sábado, 16 de março de 2013

A substância do tempo – retrospetiva de Jorge Martins dividida por Lisboa e Porto



Abriu hoje ao público em Serralves, no Porto, e na Fundação Carmona e Costa (1), em Lisboa, a maior retrospetiva de desenhos de Jorge Martins realizada até à data, sob o título “A Substância do Tempo”.

Jorge Martins é sobretudo (re)conhecido pelos seus desenhos abstratos e sem cor, um traço distintivo que unifica a sua obra ao longo de mais de 50 anos de atividade artística, mas o pintor neofigurativo desenvolveu ao longo das décadas um renovado olhar informado e crítico sobre o mundo circundante, com influências mais evidentes do abstracionismo lírico, da arte pop ou do minimalismo. Particularmente estudada desde os anos 80 (2) a sua obra adquire especial sentido pela natureza do diálogo entre o figurativo e o abstrato, expondo a diversidade de relações desproporcionais que se estabelecem no dia-a-dia, a vários níveis, entre pessoas, ideias, espaços e objetos, aplicando o princípio de “utilizar apenas a cor inevitável” (3).

Em Serralves, apresentam-se mais de 200 obras abstratas realizadas entre 1965 e 2012, um percurso que se completa com as cerca de 150 obras mais figurativas expostas no Edifício Espanha (antiga Bolsa Nova de Lisboa), sede da Fundação Carmona e Costa. A mostra de Serralves tem curadoria de Marta Moreira de Almeida e, a de Lisboa, de Manuel Costa Cabral.

Jorge Martins nasceu em Lisboa em 1940. Frequentou os cursos de arquitetura e pintura da Escola de Belas Artes de Lisboa. Começou a expor em 1958, no I Salão de Arte Moderna da Casa da Imprensa, e individualmente desde 1960 (Galeria Gravura, Lisboa, Galeria Alvarez, Porto). Entre as várias exposições que reuniram parte significativa da sua obra, contam-se “Desenhos, 1957-1987” na FCG em 1988, a retrospetiva “Pintura, 1958-1993” na FCG em 1993 e a exposição antológica “Simulacros / Uma Antologia”, enquadrada por um estudo aprofundado de Raquel Henriques da Silva, que teve lugar no Centro Cultural de Belém em 2006.



(1)-A Fundação Carmona e Costa foi criada em 1997 para “desenvolver e dinamizar projetos na área da arte contemporânea portuguesa”. Em parceria com outras instituições, criou em 2003 um programa de apoio à arte contemporânea para projetos na área do desenho.
(2)- Maria Filomena Molder  publicou em 1984 o livro “Jorge Martins” e, no ano seguinte, a FCG editou um livro e dedicou um colóquio à obra do artista, que vivia então em Paris. Em 1981 e 1982, M. Barroso realizou dois filmes sobre J.M., “Visible-Invisible” e “Doce Exílio”. Vários críticos de arte escreveram prolixamente sobre a sua obra, com destaque para João Pinharanda e Rui Mário Gonçalves.
(3)-“Preto.branco”, desenhos de Jorge Martins, FCG, 1983.

Luiz Morgadinho na República Checa com o movimento surrealista internacional


Morgadinho mostrará na República Checa 4 trabalhos a preto e branco da série “Na Aldeia”. 

Desde a primeira Exposição Internacional Surrealista (Londres, 1936), o Surrealismo impôs-se progressivamente como um importante movimento internacional. Em Portugal, a primeira exposição data de 1949 (1ª Exposição do Grupo Surrealista de Lisboa – a primeira e única do grupo) mas as coletivas surrealistas têm recebido, nos últimos anos, um forte impulso de artistas naturais ou residentes na região centro. Com boas relações com outros grupos surrealistas, sobretudo americanos e europeus, alguns destes artistas viajam atualmente nas carruagens da frente do surrealismo internacional, expondo em diversos países da Europa e Américas ao lado dos seus congéneres locais.

Um desses artistas é Luiz Morgadinho, natural de Coimbra (1964) e residente em Seia. Depois da exposição individual de pintura em Oliveira do Hospital, “Ontogénese do Quotidiano” (Casa da Cultura do Dr. César de Oliveira, fevereiro 2013), participa em março na coletiva “Surrealizar o Sonho”, em Vizela, e na exposição internacional do surrealismo que irá percorrer importantes cidades da República Checa ainda em 2013. Uma agenda cheia – e “em cheio” – que dá bem a ideia da importância da obra de Morgadinho no contexto do surrealismo atual.

Surrealizar o Sonho

Hoje, dia 16 de março, pelas 16 horas, abre nas Termas de Vizela a exposição coletiva “Surrealizar o Sonho”, reunindo obras de Adias Machado, Alberto D’Assumpção, Alua Pólen, André Ribeiro, António Porto, Arnaldo Macedo, Carlos Godinho, Dina de Souza, Kim Molinero, Luís Fernando Graça, Luiz Morgadinho, Marco Santos, Pedro Prata, Sílvia Marieta, Susana Bravo e Vítor Zapa. Promovida pela Fundação Jorge Antunes com o apoio da Câmara Municipal  de Vizela, a exposição decorre até 12 de abril.

Exposição Internacional do Surrealismo na República Checa

Os artistas surrealistas portugueses Cruzeiro Seixas, João Rasteiro, Luiz Morgadinho, Miguel de Carvalho e Pedro Prata integram o grupo internacional de surrealistas que irá mostrar as suas obras em várias cidades da República Checa, com destaque para Praga, Brno (capital da região da Moravia), Jihlava (capital da região de Vysočina), Ostrava (a terceira maior cidade da R. Checa), Třebíč (a terceira cidade da Moravia), e também em Prostějov, Žďár nad Sázavou, Rajhrad e Mohelno, uma pequena cidade próxima de Třebíč.

Sob o lema “Somos todos criados pelo amor”, a exposição é inaugurada em Praga no dia 8 de abril, na Galeria de Arte AzeReT (Tereza ao contrário) da bailarina e atriz checa Tereza Pokorná Herz, e fica pela capital da República Checa até 30 de abril.



sexta-feira, 15 de março de 2013

Obras de Eduardo Nery no CISE

De 23 de março a 31 de agosto, o Centro de Interpretação da Serra da Estrela (CISE) vai mostrar em Seia um conjunto de obras de Eduardo Nery, recentemente falecido, entre as quais 2 desenhos que o artista ofereceu ao Município de Seia.

Datados de 1960, os desenhos inspiram-se nas paisagens rochosas da Estrela, evocando concretamente as formações rochosas da área dos Piornos e do Covão do Boi. Trata-se de duas obras da fase gestual inicial de E. Nery antes de enveredar pelo abstracionismo geométrico. Sucedendo a um momento de puro abstracionismo (1958-59), as suas “obras gestuais de temática cósmica” representam também um momento de pesquisa ao nível dos materiais (aguadas de tinta da China, guache preto, canetas de feltro) explorando as tensões entre a linha e a mancha, o desenho e a pintura. Algumas destas experiências poderão ser entendidas como paisagens, pela sugestão dos títulos (“Pântano”, 1960, “Cidade”, 1960) mas, em pouco tempo, as evidências da representação intensificam-se (“Montanha, 1962”) e clarificam-se (“Marinha”, 1963).

Nos anos 80, E. Nery regressa ao tema da paisagem (série “Paisagem: Re-construção”), agora entendida como construção – algo que pode ser desconstruído e recriado através de ilusões visuais simples, desde os jogos de perspetiva à diluição do todo em partes (e o que dele se vai assim perdendo), a paisagem como “invenção” do olhar.

Nota: as obras acima referidas podem ser vistas no site de E. Nery.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Técnica mista de Dario Moschetta

Dario Moschetta, NY.6, técnica mista sobre tela

Dario Moschetta é um pintor e ilustrador italiano, de Treviso, cuja obra é marcada pela experimentação de materiais e combinação de técnicas - com destaque para a mistura de cola, papel e tinta acrílico sobre tela., obtendo uma pintura táctil. Pinta cidades, a vida agitada das grandes metrópoles.

Saatchi online



Dario Moschetta, London-1, técnica mista, 2013

sábado, 2 de março de 2013

EDUARDO NERY (1938-2013)


Eduardo Nery, "Estrutura Ambígua IV"

Pelas obras de Eduardo Nery, de traço rigoroso e espaços arrumados, nos quais convivem o verso e reverso e perspetivas diversas de formas totalmente díspares, harmonizadas no plano da pintura ou nos variados suportes em que trabalhou, podemos entender a conceção que tinha do mundo e da arte. A ideia base de toda a sua obra é a de construção, quadrado a quadrado, cubo a cubo, tijolo a tijolo, vidro a vidro. Estruturas pensadas e testadas para um mundo sem paredes estanques, a arte sem fronteiras artificiais entre estilos ou movimentos, e por isso se dedicou também à gravura, azulejaria, tapeçaria, vitral, pintura mural, arte pública, colagem e fotografia - para além da pintura. Por isso colecionava arte africana. Por isso ajudou a fundar a Associação Portuguesa de Arte Outsider, que valoriza a arte produzida fora dos circuitos culturais convencionais e os seus autores, sem formação artística e afastados da sociedade pelos mais diversos motivos. É esta conceção aberta e participada do mundo e da arte que nos deixa a todos como herança.

O corpo principal da obra de Eduardo Nery estrutura-se no construtivismo geométrico. Em 1969, Rocha de Sousa chamava a atenção para os jogos perspéticos e espaços ilusórios dos seus quadros, que chegaram a incluir formas tridimensionais articuladas com formas bidimensionais: as pinturas-objeto, entre as quais as “Estruturas Ambíguas”. Nos anos 70, a sua pintura reformula-se com a introdução de fundos planos e paradoxos de representação do espaço, combinando formas díspares em imagens “de mistério e de humor”. Ao nível da pintura, destacam-se ainda as suas paisagens abstratas de temática cósmica, combinando spray e colagem, que realiza até aos anos 90. A fase gestual de 2000/2001 antecede a pintura expressionista de máscaras e, em meados da primeira década do século XXI regressa ao abstracionismo geométrico.

E. Nery, azulejos na Estação de Metro do Campo Grande: "jogo dialético entre modernidade e tradição" (E.N.).

O conceito de estrutura, na construção ou desconstrução das formas e dos espaços, é transversal na obra de E. Nery, que começou por desejar ser arquiteto antes de se tornar artista plástico. Os jogos visuais ou de sentido (ilusões, ritmos, relações cromáticas) são a argamassa necessária à coerência do conjunto - tal como as melodias que resultam da junção e sobreposição de sons dissonantes. A propósito, Eduardo Nery era apaixonado por música, Jazz em particular - como grande parte dos artistas abstratos. Um género musical em que o improviso também é estrutural.

Natural da Figueira da Foz, onde nasceu em 1938, faleceu hoje de manhã em Lisboa, aos 74 anos.

Video:
A Arte e a Mente de… Eduardo Nery” (2010). O filósofo José Neto conversa com Eduardo Nery.

Rocha de Sousa sobre Eduardo Nery:
- Artistas Portugueses Contemporâneos: Eduardo Nery.
- Fotografia.
- Obra pictórica.
- Obra em azulejo.
- Tapeçaria.
- Vitral.

José Santos e a "Light Painting"

O Cristo na cruz resplandece e o espírito liberta-se em forma de ave. Foto de José Santos

Pelo final da tarde de ontem, teve lugar a inauguração da exposição de fotografia de José Santos, na galeria de Herman Mertens e Magda Vervloet em Vale de Ferro, com muito público e a surpreendente participação musical do jovem tenor Renato Santos. Chamado a apresentar a exposição, contando com algum desconhecimento do fenómeno da “light painting”, preparei algumas notas sobre este tema e sobre a fotografia de José Santos, que tentei explicitar na ocasião.

A “light painting” é uma técnica fotográfica que consiste em obter imagens através de fotos de longa exposição, movendo uma fonte luminosa diante da câmara fotográfica (“light drawing, light graffiti”) ou movendo a própria câmara (“camera painting”). À primeira vista, parece o contrário da fotografia convencional, mas a “light painting” também trabalha temas e assuntos concretos, exigindo abordagens muito precisas e mobilizando grandes meios técnicos quando se trata, por exemplo, de reforçar os conteúdos emotivos da cor em fotografias de paisagens ou monumentos, que requerem desde logo condições extraordinárias de iluminação artificial.

O processo utilizado por José Santos enquadra-se mais na “camera painting”, pois recorre sobretudo a movimentos da câmara e do zoom. À noite ou num ambiente escuro, a câmara fotográfica torna-se pincel e as luzes são utilizadas como as cores na paleta, para dar a ver diferentes aspetos da realidade ou criar imagens totalmente abstratas. Na realidade, o processo da “light painting” é tão simples de entender e fácil de executar que abundam, na Internet, imagens de todos os tipos e para todos os gostos, desde a experiência mais elementar às obras de autênticos artistas – como os norte-americanos Brian Hart, Eric Staller,  Jason Page e Elizabeth Carmel, o argentino Arturo Aguiar, a canadense Tatiana Slenkhin, o francês Julien Breton ( Kaalam), o japonês Tokihiro Sato e, naturalmente, o português José Santos.


Um desenvolvimento do ato de fotografar (literalmente, “escrever com luz”), a “light painting” aproxima a fotografia da pintura e da performance. Ao longo do século XX, os artistas utilizaram criativamente os meios da fotografia. O primeiro artista a explorar a técnica da pintura com luz terá sido Man Ray, em 1935, e a novidade não escapou à curiosidade de Pablo Picasso, que integrou algumas experiências com luz na sua vasta obra multidisciplinar. Considerando que os desenvolvimentos da arte contemporânea permitiram à fotografia tornar-se abstrata, entre outras coisas ainda ontem inaceitáveis (como as espetaculares fotografias recortadas de Germán Gómez), não admira que o fotógrafo se assuma cada vez mais como artista. A arte contemporânea carateriza-se, sobretudo, pela articulação de linguagens artísticas, pela interação de conceitos, espaços e metodologias – por muito pouco permutáveis que pareçam. A “light painting” é hoje creditada ao mais alto nível (a Photographic Society of America, por exemplo, dispõe de consultores para essa área específica) e a vulgarização da fotografia, ao alcance do mero utilizador de telemóvel, tem levado os fotógrafos a procurar cada vez mais o espaço das galerias de arte para desenvolverem os seus projetos noutro patamar de exigência e manterem um estatuto diferenciado.

No caso particular das obras de José Santos, apesar de se assumir como autodidata da fotografia (1), sobressai imediatamente o sentido da composição, tal como o entendemos na pintura, e o elaborado uso da cor através da criteriosa manipulação da luz. Nos seus trabalhos abstratos, cujo melhor exemplo é a série "Luzes", predomina o diálogo das formas e harmonia das cores, despontando e evoluindo com ritmo e força visual no fundo negro – o nada de onde tudo emerge. Nos seus trabalhos mais figurativos (séries "Cristos" / "Paixão", por exemplo), é clara a preocupação de ir além de mera representação, do visível imediato, extraindo das formas efetivamente fotografadas algo mais que uma simples imagem, o seu halo mítico, a sua energia própria, a sua luz.

E por aqui entendemos a coleção de imagens que integram esta exposição, intitulada “Paixão” por abordar o momento crucial da paixão de Cristo, a morte na cruz. Na sua origem latina, o termo “paixão” significa “sofrer ou suportar uma situação difícil” mas usamos também este termo para designar o sentimento de entrega total a uma pessoa, a uma atividade ou a um ideal. O momento religioso que se aproxima, a Páscoa, os mais profundos sentimentos humanos do autor, José Santos, e a sua autêntica paixão pela fotografia, explicam o tempo e o modo desta exposição.

Simples cruzes, o símbolo máximo do cristianismo, grandes cruzes de altar ou figurações de Cristo crucificado, as fotografias “pintadas com luz” de José Santos destacam a convicção cristã de que Cristo é luz e redenção. Da cruz vibrante de luz, faiscando no fundo da noite escura, à imagem que parece contorcer-se na cruz ou acenar tristemente, vislumbra-se um complexo percurso de emoções, um mapa para a via-sacra mais interior de cada um. E a exposição de José Santos em vale de Ferro termina com uma proposta desconcertante, nada canónica, irradiando luz para as consciências: duas imagens da crucificação, lado a lado, uma no masculino e outra no feminino – evocando ao mesmo nível mítico a Paixão da mulher, a pouco dias do seu Dia Internacional, 8 de março.

Alguns sites sobre LPP:
Lightgraff (França)

(1) - Autodidata da fotografia, José Santos expõe individualmente desde 2009 (Museu Grão Vasco, Viseu, 14 de fevereiro a 21 de março). Em Maio de 2009, mostrou o seu trabalho em Seia, expondo depois no Museu de Lamego, Biblioteca Municipal de Cantanhede, Museu de Resende, Museu Diocesano de Lamego, Espaço João Abel Manta em Gouveia, Sede do Rancho Folclórico Pastores de São Romão, Posto de Turismo de Seia, Casa da Beira Alta no Porto e Casa da Cultura de Seia – uma exposição intitulada "Luzes", que decorre até final de março 2013.
Mais fotografias de José Santos em olhares.sapo.pt.

Vista parcial da inauguração



Algumas obras da série "Luzes" (2009):




Mariza, 2009

Guitarras, 2009

José Santos

sexta-feira, 1 de março de 2013

"Paixão" - fotografia de José Santos no Pátio-Velho


Hoje, dia 1 de março 2013, pelas 18:00 horas, será inaugurada na Galeria Pátio-Velho, em Vale de Ferro (Ervedal da Beira - Oliveira do Hospital), uma exposição de fotografia de José Santos, intitulada "Paixão".

Para além do interesse da obra de José Santos e da qualidade da receção que Herman Mertens e Magda Vervloet proporcionam habitualmente aos visitantes da sua galeria, a inauguração contará com a participação musical de Renato Santos, que interpretará algumas peças de música erudita.