domingo, 27 de janeiro de 2013

Novas obras de Paula Rego na Marlborough


Paula Rego em 2011, no Porto

A Dama Pé-de-Cabra e outras histórias

Abriu em Londres, na Marlborough Fine Art (1), a exposição de Paula Rego intitulada “A Dama Pé-de-Cabra e outras histórias”, com novas incursões da artista pelos contos tradicionais portugueses.

A exposição consta de 6 grandes trabalhos em pastel sobre o conto tradicional português do séc. XI, “A Dama Pé-de-Cabra” (2), já vistos na Casa das Histórias (Cascais, julho a outubro de 2012) e 8 novos trabalhos sobre outras histórias, a propósito de um poema do controverso Hilaire Belloc (3) ou inspirados na figura de Pierrot. Encontra-se ainda exposta a maqueta escultural “O recreio”. Tal como muitos outros pintores (falaremos disso neste blogue, a propósito do meticuloso Barocci), Paula Rego utiliza maquetas com figurinos para estudar as cenas mais complexas.

Uma destas novas obras agora apresentadas na Marlborough, intitulada “Avareza”, está a causar algum embaraço em Cascais pois uma das figuras representadas assemelha-se bastante ao atual presidente da Câmara, Carlos Carreiras. A Fundação Paula Rego é uma das fundações que o Governo quer extinguir mas o autarca de Cascais já declarou em diversas ocasiões que a Casa das Histórias irá manter-se, restando saber como e com que condições. Inaugurada em 2009 com pompa e circunstância, a Casa das Histórias passou por uma polémica mudança de diretora em 2010 (saiu Dalila Rodrigues e entrou Helena de Freitas) mas a notícia da extinção da Fundação deixou Paula Rego desgostosa e é compreensível que se sinta enganada.

No entanto, algumas personagens de outras obras da mesma exposição (que pode ver AQUI), fazem lembrar figuras públicas portuguesas - semelhanças que podem ser intencionais ou meramente fortuitas, cabendo a última palavra à autora. As diferenças entre a representação das personagens das histórias e as personagens assumidas pelos modelos habituais de Paula Rego (Lila Nunes, Anthony Rudolf), além da sua importância na composição, permitem as mais diversas leituras, que não devem ser imediatas, precipitadas, dada a sua subjetividade. O mesmo não aconteceu em 1960 na obra “Salazar vomitando a Pátria”, cujo título não deixava margem para dúvidas.

A artista portuguesa (Dama do Império Britânico desde 2010) privilegia na sua obra o universo maravilhoso, violento e grotesco das histórias tradicionais, repositório dos piores medos e das maiores esperanças, explorando as tensões entre a realidade e fantasia, entre o belo e o grotesco.

A exposição decorre até 01 de março de 2013.

(1)-A galeria que representa Paula Rego desde 1987.
(2)-Recolhido por Alexandre Herculano na obras “Lendas e Narrativas” (1851).
(3)-“Do you remember an Inn, Miranda?” de Hilaire Belloc (1870-1953)

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Fritz Røed


Fritz Røed, “Sverd i fjell” (Espadas na rocha), bronze

Ontem, passaram precisamente dez anos sobre o desaparecimento do escultor norueguês Fritz Røed (15 de agosto de 1928 – 20 de dezembro de 2002).

Entre as suas obras mais conhecidas, algumas das quais podem ser vistas no parque de esculturas em Bryne, destaca-se “Sverd i fjell” (Espadas na rocha), um monumento composto por três gigantescas espadas de bronze cravadas num rochedo em Stavanger, Noruega.

As espadas representam os três reis que se defrontaram na Batalha do Fiorde de Hafr, em 872. O rei vitorioso, Harald Harfagre, unificou a Noruega.

O monumento foi inaugurado pelo rei Olav V em 1983.

sábado, 1 de dezembro de 2012

"Noites Brancas" em Serralves


Abriu ao público em Serralves a mais completa retrospetiva da obra de Julião Sarmento realizada até hoje, “Noites Brancas”, integrando mais de 160 obras produzidas desde o final dos anos 60. A última exposição comissariada por João Fernandes, que vai abandonar a direção do museu em dezembro para assumir a direção do Museu Nacional Centro de Arte Rainha Sofia, em Madrid, é uma das maiores exposições já vistas em Serralves, ocupando praticamente todos os espaços do Museu.

A abertura da exposição reuniu muito público, sobretudo na Casa de Serralves, que foi aí confrontado com situações insólitas, integradas no prometido programa de performances, com especial destaque para a senhora que suscitou as mais diversas reações passeando demoradamente entre os convidados totalmente nua, apenas coberta com uma capa de plástico transparente, ou dois gémeos que se observavam narcisicamente, cada qual tomando o outro pelo seu reflexo.

O trabalho de Julião Sarmento (n. Lisboa, 1948) convoca as mais variadas linguagens artísticas para uma abordagem crua do ser humano enquanto corpo e indivíduo, da pose moral ao despojamento psicológico, da perplexidade à solidão. As suas instalações integram pintura, escultura, som, vídeo e multimédia, muitas das quais concebidas para locais específicos (site-specific art).

O termo “noites brancas” é utilizado nos países nórdicos para designar as horas correspondentes ao período noturno durante o verão, quando o sol é visível 24 horas por dia. Em São Petersburgo, as “Noites Brancas” reúnem um conjunto de eventos artísticos oferecidos à população para ocupar as longas “noites” de verão.

Neve... ontem e hoje.

1 de dezembro 2012

3 de dezembro 2010

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

"Arte: Crise e Transformação" na 17ª Bienal de Cerveira


A 16ª Bienal de Cerveira, em 2011, registou cerca de 100.000 visitantes (Foto: Sérgio Reis)

A 17ª Bienal de Vila Nova de Cerveira irá decorrer entre 27 de julho e 14 de setembro de 2013, sob o tema “Arte: Crise e Transformação” e à luz das comemorações dos 35 anos da mais antiga bienal de arte em Portugal.

O Concurso Internacional e o Concurso de Residências Artísticas encontram-se já abertos, até 31 de março de 2013, e os respetivos regulamentos podem ser consultados AQUI. O primeiro concurso “visa a criação de oportunidades de representação para artistas jovens/emergentes” e destina-se a artistas nacionais e estrangeiros. O segundo pretende criar condições para a troca de experiências e conhecimento entre os artistas e destes com o meio cultural de acolhimento, fomentando o reforço da identidade da designada "Vila das Artes”.

O tema da 17ª Bienal, “Arte: Crise e Transformação”, é oportuno  pois sente-se cada vez mais a necessidade de uma reflexão alargada sobre o atual momento artístico em contexto de crise internacional, agravada em Portugal devido ao esforço de contenção e reequilíbrio das contas públicas. Refletir mas também agir. Haverá uma arte da crise? Os artistas costumam lidar geralmente bem com as crises setoriais, mas como resistir em tempo de crise generalizada? Deverá haver uma arte (ou artistas) subsidiada pelo Estado, em certa medida “oficial” por depender de critérios definidos por cada governo ou de leis aprovadas por maiorias partidárias? Uma arte comprometida ou, pelo menos, “politicamente correta”, por seguidismo ideológico, acomodação política ou sobrevivência económica? Será a crise inspiração ou já motor de transformações, induzindo novas atitudes e comportamentos dos artistas e dos mercados? Certo é que esta crise deixará marcas profundas em toda a sociedade portuguesa. Acabará por passar, como tudo passa, e o país continuará país, o Estado continuará Estado, mas ficarão pelo caminho muitos portugueses sem culpa nem proveito em matéria de esbanjamento dos dinheiros públicos. 

Quando a contenção de despesas coloca muitas associações em dificuldades e paralisou ou extinguiu as Empresas Municipais de Cultura, encontrando-se as Fundações na mira do Governo (embora apenas para disparar alguns tiros de pólvora seca), conclui-se que muitas profissões liberais terão de se ajustar ou fundir, adquirindo hoje particular sentido e urgência a velha máxima: “A união faz a força”. 

sábado, 24 de novembro de 2012

Enya e Lisa Gerrard

Enya

Os vídeos musicais não são um fenómeno recente mas o nível está cada vez mais alto e parece cada vez mais difícil fazer melhor. O mesmo se passa com o filme publicitário, cuja estética e capacidade de síntese narrativa chegam a ser acutilantes, mas o vídeo clip musical tem uma estética própria, outra plástica, outra teatralidade – embora os realizadores de filmes publicitários também realizem vídeos musicais, como acontece por exemplo com Peter Nydrle.

Um bom exemplo é a coletânea de vídeo clips do último álbum de Enya, “The Very Best of Enya” (2009), disponível no YouTube. Alguns vídeo clips inspiram-se na pintura e na colagem para criar ambientes e reforçar os conteúdos comunicativos de temas inesquecíveis como “Orinoco flow”, “Caribbean Blue”, “Amarantine” ou “Listen to the rain”.

No breve universo de vozes incomparáveis, cuja estranha beleza nos fala secretamente, também aprecio Lisa Gerrard. Para além da proximidade das vozes e dos géneros, as biografias de Enya e Lisa contêm algumas semelhanças curiosas – ou já curiosas coincidências.

Cantora, instrumentista e compositora, Enya Brennan nasceu na Irlanda em maio de 1961 com o nome de Eithne Ní Bhraonáin. Lisa Gerrard nasceu em abril de 1961 em Melbourne, Austrália, filha de emigrantes irlandeses.

Enya canta sobretudo em inglês mas uma das características do seu estilo único (relacionado com o New Age) é o modo como destaca a musicalidade de línguas antigas como o Irlandês ou o Latim, mas também de línguas inventadas por J. R. R. Tolkien e pela poetisa irlandesa Roma Ryan, colaboradora de Enya. Lisa canta em inglês e inventou aos 12 anos uma  idioglossia (linguagem idiossincrática falada por uma só pessoa ou por poucas pessoas) que utilizou em canções como  "Now We Are Free", "Come Tenderness", "Serenity", "The Valley of the Moon", "Tempest", "Pilgrimage of Lost Children", "Coming Home" e "Sanvean". Um dos temas mais conhecidos de Lisa Gerrard, graças ao filme “Gladiator” (2000) é “Now We Are Free” – que pode ouvir AQUI, cantado e legendado na linguagem inventada pela artista.

A voz clara e timbrada (meio-soprano) de Enya liga-se agradavelmente com os sons produzidos por sintetizador (raramente são usados instrumentos acústicos) e, nas suas atuações, canta ao vivo sobre música e canções gravadas. Lisa é contralto, extensível a meio-soprano, e a sua voz foi descrita como “profunda, negra, lúgubre e única”. É também uma tocadora exímia de yangqin, um instrumento musical chinês tradicional.

Enya e Lisa colecionaram sucessos desde a estreia, que ocorreu em 1980 e 1981, respetivamente. Em 2007, Lisa lançou um álbum retrospetivo, “The Best of Lisa Gerrard”. Em 2009, foi a vez de Enya apresentar “The Very Best of Enya”.




"Caribbean Blue"


"Listen to the Rain"

sábado, 10 de novembro de 2012

Retratos criativos de Cristina Otero

Cristina Otero, "Remorso"

Mais do que fotografias, os retratos criativos da jovem artista Cristina Otero vão além do já de si complexo exercício de retratar. Combinando pintura facial e fotografia, as imagens são muito bem construídas, com grande sentido de composição, poder da cor e atenção aos pormenores. Por detrás da juventude, alegria e frescura das imagens, que atraem o olhar e prendem a atenção do observador numa teia de sensações, há uma forte trama cultural que inspira várias interpretações e induz a reflexão.

Mais imagens de obras de Cristina Otero AQUI e ALI.