quarta-feira, 3 de julho de 2013

Michael Landy – Santos ao vivo em Londres



Entre os artistas contemporâneos que reutilizam materiais e partes de objectos usados nas suas criações, destaca-se o britânico Michael Landy (n. Londres, 1963). As suas obras combinam a performance com a instalação e privilegiam a recontextualização, transformando em obra de arte o que parece vulgar e mundano. As suas propostas artísticas complexas e de grande impacto visual ganharam visibilidade no grupo londrino YBA - Young British Artists (Jovens Artistas Britânicos) e colocaram-no rapidamente entre os melhores representantes da Arte Concetual e instalação europeias. Em Break Down (2001), a sua principal obra, Landy destruiu todos os seus bens e objetos pessoais, a maior parte deles insubstituíveis. Outra das suas obras de referência é Art Bin (2010).

Uma série de trabalhos recentes de Michael Landy encontra-se em exposição até 24 de novembro na National Gallery, Londres. Esta exposição, intitulada “Saints Alive” (Santos ao Vivo), é o resultado de uma residência artística do artista na National Gallery. Landy ficou fascinado com as representações sagradas de santos e suas histórias, realizando várias esculturas cinéticas com acumulação de formas diversas e peças de objetos e máquinas. A esculturas são interativas, bastando ao visitante carregar num pedal para lhes dar movimento.
Entre as esculturas expostas pode ser apreciado (e animado) um São Jerónimo ou um São Jorge.


segunda-feira, 1 de julho de 2013

Cascatas de São João, tradição renovada


Joaquim Correia, autor da cascata da Fundação Escultor José Rodrigues (1º Prémio)

A cascata sanjoanina é uma tradição com largas e profundas raízes populares no norte de Portugal, onde o São João é particularmente venerado e inspira alguns feriados municipais. No patamar de uma porta ou no recanto de uma parede, sobrevive a cascata da garotada, mas, em espaços recolhidos ou dentro de portas, a cascata torna-se complexa e mesmo monumental, estática ou com figuras animadas e água a correr.

A Câmara Municipal do Porto organiza todos os anos o Concurso de Cascatas de São João. Em 2013, o concurso registou 26 concorrentes na categoria principal, mais 10 escolas e grupos de apoio a pessoas com necessidades especiais. Os prémios principais foram para a  Fábrica Social - Fundação Escultor José Rodrigues (cascata nº19) e para a Associação dos Moradores da Lomba (cascata nº 14). Foram atribuídas Menções Honrosas às cascatas do Colégio Nª Sª da Esperança (nº 12), de Orlando Sereno Moreira (nº 16) e do Sea Life Porto – Merlin Entertainments (nº 26).

Em Vila Nova de Gaia, uma das cascatas mais famosas é a do Sporting Clube do Candalense. Obra de diversos artesãos e sócios do clube, a cascata apresenta conhecidos monumentos de Gaia, como o mosteiro da Serra do Pilar e a ponte D. Luís, e cerca de 200 figuras em movimento.

Fernando Neto, autor da cascata da  Lomba, Bonfim (2º Prémio)

Cascata do Sporting Clube Candalense, com mais de 200 figuras animadas

Os monumentos à escala são uma característica da cascata do Candal

quarta-feira, 19 de junho de 2013

A marca inconfundível de Yayoi Kusama



A artista japonesa Yayoi Kusama (草間 彌生 ou 草間 弥生) nasceu em 1929 em Matsumoto, Nagano. Conhecida pelas suas obras obsessivas com pontos de várias dimensões e cores e ambientes infinitos, é na realidade uma artista completa, que explorou uma grande variedade de técnicas artísticas ao longo da sua carreira: pintura, desenho, colagem, escultura, performance, instalação, design.

Após estudos artísticos convencionais no Japão, Kusama sentiu-se atraída pela arte ocidental e mudou-se para os EUA em 1958. Aí explorou as mais diversas técnicas artísticas oferecidas pelas vanguardas nova-iorquinas e desenvolveu a sua obra, balizada pela Pop Art, abstracionismo geométrico e Minimalismo. Nos anos 60, as suas ações artísticas radicais em favor da paz e contra a guerra do Vietname colocaram-na na ribalta das artes nos EUA. Começou a pintar grandes telas com padrões repetitivos, que prolongou depois pelas paredes, pelo chão e pelo teto, criando ambientes alucinantes. As suas instalações mais conhecidas caracterizam-se pela acumulação de formas e objetos iguais. Na performance, pintava os participantes com pontos coloridos ou vestia-os com as suas criações estilísticas, integrando-os em ambientes construídos com padrões óticos obsessivamente repetidos.

Regressou ao japão em 1973, dedicando-se também à escrita – contos, romance, poesia. O agravamento dos seus problemas obsessivos levam-na a entrar voluntariamente para uma instituição de tratamento de doenças mentais. Com o apoio de uma equipa de assistentes, dividiu os seus dias entre esse local e o seu atelier, nos arredores de Tóquio, continuando a trabalhar novas ideias e a produzir as obras de arte que lhe asseguram uma posição de destaque na arte japonesa contemporânea.

Em 1993, foi a figura central do pavilhão japonês na Bienal de Veneza, com o seu projeto “Quarto de Espelhos (Abóbora)”. Expôs nas principais galerias de arte internacionais e produziu obras de arte pública para instituições públicas e privadas no Japão (Fukuoka, Naoshima, Matsumoto), França (Lille) e EUA (Beverly Hills). A sua obra encontra-se representada nas coleções de importantes museus, como o Museu de Arte Moderna de Nova York, Los Angeles County Museum of Art, o Stedelijk Museum de Amsterdão, o Centro Pompidou em Paris e o Museu Nacional de Arte Moderna de Tóquio.

Y. Kusama em video (2012)
Site oficial

domingo, 2 de junho de 2013

Num dia como este, nasceu o pintor e arquiteto florentino Niccola Nasoni

Pintura de Niccola Nasoni na Sé Catedral de Lamego

A comemoração dos 250 anos da construção da Torre dos Clérigos constitui uma boa oportunidade para evocar Nicolau Nasoni, a figura e a obra. Em agosto de 2013, passam exatamente 240 anos sobre a sua morte – curiosamente, o número de degraus que conduzem ao topo da Torre dos Clérigos.

Se a obra arquitetónica de Nasoni é numerosa e (re)conhecida (1), a vida do pintor e arquiteto florentino mostra bem a dimensão do artista, um génio da versatilidade, um “camaleão” (2), revelando grande capacidade de adaptação em novos contextos sociais e artísticos. Embora beneficiando de alguma “sorte”, certo é que soube aproveitar as oportunidades e relacionar-se com as pessoas certas, antes e depois de chegar ao Porto, para se tornar um dos mais importantes nomes do Barroco. Se tivesse ficado em Itália, provavelmente não seria hoje conhecido (2).

Os ensaios biográficos sobre Nasoni (3) são geralmente muito breves no que respeita ao pintor Niccolo Nasoni e quase omitem os acontecimentos em Malta, que o trouxeram ao Porto em 1725. Nasceu a 2 de junho, como eu (embora com 267 anos de diferença), a sua obra é admirável e por isso aqui fica, nesta data, este texto de homenagem.

Niccolo Nasoni (1691-1773) nasceu na pequena localidade de S. João de Valdano, então território florentino e atualmente uma localidade da região italiana da Toscânia. Aprendeu a pintar com um mestre local, Vicenzo Ferrati. Em 1709, Nasoni acompanhou Ferrati a Siena, para a realização de um fresco, aproveitando a influência do mestre para se insinuar no meio artístico local. Quando Ferrati morreu, em 1711, Nasoni tornou-se discípulo de um pintor importante, Giuseppe Nasini (1657-1736), com quem trabalhou cerca de uma década, participando na pintura de frescos em Sienna, Bolonha e Roma.

Ferrati e Nasini eram pintores de figura humana e os pintores trabalhavam geralmente em grupo, cada qual ocupando-se de áreas específicas da obra. Terá sido por esse motivo que Nasoni aprendeu a “quadrattura” em Bolonha, uma técnica de representação em perspetiva que intensificava a ilusão da profundidade, o “trompe l’oeil”. Mas por detrás do pintor, revelou-se muito cedo o arquiteto, o criador de composições volumétricas com efeito cenográfico, teatral, ricamente decoradas, embora com dimensões e durabilidade muito longe da monumentalidade secular das grandes obras escultóricas: os famosos aparatos de arquitetura efémera - cadafalsos funerários, arcos triunfais, carros alegóricos para as celebrações e procissões típicas do Barroco. Na Academia dei Rozzi, então uma associação de artesãos e atores de teatro, Nasoni angariou prestígio com essas obras, sendo frequentemente escolhido para orientar os trabalhos artísticos de cerimónias e cortejos.

Siena rivalizava então com Florença e Bolonha, mas havia pouco espaço para os pintores e Nasoni aceitou uma encomenda do grão-mestre da Ordem de Malta, o português D. António Manuel de Vilhena, que mandara procurar pintores para a Catedral de São João de La Valletta e para o seu palácio. Em 1724, Nasoni pintou e assinou um teto no palácio do grão-mestre, que apreciou o trabalho, e terá estabelecido boas relações com outro fidalgo ligado á Igreja Católica, o português D. Roque de Távora e Noronha. Talvez confiando excessivamente nesta proteção ou envolvido num qualquer jogo palaciano, Nasoni atreveu-se a reclamar virulentamente da Inquisição um pagamento em atraso. Acusado de blasfémia, foi encarcerado.

Certamente por influência dos portugueses, em particular D. Roque de Távora e Noronha – a quem o irmão, o deão da Sé do Porto, pedira que lhe mandasse um pintor de excelência – Niccolo Nasoni foi retirado da prisão e enviado para o Porto, após abdicar por escrito de tudo quanto lhe era devido pela Inquisição.

Assim aparece Nasoni no Porto, em 1725, ainda como pintor de frescos e ao serviço de D. Jerónimo de Távora e Noronha, deão da Sé Catedral do Porto. Em 1717, o bispo D. Tomás de Almeida fora nomeado Patriarca de Lisboa (um acontecimento que se repetiu a 18 de maio 2013, com a nomeação de D. Manuel Clemente) e o deão da Sé ficou a liderar a diocese do Porto.

As primeiras tarefas de Nasoni foram as pinturas da sacristia e do altar-mor da Sé do Porto – que dedica, reconhecido, ao seu protetor:

"NICCOLO NASONI FIORENTINO NATURALE DELLA TERRA DI S. GIOVANI VAL DARNO D. SOPRA DIE A DI PINGERE IN QUESTA SE IL 9RE DE 1725 E ORA 1731 E VENE PER MEZZO VENE DEL S.R. DECANO GIROLAMO TAVORA E NOROGNA"

Entretanto, casa em 1729 com Isabel Castriotto Riccardi, uma cantora italiana em trânsito pelo Porto, que faleceu no ano seguinte, ao dará à luz o primeiro filho de Nasoni.
Em Mafra, construía-se então a obra da época, o palácio e convento barroco projetado pelo arquiteto alemão de formação romana, João Frederico Ludovice, obra iniciada em 1717 no meio de grande entusiasmo popular. Portugal vivia um período de grande riqueza, graças ao ouro que chega do Brasil às toneladas, mas as grandes obras concentravam-se na capital e arredores. A cidade do Porto não pretendia ficar para trás e Nasoni vê aí uma oportunidade para aplicar os seus conhecimentos de arquitetura, primeiro em pequenos projetos e depois em obras de grande porte, das fontes e quintas de lazer aos palácios, das capelas às igrejas, beneficiando sempre do apoio do deão da Sé e da sua influência junto das maiores famílias do Porto – que se encontravam ligadas à Igreja através do clero e das Irmandades. A ligação de Nasoni a D. Jerónimo era tal que este foi testemunha do seu primeiro casamento (1729), padrinho do primeiro filho (1930) e padrinho do seu segundo casamento (1930), com a aia de sua mãe. No ano da consagração da Basílica de Mafra, 1730, Nasoni trabalha ainda nas pinturas da Sé, realiza também alguns pequenos trabalhos arquitetónicos na própria Sé e na Quinta dos Cónegos, a quinta de recreio dos bispos do Porto na Maia.

Embora a arquitetura portuguesa se confundisse então com a engenharia militar (os arquitetos que reconstruíram Lisboa após o terramoto de 1755 eram, na realidade, engenheiros militares) e os verdadeiros arquitetos fossem estrangeiros, a verdade é que Nasoni praticamente eclipsou a concorrência no Porto. Alguns arquitetos viram mesmo os seus projetos escrutinados e alterados por Nasoni  a pedido dos respetivos clientes, como aconteceu com a Igreja da Ordem Terceira do Carmo, projetada por José Figueiredo Seixas, e cuja fachada intervencionada por Nasoni é uma das obras-primas da arquitetura Rococó portuguesa.

Mas Nasoni não teve apenas “sorte” com os mecenas, então fundamental para realizar obra de envergadura e garantir a persistência da obra e a memória do seu autor ao longo dos séculos. O norte era conhecido pelos seus canteiros, hábeis escultores do rude e duro granito, que não possuía a leveza nem as qualidades plásticas dos calcários, como a pedra de Ançã da Sé Velha de Coimbra ou o calcário fino dos Jerónimos, e por isso não era possível realizar no norte grandes construções em altura, com espaços mais abertos e, sobretudo, as decorações esculpidas características do Gótico e do Manuelino (4). Nasoni soube encontrar e escolher, entre os canteiros, os mestres dos mestres, que cortaram e trabalharam o granito com grande habilidade e sensibilidade. Sabe-se o nome de um desses mestres canteiros, António Pereira, que lavrava o granito com tanta habilidade que lhe extraía formas delicadas e precisas, autêntica filigrana (5). De resto, o arquiteto era extremamente exigente com a qualidade do trabalho dos canteiros, que o seu protetor explicava aos amigos deste modo:

De ordin.ro ouço queixar a este homem que os Mestres lhe faltão preceitos da obra (...) Os mestres he que fogem das suas plantas porque como os tira do sapateado, não querem coisas q lhe dem cuidado".

Seria natural que Nasoni tivesse descurado o exercício da pintura, embrenhado em tantos projetos e obras a acompanhar, mas isso não aconteceu. Em 1737 foi chamado a pintar os tetos da Sé de Lamego, obra reveladora de grande virtuosismo. As colunas salomónicas, balcões e abóbadas pintadas em perspetiva de acordo com a técnica da “quadrattura”, os anjos e a profusão de ornamentos ao gosto barroco, conjugam-se em quadros vibrantes de luz e cor. O observador é induzido a olhar para além do teto, descobrindo espaços dentro de espaços e janelas onde é suposto existir uma barreira física – inspirando experiências espirituais.

De seguida, realiza composições semelhantes nas pinturas murais da igreja de Santa Eulália da Cumieira (Santa Marta de Penaguião),  "multiplicando jarras, urnas, pedestais e volutas numa opulenta desordem que evoca grandeza" (6). Estas pinturas de Nasoni foram caiadas em 1951 durante as obras de reparação da igreja, tendo restado apenas a assinatura (7):

"NICOLAO NASONIO SENENSIS PINGEBAT ANNO 1739" (pintado por Nicolao Nasoni de Siena no ano de 1739). 


Em 1749 trabalhou nas pinturas da Igreja da Ordem Terceira, no Porto. Terá realizado mais pinturas noutras obras, muito provavelmente no Palácio do Freixo (1742-1754) por se tratar de uma encomenda muito especial do seu amigo e protetor D. Jerónimo de Távora e Noronha.

A finalizar, uma breve nota sobre o final da vida de Nicolau Nasoni, que aparece envolto em grande mistério. Após a morte do seu mecenas, que geria a sua fortuna, um dos filhos assumiu essa função e Nasoni perdeu somas consideráveis em péssimos negócios no Brasil, acabando os seus dias miseravelmente. Outra versão, conta que foi acolhido pelos Clérigos Pobres no seu hospital, como prémio por ter trabalhado graciosamente para a Irmandade, e aí terá falecido. Todas as versões garantem que Nasoni foi sepultado no interior da Igreja dos Clérigos, só não se sabe em que local. Fala-se na existência de retratos do pintor e arquiteto, que desapareceram, assim como não se conhece nenhuma planta original de Nasoni, apesar da quantidade de obras que lhe são atribuídas. O alegado retrato de Nicolau Nasoni existente na torre dos Clérigos será, na melhor das hipóteses, um “retrato” realizado muitos anos depois da sua morte e, portanto, um retrato imaginado (8).

Notas:

(1)-Talvez mesmo excessivamente reconhecida dada a quantidade de obras que lhe são incorretamente atribuídas. O seu sucesso como arquiteto terá criado um vasto grupo de seguidores que criaram as suas obras ao estilo de Nasoni e o misterioso desaparecimento das suas plantas alimentou a confusão.

(2)-Giovanni Tedesco (historiador italiano, especialista em Nasoni), no programa “Caminhos da História”. Giovanni Battista Tedesco é doutorado em Historia da Arte Portuguesa pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto (2012).

(3)-Cristina Vaz publica uma interessante biografia de Nasoni no site Vidas Lusófonas.

(4). A abóbada da Igreja dos Clérigos, inicialmente construída em granito, foi mesmo substituída por outra de mármore após a derrocada da primeira.

(5)-A filigrana já era utilizada na antiguidade clássica por gregos e romanos mas existe certamente uma relação entre a filigrana em ouro e prata, típica do norte de Portugal, o rendilhado das decorações arquitetónicas e as estruturas dos vitrais.

(6) "Nicolau Nasoni, arquitecto do Porto", SMITH, Robert C., 1966.

(7)-Fonte: IGESPAR. Esta história da caiadela intempestiva lembrou-me a tradicional morosidade do IGESPAR (ex-IPPAR) em alguns processos urgentes. O que pode ser mau pois ainda hoje há gente sempre disposta a uma boa caiadela.

(8)-Sobre o alegado retrato de Nicolau Nasoni nos Clérigos, ver mais AQUI.

sábado, 1 de junho de 2013

Joana Vasconcelos de cacilheiro em Veneza


Abre hoje, 01 de junho, a 55ª Bienal de Veneza, juntando 155 participantes de 38 países na mostra central, a Exposição Internacional de Arte, que decorre num espaço denominado Il Palazzo Enciclopedico (O Palácio Enciclopédico), que dá o título à Bienal. A exposição Internacional é comissariada por Massimiliano Gioni, o diretor artístico da Bienal presidida por Paolo Baratta.

Realizando-se desde 1895, este importante acontecimento artístico de projeção mundial conta este ano com a participação de 80 países de todo o mundo, muitos deles com pavilhões próprios. Sublinhando esta universalidade dialogante, a 55ª edição acolhe as participações especiais da IILA - Instituto Italo-Latino Americano (“El Atlas del Imperio”, reunindo sobretudo artistas sul-americanos), dos Emiratos Árabes Unidos (representados pelo artista concetual Mohammed Kazem) e de Taiwan, cujo museu de Belas Artes juntou artistas de diversos contextos culturais (Bernd Beher, Chia-Wei Hsu, Kateřina Šedá's + BATEŽO MIKILU) com o objetivo de promover a coexistência e a pluralidade cultural. 

A bienal regista igualmente uma forte participação de artistas chineses, desde o dissidente Ai Weiwei (com uma grandiosa instalação no pavilhão alemão) ao estreante Shu Yong , que apresenta um muro com 20 metros de comprimento construído com tijolos de resina. O pavilhão chinês tem por tema a “Transfiguração” e reúne obras de 7 artistas.

Joana Vasconcelos (n. Paris, 1971) representa Portugal com uma obra polémica, um cacilheiro cedido pela Transtejo que a artista transformou em obra de arte flutuante. No exterior, exibe a toda a volta um painel de azulejos portugueses reproduzindo uma vista atual de Lisboa, um desenho de Jorge Nesbitt  inspirado no Grande Panorama – painel de azulejos de Gabriel del Barco que representa Lisboa antes do terramoto de 1755. O painel foi colocado já em Veneza, onde a embarcação chegou a 21 de maio, após 16 dias de viagem por mar. O interior foi transformado num grande espaço visceral, recorrendo a formas orgânicas construídas com produtos têxteis industriais e artesanais e animadas com luz proveniente das lâmpadas LED incorporadas na obra.

O “Trafaria Praia” foi apresentado ontem em Veneza pela artista, com a presença de António Costa, presidente da Câmara de Lisboa, e o Secretário de Estado da Cultura, Jorge Xavier Barreto, em representação do Governo Português, que organiza e apoia a participação portuguesa através da Direção-Geral das Artes, com curadoria de Miguel Amado.

O cacilheiro lisboeta ficará em Riva dei Partigiani, próximo do frequentado Giardini, inspirando comparações com o vaporetto veneziano e representando as relações marítimas entre Portugal e Veneza na Idade Media e no Renascimento. Apesar das críticas, que sempre existirão seja quem for escolhido, a ideia é original e o “Trafaria Praia” é o único pavilhão nacional a passear os visitantes pelas águas de Veneza, entre os Giardini e a Punta della Dogana. Depois de ter transportado 11 milhões de passageiros no rio Tejo durante 51 anos, o cacilheiro entrará novamente ao serviço até 24 de novembro, data de encerramento da Bienal, com duas viagens diárias rumo a um palmarés invejável.

A Bienal é ainda o pretexto para uma infinidade de inciativas paralelas, levando a festa das artes a todos os recantos de Veneza, Património da Humanidade e um dos mais procurados destinos turísticos do mundo. 




sexta-feira, 31 de maio de 2013

As meninas más de Titti Garelli


Titti Garelli, “Rainha Gótica com Gato Esfinge”, acrílico s/madeira

Há um fascínio secreto nos retratos efabulados de Titti Garelli, a artista italiana que ilustrou em 1993 “As Fábulas de La Fontaine” com 12 sugestivas litografias, 6 das quais coloridas à mão, numa tiragem limitadíssima. Intrigantes e algo perversos, os seus retratos representam, segundo a autora, “meninas más”, naturalmente cruéis ou fruto das liberdades educativas atuais. “São bonitas (…) e têm charme” mas não inspiram ternura, como as bonecas, não são representações ideais da infância. São meninas más, crianças e jovens desejosas de crescer muito depressa contra a vontade dos adultos, ou que a tal são obrigadas, desafiando os limites entre realidade e fantasia, vigília e sonho, presente e futuro. A imitar os adultos em teatros de armário, em jogos cujas regras não entendem, pois brincam sem regras, e cujas consequências não temem pois “é tudo a fingir”. Acrescenta a artista: “Fui obrigada a tornar-me uma menina boa. Por isso desenho meninas más”.

Titti Garelli é natural de Turim, onde vive e trabalha. Depois dos estudos na Academia Albertina de Belas Artes, trabalhou como ilustradora para importantes agências internacionais de publicidade (M.Cann Erickson, J.W. Thompson, Young & Rubicam ou Leo Burnet) e marcas conhecidas (Nestlé, Chicco, Barilla, Jegermeister, entre outras). A sua pintura é marcadamente realista e psicológica, apelativa e impactante, ao gosto da linguagem publicitária.

Em 2000, expôs em Nova Iorque (Wiliamsbourg e Soho) uma série de obras sob o título genérico de “As Meninas Más”, explicando que "As crianças podem ser cruéis como os adultos, às vezes até mais, porque elas não têm as nossas inibições nem o nosso condicionamento”. Continuou a expor meninas más nos anos seguintes, enriquecendo a coleção com "anjinhos rancorosos e fadas irreverentes".

Em 2007, apresentou na Galleria Via Porta Palatina, em Turim, uma sequência de pequenos retratos (10X10 cm) realistas a que deu o título de “A Volta ao Mundo em 80 Meninas”. Os retratos contavam uma viagem imaginária à volta do mundo, apresentando rostos e cores representando 80 cidades ou países. 

A pintura de Garelli possui uma forte evocação renascentista, sobretudo nos retratos. Na sua vasta galeria de "meninas más" não falta uma menina com arminho, lembrando a célebre “Dama com Arminho” de Leonardo da Vinci. Em algumas pinturas, Garelli esmera-se na criação realista de cenários e ambientes desconcertantes, por vezes exóticos, aventurando-se em descrições psicológicas mais complexas e ousadas.

"Menina com Arminho. É evidente a inspiração renascentista de muitas obras de Garelli.

“A Pequena Bailarina”. Algumas obras de Garelli aproximam-se dos ambientes e lugares mentais da infância que dominam a pintura narrativa de Paula Rego.

250 anos da Torre dos Clérigos, Joel Cleto, Porto Canal


 
Igreja e Torre dos Clérigos, ex-libris da cidade do Porto. A fachada da Igreja data de 1749. Inicialmente, estavam previstas duas torres mas o custo da obra permitiu a construção de apenas uma, que ficou concluída em 1763 - há 250 anos.



Comemoram-se em 2013 os 250 anos da construção da Torre dos Clérigos, um dos ex-libris da cidade do Porto e obra emblemática do pintor e arquiteto florentino Nicolau Nasoni. Ignorando-se a data concreta da conclusão da obra, monumento nacional desde 1910, uma carta enviada pela Câmara à Irmandade dos Clérigos a 22 de abril de 1763 serviu de referência para as comemorações oficiais, cujo programa inclui exposições, concertos de música barroca (incluindo um concerto de carrilhões), conferências, edição de livros e o lançamento de um bombom comemorativo em parceria com a confeitaria Arcádia. A Irmandade ainda faz contas à ideia de construir em chocolate uma réplica da torre, à escala real (não é gralha, vem anunciado no site oficial das comemorações) mas o acontecimento constitui uma boa oportunidade para evocar Nicolau Nasoni, a figura e a obra. Em agosto de 2013, passam exatamente 240 anos sobre a sua morte – curiosamente, o número de degraus que conduzem ao topo da Torre dos Clérigos.

VER: "Num dia como este, nasceu o pintor florentino Niccolo Nasoni"

O historiador Joel Cleto dedicou recentemente 4 episódios do seu programa semanal no Porto Canal, “Caminhos da História”, à vida e obra de Nicolau Nasoni no Porto.
Desde os seus primeiros programas no Porto Canal (“Crónicas”, 2006, “Verdadeiro ou Falso”, 2007 a 2009) que acompanhei com particular interesse viajando virtualmente pelas rotas propostas / linhas dos STCP em “Viagens na Minha Terra” (2009), Joel Cleto adquiriu progressivamente grande segurança e eficácia comunicativa, sendo já considerado “o Hermano Saraiva do norte” e afigurando-se como seu digno sucessor na promoção e divulgação televisiva da História e Património nacionais.

Joel Cleto no cartaz de divulgação do programa "Viagens na Minha Terra" - Porto Canal, com o apoio da STCP, 2009. Foto: divulgação Porto Canal/STCP

“Caminhos da História” é atualmente um dos programas mais populares do Porto Canal (e também no facebook), concorrendo este ano ao prémio da Sociedade Portuguesa de Autores, na categoria televisão, programa de entretenimento. Uma característica distintiva do programa é o aspeto aparentemente desleixado do apresentador, lembrando o tenente Columbo (na versão Peter Falk), demarcando-se claramente do aprumo e solenidade do referido professor José Hermano Saraiva.

Outra característica distintiva do programa “Caminhos da História” tem sido a participação de convidados em estúdio (nas instalações do Porto Canal na Senhora da Hora). Só a propósito de Nasoni, Joel Cleto deu a vez e a voz a grandes figuras da cultura portuense e portuguesa - como o investigador e escritor Hélder Pacheco, ou os arquitetos Alcino Soutinho e João Rapagão, Jorge Alexandre Costa (Escola Superior de Educação do Porto) e ainda António Tavares (Provedor da Santa Casa da Misericórdia do Porto), Giovanni Tedesco (historiador italiano, especialista em Nasoni). Para além de algumas notícias atualizadas (sobre a recuperação da Quinta da Prelada ou o futuro Museu da Misericórdia na Rua das Flores, por exemplo), alguns dados curiosos trazidos pelo arquiteto João Rapagão sobre as preocupações urbanísticas de Nasoni, já que a Torre dos Clérigos se situa estrategicamente no cruzamento de dois importantes eixos da cidade à época: a rua de Cedofeita, a via de entrada na cidade pelo norte, e a via de ligação com a Igreja de Santo Ildefonso, na atual Praça da Batalha, pela atual rua 1º de janeiro, ao cimo da qual existia um obelisco de Nasoni – que ainda pode ver-se junto da referida igreja.

Igreja de Santo Ildefeonso. À esquerda e ao fundo, o obelisco retirado do sítio original.

No âmbito das comemorações, está para breve o lançamento de livros de Hélder Pacheco (Porto: a Torre da Cidade", Afrontamento), Germano Silva ("Os Clérigos", Edição da Irmandade dos Clérigos), do arquiteto Manuel Montenegro (a arquitetura da Torre) e do professor Francisco Queiroz (património artístico da Igreja e da Torre), reunindo o conhecimento atual sobre esses assuntos. 

O Porto de Nasoni“ - "Caminhos da História", Porto Canal, 2013

1º Episódio - O pintor e a Catedral do Porto
2º Episódio -  Das igrejas aos palácios”
3º Episódio - As quintas de lazer (Ver programa de 6 de maio)
4º Episódio - A Torre dos Clérigos (Ver programa de 13 de maio)