domingo, 8 de janeiro de 2012

Despique nacional entre Capitais Europeias

Braga (Capital Europeia da Juventude 2012) não quer ficar atrás de Guimarães (Capital Europeia da Cultura 2012).

Em Guimarães, estão a causar algum incómodo os dados comparativos do anuário estatístico regional do Instituto Nacional de Estatística, que destacam Braga (sub-região estatística do Cávado) nos principais parâmetros e colocam Guimarães (sub-região estatística do Ave) praticamente a par de Viana do Castelo (sub-região do Minho-Lima).

Estas três cidades são, nos números do Instituto Nacional de Estatística, dos destinos turísticos mais procurados na região norte de Portugal, mas as análises que os dados do INE proporcionam (1), recentram a ancestral rivalidade entre Guimarães e Braga, núcleo histórico e afetivo da nacionalidade (2), ambas Capitais Europeias, da Cultura e da Juventude, respetivamente.

Acontece que não tem faltado a Guimarães a promoção que tem faltado a Braga. Guimarães é Património da Humanidade há 10 anos, o seu castelo foi eleito uma das 7 Maravilhas de Portugal e é Capital Europeia da Cultura 2012. No entanto, Braga vai à frente na classificação provisória do INE no que respeita aos subcapítulos da Cultura. O lema da Capital Europeia da Juventude é discutível no contexto regional (“Todos somos Braga”) mas a organização, a Fundação Bracara Augusta, promete “a melhor capital europeia da juventude de sempre” e ficar na história graças à iniciativa “Estratégia Braga 2024”, cujo objetivo será constituir a rede europeia de Capitais Europeias da Juventude.

Guimarães 2012 apresentou um programa à altura da responsabilidade assumida em maio de 2009, mas Braga 2012 oferece igualmente eventos para todo o ano, distribuídos por três áreas: Y.WORLD; Y.YOU; Y.LIKE. O Y.WORLD tem dimensão europeia, visando promover o diáçogo intercultural e o debate das questões europeias da juventude. Os seus pontos altos serão a realização do Parlamento Europeu Jovem (17 a 25 de março), o Dia Internacional da Juventude (12 de agosto) e a “Aldeia das Religiões” (21 a 28 de outubro).

As Capitais Europeias da Cultura em Portugal têm retratado generosamente os males da cultura nacional: atrasos, improviso, desleixo, jogos de influências e lutas pelo poder. Foi assim em Lisboa (1994) e no Porto (2001). Basta folhear os jornais da época. Em Guimarães, já foi mesmo necessário apelar à ordem e à moralidade. Poderá argumentar-se que é assim em todo o lado mas Portugal é o nosso país e o que alguns fazem, aqueles que elegemos ou que foram nomeados para nos representar, compromete-nos a todos. Para o bem e para o mal.

Certo é que a realização de duas Capitais Europeias no mesmo distrito e no Minho, região de forte personalidade cultural e ímpares riquezas patrimoniais, constitui uma oportunidade única para a região. Esperemos que não seja mais uma oportunidade desperdiçada.

A abertura oficial da Capital Europeia da Juventude está marcada para 14 de janeiro em Braga. A Capital Europeia da Cultura em Guimarães, abre oficialmente a 21 de janeiro.

(1) - Confirmando os dados de dezembro do Instituto de Planeamento e Desenvolvimento de Turismo (IPDT), que foram considerados pouco fiáveis por se basearem no número de visitas aos postos de turismo. As estatísticas do INE são por natureza fiáveis, constituindo a base de todas as análises e decisões nos mais diversos domínios da vida nacional, o barómetro da nação que permite compararmo-nos com bastante certeza com outras nações e situarmo-nos no universo internacional. Servem igualmente de base à celebrada base de dados Pordata, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, presidida por António Barreto.

(2) -Juntamente com o Porto, que deu nome ao novo território independente (Porto Cale), um dos três locais no norte do país classificados como Património Mundial pela UNESCO: centro histórico do Porto, em 1996; gravuras de Foz Coa, 1998; centro histórico de Guimarães, 2001.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

DOIS ARTISTAS SENENSES NA "SURREALISM 2012", EM READING, EUA

Capa do catálogo da exposição

Oito artistas portugueses, entre os quais se contam dois artistas senenses, Luiz Morgadinho e Marta Peres, vão representar o surrealismo português numa grande exposição internacional nos EUA. A inaugurar a 6 de janeiro, a “Surrealism 2012” decorre até 19 de fevereiro de 2012 em Reading, uma das principais cidades do Estado da Pensilvânia, próxima de Filadélfia.

A exposição evoca o início do quinto ciclo solar no calendário Maia e é organizada por Joseph Jablonski, elemento ativo do Grupo Surrealista de Chicago. Este grupo foi fundado por Franklin e Penelope Rosemont no início dos anos 60, após uma viagem a Paris, onde contactaram com André Breton (1896-1966), o líder do grupo de intelectuais franceses que deu origem ao movimento surrealista nos anos 20 do século passado. A organização da mostra pretende dar ao público norte-americano da costa nordeste dos EUA, polarizada pela proximidade geográfica de cidades como Nova Iorque, Filadélfia e Baltimore, uma visão abrangente do movimento surrealista internacional desde os anos 60 do século XX à atualidade (1). Para tal, contou com a colaboração do movimento surrealista norte-americano e de grupos surrealistas internacionais, entre os quais a Secção do Cabo Mondego do Grupo Surrealista Português, o grupo holandês CAPA, o francês Mordysabbath (de Thomas Mordant e Ody Sabon), ou o britânico SLAG (Surrealist London Action Group).

Instalada no grandioso e moderno espaço do complexo cultural GoggleWorks, a exposição reúne 248 obras de artistas surrealistas oriundos de 23 países, com uma expressiva representação europeia (Bélgica, Espanha, França, Grã-Bretanha, Holanda, Irlanda, Noruega, Portugal, República Checa, Sérvia, Suécia) e a participação de artistas iraquianos, japoneses e indonésios. As representações mais numerosas são, naturalmente, a norte-americana e a canadiana, assinalando-se a presença de vários países da América Latina: Argentina, Brasil, Chile, Costa Rica, Cuba, México e Porto Rico.

Os artistas que representam Portugal, à exceção de Cruzeiro Seixas, têm todos ligações à Secção do Cabo Mondego do Grupo Surrealista Português: João Rasteiro (poeta), Luiz Morgadinho (pintor), Marta Peres (pintora), Miguel de Carvalho (poeta e colagista), Pedro Prata (pintor), Rik Lina (pintor e poeta) e Seixas Peixoto (pintor). Rik Lina é um holandês radicado em Portugal que também colabora com o grupo CAPA (Collective Automatic Painting Amsterdam) de que foi um dos fundadores.

Luiz Morgadinho, “A Marcha dos Homens de Pensamento Empalhado”/“The hay march of the intellectuals”, óleo s/tela - obra exposta em Reading, EUA.

Os artistas participam com trabalhos individuais e obras coletivas de desenho, pintura, colagem, aguarela, fotografia, gravura e escultura, seguindo a estética do surrealismo. As linhas orientadoras da estética surrealista, foram estabelecidas por André Breton em 1924, com a publicação do primeiro manifesto surrealista, e explicitadas em 1929, no segundo manifesto. O Surrealismo é um movimento literário e artístico de origem francesa, hoje difundido a nível mundial. Reconhecendo a internacionalização do movimento, Breton publicou em 1942 uma espécie de terceiro manifesto, mas o surrealismo bretoniano foi progressivamente enriquecido e fortalecido com contributos estéticos das culturas dos diversos países onde se desenvolveu, tendo sobrevivido a diversas cisões e regenerações – o que também aconteceu em Portugal em 1948 (cisão do Grupo Surrealista de Lisboa).

A ligação dos surrealistas portugueses ao grupo surrealista de Chicago teve início nos anos 70, por intermédio de Mário Cesariny e posteriormente através de Cruzeiro Seixas, Raul Perez e Mário Botas. No grande encontro de surrealistas realizado em Chicago em 1976, denominado "Marvelous Freedom/Vigilance of Desire", a secção portuguesa foi fortemente representada e aplaudida pela elevada qualidade poética dos seus trabalhos. Em 2005, por intermédio de Mário Cesariny, Miguel de Carvalho estabelece contactos com o Grupo de Chicago. Três anos depois, convida os surrealistas de Chicago a participarem numa das maiores exposições internacionais de surrealismo realizadas nos últimos anos na Europa, "O Reverso do Olhar", que teve lugar em Coimbra em 2008, depois apresentada na Amadora (“A Voz dos Espelhos”), ainda em 2008, e em Lagoa (“Iluminações Descontínuas”) já em 2009. A participação portuguesa na mostra de Reading vem, sobretudo, na continuidade dessas exposições (2) e da presença dos surrealistas portugueses na mostra internacional “El Umbral Secreto, 2009-2010”, em Santiago do Chile – graças à ligação de Rik Lina e de Miguel Carvalho ao grupo chileno do movimento PHASES.

Luiz Morgadinho nasceu em Coimbra em 1964. Reside em Santa Comba de Seia. Pintor autodidata, de inspiração surrealista, regista no seu currículo diversas exposições coletivas e individuais em Portugal e no estrangeiro. Em 2010, recebeu o Prémio Município de Oliveira do Hospital, na AGIRARTE 13 e Menções Honrosas em Lisboa (1996), Torres Novas (1997) e Nisa (2000). Foi homenageado em 2009 na ARTIS VIII – Festa das Artes e Ideias de Seia. Participa atualmente (até 29 de fevereiro) numa exposição de surrealistas em Lisboa, na Leya/Barata.

Marta Peres nasceu em Coimbra em 1989. Reside em Seia. Iniciou a sua atividade artística em 2007, na área do surrealismo, tendo participado em algumas exposições coletivas, com destaque para o ARTIS – X Festival de Artes Plásticas de Seia. Realizou a primeira exposição individual em 2010. É o membro mais recente da Secção do Cabo Mondego do Grupo Surrealista Português.

Entrada do GoggleWorks, em Reading

(1) - Segundo o texto de apresentação da exposição no site oficial.
(2) - "Reverso do Olhar" (no Museu da Cidade de Coimbra, Edifício Chiado, e na Galeria Pinho Diniz, Casa Municipal da Cultura de Coimbra, 03 de maio a 28 de junho 2008), "A Voz dos Espelhos" (Galeria Artur Bual, Amadora, de 6 de setembro a 19 de outubro de 2008) e "Iluminações Descontínuas" (Convento de S. José, Lagoa, 17 de janeiro a 28 de fevereiro de 2009).

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Volta, Bordallo, e traz os manguitos!

Nota do auctor: texto escripto de accordo com as bases orthographicas da lingua portugueza anteriores á reforma de 1911. O vocabulario actual foi mantido, para maior clareza da escripta.

Accordos orthographicos ha muitos! Volta, Bordallo, e traz os manguitos!

Desde o dia de hoje, 2 de Janeiro de 2012, os escriptos officiaes da Republica Portugueza passam a ser redigidos segundo o novo accordo orthographico, assignado em Dezembro de 1990 pelos principaes paizes de lingua official portugueza. Apesar desse facto, o accordo continua com caracter facultativo, para allem de permitir uma enormidade de duplas graphias. Ou seja, ha 20 annos que discutimos o accordo, adiando successivamente a sua entrada em vigor, para continuarmos na pratica a escrever como nos apetece. Muitos escriptores e jornalistas recusam adoptal-o e praticam o portuguez que aprenderam na eschola (entre outras cousas que entretanto mudaram ou foram mudadas), allegando que o novo accordo é um attentado á lingua lusa, ao portuguez de Portugal, ás proprias raizes culturaes nacionaes. Ora eu reprovo todo e qualquer attentado, não me imagino a attentar contra seja o que for, muito menos contra os superiores interesses da lingua nacional, e por este motivo decidi escrever este texto como se escrevia antes da reforma orthographica de 1911, a primeira a ter força de lei em Portugal. Essa reforma visou normalizar e simplificar a escripta do portuguez a ensinar aos alumnos das escholas republicanas, mas a escripta anterior permite perceber como a “pureza e tradição orthographicas” da lingua portugueza foi successivamente simplificada e normalizada ao longo do seculo XX .

Existe um accordo entre paizes lusophonos para acertos de orthographia e, em Portugal, como no Brazil, uma lei de 2008 colocou esse accordo em vigor. No entanto, a lei em Portugal é muitas vezes lettra morta ou mal entendida e por isso os auctores das leis (e do Direito, em geral) recorrem frequentemente ao latim para titularem a sua auctoridade ou para se explicarem, mesmo que o latim seja uma lingua extincta, morta. Nem é por acaso que, á revelia de todas as linguas vivas e accordos orthographicos, os mais modernos tribunaes portuguezes (como o de Gouveia, inaugurado em 2011), continuem a denominar-se “Domus Justitiae”.

Ao contrario do latim da justiça, o novo accordo orthographico não interfere por ahi além na escripta do portuguez de Portugal, muito menos no quotidiano prático dos portuguezes. Ha quem o acuse, em Portugal, de beneficiar interesses geopolíticos e economicos do Brazil, onde o acordo também está longe de ser consensial por acusações identicas. Tal como n’outras reformas (em especial na de 1911, que contou com a opposição de Teixeira de Pascoaes e Fernando Pessoa, por exemplo), doutos escriptores e estudiosos da lingua e cultura nacionaes na actualidade (como Eduardo Lourenço, Maria Alzira Seixo, Mário Cláudio ou Vasco Graça Moura), não descortinam nelle qualquer virtude, notando que os mais doutos e merecedores estudiosos e escriptores não foram previamente chamados a opinar sobre elle. Assim, acusam-o de ser “um chorrilho de asneiras” (V.G.M.), de más intenções e mesmo de illegalidade - o que ninguem teve coragem de dizer, por motivos obvios, em relação à simplificação da escrita imposta pelo Decreto Lei n. 292 de 1938 ou por ocasião do inefficaz accordo orthographico de 1945. Contra os defensores da preservação da origem etymologica das palavras em desfavor da orthographia phonetica, venceu a escripta com base na pronuncia das palavras, no novo accordo tal como na reforma de 1911 – quando desapareceram da escripta em Portugal os echos etymologicos gregos: ph, th, ch (k) e a lettra y, mantendo-se estes na escripta do portuguez no Brazil por falta de um accordo orthographico.

Uma lingua que se preze evolui naturalmente, na cathedra, no pulpito, na feira e na taverna, mas será sempre necessario affeiçoar a norma e negociar accordos para universalizar o seu uso. A opposição ao novo accordo orthographico e mesmo a adherencia contrariada de alguns, birras que se resolverão no tempo, leva a que muitos escrevam como melhor lhes apetece, em portuguez antigo (tal como estou a fazer, ou peor, mas com igual afflicção), ao abrigo do novo accordo ou n’uma escripta mista, meia accordada, descortinando novas graphias e lumieiras estheticas, escriptas criativas. E aquelles que querem e podem, abusando da sua auctoridade intellectual ou editorial, acrescentam aos escriptos alheios as lettras e accentuação que o accordo manda retirar: censuram sem censurar, prohibem sem prohibir, pois a propria lei obriga sem obrigar.

Volta, Bordallo, e traz os manguitos!


Fontes:

Diccionario Encyclopedico da Lingua Portugueza, de Simões da Fonseca, Livraria Garnier, Paris e Rio de Janeiro.

2012 - Ano Internacional das Cooperativas

2012 será o Ano Internacional das Cooperativas. A decisão da Organização das Nações Unidas (ONU) destaca o “papel fundamental das Cooperativas na promoção do desenvolvimento socioeconómico de cerca de 800 milhões de pessoas em mais de cem países e estima-se que seja responsável por mais de 100 milhões de postos de trabalho em todo o mundo”. Ver a resolução da ONU.

De acordo com o conceito definido pela Aliança Internacional de Cooperativas (ACI), a Cooperativa é “uma associação autónoma, de pessoas unidas voluntariamente para alcançar as aspirações de suas necessidades econômicas, sociais e culturais comuns, através de uma ação democraticamente controlada” em que os objetivos coletivos se sobrepõem aos interesses individuais.

Enquanto empresas sociais económicas e de ajuda mútua, as cooperativas desempenham por todo o mundo um importante papel no apoio ao desenvolvimento sustentável, à erradicação e prevenção da pobreza, à consolidação dos meios de subsistência em áreas urbanas e rurais e ao alcance dos Objetivos do Milénio”.

A FAO, UNESCO, ACI, WFP (World Food Programme) e UNCDF (United Nations Capital Developmente Fund) serão os principais parceiros da ONU nas atividades do Ano Internacional das Cooperativas – 2012.

GUIMARÃES E MARIBOR 2012

Em 2012, Guimarães será uma das duas capitais europeias da Cultura, juntamente com a cidade histórica de Maribor, a segunda mais populosa da Eslovénia. A abertura oficial realiza-se a 21 de Janeiro de 2012.

O programa da Maribor 2012 organiza-se em torno de dois eixos, horizontal e vertical. Horizontalmente, apresenta um conjunto de iniciativas abrangendo as mais diversas áreas artísticas individuais (literatura, música clássica, música contemporânea, artes performativas, criatividade infantil e juvenil, cinema e artes visuais), organizadas por consultores e produtores criativos para cada área. As secções Terminal 12, Keys to the City, Urban Furrows e LifeTouch, integram-se verticalmente nas áreas artísticas para originar programas próprios, de acordo com os seus conteúdos e expectativas específicas. A arte culinária não foi esquecida, sob o lema “Maribor 2012 – Capital de sabores”. O site oficial da Maribor 2012 destaca inclusive a existência na cidade da videira mais antiga do mundo.

Guimarães 2012 apresenta-se como “um projeto catalisador do desenvolvimento da cidade e da região envolvente, que tem a cultura, na sua mais ampla aceção, como motor dessa transformação”, “um grande encontro de criadores e criações — música, cinema, fotografia, artes plásticas, arquitetura, literatura, pensamento, teatro, dança, artes de rua”, cruzando “produtos artísticos imaginados e gerados pelos seus residentes com os que de toda a Europa afluirão à cidade”.

Partindo dos valores “Cidade”, “Cidadania e Participação” e “Dimensão Europeia”, o projeto Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura visa ”desenvolver o capital humano”, “criar uma economia criativa” e “gerar uma nova geografia dos sentidos”.

O programa abarca 8 áreas, cada qual com o seu responsável: Comunidade (Suzana Ralha); Música (Rui Massena); Artes Performativas (Marco Barbosa); Arte & Arquitetura (Gabriela Vaz Pinheiro); Cinema e Audiovisual (João Lopes); Espaço Público (José Bastos); Pensamento (João Serra); e Tempos Cruzados (João Meira), um programa associativo.

Tanto Guimarães 2012 como Maribor 2012 integram projetos a serem realizados durante todo o ano, pontualmente ou em continuidade. Na capital da cultura portuguesa, o espaço de acolhimento e informação para os visitantes situa-se no nº 60 de uma das ruas mais antigas da cidade, a Rua de Camões.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

TUDO ISTO É FADO

(Artigo publicado no jornal "Vivências...", nº4, dezembro 2011)

José Malhoa, “O Fado”, 1910, óleo s/tela, 152,5 x 185,5 cm, Museu da Cidade, Lisboa

A recente distinção da UNESCO, declarando a importância cultural do fado para a Humanidade (1) abre boas perspetivas de projeção internacional do espírito criativo português e das artes nacionais.

Para além dos poetas populares (com destaque para João Linhares Barbosa, o “Príncipe dos Poetas” do fado), os fadistas cantam com grande gosto e exemplar dignidade alguns dos nossos melhores poetas cultivados (António Botto, Sidónio Muralha, Pedro Homem de Mello, David Mourão-Ferreira, Ary dos Santos, Vasco Graça Moura,…) mas o fado enquanto acendalha do espírito relaciona-se bem com outras artes eruditas: o cinema, as artes plásticas e até a dança. Esse fado que é um sinónimo de destino, muitas vezes malfadado, sofrido, cruel, e por isso canção amarga e magoada.

Nem por acaso, a divulgação nacional do fado começou na década de 1930 através do cinema sonoro, popularizando na tela fadistas como Dina Tereza, Amália Rodrigues ou Hermínia Silva. Dina Tereza, hoje pouco recordada, interpretou a mítica fundadora do fado, Maria Severa, no primeiro filme sonoro produzido em Portugal e realizado por um português (José Leitão de Barros, em 1930). À distância de uma vida, em 2006, o cineasta espanhol Carlos Saura homenageou o fado como canção ibérica, relacionando-o com os ritmos hispânicos da música e da dança no documentário musical “Fado”. E aproveitando a embalagem internacional da UNESCO, o realizador João Botelho promete para 2012 um musical sobre o fado, protagonizado por fadistas e rodado em Lisboa.

Nas artes plásticas, o fado inspirou os maiores artistas portugueses dos séculos XIX e XX, como ficou demonstrado na importante exposição “Ecos do Fado na Arte Portuguesa Séculos XIX-XXI” (2), que decorreu em Lisboa entre julho e setembro de 2011. Ao longo desses séculos, a arte nacional contribuiu pouco para as artes internacionais mas foi absorvendo e consagrando os mais diversos géneros e modalidades artísticas, sendo possível encontrar uma ligação transversal relacionável com o fado, ou com as representações do fado, o que justificou plenamente a apresentação conjunta de obras de artistas tão diversos como Roque Gameiro, Columbano, José Malhoa, Almada Negreiros, Amadeo Souza-Cardoso, Eduardo Viana, Domingos Alvarez, Bernardo Marques, Stuart Carvalhais, João Abel Manta, Carlos Botelho, Júlio Pomar, Leonel Moura, Graça Morais, Paula Rego, João Vieira, Joana Vasconcelos, João Pedro Vale ou Miguel Palma.

Uma das curiosidades e méritos da exposição “Ecos do Fado” foi mostrar lado a lado as duas versões do mais famoso quadro de José Malhoa, “O Fado”, o que acontece pela segunda vez no século e em anos consecutivos (3), assim como dois estudos para essa obra: o Amâncio (1908) e a Adelaide (sem data). “O Fado” de 1909, mais pequeno que a segunda versão, foi apresentado ao público em 1962 através de uma reprodução no Diário de Lisboa, e pertence atualmente a um colecionador particular português. Supõe-se que terá sido um estudo para o quadro maior, de 1910, patente no Museu do Fado.

Ambos os quadros apresentam a mesma composição e retratam o guitarrista Amâncio e Adelaide “da facada” – assim conhecida devido à cicatriz na face que o pintor ocultou. O cenário evoca o interior de uma “alfurja” (antro, alcouce), onde se recompunham “das desditas ouvindo o fado que diz da sua má sorte e em que todas as trovas são de perdão” (4). A realização da primeira obra, pintada com esses modelos em pose, foi condicionada pelas frequentes passagens de Amâncio pela prisão e pelos seus reparos ciumentos ao modo como Malhoa pintava Adelaide.

Apesar do estatuto cultural que duramente conquistou ao longo do século XX até à recente consagração internacional, o fado não nega as suas origens humildes e o quadro de José Malhoa continua a ser a representação mais sensível do sentimento fadista e o melhor retrato do seu berço trágico.

Sérgio Reis

Notas:

(1) - A 28 de novembro de 2011, em Bali, o VI Comité Intergovernamental da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) declarou o fado como Património Cultural Imaterial da Humanidade. A candidatura propunha uma rede de cooperação institucional em estreita ligação com a sociedade civil, uma vertente de educação e formação, um programa editorial (livros e discos), a dinamização e revitalização de espaços tradicionais de fado e a promoção no plano nacional e internacional do universo e da cultura do fado.

(2) - Promovida pela Câmara Municipal de Lisboa através da EGEAC/Museu do Fado no âmbito da candidatura do fado a Património Cultural Imaterial da Humanidade.

(3) - A primeira vez foi em 2010, na exposição “O Fado de 1910”, realizada na SNBA em Lisboa a propósito das comemorações do centenário da República.

(4) - António Montês, “Malhoa Intimo”, Lisboa, 1950.


A "Illustração Portugueza" – 15 de Abril 1912

José Malhoa, “Adelaide”, estudo para “O Fado”. São conhecidos cerca de dezena e meia de estudos de Malhoa para essa obra.

“Adelaide”, óleo s/tela, 50,5X65,5 cm

Estudo para “O Fado”, óleo s/tela, 1908

José Malhoa, primeira versão de “O Fado”, 1909, col. Vasco Pereira Coutinho.

O trabalho do artista foi condicionado pela vida atribulada de Amâncio e pelas suas exigências púdicas em relação à maneira como pintava Adelaide. Malhoa também deu atenção às opiniões de terceiros quanto ao andamento da obra, desde populares, que passavam pelo seu atelier, ao próprio rei D. Manuel, que também terá sugerido alterações à pintura. Na 2ª versão, de 1910, Malhoa deu mais atenção aos pormenores e melhorou sobretudo os rostos das personagens.

Amâncio, desenho a carvão s/papel, 1910 – Museu do Chiado, Lisboa

Estudo, desenho a carvão s/papel, 1910 – Museu José Malhoa, Caldas da Rainha

Ema de Oliveira e Raul de Carvalho, reconstituindo a cena de “O Fado” em “Fado”, realizado por Maurice Mariaud em 1923.
Amália Rodrigues e Jaime Santos, reconstituindo a cena de “O Fado” em “Fado Malhoa”, realizado por Augusto Fraga em 1947.
João Vieira, “O mais português dos quadros a óleo”, 2005, impressão fotográfica, 300X365 cm, Museu da Cidade, Lisboa

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

RENATO PAZ - Drosophila ContraSena

A fotografia e arte digital de Renato Paz possuem, a meu ver, inegáveis méritos. A fotografia exigente, a composição cuidada, a feliz manipulação da cor, o sentido crítico e humorístico, combinam-se para originar imagens surpreendentes, intensas, sugestivas. Os seus trabalhos são principalmente exercícios de desconstrução e reconstrução da paisagem, em cujos espaços, volumes e superfícies intervém virtualmente para suscitar leituras inusitadas. Poderá dizer-se que a arte digital facilita a interação da fotografia, desenho, pintura e colagem, mas, por isso mesmo, exige muito mais que habilidade técnica e destreza com as ferramentas tecnológicas.

Renato Paz tem coligido alguns dos seus trabalhos em álbuns digitais, 8 até à data, o último dos quais reúne as obras expostas em outubro e novembro de 2009 na Casa Muncipal da Cultura de Seia (foyer do cineteatro) com o título genérico “Cidade – Drosophila ContraSena”.

Este álbum acrescenta às imagens as palavras de João Saraiva e até algumas frases minhas, em jeito de prefácio. Sobre a ligação imagem/texto, repare-se por exemplo como é abordado o tema da justiça/edifício do tribunal de Seia:


"7 - A imagem é para ti tudo e ainda assim és cega"
(Renato Paz/João Saraiva)