Augusto Gomes, Agostinho Salgado, Lázaro Lozano, …) captaram com emoção os trabalhos e dramas das gentes do mar. 

A popularização da fotografia a cores retirou atualidade à pintura naturalista. A evolução tecnológica permitiu a comercialização de máquinas fotográficas manuais cada vez mais pequenas, mais baratas e fáceis de usar, assim como filmes mais rápidos e cores mais reais. No entanto, o desenvolvimento vertiginoso do litoral  alterou profundamente em poucas décadas o aspeto das praias´e essa pintura quase esquecida recuperou progressivamente o seu interesse iconográfico. A representação fiel da realidade conferiu-lhe estatuto documental. Os museus municipais e as galerias de arte não desperdiçaram a oportunidade de reanimar a memória dos artistas cujos nomes o público já não recordava, apoiando o regresso da pintura naturalista às montras da cultura e aos mercados da arte. 

Aqui ficam algumas imagens.

 Silva Porto, “Recanto de Praia” /"Portinho da Arrábida, Setúbal", óleo s/madeira

António Ramalho, “À espera dos retardatários – Passeio à Boa Nova”, óleo s/tela, 1887

João Marques de Oliveira, “Esperando os barcos”, 1892

João Vaz, “A Praia”, c. 1890, óleo s/tela, Casa Museu Anastácio Gonçalves

D. Carlos de Bragança, “Praia de Cascais”, 1906, Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves

José Malhoa, “Praia das Maçãs”,1918, óleo s/madeira, Museu do Chiado

Mily Possoz, “Praia de pescadores - Cascais”, 1919, pintura a guache s/papel, Museu do Chiado

António Carneiro, “Praia da Figueira da Foz”, 1921

Falcão Trigoso, Marinha, 1924, óleo s/ madeira

Agostinho Salgado, "A Chegada dos Pescadores - Póvoa de Varzim", 1931, pintura a óleo

Aurélia de Souza, “Barcos de Pesca”, óleo s/tela

Alfredo Keil, “Fitando o Mar Largo”, óleo s/tela

Abel Manta, “Barcos na Nazaré”, 1935, óleo s/madeira

Mário Augusto, "Praia da Figueira da Foz", 1935, Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves

Lázaro Lozano, “Viúvas na praia”, 1946, óleo s/platex, Museu Dr. Joaquim Manso

Augusto Gomes, Composição, óleo sobre tela, FBAUP

Manuel Jardim, “Crianças na praia”, óleo s/madeira, Museu Machado de Castro

Júlio Pomar, “Mulheres na Praia”, 1950, óleo s/ tela, CAM FCG