domingo, 4 de novembro de 2012

O que a máquina vê de nós

“A fotografia começou, historicamente, como uma arte da Pessoa: da sua identidade, do seu estado civil, daquilo a que se poderia chamar, em todas as aceções da expressão, o quanto-a-si do corpo.”
Roland Barthes, “A Câmara Clara”

Confesso que me arrepio sempre que sou obrigado a olhar para uma dessas fotos estampadas nos cartões de cidadão. Rostos deformados, olhares vazios, volumes esbatidos. Será inabilidade, desleixo, ou má vontade do funcionário que opera a máquina responsável pelas fotos? Nada disso. Mesmo levando a nossa foto preferida, a cores e com todos os retoques, chapam-nos no cartão uma máscara sem vida nem personalidade. A culpa será então da máquina, que interpreta grosseiramente os traços físicos particulares de cada indivíduo mas também esses sinais conotativos da personalidade que todo o ser humano reconhece noutro ser humano. Uma capacidade que se estende à fotografia de retrato feita por seres humanos, cuja qualidade não depende em exclusivo do realismo da fotografia, procura a chama da vida no rosto do fotografado, foca-se na personalidade e dimensão humana do indivíduo. A máquina fica-se pelas evidências físicas típicas mais genéricas, ao estilo dos “retratos robot” utilizados pela polícia.

Há poucos anos, os “retratos robot” eram desenhados por artistas ao serviço da polícia. Vi alguns desses retratos, cujas preocupações realistas exigiam sombras certas e texturas bem trabalhadas. Atualmente, os “retratos robot” são obtidos por computador a partir da sobreposição dos mais diversos elementos físicos e a máquina realiza automaticamente a pesquisa de fotos nas bases de dados disponíveis. Claro que as fotos de polícia também têm caraterísticas bem particulares, seja pelas condições em que são feitas, seja pelo interesse prático do registo fotográfico, mas exprimem uma dimensão humana do retratado que ele jamais estaria disposto a mostrar noutras circunstâncias. Essas fotografias reproduzem o olhar superficial e o desinteresse do funcionário encarregado de fotografar (quando se trata de um fotógrafo, os resultados são bem diferentes), tal como acontecia no antigo serviço militar obrigatório e vai acontecendo nas morgues, pois o seu propósito é recolher dados objetivos – tal como a máquina que nos tira o retrato para o cartão de cidadão. 

Os artistas que trabalham com a polícia preferem o anonimato, por razões óbvias – ao contrário dos artistas de tribunal, que ganham a vida retratando os momentos mais significativos dos julgamentos onde se proíbe a entrada de máquinas de fotografar e filmar. Dois dos mais conhecidos são americanos, William J. Hennessy Jr.  e Vicki Behringer. O que às vezes corre mal é a precipitação e o improviso, pois nunca houve maus desenhadores a trabalhar para a polícia. O famoso “retrato robot” do presumível raptor de Madeline McCann, muito parodiado pelos ingleses e espanhóis (1), transmitia apenas as dúvidas e perplexidade da polícia portuguesa relativamente a um caso que ainda hoje continua por resolver.


August Sander (1876-1964) foi perseguido pelo regime nazi 
pois os seus retratos de gente comum não se enquadravam 
na estética do nazismo.

Uma fotografia de retrato aceitável, na perspetiva humana, será aquela em que o fotógrafo interpreta a realidade a fotografar manipulando os mais diversos fatores (ponto de vista, composição, iluminação, efeitos especiais) de modo a destacar a dimensão humana do fotografado. Há imensa bibliografia sobre o assunto mas continuo a preferir o belíssimo livro de Roland Barthes, “A Câmara Clara” (2). Na perspetiva da máquina, tudo o que for além das características humanas essenciais é supérfluo e o próprio reconhecimento do indivíduo será reproduzido a partir dessa representação esquemática, criando e difundindo uma realidade distinta, uma realidade paralela.

E não poderá o homem, com toda a sua inteligência e criatividade, construir uma máquina que substitua um bom fotógrafo? Ainda não. E todas as tentativas nesse sentido não passam, para já, de curiosidades tecnológicas, tal como a máquina que pinta como um artista – inventada por engenheiros japoneses e apresentada este ano na principal feira de tecnologia japonesa, a CEATEC 2012. O que a nova máquina japonesa faz é imitar com exatidão os traços de artistas e calígrafos. Vários artistas induziram computadores a produzir obras plásticas, entre os quais o português Leonel Moura (Lisboa, 1948), mas não poderá nunca falar-se de obras de Arte. A máquina copia, imita com perfeição, reproduz com exatidão – por determinação humana. Vê-nos como é determinado que nos veja e talvez resida aí, no “como” e “para quê”, o principal problema. O homem sempre procurou humanizar o mundo à sua volta - seja atribuindo humores humanos aos elementos, desenhando os canteiros do jardim, imaginando animais falantes ou batizando catástrofes naturais com nome de gente - mas as tentativas de humanização da máquina tornaram-se obsessão desde os autómatos humanoides do séc. XVIII - bonecos mecânicos conhecidos por “Andróides”, precursores dos robots (3) - e acentua-se à medida que as máquinas adquirem autoconsciência e autonomia. Não estamos muito longe disso: muitas máquinas industriais conseguem já detetar as próprias avarias e reparar automaticamente algumas delas.

Todos estes progressos têm riscos. Desconfiemos de tudo o que parece só ter vantagens (um ensinamento que já vem dos filósofos pré-socráticos). O modo como a máquina nos vê pode tornar-se rapidamente no modo como a máquina nos trata. O que pretende dizer-nos realmente Carlo Collodi (1826-1890) com a história de Pinóquio (1883), um boneco de madeira que sonha transformar-se num menino de verdade? Ou Mary Shelley (1797-1851), que teve a ideia de Frankenstein num sonho acordado e escreveu o famoso romance, cujo título completo é “Frankenstein ou O Moderno Prometeu” (1818)? Escritas no século XIX, estas histórias foram mantidas como “best-sellers” ao longo de mais de um século e assim continuam (agora com a ajuda do cinema) rumo ao futuro, pois parecem o que são: histórias destinadas a um tempo que ainda não chegou mas que já se anuncia. Aonde nos conduzirá tudo isto, agora que  confiámos às máquinas todo o nosso conhecimento e memórias, todas as nossas economias, toda a nossa segurança, assim como os mais diversos botões que ligam e desligam as nossas vidas?

(1) - Legenda de uma reprodução do referido “retrato-robot” num site espanhol: “Siempre que uno se lamenta de la situación de España, puede consolarse pensando en Portugal: este es el acertado retrato del rostro que la policía portuguesa realizó cuando comenzó las labores de búsqueda. No hace falta decir más.”

(2) - BARTHES, Roland, A Câmara Clara, Edições 70, Coleção Arte&Comunicação, Lisboa, 1989. O título original (1980) é "La Chambre Claire: note sur la photographie".

(3) - O mais famoso automatista do século XVIII foi o francês Jacques de Vaucanson (1709 – 1782), secundado por mestres (quase sempre relojoeiros) como Jacquet-Droz (1721-1790), Louis Leschot (1779-1838). e o suíço Henri Maillardet (1745-?). Conhecidos por “Andróides”, os autómatos com forma humana eram peças complexas que reproduziam na perfeição os movimentos humanos de escrever, desenhar ou tocar instrumentos. O propósito dos automatistas era imitar a vida através de meios mecânicos e os seus autómatos fizeram sucesso em feiras, exposições e espetáculos na Europa e na América. Um autómato de Maillardet ainda funciona e pode ser visto no YouTube. O mais famoso era um imbatível jogador de xadrez, construído em 1770 por Wolfgang von Kempelen (1734-1804), que funcionava mecanicamente na perfeição mas cuja alegada “inteligência artificial” se devia, na realidade, a um exímio jogador de xadrez anão que operava a máquina escondido no seu interior.

A arte da ilusão: Alexa Meade e Emma Hack


Pintura de Alexa Meade

A artista americana Alexa Meade (n. Washington D.C., 1986) combina pintura e instalação para desafiar a perceção visual do observador. Utilizando modelos vivos, a artista cria quadros tridimensionais que, uma vez fotografados, parecem pinturas bidimensionais. A artista avisa: “Ver não é necessariamente acreditar”.

Alexa começou por estudar as sombras, desde as condições em que se produzem até à sua representação. As sombras no vestuário dos modelos são previamente pintadas com acrílico, ficando a pintura corporal (cabeça, braços e pernas) para o momento da exposição. Ver no YouTube.


Emma Hack, "Body Crash"

Outra artista com um trabalho muito interessante na área da pintura corporal, a australiana Emma Hack (Adelaide, 1973), trabalhou com tintas uma forma constituída por 17 modelos masculinos e femininos empilhados de modo a representar um automóvel acidentado. Intitulada “Body Crash”, a escultura-instalação foi encomendada pela organização australiana Motor Accident Commission – MAC, e a experiência pode ser vista no Youtube.

sábado, 3 de novembro de 2012

Exposição de Pintura em Seia, 1989

Sérgio Reis, "Mon Diego", 1989, óleo s/tela (Col. José Santos)

Acontecimentos recentes levaram-me a recordar a segunda exposição que realizei em Seia, em 1989, ano em que fui colocado na Escola Secundária de Seia para profissionalização e ainda não contava fixar residência na então jovem cidade (desde 1986). Calhou dar-me com um grupo de pessoas de espírito aberto, vontade de trabalhar e gosto pela sua terra, que me acolheram muito bem e envolveram nas suas dinâmicas sociais e culturais.

Em 1989, Seia não dispunha de uma sala de exposições digna desse nome. Quando havia necessidade de realizar alguma exposição documental ou de arte, optava-se normalmente pelos Paços do Concelho ou pela antiga sala do bingo, no piso superior do cineteatro, onde hoje se encontra o auditório da Casa da Cultura. Quando se tratava de mostras e exposições de grande envergadura, procurava-se o salão de festas dos bombeiros voluntários (como aconteceu com a Exposição Nacional de Pintura “Prémio Tavares Correia”, que organizei em 1993 no âmbito dos Encontros de Arte’93) ou o pavilhão gimnodesportivo, junto ao parque municipal, onde se mostravam anualmente as potencialidades industriais e comerciais do concelho, o principal objetivo da FIAGRIS – Feira Industrial, Comercial e Agrícola de Seia. A feira de negócios completava-se com a feira popular, tal como a festa religiosa não dispensa os excessos profanos, atraindo muita gente dos concelhos vizinhos e turistas de verão, mas principalmente os emigrantes que vinham da Europa e das Américas matar saudades da sua terra natal e dar corda aos negócios familiares.

Em suma, interessava-me mostrar os meus trabalhos durante a FIAGRIS, perto do recinto da feira e em local digno. Como a Câmara organizava então a FIAGRIS (só em 1995, salvo erro, as associações setoriais passaram a organizar a feira), apresentei uma proposta ao vereador da Cultura, Victor Moura, que não só apoiou a ideia da exposição como apresentou uma solução que me agradou desde logo e foi determinante para o sucesso da exposição: uma ampla loja desocupada na cave do Edifício Europa (Construções Ventura), voltada para o anfiteatro e a dois passos de uma das entradas da feira. A loja onde se encontra hoje a AGRISEIA, na rua Dr. António Melo Mota Veiga.



Graças às amplas janelas, iluminação melhorada e porta aberta para a rua, a exposição suscitava curiosidade e foi muito visitada, mantendo-se aberta no horário da feira graças à colaboração de alguns jovens – entre os quais Beto Cruz, que vive presentemente na Amadora mas sem nunca esquecer a terra natal. Esteve presente nas últimas edições da ARTIS com os seus projetos fotográficos “Marcas de Amor” (2008) e “Não Lápide” (2009), que também expôs em diversos locais de Lisboa e em várias localidades do país.

Foram expostas 10 telas e 4 guaches. O quadro principal era uma pintura a óleo intitulada “Mon Diego”, inspirada numa das várias lendas sobre a origem do nome do rio Mondego, mas a sua maior particularidade nada tem a ver com o tema mas sim com a técnica, já que deixei de pintar a óleo por essa altura e essa foi, até hoje, a minha última pintura a óleo. Felizmente, faz parte da coleção de um bom amigo, à data da exposição um respeitável desconhecido, tal como os outros visitantes que distinguiram o meu trabalho adquirindo algumas obras.

A exposição decorreu em Julho e Agosto de 1989 e as obras expostas eram as seguintes:

1 – “Mon Diego”, óleo s/tela
2 – “Interioridade”, acrílico s/tela
3 – “O Camponês e Suas Propriedades”, acrílico s/tela
4 – “Pescadores”, acrílico s/tela
5 – “Marionetas”, acrílico s/tela
6 – “Caminhos de Névoa”, acrílico s/tela
7 – “Ao entardecer”
8 – “O Pastor e a Sua Atitude”, acrílico s/tela
9 – “Iluminações”, acrílico s/tela
10 – “Recordações da Penha do Gato”, acrílico s/tela
11 – “Arqueologia do Gesto - I”, guache s/papel
12 – “Mineiros”, guache s/papel
13 – “Primavera”, guache s/papel
14 – “Sombras”

Outra curiosidade desta exposição é que, no seguimento de uma entrevista, promovi um concurso através da rádio da feira (som local), com uma pergunta de algibeira sobre Pablo Picasso. A participação do público foi generosa mas não houve vencedor, pelo menos a cem por cento, e o participante que se aproximou mais da resposta certa recebeu uma pequena pintura como lembrança.


Sérgio Reis, "Interioridade", 1989, acrílico s/tela (Col. José Santos)

Sérgio Reis, "O Camponês e Suas Propriedades", 1989, acrílico s/tela (Col. José Santos)

Sérgio Reis, "Mineiros", 1989, guache s/papel (Col. João Fernandes)

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Umbelina Barros, "A persistência do existir"



O título da mais recente exposição de Umbelina Barros, “Humanidade”, sublinha as preocupações humanistas da artista e chama a atenção para a sua obra menos mediática, após as polémicas geradas pela escultura cerâmica “Garrafa das Caldas”. Os temas abordados nas pequenas grandes obras da série intitulada “100 deformações” ou nas obras totémicas, são bem mais polémicos que a representação e exposição provocatória da referida escultura mas também despertam a necessidade e mesmo o dever de refletirmos sobre a ordem simbólica que estrutura a Humanidade.

Umbelina Barros nasceu em 1974. 
Em 2008 conclui a licenciatura em Artes Plásticas e Novos Média, na Escola Superior de Artes e Design – Instituto Politécnico de Leiria, ESAD nas Caldas da Rainha.
Em 2010 realiza Mestrado em Artes Plásticas, pelo mesmo Instituto, sendo a obra “A garrafa, os percebes e a imagem”, o culminar de um processo de pesquisa teórico, prático e histórico.
Presentemente está a frequentar o Doutoramento em Ensino Artístico, na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, em parceria com a Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da universidade do Porto.
Desde 1998 que possui oficina própria, nas Caldas da Rainha, tendo participado em inúmeras exposições individuais e coletivas.

Poortugal exporta mais arte e antiguidades


São João Batista, padroeiro dos antiquários

As exportações de obras de arte e antiguidades aumentaram significativamente no primeiro semestre de 2012. A notícia tem sido veiculada por diversos órgãos de comunicação social e considerada muito positiva, até como exemplo de (um certo) empreendorismo. E na verdade, em tempos de crise económica (provocada por uma crise financeira, será bom não esquecer), esta notícia é positiva para o setor do comércio artístico e de antiguidades, que emprega e dá trabalho a milhares de profissionais das mais diversas áreas em Portugal – cada vez mais Poortugal, como bem observaram os ingleses (Poor=pobre), um trocadilho talvez inspirado no Allgarve (All=tudo) do famoso ministro Manuel Pinho. O problema não está no sucesso comercial, desejável e até saudável para o setor, mas sim na dispersão internacional dos nossos bens culturais, que faria sentido serem adquiridos por particulares e instituições portuguesas, enriquecendo espólios e coleções nacionais. Pelos vistos, estão a cair em mãos estrangeiras unicamente devido à crise. Acresce dizer que se trata principalmente de arte sacra, incluindo pintura religiosa, que devia estar a bom recato nos locais para onde foi encomendada e colocada, muitas vezes com pompa e grande cerimónia, pelos nossos "egrégios avós". Os profissionais do setor argumentam que os estrangeiros, principalmente alemães, angolanos e brasileiros, apreciam cada vez mais os valores histórico-artísticos, adiantando também que o aumento de exportações não é real mas puramente estatístico, pois verifica-se agora um maior controlo burocrático destas exportações. Ou seja, este “boom” comercial tem pouco a ver com uma nova abordagem do mercado internacional por parte dos profissionais do setor e, naturalmente, com uma grande agressividade concorrencial em matéria de preços. Pelo menos oficialmente, ninguém em Poortugal consegue ter planos B desesperados para a crise a não ser o governo. 

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Desenha'12 promove e divulga o Desenho português



Decorre até 15 de dezembro a 1ª edição da Trienal Movimento Desenho 2012, uma plataforma nacional de Desenho envolvendo dezenas de parceiros em diversas localidades, que visa divulgar o Desenho português e criar uma rede nacional de autores, associações, centros culturais, escolas, faculdades, fundações, galerias e instituições privadas e públicas num Movimento nacional pelo Desenho.
A ideia inicial deve-se a Ana Neves Guerreiro, artista plástica ligada à fundação da Art Assets, à qual se juntou Inês Bettencourt da Câmara (Mapa das Ideias), Cláudia Almeida, Patrícia Remelgado e Sofia Borges. São elas por assim dizer o núcleo difusor do Movimento de âmbito nacional.
A Trienal Desenha’12 não tem um tema, não se centra num único local. As referidas cinco comissárias articulam as iniciativas propostas por cerca de 130 parceiros independentes, entre os quais se contam instituições e associações culturais e artísticas, estabelecimentos de ensino superior artístico, galerias, câmaras municipais, grupos de teatro e bibliotecas municipais. Sem contar com as adesões espontâneas. Em Viseu, por exemplo, os alunos do 12º ano (Curso de Artes Visuais) da professora Joana Braguez fizeram desenhos rápidos de sorrisos para oferecerem às pessoas nas ruas. A lista completa dos parceiros (por ordem alfabética) e a respetiva programação (Agenda) pode ser consultada no site oficial ou na página de Facebook.

VER o vídeo promocional (“Em tudo há desenho”), produzido e realizado pela Trix.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

MUSEU DE ARTE DO RIO (MAR)



Está prevista para novembro a inauguração do Museu de Arte do Rio (MAR), a primeira grande estrutura cultural prevista para a renovação da zona do porto, no Rio de Janeiro. O projeto inclui mais dois museus (Museu do Amanhã, Museu da Imagem e do Som) e o arranjo urbanístico da zona portuária, que conta já com o Centro Cultural José Bonifácio, instalado desde 1994 num edifício histórico (construído no tempo de D. Pedro II) e sede do Centro de Referência da Cultura Afro-brasileira, uma instituição única na América Latina.

O novo museu fica instalado num edifício estilo neoclássico construído em 1916, também conhecido como Palacete Mauá, cujo interior foi modificado para dar lugar a oito grandes salões destinados a exposição de obras de arte. No edifício vizinho, onde existiu um hospital da polícia, funcionará a Escola do Olhar, os serviços educativos do MAR, considerados muito importantes para o projeto Porto Maravilha Cultural. Ambos os edifícios serão cobertos por uma estrutura ondulada, em betão armado, imitando as ondas do mar. O projeto da obra é da responsabilidade da antiga e famosa sociedade de arquitetos brasileiros Bernardes & Jacobsen, hoje gerida por Thiago Bernardes e Paulo Jacobsen, netos dos fundadores.

O acervo do MAR é composto por obras de arte, fotografias e documentos históricos adquiridos pela prefeitura e provenientes de doações. Os dois primeiros andares do edifício vão acolher exposições temporárias, a inaugurar em janeiro de 2013, contando com a colaboração de colecionadores como Jean Boghici, João Sattamini, Gilberto Chateaubriand ou Sérgio Fadel. As mais importantes coleções de arte do Brasil estão no Rio de Janeiro e a maior parte dos artistas brasileiros residem e trabalham na antiga capital. Para além da exposição temática “Rio de Imagens – uma paisagem em construção”, haverá exposições destinadas a mostrar parte da coleção de Jean Boghici (“O Colecionador”) e de Sérgio Fadel (“Vontade Construtiva”).

A exposição temporária “O Colecionador” apresentará obras de arte brasileira e internacional pertencentes à Coleção Boghici. O colecionador e comerciante de arte Jean Boghici perdeu várias obras da sua vasta coleção num incêndio no seu apartamento, ocorrido em agosto, entre as quais a obra-prima de Di Cavalcanti, “Samba” (1925), considerada um marco da arte brasileira. Boghici nasceu na Roménia em 1928, tendo chegado ao Brasil em 1949, e tornou-se um dos mais importantes colecionadores de arte brasileiros, pela importância das obras que começou a reunir na década de 1960 e por ter influenciado outros colecionadores e a carreira de inúmeros artistas – tal como em Portugal tivemos o galerista Manuel de Brito (1928-2005), personalidade relevante na cultura portuguesa desde os anos 60 e que era, curiosamente, natural do Rio de Janeiro. 


Di Cavalcanti, "Samba", 1925, óleo s/tela

Criada com verbas da prefeitura, Organizações Globo e Vale, a nova instituição é gerida pela Fundação Roberto Marinho e tem uma meta estipulada pela prefeitura de 200 mil visitantes por ano. Este objetivo não será difícil de atingir graças aos milhões de turistas oriundos de todo o mundo que procuram anualmente o Rio de Janeiro, o destino turístico mais procurado na América Latina.

Site do MAR - Museu de Arte do Rio