sábado, 13 de abril de 2013

Pintura de Le Brun encontrada no Hotel Ritz em Paris



A Christie’s vai leiloar a 15 de abril, em Paris, a tela “O Sacrifício de Polixena” (óleo sobre tela, 179X131 cm), pintada em 1647 pelo mestre francês Charles Le Brun (1619-1690). Le Brun foi uma figura dominante da arte francesa do século XVII, considerado pelo rei Luís XIV “o maior artista francês de todos os tempos”.

Este quadro decorava a suite do Hotel Ritz, em Paris, onde Coco Chanel (1883-1971) viveu durante mais de 30 anos e cujo autor era desconhecido. No final do verão passado, o hotel fechou para obras de renovação e o quadro foi enviado para limpeza. Durante essa operação, surgiu o monograma "C.L.B.F" ("Charles Le Brun Fecit", Charles Le Brun a fez) e a data, 1647.

O quadro representa o assassinato de Polixena, a filha mais nova do rei Príamo de Tróia, às mãos de Neoptólemo, filho de Aquiles. De acordo com o mito, a jovem princesa revelou a fraqueza de Aquiles, imprudência que levou à morte do herói grego.


Atualização a 18 de abril 2013:

A pintura “O Sacrifício de Polixena” foi vendida na Christie’s por 1.44 milhões de euros (1.88 milhões de dólares) ao Metropolitan Museum de Nova Iorque. O produto da venda será aplicado na fundação criada pelo dono do Hotel Ritz, Mohamed Al Fayed, em memória do filho, Dodi Al Fayed, falecido no mesmo acidente de viação que vitimou a Princesa Diana de Gales em 1997.
A pintura de Charles Le Brun será exposta em Nova Iorque até ao final de maio.
A reabertura do Ritz Paris está prevista para 2014. 

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Casa das Obras em Seia é Monumento de Interesse Público

Faculdade de Belas Artes também foi classificada

Em março de 2013, o Secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier, despachou um vasto pacote de classificação de monumentos, cerca de trinta, entre os quais a classificação da Casa das Obras, em Seia. As respetivas portarias, publicadas em Diário da República a 5 e 9 de abril, classificam monumentos e sítios, sobretudo arquitetura religiosa, civil e militar, mas também a gruta de Avecasta, o complexo Megalítico do Olival da Pega e o famoso bloco habitacional da Rua de Costa Cabral, no Porto, do arquiteto Viana de Lima. Integra esta lista a Faculdade de Belas Artes do Porto, que ainda funciona no edifício original, um palacete concluído em 1873.


Conhecido por Casa das Obras, o atual edifício dos Paços do Concelho de Seia foi solar da Família Mendonça Arrais e Albuquerque e é monumento de interesse público desde o passado dia 5 de abril (Portaria nº 180/2013 – D.R. nº67, Série II).

Após a recente classificação da Igreja da Misericórdia e casa do Despacho e da Capela do Senhor do Calvário (ou Capela do Santo Cristo do Calvário), alarga-se agora a área de interesse histórico reconhecido e a zona total de proteção cobre a maior parte do centro histórico da cidade de Seia. Só a classificação da Casa das Obras impõe uma zona de proteção geral que abrange a área envolvente compreendida entre a Casa da Cultura e a Casa do Castelo.

O solar é grandioso, de planta retangular, fachada simétrica com vinte janelas, linhas harmónicas e sobriedade pombalina. Consta que foi o próprio Marquês de Pombal quem forneceu a planta a Francisco Pinto de Mendonça (desembargador e depois Intendente-geral dos Diamantes) e sua esposa, Teresa Bernarda de Figueiredo Abranches, que o mandaram construir em 1773. Após a morte deste, no Brasil, foi seu filho Luís Bernardo (Cavaleiro da Ordem de Cristo, desembargador da Relação do Porto) quem terminou as obras do solar.  É  Luís Bernardo quem solicita autorização à Rainha, em 1778, para "exploração de águas e construção de uma fonte" em frente do solar. Outro filho de Francisco Pinto de Mendonça, José António Pinto de Mendonça Arrais (Seia, 1746 – Melo, 1822), foi Bispo de Pinhel e mais tarde Bispo da Guarda – onde desenvolveu uma intensa campanha contra os ideais revolucionários franceses durante as invasões napoleónicas.

Sob o elmo de visconde e o timbre dos Pintos (leopardo), o escudo esquartelado: I - Pinto, II - Mendonça Arrais, III - Figueiredo, IV - Pinto [1]. Os quartos inferiores do escudo estão danificados.

A fachada ainda hoje ostenta o brasão dessa nobre família senense, que se envolveu honrada e destemidamente nas dinâmicas locais e nacionais do seu tempo, com destaque para Luís Pinto de Mendonça Arrais, filho de Luís Bernardo, feito 1º Barão e depois 1º Visconde de Valongo pelos seus atos heroicos durante as Lutas Liberais, e seu irmão, Francisco Pinto de Mendonça Arrais, comandante da fortaleza de Almeida ao tempo da terceira invasão francesa (1810-1811) e mais tarde comandante do Regimento de Milícias da Covilhã.

Em 1810, o solar serviu temporariamente de quartel-general a Arthur Wellesley (futuro duque de Wellington) pela acomodação que oferecia e localização, na colina onde existiu o castelo de Seia, mas foi incendiado pelas tropas de Massena na retirada rumo à fronteira – tal como a igreja matriz, que ficou em ruínas. José Maria Pinto de Mendonça Arrais, que era presidente da Câmara à data do falecimento, em 1859, foi o fundador [2] da nova igreja matriz, cuja construção teve início em 1843 no Terreiro do Castelo. A ele se deve ainda, como presidente da Câmara, a instituição em 1857 da feira semanal à 4ª feira, então realizada no Terreiro da Misericórdia.

O Arquivo Municipal de Seia dispõe de um importante acervo documental sobre a família da Casa das Obras, cobrindo o período compreendido entre 1703 e 1909, doado em 2002 por um descendente dessa família, Joaquim Albuquerque de Moura Relvas. A monografia de Seia, de J. Quelhas Bigotte, contém as biografias de algumas personalidades nascidas na casa das Obras e seus descendentes, que se notabilizaram nas mais diversas áreas, incluindo D. Ana Guadalupe de Mendonça Arrais (1807-1895) cuja bondade em vida e anormal preservação do corpo muitos anos após a sua morte [3] lhe granjeou fama de santa.

O artista senense Lucas Marrão (n. Seia, 1824 – m. Lisboa, 1894), filho do caseiro do visconde de Valongo, beneficiou da proteção da família da Casa das Obras, que lhe pagou os estudos artísticos em Lisboa. Lucas Marrão deixou obra de pintura, escultura e gravura, dedicando-se também à fotografia – então novidade em Portugal.

Em 1911, o Solar foi vendido [4] em hasta pública a Francisco Rodrigues Gomes, natural da freguesia de Tourais, que fizera fortuna no Congo Belga (hoje República Democrática do Congo). Sete anos depois, a 1 de setembro de 1918, foi adquirido [5] pela Câmara (então instalada na Praça da República e presidida pelo Dr. António Borges Pires, de Pinhanços) para acolher a Câmara Municipal e as repartições públicas até então dispersas pela cidade. Aí foi instalada temporariamente a Repartição de Finanças, quando era presidente da Câmara o Capitão Dr. António Dias, e funcionou também o tribunal até à construção de edifício próprio, inaugurado em 1998.

Solar e Terreiro das Obras no início do século XX – há quase 100 anos.


Solar e Largo Dr. Borges Pires em 2004. Repare-se no monte de pedras, no lado direito desta foto, e compare-se com o monte de pedras da foto anterior. Quase um século depois, as obras continuavam presentes - à sombra de árvores diferentes.

Devido às obras constantes de reconstrução, remodelação e conservação a que foi submetido desde a sua (demorada) construção, o solar ficou conhecido por Casa das Obras. Não se trata, porém, de uma designação original, já que existem outras “Casas das Obras” pelo país fora, a maioria do séc. XVIII e todas com historial de obras demoradas, constantes ou inacabadas. As obras mais recentes, de remodelação interior e restauro exterior, realizaram-se entre 2002 e o início de 2004, sob a presidência de Eduardo Mendes de Brito (1993-2009).

Vista posterior da Casa das obras. Na área hoje ocupada pelo parque de estacionamento da CMS e pela Casa da Cultura, existiu um jardim com um grande lago.

O arranjo do largo fronteiro à Câmara (antigo Terreiro das Obras, atual Largo Dr. António Borges Pires) e o parque de estacionamento nas traseiras do edifício, onde havia um jardim e o Dispensário da A.N.T. (atual edifício da Junta de Freguesia de Seia), datam do pós-25 de Abril, quando o presidente da Câmara era Jorge Alberto dos Santos Correia (1976-1993) [6]. Já neste século, o largo da Câmara recebeu diversas obras de beneficiação (arranjo geral do espaço, substituição do pavimento, colocação de mobiliário urbano) e acabou-se com o caótico estacionamento automóvel no local.

Notas:
(1)-Heráldica Portuguesa - Brasões: 
Pintos - Escudo de prata com cinco crescentes de vermelho postos em sautor (cruz diagonal).
Mendonças - Escudo franchado: o I e o IV de verde, com banda de vermelho perfilada de ouro; o II e o III de ouro, com um S de negro, o da direita volvido (no brasão existente na Casa das Obras, não está volvido).
Arrais - Escudo vermelho com nove folhas de golfão (planta aquática) de ouro postas 3, 3 e 3.
Figueiredos: Escudo escarlate com cinco folhas de figueira, nervadas e perfiladas de ouro, postas em sautor.

Brasões dos Pintos, Mendonças, Arrais, Figueiredos.

(2)-Foi um dos principais impulsionadores da nova igreja matriz, cujas obras cofinanciou e orientou. Em sinal de reconhecimento, foi sepultado no interior da igreja (J. Quelhas Bigotte, “Monografia de Seia”, pág. 280-281) apesar de vigorar desde 1844 a lei que proibia os enterros nas igrejas. O clero conservador considerava esta lei antirreligiosa e ela foi a fagulha que incendiou a revolta da Maria da Fonte no Minho, em 1846.
(3)-Em 1911, por motivo da venda do solar, os restos mortais de D. Ana Guadalupe foram trasladados da capela  da Casa das Obras para o cemitério da então vila de Seia. Porém, estranhando o peso do caixão, este foi aberto na presença do Reitor de Seia e verificou-se, com surpresa, que o corpo se apresentava intacto – 16 anos após o falecimento. J. Quelhas Bigotte refere este insólito acontecimento na sua “Monografia de Seia”, pág.s 283 e 284 (2ª edição, 1982 - com nova capa em 1986, assinalando a passagem da vila de Seia a cidade).
(4)-Por 11 contos (ob. cit. pág. 266).
(5)-Por 20 contos.
(6)-Presidente da Câmara eleito em 1976 pelo Partido Socialista, sucedendo ao Engº João de Frias Gouveia, que foi nomeado em assembleia popular após a Revolução de 25 de abril de 1974.


“Vista da Vila de Seia tirada do alto da Senhora do Rosário”, c. 1845, litografia de Lucas Marrão (n. Seia, 1924-1894) colorida por Júlio Vaz Saraiva (n. Seia, 1928), Edição CMS, 1997. À direita, vê-se a Casa das Obras e a Capela do Santo Cristo do Calvário, que pertence à Santa Casa de Misericórdia de Seia e também é monumento classificado. O pintor senense Tavares Correia (Seia, 1908-2005), desenhou e pintou por diversas vezes os Paços do Concelho, incluindo uma reconstituição imaginada do incêndio provocado pelas tropas francesas.

 “Casa das Obras – Câmara Municipal de Seia”, 1996, desenho à pena de Fernando Gonçalves (n. Chaves, 1935 - reside em Gouveia) 

“Casa das Obras”, desenho à pena de Jorge Braga da Cruz (n. Viseu, 1944 - reside em Viseu)

Fotografia digital de Renato Paz (n. Guarda, 1982 - reside em Seia)

domingo, 7 de abril de 2013

Atelier-Museu Júlio Pomar abriu em Lisboa



Foi inaugurado na passada sexta-feira, em Lisboa, o Atelier-Museu Júlio Pomar, com a presença do artista, do arquiteto Álvaro Siza Vieira e do presidente da Câmara de Lisboa, António Costa, entre diversas entidades e convidados. Após a cerimónia oficial, o novo espaço museológico lisboeta abriu ao público, que pode visitá-lo de terça a domingo, gratuitamente até outubro.

O Atelier-Museu Júlio Pomar (não confundir com a Fundação Júlio Pomar, com sede provisória na Travessa da Piedade, 36) trata-se de um sonho que começou a ganhar forma em 2000, quando a CML adquiriu um antigo armazém do século XVII, ao Largo de Jesus, próximo da residência de Júlio Pomar. O projeto de recuperação foi concebido por Siza Vieira e as obras decorrem desde 2006, a várias velocidades, tendo ficado concluídas este ano, pelo 87º aniversário do artista. Integra a estrutura museológica do Município de Lisboa e o seu acervo compreende cerca de 400 obras, 100 das quais integram a exposição de abertura, intitulada “Em torno do Acervo”, selecionadas pela diretora, Sara Antónia Matos. Representativas do percurso artístico de Júlio Pomar, oferecidas pelo artista à Fundação, cedidas por familiares e emprestadas por entidades, entre as quais a Fundação Calouste Gulbenkian e a Culturgest (Caixa Geral de Depósitos).

Júlio Pomar afirmou-se no panorama artístico nacional pela porta do neo-realismo, na década de 1940, inspirado pela pintura muralista mexicana (de Rivera, Siqueiros e Orozco), evoluindo depois para uma figuração cada vez menos narrativa, uma pintura abstratizante (anos 1960) e finalmente abstrata, dominada pelo controlo da forma e pela cor (anos 1970), recorrendo também à colagem e “assemblage” de materiais e objetos do quotidiano. Regressou depois ao expressionismo, mantendo a exuberância cromática mas libertando a forma com pinceladas abertas, privilegiando a expressão do sentimento através do gesto. A reciclagem e os objetos adicionados ao quadro caraterizam a sua pintura na primeira década do século XXI, jogando com as relações formais e sentidos dos materiais e técnicas.

Entre as suas obras mais representativas das diversas fases e momentos da sua carreira artística, que o artista divide em ciclos (a série Maio e o ciclo do Arroz, nos anos 1940/50, a série Metro, Tauromaquia e o ciclo das corridas, nos anos 60, a série erótica dos anos 70, o ciclo dos Tigres nos anos 80, por exemplo, ou a recente e sugestiva série “Burros de Portugal”), destacam-se “O Gadanheiro” (1945) e “O Almoço do Trolha” (1947), “Mogiganga” (1963), “Le Bain Turc” (1971), “A Mesa do Arquiteto” (1977) e o polémico retrato oficial de Mário Soares, exposto na Galeria de retratos oficiais dos Presidentes no Museu da Presidência da República, em Belém - ao lado do igualmente polémico retrato do seu sucessor, Jorge Sampaio, da autoria de Paula Rego. A década de 1980 é particularmente produtiva, pela diversidade de temas (para além dos retratos de Mário Soares, Fernando Pessoa e Camões, a série Mitologia e Corvos) e a intensa produção inspirada pelas viagens ao Brasil, sobretudo pela Amazónia, onde esteve a convite de de Ruy Guerra, por ocasião das filmagens de "Kuarup" (1989).

Desde a sua primeira exposição, em 1945 (Sociedade Nacional de Belas Artes, Lisboa) mostrou o seu trabalho em diversas galerias e instituições nacionais e estrangeiras, com destaque para as Bienais de São Paulo (1953, 1975 e 1985), na Fundação Calouste Gulbenkian (1990), no Centro Cultural de Belém (2004), na Galeria Municipal de Matosinhos (2007), no Museu de Serralves (2008), no Museu do Neo-Realismo (2008) e uma exposição retrospetiva no Centro de Arte Contemporânea Manuel de Brito (2009). 

Em março 2013, foi inaugurado o seu painel “Contos Murais”, no Museu da cerveja, criado em Lisboa em junho de 2012 pela mesma equipa responsável pelo Museu do Pão, em Seia.

"Burro a tocar guitarra", 2013, da série "Burros de Portugal". Serigrafia editada pela Fundação J.P. para assinalar a abertura do Atelier-Museu Júlio Pomar


VER DOCUMENTÁRIO "Júlio Pomar - O Risco", de António José de Almeida (realização) e Anabela Almeida (guião) - Panavideo.

sábado, 6 de abril de 2013

“Flash Mob” em Amsterdão para divulgar a reabertura do Rijksmuseum


A "Mob" patrocinada pela banca holandesa, a multinacional ING

O Rijksmuseum, em Amsterdão, fechado em 2003 (1) para obras de remodelação, vai finalmente reabrir ao público a 13 de abril, com grande pompa. A reabertura do museu foi anunciada por uma “Flash Mob” num centro comercial em Breda.

As “Flash Mobs”, divulgadas por filmes como “Set Up Revolution” (Scott Speer, 2012), são ações rápidas e inesperadas previamente combinadas pelos seus intervenientes, que no final se dispersam rapidamente. A “Mob” "Onze helden zijn terug!" ("Os nossos heróis estão de volta!"), constou de uma encenação histórica inspirada na tela de Rembrandt van Rijn (1606-1669) conhecida por “A Ronda Noturna”, a principal obra do Rijksmuseum e uma das obras mais intrigantes da denominada “idade de ouro da pintura holandesa”. Diversos milicianos do séc. XVII, alguns deles chegando a cavalo, perseguem um larápio em pleno centro comercial, surpreendendo os funcionários e frequentadores com os seus trajes inusitados, armas da época, correrias e acrobacias. No final, não cai o pano mas sim a moldura da ING, a multinacional holandesa.

Rembrandt, “A Ronda Noturna” (A companhia militar do capitão Frans Banning Cocq e o tenente Willem van Ruytenburg), 1462, pintura a óleo s/tela, 379.5X453.5 cm. Rijksmuseum, Amesterdão

O quadro representa a milícia do capitão Frans Banning Cocq e do alferes Willem von Ruytenburch, da companhia municipal de arcabuzeiros de Amesterdão – que encomendou a obra. Como era costume na época, as personagens que aparecem na tela pagaram para serem aí retratadas (2). A menina fortemente iluminada transporta um galo, o símbolo da corporação de arcabuzeiros. As crianças e o cão animam a cena dando-lhe vivacidade e realismo. A obra rompe com os convencionalismos estáticos da pintura de grupos, então na moda, e o jogo de sombras desenvolvido por Rembrandt (a partir de Caravaggio), agravado pela sujidade acumulada, induziu em erro os críticos franceses do século XIX, que lhe atribuíram o título de “A Ronda Noturna”. Foi depois provado que se trata de uma cena diurna mas o título ficou, assim como as dúvidas sobre a personagem iluminada e as suspeitas de que a obra teria um sentido oculto. Tal como outras grandes obras da Pintura Universal, inspirou várias conjeturas, uma das quais foi apresentada em filme por Peter Greenaway (“Rembrandt's J'Accuse”, 2008).

O novo Rijksmuseum foi arquitetado pelos espanhóis Cruz e Ortiz, incumbidos de recuperar o esplendor do edifício original de 1885, projetado pelo arquiteto holandês Pierre Cuypers (1827-1921). A remodelação foi de tal modo extensa que, dos cerca de 8.000 objetos expostos, apenas “A Ronda Noturna” não mudou de lugar.

Um dos destaques vai para a sala dedicada ao jovem Rembrandt, onde podem ser apreciadas algumas das suas primeiras obras (incluindo o célebre autorretrato de 1628-29), equipada com mobiliário da época e objetos de vidro e prata realizados por artífices conhecidos de Rembrant.

Para além de algumas obras de Jan Vermeer (entre as quais “A Leiteira”, de 1657-58, que serviu de base ao anúncio de uma conhecida marca de produtos láteos), encontram-se patentes no Rijksmuseum alguns tesouros da pintura europeia, como o retrato do arquiteto Giuliano da Sangallo e de seu pai Francesco (1482-85), do renascentista Piero di Cosimo (1462-1522), e o tríptico da "Adoração do Bezerro de Ouro" (1530), de Lucas van Leyden (1494-1533).

(1 - Reabriu temporariamente em 2006, para as comemorações dos 400 anos do nascimento de Rembrant.

(2) - A propósito deste costume, conta-se (Haskel) que o pintor barroco Il Guercino enviou a um cliente o seguinte recado: "Como o meu preço habitual por cada figura é de 124 ducados e como sua Excelência se limitou a pagar 80 ducados, terá apenas um pouco mais de meia figura”.

domingo, 31 de março de 2013

Saloua Raouda Choucair - a primeira artista abstrata do mundo árabe



Os artistas libaneses são pouco conhecidos fora do seu país, especialmente as mulheres artistas – um fenómeno comum à maioria dos países árabes, com honrosas exceções. Se as sociedades ocidentais só há poucas décadas concederam às mulheres algum protagonismo nas artes, tradicionalmente restringidas a atividades ocupacionais no seio do lar (pintura e  piano nas classes sociais mais favorecidas, para além dos inevitáveis “lavores”), nas sociedades mais conservadoras, orientadas por tradições arreigadas a preconceitos étnicos, sociais e religiosos, as aspirações artísticas femininas são de tal modo restringidas que é muito difícil alguma mulher desenvolver uma carreira artística e alcançar reconhecimento público nessa área. Embora enquadrado na cultura árabe e regido pelas leis islâmicas, o Líbano é um dos poucos países do mundo árabe que concede liberdades às mulheres: desde logo, o direito de voto (obrigatório para os homens) e a possibilidade de optarem por um modo de vida mais liberal. O filme “Caramel” (2007) da realizadora e atriz libanesa Nadine Labaki retrata a situação atual nos meios citadinos libaneses, muito diferente da que se vivia em Beirute em 1947, ano em que Saloua Raouda Choucair (n. Beirute, 1916) realizou na Galeria Cultural Árabe a sua primeira exposição individual. Na realidade, tratou-se de uma exposição histórica: a primeira exposição abstrata no Líbano e a primeira em todo o mundo árabe. Mas Saloua era mulher. As suas primeiras exposições foram boicotadas (não vendeu nenhuma obra até 1962) apesar de ter estudado pintura em 1935 com o mais proeminente pintor líbio do século XX, Moustafa Farroukh  (1901-1957), mas foi recolhendo apoios fora do Líbano, tendo vivido cerca de três anos em Paris (1948 a 1951) para estudar na École Supérieure des Beaux-Arts e mais um (1969) a convite do governo francês. Tornou-se assim uma das primeiras mulheres árabes a expor num salão de arte em Paris (Salon des Réalités Nouvelles, 1951, dedicado à arte abstrata).

Em 1959, a artista passou a dedicar-se também à escultura e a crescente aceitação do seu trabalho fora do Líbano foi mudando a pouco e pouco a atitude dos seus compatriotas: em 1974, a Associação de Artistas Libaneses patrocinou uma exposição retrospetiva da artista em Beirute; em 1985, recebeu o prémio da União Geral dos Artistas Árabes; em 1988, foi distinguida pelo governo líbio; em 2002, foi lançado em Beirute o livro "Saloua Raouda Choucair, Her Life & Art"; em 2011, realizou-se em Beirute uma grande retrospetiva da sua obra, com curadoria de Saleh Barakat – responsável (com Sandra Dagher) pela primeira participação do Líbano na Bienal de Veneza, em 2007.

A 17 de abril de 2013, a Tate Modern acolhe em Londres a primeira exposição de Saloua Raouda Choucair na Grã-Bretanha. Serão expostas algumas pinturas abstratas dos anos 1940, como a célebre “Composição do Módulo Azul” (1947-51), o “Autorretrato” de 1943 e diversas esculturas em madeira, metal, pedra e fibra de vidro, realizadas nos anos 1950-80. A exposição decorre até 20 de outubro 2013.

sábado, 30 de março de 2013

Retrospetiva de Claes Oldenburg no MoMA em abril

Claes Oldenburg e Coosje van Bruggen mostraram as suas obras em Serralves em 2001. A colher de jardineiro ficou desde então na coleção do museu.

Entre 14 de abril e 5 de agosto 2013, a obra de Claes Oldenburg vai concentrar atenções no MoMA, o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque.

O artista norte-americano Claes Oldenburg (nascido na Suécia em 1929) é um dos mais populares representantes da Pop Art, conhecido pelas suas esculturas agigantando a forma de objetos comuns e esculturas moles.

Pela informação disponível no site do MoMA, ficamos a saber que a exposição retrospetiva foi organizada em conjunto com o mumok - Museum Moderner Kunst Stiftung Ludwig Wien  (Museu de Arte Moderna da Fundação Ludwig Vienna, em Viena), e recorda o início da carreira de Claes Oldenburg através de dois grandes conjuntos de obras,  “The Street” (1960) e “The Store” (1961-64) - uma fase muito produtiva, durante a qual Oldenburg explora as relações entre pintura e escultura, desde os objetos em papel de jornal, cartão, serapilheira (“The Street”) e esculturas pintadas representando produtos comerciais e alimentares (“The Store”). Esta exposição estará patente no 6º andar do museu.

A retrospetiva evoca ainda a obra de Claes Oldenburg nos anos 1970 através de duas estruturas arquitetónicas colocadas no átrio do 2º andar do museu. Construídas com objetos de uso quotidiano e formas criadas pelo artista, essas obras (intituladas “Mouse Museum” e “Ray Gun Wing”) propõem correspondências entre objetos artísticos e objetos de uso corrente tornando-os equivalentes na mesma obra ou, no mínimo, partes integrantes da mesma estrutura.

Muitas das suas obras realizadas desde 1977 tiveram a colaboração da sua mulher, a holandesa Coosje van Bruggen, falecida em 2009. Em 2001, Claes Oldenburg e Coosje van Bruggen mostraram as suas obras em Serralves: seis esculturas nos jardins e uma retrospetiva de desenhos e maquetas. Dessa exposição, ficou a colher de jardineiro, na entrada do parque. Afinal, uma das várias edições da obra intitulada “Plantoir” (escultura em aço, alumínio, fibra de vidro). Algumas das esculturas de Oldenburg possuem várias edições, expostas e comercializadas separadamente. A obra “Typewriter Eraser” (alumínio pintado, aço, betão e bronze, 1976) teve três edições, a terceira das quais foi vendida em 2009 por 2.210.500 dólares (novo recorde mundial) e encontra-se novamente à venda na Christie’s de Nova Iorque.

"Floor Cake" (1962), escultura mole.

“Typewriter Eraser” (1976) encontra-se novamente à venda na Christie’s de Nova Iorque.

sexta-feira, 29 de março de 2013

"Obras incorporadas" em Tibães, Bragança e Lamego


O crucifixo de Fernando Reis e as “obras incorporadas” de Ana Maria, Evelina Oliveira, Henrique do Vale

A exposição “Obra Incorporada”, que esteve em fevereiro no Mosteiro de São Martinho de Tibães, encontra-se agora patente ao público no Museu do Abade de Baçal, em Bragança, até ao dia 4 de abril. Seguirá depois para o Museu de Lamego, onde ficará de 7 de abril a 2 de maio 2013.

A exposição é apenas a parte final de um projeto do arquiteto Fernando Reis, iniciado em 2012. Inspirada nos projetos de interpretação criativa de uma forma comum, igual para todos (como a “cow parade”, de dimensão internacional, o “Homem T” ou “A Dança dos Ursos”), Fernando Reis convidou artistas nortenhos (naturais ou ativos no norte do país) para criarem uma obra a partir de uma base comum – um crucifixo de madeira por ele desenhado.

Catroze artistas responderam ao desafio: Agostinho Santos, Ana Maria, António Cunha, Damião Matos, Emerenciano, Evelina Oliveira, Henrique do Vale, Humberto Nelson, Jean Pierre Porcher, José Emídio, Manuela Bacelar, Paulo Hernâni,  Paulo Neves e Rui Vitorino Santos. Cada qual exprimiu livremente a sua sensibilidade relativamente ao tema, explorando as possibilidades do conceito de crucifixo, o mais forte símbolo da cristandade, utilizando-o como suporte de representação e trabalho plástico, algumas vezes com incorporação de outros materiais.