domingo, 10 de junho de 2012

NEVER SORRY



A realizadora e jornalista Alison Klayman realizou um documentário sobre o atista chinês Ai Wei Wei, Prémio especial do júri no Festival de Cinema de Sundance, 2012. Intitulado “Never Sorry”, o filme foi realizado quando Alison Klayman trabalhava na China e traça um retrato do conceituado e controverso artista.

EDVARD MUNCH: THE MODERN EYE

“Edvard Munch: The Modern Eye” – Tate Modern, Bankside – Londres, de 28 de junho a 14 de outubro 2012.


A partir de 28 de junho, a Tate Modern em Bankside, Londres, revela Edvard Munch (Noruega, 1863-1944) à luz do conhecimento atual do artista e da sua obra.

Intitulada “Edvard Munch: The Modern Eye”, a exposição inclui seis pinturas, algumas das quais cedidas pelo Museu Munch, em Oslo, assim como fotografias e filmes.

A obra do famoso pintor simbolista do século XIX foi marcada por tragédias pessoais e familiares, como é sabido, mas também por acontecimentos reais relatados nos jornais da época, como na pintura “A Casa está a Arder”, de 1925-27, e pelas inovações tecnológicas da sua época. Numa pintura de 1919-21, “O Artista e o seu Modelo”, representa os efeitos visuais criados pela iluminação elétrica e alguns dos seus quadros mais famosos revelam interesse pela linguagem cinematográfica (composições dominadas por linhas de força diagonais e figuras em primeiro plano para criar a ilusão do movimento) e pela fotografia. Tal como outros pintores do seu tempo (Bonnard e Vuillard, por exemplo), Munch dedicou-se à fotografia, tendo desenvolvido uma obsessão pelo autorretrato.  

A obsessão é uma das caraterísticas da obra de Munch, que pintou várias versões do mesmo tema e repetiu motivos de quadro para quadro, desde “A Menina Doente” (1885) ao seu quadro mais célebre, “O Grito” (inicialmente intitulado “Desespero”), do qual existem 4 versões e uma litografia. Foi a quarta versão de “O Grito”, a única na posse de um particular, que foi vendida em 2012 por 119,9 milhões de dólares (91,3 milhões de euros), estabelecendo um novo recorde nos leilões de arte.

Os estados depressivos repetiram-se pela vida adulta do artista, tendo sido tratado em França (Le Havre), Suíça e Alemanha (Bad Elgersburg). Nos anos 30, uma doença dos olhos afetou a sua pintura, tornando-a ainda mais melancólica e sombria. Faleceu na sua casa, perto de Oslo, aos 80 anos.

Duas versões do mesmo quadro: “Raparigas na Ponte”, c. 1899 (Nasjonalgalleriet, Oslo)  e 
“Quatro Raparigas na Ponte”, 1905 (Walraff-Richartz-Museum, Köln)

Trailer do filme “Edvard Munch”, realizado por Peter Watkins em 1976, com Geir Westby e Gro Fraas nos principais papéis. 

domingo, 27 de maio de 2012

Fotografia de Zaida González na Serpente


Zaida González, "Branca de Neve", fotografia colorida

A Serpente – galeria de arte contemporânea, apresenta até 2 de junho, uma interessante exposição de Zaida González, intitulada “Primera Comunión”.

Zaida Gonzáles Ríos é uma fotógrafa chilena (n. 1977, Santiago do Chile) formada pelo Instituto de Comunicación Alpes, que desenvolve desde 2000 um consistente trabalho na área da publicidade, não só a nível criativo mas, também, de compreensão teórica do fenómeno da fotografia publicitária, em conjunto com investigadores e artistas.

Em 2003, integrou o grupo de artes plásticas chileno “Miss Tres Senoritas” mas expõe desde 1999, ano da coletiva de fotografia "Ángeles y demonios", no Instituto Alpes. Desde então, tem realizado várias exposições individuais e coletivas no Chile, Venezuela, Colômbia, Argentina, EUA, Espanha, Bélgica, França, e agora em Portugal.

A exposição “Primera Comunión” foi a primeira que realizou fora do Chile, em 2004, integrada na IV Bienal de Arte e Fotografia de Liege, Museu Les Chiroux, Bélgica, e mostra-se agora no Porto, na Rua de Miguel Bombarda. O conjunto de imagens, fotografias analógicas a preto e branco coloridas à mão com tintas de aguarela, interpreta criticamente, com ironia, os costumes sociais de sociedades fechadas, retratando alguns tipos sociais em particular e a relação que se estabelece entre as pessoas, com destaque para as relações familiares e em particular a perspetiva machista do casamento. Os títulos sugestivos das exposições (“Las Novias de Antonio”, “Recuérdame al morir com mi último latido”, “Arroz con leche me quiero cazar” ou “Cinturón de castidad”, por exemplo) enquadram a respetiva temática, tratada como imagens oníricas evocando os retratos de família antigos, em ambientes simbólicos carregados de kitsch popular.

sábado, 26 de maio de 2012

Inauguração da Galeria Pátio-velho


Foi ontem inaugurada a galeria de arte do Pátio-velho, em Vale de Ferro, com a presença de muitos convidados, entre os quais entidades locais, artistas de Oliveira do Hospital e Seia, para além de  estrangeiros residentes que também se dedicam às artes.

A galeria é um espaço simpático e acolhedor, de planta retangular, que abre para um vasto pátio. Situa-se em Vale de Ferro, uma aldeia praticamente abandonada localizada na freguesia de Ervedal da Beira, concelho de Oliveira do Hospital, cujas casas estão a ser recuperadas.

Na inauguração, o Presidente da Câmara Municipal de Oliveira do Hospital, José Carlos Alexandrino, a Vereadora da Cultura, Graça Silva e o Presidente da Junta de Freguesia de Ervedal da Beira, Carlos Maia, destacaram o interesse destas iniciativas para a dinâmica da freguesia e do concelho e valorizaram o contributo de moradores oriundos de países europeus como a Bélgica e a Holanda para o empreendorismo e riqueza da região.

Os acessos são o principal problema de Vale de Ferro e a galeria de arte pretende criar um polo de interesse turístico adicional a todos aqueles que privilegiam e procuram o contacto com a natureza e com os ritmos produtivos ancestrais.

A galeria tem patentes obras de pintura de Magda e fotografias de Herman mas prepara-se já uma exposição coletiva de artes plásticas para o verão.

Magda e Herman Mertens escutam José Carlos Alexandrino

Magda, Herman, José Carlos Alexandrino e Graça Silva




A Capela de Nossa Senhora das Necessidades domina a aldeia de Vale de Ferro, no cume do monte sobranceiro à galeria de arte Pátio-velho.

Notícia no blogue Pátio Velho
Notícia jornal Correio da Beira Serra (Oliveira do Hospital)

domingo, 20 de maio de 2012

O Pintor António Cruz, o Realizador Manoel de Oliveira e a Cidade do Porto


O pintor António Cruz, na cena inicial de "O Pintor e a Cidade"
(VER o FILME no YouTube)

“O Pintor e a Cidade” é um documentário sobre a cidade do Porto em 1956 através do olhar do Pintor, António Cruz (Porto, 1907-1983), e do Realizador, Manoel de Oliveira (Porto, 1908), que também assinou a fotografia. As aguarelas (com destaque para a animação com aguarelas, muito feliz, a fechar o filme) e as fotografias em movimento sobre o Porto procuram acompanhar-se mutuamente, com momentos de grande intimidade. Ficaram todos bem no filme: o mestre António Cruz, um grande nome das artes portuenses, exímio aguarelista (1); o realizador português Manoel de Oliveira, à data já com 48 anos, a realizar o seu primeiro filme a cores – um dos primeiros do cinema a cores em Portugal (2) - que haveria de lhe proporcionar o primeiro prémio internacional da sua longa carreira, a Harpa de Ouro do Festival de Cork, na Irlanda, para além do Prémio SNI para a Melhor Fotografia.

Em entrevista a João Bénard da Costa, em 1989, Manoel de Oliveira falou sobre a importância de “O Pintor e a Cidade”:

"Em 1955 fui à Alemanha. Havia já um curso sobre a cor, que me começou a interessar muitíssimo. Fiz um curso na Agfa, curso intensivo sobre a cor durante um mês. Depois fui a Munique ver as máquinas, e embrenhei-me outra vez. Arranjei uma máquina e comecei pelo Pintor e a Cidade que foi o meu primeiro filme a côr e um dos primeiros filmes portugueses a cor.
Fiz O Pintor contra O Douro. Enquanto O Douro é um filme de montagem, O Pintor é um filme de êxtases. Eu descobri no Pintor e a Cidade que o tempo é um elemento muito importante. A imagem rápida tem um efeito, mas a imagem quando persiste ganha outra forma. O Pintor e a Cidade é uma obra fundamental na minha carreira, na mudança da minha reflexão sobre o cinema. É a primeira vez que eu volto as costas a um cinema de montagem".


Em entrevista ao crítico de cinema arménio naturalizado brasileiro, Leon Cakoff, Manoel de Oliveira disse sobre “O Pintor e a Cidade”:


 “O Pintor e a Cidade é o meu primeiro filme em cores e também o primeiro filme português em cores, revelado nos laboratórios da Tobis Portuguesa. É, ainda, o primeiro filme onde faço tudo: produção, direção, fotografia. Mais tarde arranjei um auxiliar para fazer um som póstumo. E esse filme hoje caracteriza-se pela banda sonora, que não tem uma qualidade de som extraordinária, mas é muito apreciada. (…) Como se tratava de um filme a cores, levei comigo o pintor António Cruz, um aquarelista muito particular, que tinha muitas aquarelas sobre a cidade, e que eu admirava. E assim se deu ao filme o nome O Pintor e a Cidade, como se dera o nome a Portugal, que deriva de Porto-Cal. É um documentário onde eu me ensaio como operador (camera men). Quanto ao mais, já tinha praticado tal coisa em filmes anteriores.”

E por falar de documentários a cores, refiram-se os breves filmes que o filho de António Silva Tavares tem colocado no YouTube, realizados nos anos 50 em Kodachrome 16mm, com imagens verdadeiramente históricas:


Imagens raras da demolição do Palácio de Cristal do Porto no fantástico filme de A. Silva Tavares.
(VER O FILME no YouYube)

(1) - "O Pintor e a Cidade - Cinquenta aguarelas sobre o Porto de António Cruz", Edições ASA, 2003.
(2) - O primeiro documentário português a cores terá sido realizado em 1952 na Ilha da Madeira por Abel Caetano Escoto (n. Águeda, 1919-Lisboa, 1991), que foi diretor de fotografia de grandes filmes portugueses das décadas de 50, 60 e 70, tendo trabalhado com os principais realizadores nacionais – mas nunca com Manoel de Oliveira. A primeira longa-metragem portuguesa a cores foi “A Raça”, filme realizado em 1961 por Augusto Fraga – com Caetano Escoto na direção fotográfica.

Artistas chineses contemporâneos e a responsabilidade social do artista - II


Zeng Fanzhi – Série Máscaras, Nº6, 1996, oleo s/tela. A pintura mostra um grupo de jovens usando máscaras risonhas e lenços do Exército Vermelho.

Tentando desvalorizar a posição de Ai Weiwei, o governo chinês argumenta, justamente, que a China tem muitos artistas merecedores da atenção internacional. Uns, mais acertados ou concertados com o regime, e outros à margem do mesmo ou vivendo e trabalhando longe do seu país natal, especialmente nos EUA.

A China é uma grande potência mundial, a todos os níveis. Apesar das influências ocidentais, a arte chinesa contemporânea possui características próprias que emergem da sua história imponente e das elaboradas artes tradicionais. Xu Beihong (1895-1953) foi o pioneiro da arte moderna chinesa, beneficiando de uma perspetiva alargada da arte internacional graças aos estudos artísticos em Tóquio e Paris. Wu Guanzhong (1919-2010), que renovou o tradicional tema da paisagem, é outro nome de referência da arte chinesa do século XX. Curiosamente, Beihong e Guanzhong nasceram na mesma localidade, Yixing, na província de Jiangsu, famosa pela olaria tradicional.

Os artistas chineses contemporâneos com mais projeção internacional abordam temas sociais e políticos, sobretudo aqueles que viveram a infância durante a Revolução Cultural (1966-1969) e os protestos estudantis de 1989, reprimidos pelos militares em Pequim, com grande violência, mas sobretudo o encerramento forçado da primeira exposição coletiva de arte chinesa de vanguarda, “China / Avant Garde”, também em 1989. Esta exposição na Galeria Nacional da China, em Pequim, é um marco na história da arte chinesa contemporânea, pelo arrojo da ideia (exibir obras vanguardistas na Galeria Nacional da China, incluindo performances e instalações) e do resultado provocatório (uma exposição que mais parecia, segundo o artista Zhang Peili, “um mercado agrícola”), mas sobretudo pela reação imediata dos artistas, nomeadamente através da criação do movimento artístico “Realismo Cínico”(1), que direcionou a arte chinesa contemporânea desde 1989 para a crítica social e política.

Entre os artistas chineses contemporâneos mais conhecidos internacionalmente, para além do já referido Ai Weiwei, contam-se Cai Guo-Qiang, Fang Lijun, Gu Wenda, Yue Minjun, Wang Guangyi, Zeng Fanzhi, Zhang Dali, Zhang Huan, Zhang Xiaogang. São artistas inconformados, cujo traço comum é a responsabilidade social do artista, determinada pela sua consciência política. Uma linha seguida pelos artistas mais jovens, como Sun Yuan (n. Beijing, 1972) e Peng Yu (n. Heilongjiang, 1974), conhecidos por obras como “Old Persons Home” (2007) e pela manipulação de materiais extremos.

(1) - O “Realismo Cínico” carateriza-se pelo humor, cinismo, preferência pelas cores vivas e destaque das personagens individuais, tendo marcado a arte chinesa sobretudo nos anos 90 do século XX.

ALGUNS ARTISTAS REFERENCIADOS NO TEXTO

Cai Guo-Qiang (n. Quanzhou, Fujian, 1957, vive e trabalha em Nova Iorque) é conhecido pela sua arte pirotécnica (em especial, o fogo de artifício das Olimpíadas de Pequim, 2008) mas desenvolve uma obra plástica que mobiliza conceitos e mitos tradicionais chineses. As suas posições políticas, ampliadas pela reputação mundial da sua obra, tornaram-no um artista incómodo para o governo chinês.

Ding Fang (n. Nanjing, 1956) esteve ligado ao movimento de vanguarda que originou a primeira exposição vanguardista chinesa, em 1989. Expôs em várias galerias na Europa, EUA e Austrália. O Museu Nacional de Arte da China dedicou-lhe uma exposição retrospetiva em 2002. Ensina arte na Universidade de Nanjing.

Fang Lijun (n. Handan, Hebei, 1963, reside e trabalha em Beijing) liderou o movimento cultural chinês “Realismo Cínico” nos anos 90. Começou por estudar cerâmica e gravura mas a sua pintura, inicialmente mal recebida nos meios académicos, tornou-o conhecido internacionalmente.

Gu Wenda (n. Xangai, 1955, vive e trabalha em Nova Iorque) iniciou a sua carreira artística ainda na Guarda Vermelha e deixou a China em 1987. O seu trabalho ecoa a cultura chinesa, sobretudo as obras inspiradas na caligrafia chinesa. É também conhecido por usar cabelo humano nas suas obras.

Yue Minjun (n. em Daqing, Heilongjiang, 1962, reside e trabalha em Beijing) é um artista conhecido pelos seus retratos resplandecentes de ironia e cinismo, que o aproximam do movimento “Realismo Cínico” – uma ligação que o artista rejeita. A revista Time referenciou-o em 2007, originando a sobrevalorização das suas obras. Uma delas, “Execução” (1995), foi vendida por 5,9 milhões de dólares americanos. Nem por acaso, as figuras de Minjun exprimem o vazio do mundo atual e as personagens risonhas são a sua marca distintiva.


Yue Minjun, “Execução”, 1995

Zeng Fanzhi (n. Wuhan, 1964, vive e trabalha em Beijing, China) pratica uma pintura introspetiva, com base nas memórias e experiências quotidianas, procurando reinventar regularmente a sua expressão artística. Na série “Máscara” explorou o sentimento de solidão e isolamento e uma dessas obras (Nº6, 1996) tornou-se mesmo a mais cara obra de arte chinesa contemporânea, vendida por 9,7 milhões de dólares americanos. A pintura mostra um grupo de jovens usando máscaras risonhas e lenços do Exército Vermelho.

Zhang Dali (n. Harbin, 1963, vive e trabalha em Beijing, China) exprime-se sobretudo no graffiti mas são famosas as suas instalações com figuras de resina em tamanho natural, penduradas de cabeça para baixo, simbolizando a incerteza da condição dos trabalhadores migrantes na China.


Chinese Offspring”, figuras em resina e fibra de vidro, 2003 

Zhang Peili (n. Hangzhou, 1957) esteve ligado ao movimento de vanguarda que originou a primeira exposição vanguardista chinesa, em 1989, e foi o primeiro artista chinês a dedicar-se ao vídeo de arte. As suas obras de pintura, instalação e video, abordam questões sociais e incluem comentários políticos. Peili ensina na Academia de Belas Artes de Zhejiang.

Zhang Peili, “Last Words”, 2003, vídeo

Wang Guangyi (n. Harbin, 1957, reside e trabalha em Beijing, China) é o mais conhecido artista “pop” chinês, reinventando cartazes de propaganda da Revolução Cultural . Na série “Grande Crítica”, junta símbolos do consumismo com imagens de soldados e camponeses chineses.

Wang Guangui, Série “Grande Crítica”, “Coca-Cola”, 2005, óleo s/tela.


Zhang Huan (n. Anyang, Henan, 1965, vive e trabalha em Nova Iorque e Xangai) começou a sua carreira como fotógrafo e performer vanguardista em Pequim mas, com o tempo, apurou uma linguagem artística combinando o desenho, pintura, escultura e instalação. O seu interesse pelo Budismo tornou-se um tema recorrente na sua obra.

Zhang Huan, “q confucius nº2”, silicone, aço, fibra de carbono e acrílico

Zhang Xiaogang (n. Kunming, Yunnan, 1958) é um pintor simbolista e surrealista que se inspira na estética da era de Mao, nos surrealistas europeus e nas fotos de estúdio dos anos 50 para criar os seus impressionantes retratos imaginários de famílias e indivíduos. A série “Bloodline” (Linhagem) aborda as interações entre a vida privada e pública.

Zhang Xiaogang, Série “Bloodline”, “A Grande Familia nº3”, 1995

LINKs e FONTES:
VER: "Ai Weiwei e a responsabilidade social do artista".

Artistas chineses de VANGUARDA (1985-….)
GALERIA DO MUNDO (Arte chinesa contemporânea)
ARTISTAS CHINESES contemporâneos

Principais fontes:
Wikipedia; Saatchi Gallery; sites dos artistas; sites indicados.


sábado, 19 de maio de 2012

Ai Weiwei e a responsabilidade social do artista

O artista e ativista chinês Ai Weiwei

Apesar da crescente abertura ao mundo, após reaver Hong Kong e Macau e no seguimento dos convites a Taiwan para integrar a República Popular da China, o governo chinês mantém sob fortes restrições os direitos e liberdades dos cidadãos e reprime com vigor a dissidência política. Esta inflexibilidade do governo chinês, pouco condizente com os pacíficos ensinamentos da filosofia tradicional chinesa e prioridades humanistas do socialismo internacional, tem sido desastrosa para a imagem e ambições internacionais do gigante asiático, sobretudo quando suscita o envolvimento de organizações internacionais não-governamentais (ONGs) credíveis, como a Human Rights Watch ou a Amnesty International, e a mobilização da opinião pública através das atuais tecnologias de informação e comunicação.

A repressão exercida sobre ativistas como Liu Xiaobo (Prémio Nobel da Paz de 2010), ou Ai Weiwei (arquiteto e artista chinês), conhecida e condenada em todo o mundo, vai reavivando a memória dos lamentáveis incidentes ocorridos em 1989 na Praça Tiananmen, de onde saíram muitos destes ativistas, e não favorece a imagem internacional da República Popular da China.

O artista chinês Ai Weiwei (n. Pequim, 1957) é conhecido sobretudo pelas suas obras de escultura, arquitetura e instalação, cuja originalidade não dispensa um contínuo desejo e busca de rutura. Logo em 1978, foi um dos fundadores do grupo vanguardista de arte “Estrelas”, que se desfez quando Weiwei foi estudar para os EUA, na Parsons School of Design e na Art Students League, em Nova Iorque. Regressou à China em 1993, por doença do pai (o poeta chinês Ai Qing), onde deu início a alguns projetos que o tornaram conhecido nos meios artísticos internacionais, especialmente o arquivo de arte contemporânea China Art Archives & Warehouse, uma galeria para divulgar a arte experimental chinesa, em Pequim, e o estúdio de arquitetura e design FAKE.

O seu primeiro projeto arquitetónico foi a sua casa-estúdio em Caochangdi, em 1998, mas a sua obra mais grandiosa, mundialmente aplaudida, é o Estádio Nacional de Pequim, “Ninho de Pássaro”, construído para os Jogos Olímpicos de 2008. Até esse ano, a carreira artística internacional de Wewei era relativamente conhecida e apreciada pelo público em geral, apesar das suas participações nos principais certames e mostras coletivas internacionais, para além das várias exposições individuais em galerias e museus de referência, na Ásia, Austrália, América do Norte, América do Sul e Europa.

Apesar de sempre ter criticado as orientações políticas da República (os seus pais estiveram detidos em Xinjiang por delito político), foi na sequência das suas investigações sobre a dimensão humana do terramoto de Sichuan que caiu em desgraça junto do poder político. A sua insistência em contabilizar e divulgar a lista completa de jovens estudantes que perderam a vida na catástrofe devido à má qualidade da construção das escolas públicas irritou o governo, que fechou o seu blogue. Weiwei foi também agredido pela polícia quando se manifestava contra a prisão de um colega da investigação, tendo publicitado a cirurgia a que foi submetido em Munique para conter uma hemorragia cerebral, alegadamente em consequência da agressão policial. Desde então, agudizou-se o controlo e repressão do artista e ativista chinês, que foi impedido de sair da China por motivos de segurança nacional, e posteriormente detido sob a acusação de evasão fiscal. Libertado em junho de 2011, após prometer parar com as críticas e pagar uma multa milionária pela alegada fuga aos impostos (que foi paga com a ajuda de uma campanha internacional), Weiwei continua a ser uma referência incómoda na diplomacia interna e externa da China, no dia (19 de maio 2012) em que o ativista cego Chen Guangcheng deixou o país rumo aos EUA, após ter fugido da prisão domiciliária – onde se encontrava por exigir direitos para os deficientes chineses e condenar o aborto forçado nas comunidades rurais.

(Continua em: "Artistas chineses contemporâneos e a responsabilidade social do artista")

Ai Weiwei, "Ninho de Pássaro", Pequim, 2008