segunda-feira, 15 de agosto de 2011

MANUEL BAPTISTA

“Fora de Escala: Desenhos e Esculturas (1960-1970)” no Centro Cultural de Lagos

Graças à colaboração da Fundação EDP com o Centro Cultural de Lagos e ao seu envolvimento no Allgarve’11, a exposição Fora de Escala: desenhos e esculturas de Manuel Baptista (1960-1970) realizada no Museu da Eletricidade entre 26 de fevereiro e 15 de maio de 2011, pode ser vista em Lagos até 8 de outubro.

A exposição reune desenhos e projetos menos conhecidos do artista algarvio, realizados desde meados dos anos 60 a meados dos anos 70. Alguns desses projetos só recentemente foram concretizados em esculturas, para a exposição homónima no Museu da Eletricidade, o que amplia o interesse da exposição em Lagos. O crítico e curador da exposição/Fundação EDP, João Pinharanda, fala mesmo em “rara oportunidade histórica”, a propósito da exposição de Lisboa, classificando justamente a exposição como “uma das mais significativas exposições nacionais deste ano” (1)

Joaquim MANUEL Guerreiro BAPTISTA nasceu em 1936 em Faro, cidade onde reside. Em 1957, matriculou-se na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa para frequentar Arquitetura mas acabou por se licenciar em Pintura, em 1962. Foi bolseiro da FCG em Paris (1962-63) e do IAC em Ravena (1968). Lecionou pintura na Escola de Belas Artes de Lisboa até 1972.
Artista abstrato geometrizante, a sua obra é marcada pelos grandes espaços iluminados e cores do Algarve, em formas justapostas que lembram a “confluência da luz e da sombra” (Rocha de Sousa, “Manuel Baptista – relato duma pesquisa coerente”, Colóquio-Artes, junho de 1974), relevos e “formas recortadas que dá origem a um subtil claro-escuro e que permite sucessivas leituras das superfícies” (Fernando Azevedo, catálogo da exposição “Pintura Portuguesa de Hoje, Abstratos e Neo-Figurativos”, Lisboa, Salamanca, Barcelona, 1973). Uma obra que se alarga à tapeçaria e à gravura.

Realizou a sua primeira exposição individual em 1957, no Círculo Cultural do Algarve, Faro. Apresentou a sua primeira exposição retrospetiva de desenho e pintura (1956-1988) em Loulé, no Convento do Espírito Santo. Até 2011, realizou mais de trinta exposições individuais e participou em largas dezenas de exposições coletivas.

Nos anos 60, passou a registar o seu pensamento estético em cadernos diversos, ideias expressas pelo desenho, com uma sequência lógica e datada. Alguns desses registos e cadernos (1961-1993) integram a exposição, relacionados com as esculturas finalmente realizadas em 2011: “Porta-arbustos” (1968-70/2011); “Arbusto 1” (sem data/2011); “Duplo Arbusto” (1968-70/2011); “Envelope 1” (1968-70/2011); “Arbusto 2” (1968-70/2011); “Camisa e Gravata” (1973/2011 - Alumínio); “Camisa e Gravata” (1973/2011 – Néon e alumínio); “Objeto Suspenso (Metal)” (1968-70/2011); “Novelo” (1968-70/2011); “Mesa Posta (sem data/2011); “Objeto Suspenso” (1968-70/2011 – réguas de madeira); “Duplo Objeto” (sem data/2011); “Casulo” (1968-70/2011); Arbusto Paisagem (sem data/2011); “Ball of Thread” (1968-70/2011); “Corbeille” (1973/2011). A exposição permite, assim, redescobrir uma faceta pouco conhecida do artista e contribuir para a reescrita da história da escultura portuguesa da década anterior a 1974. Nessa década, vários artistas não conseguiram concretizar os seus projetos e, segundo João Pinharanda (3), “a História da Arte em Portugal teria sido diferente" se as tivessem concretizado.
Em 1990, realizou uma exposição retrospetiva de pintura (1963-1990) na SNBA. Em 1996, teve lugar da Casa da Cerca – Centro de Arte Contemporânea , em Almada, a primeira exposição antológica. A exposição “Fora de Escala” no Museu da Eletricidade (2011) representou, para o artista, “a concretização de um sonho”(3).

Foi distinguido com vários prémios, entre os quais: 1º Prémio de Pintura no I Salão de Vila Franca de Xira (1960); 1º Prémio de Pintura na Exposição Guérin (1968); Prémio Soquil (1970); 2º Prémio ARÚS (1982); Grande Prémio de Pintura da IV Bienal de Vila Nova de Cerveira (1984); Prémio de Aquisição na II Mostra de Lagos (1984).

A exposição oferece ainda dois videos, o primeiro dos quais sobre a reunião com o artista para escolher os projetos, materiais e cores. O segundo, apresenta imagens da montagem da exposição no Museu da Eletricidade, em fevereiro de 2011.

(1)- Textos de apresentação da exposição no Museu da Eletricidade, CCL e Allgarve’11.
(2)-Maria João Avillez, “Os Pintores do Levante”, Público Magazine, 24 de julho 1994.
(3)- Em declarações à Lusa por ocasião da exposição no Museu da Eletricidade.

Vista parcial da exposição (sala do r/c). Em primeiro plano, "Porta-arbustos" (1968-70/2011, acrílico e alumínio)

"Arbusto 1" (sem data/2011, alumínio)

Cadernos de desenhos (1961-1993)

"Arbusto 2" (1968-1970/2011, acrílico). Ao fundo, "Envelope 1" (1968-70/2011 - acrílico)

"Mesa Posta" (sem data/2011, madeira)

"Corbeille" (1973/2011, alumínio e néon)

Sugestões para um verão de artes


O verão português é tradicionalmente animado por eventos artísticos de grande dimensão e projeção, a juntar ao sem número de acontecimentos culturais que compõem – e bem - a oferta turística nacional. Pode até dizer-se que não há terra sem a sua exposição, feira, museu, todas de visita recomendada a quem desejar sentir de facto o espírito local e compreender verdadeiramente essas terras e as suas gentes. No entanto, essas mostras de autênticos tesouros locais são para se descobrir com surpresa, saboreando o encanto e a maravilha, e por isso eu nunca as incluiria num roteiro de viagem. Abundam acontecimentos artísticos de verão que, tal como os festivais de música ou de gastronomia, justificam por si só uma viagem ou um desvio, ou mesmo uma aventura de férias no Portugal desconhecido. Alguns deles são mesmo imperdíveis, por via de uma certa dimensão histórica (pelo que trazem de novo ou de irrepetível) ou devido à sua periodicidade bienal - especialmente quando se avizinham tempos difíceis, que podem baralhar as pintas dos dados da cultura e abalar o futuro de alguns destes eventos culturais.

Assim, deixo aqui algumas sugestões para um verão de artes, de norte a sul do continente, Madeira e Açores.

16ª Bienal de Cerveira - vista parcial da exposição no Forum Cultural

A 16ª edição da Bienal de artes mais antiga de Portugal oferece até 17 de setembro um conjunto diversificado de iniciativas centradas nas exposições em Vila Nova de Cerveira, a “Vila das Artes”. Cerca de 150 obras do concurso internacional e artistas convidados distribuem-se pelo Fórum Cultural, Castelo de Cerveira e Casa Vermelha. Se necessitar de um bom motivo para seguir até Vigo, a Bienal alargou-se esta ano à maior cidade da Galiza.

O Festival Internacional dos Jardins de Ponte de Lima é um evento paisagista que se realiza anualmente desde 2005 na vila mais antiga de Portugal, com objetivos vanguardistas e ambientais. Decorre de maio a outubro, na margem direita do Lima, este ano sob o tema “A Floresta no Jardim”. Concorreram 58 projetos de 12 países para os 11 espaços disponíveis. É também um dos poucos festivais pensados com um ano de antecedência e, para 2012, o tema é surpreendente e inspirador: “Jardins p’ra Comer”.


"My Choice" inaugurou a sede da EDP no Porto


Exposição “My Choice”, na nova sede da EDP no Porto. Até outubro, mostram-se 87 obras de 51 artistas, selecionadas por Paula Rego da vasta coleção de arte do British Council. Entre elas, obras pouco conhecidas de David Hockney e uma obra de Lucian Freud, recentemente falecido. Visite também a exposição “Off the Wall” no Museu de Serralves, ali perto, organizada pelo Whitney Museum of American Art, de Nova Iorque.

Coimbra continua a fazer boa figura com o seu Festival das Artes, este ano dedicado às “Paixões”. O festival termina a 31 de julho mas a exposição coletiva “A Pulsão do Amor”, que reune 20 artistas portugueses e estrangeiros, decorre até 17 de setembro, no Edifício do Chiado. Uma boa oportunidade para ver parte da coleção do Millenium BCP.

Lisboa mostra a exposição “Ecos do Fado na Arte Portuguesa”, uma viagem pela arte portuguesa dos séculos XIX a XXI. Dotado de características únicas e marcantes, candidato a Património Cultural Imaterial da Humanidade, pela Unesco, o Fado inspirou diversos artistas nacionais de renome e essas obras podem ser apreciadas até 17 de setembro na Sala do Risco, no Terreiro do paço. Ainda em Lisboa, no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, decorre até 09 de outubro uma importante exposição retrospetiva de João Penalva, um dos artistas portugueses mais internacionais, radicado em Londres há cerca de 40 anos.

O Festival de Performance e Artes da Terra, Escrita na Paisagem, decorre até setembro em Évora e outras localidades alentejanas, com várias exposições, teatro, dança, música, performance, workshops. Duas instalações inspiradas em Christo e Sam Spencer transformam o centro de Évora, palco central do festival e ponto de encontro de cumplicidades culturais com Avis, Estremoz, Montemor-o-Novo e Moura.



A programação das artes no âmbito do ALLGARVE’11 continua insuficiente e sem uma linha orientadora – para além de exibir as principais coleções institucionais portuguesas. Nesta 5ª edição, mostram-se obras da coleção da Fundação EDP em três exposições, duas das quais com particular interesse. “Da discussão nasce a luz”, reune em Loulé grandes nomes da escultura portuguesa contemporânea, muito bem representada na colecção da EDP. De notar, a feliz conjugação das esculturas com a vocação religiosa do espaço do Convento de Santo António dos Capuchos de Loulé. No Centro Cultural de Lagos, não deve perder-se a exposição de desenhos e esculturas do artista algarvio Manuel Batista (n. Faro, 1936). Foi também acertada a colocação da obra de Joana Vasconcelos (“Tutti Frutti”) no Aeroporto de Faro, uma importante porta de entrada no Algarve. Em Faro, mostra-se fotografia de Francisco Tropa e Eduardo Gageiro.


No Porto Santo, Madeira, decorre até final de agosto a IV Bienal Internacional de Arte Contemporânea, com obras de artistas de 35 países expostas nos mais diversos edifícios públicos e jardins. No início desse mês, a Feira dos Petiscos vai ajudar à festa.


Nos Açores, as Festas da Praia da Vitória, na Ilha Terceira (29 de julho a 7 de agosto), serão marcadas este ano por uma forte aposta nas artes plásticas devido à recente formação da Academia da Juventude e das Artes. Na Ilha do Faial, a exposição do Concurso Multiartes Porto PIMtado será inaugurada a 27 de agosto e decorrerá até 25 de setembro, na Fábrica da Baleia.


Exposição de aguarelas de António Cavaco Silva (Boliqueime, 1947-2010), na Galeria de Arte Pintor Samora Barros, Albufeira - 6 a 30 de Agosto 2011

sexta-feira, 29 de julho de 2011

RUI MONTEIRO NA 16ª BIENAL DE CERVEIRA


Entre as escassas dezenas de artistas portugueses selecionados para a 16ª Bienal de Cerveira, que abriu no passado dia 16 e decorre até 17 de setembro em Vila Nova de Cerveira, conta-se um artista de Oliveira do Hospital, Rui Monteiro.

É a segunda vez que o artista participa na prestigiada bienal portuguesa, uma estreia que remonta a 2001. Nesse ano, a Bienal de Cerveira realizou-se sob o tema da Arte, Tecnologia e Ciência. Em 2011, integrado na proposta curatorial do fotógrafo Carlos Casteleira, “Ecúmeno”, Rui Monteiro apresenta no Fórum Cultural de Cerveira uma curiosa instalação digital audio visual em formato video intitulada “Land Scape”, assim como uma performance audio visual, “Diat0m”. “Land Scape” apresenta a correspondência entre a interpretação matemática da paisagem natural e a representação digital tridimensional desses dados, utilizando sistemas de observação e identificação próprios da visão artificial. Foi ainda apresentada pelo artista, no dia de abertura da Bienal, a nova versão de “2handmotion”, “2hand12cc3d” (2011), um projeto na área dos novos instrumentos eletroacústicos que pode ser conhecido mais em pormenor no site do artista: www.ruimonteiro.net

Licenciado em Design pelas Belas Artes do Porto, Rui Monteiro chegou a trabalhar como designer gráfico mas dedica-se atualmente à investigação em novas tecnologias nas áreas da música eletroacústica e digital, visão por computador e programação. Um aspeto fundamental da sua obra é a interação entre Arte, Ciência e Tecnologia, traduzida em performances sonoras, instalações Interativas e composições audiovisuais, especialmente desde o surpreendente “Spectrum portrait “ (2005).
As suas obras já foram apresentadas no Porto 2001, Bienal de Cerveira, Futurartes (Caldas da Rainha) e Agirarte (Oliveira do Hospital), entre outros acontecimentos e festivais em Portugal, França e EUA.

O projeto curatorial “Ecúmeno” propõe-se “questionar a nossa relação com a natureza e o meio ambiente” (...) num momento em que “a Arte é inspirada pela cooperação entre as ciências da vida, o natural, o artificial e a tecnologia”. Para além de Rui Monteiro, apresenta os artistas franceses Erick Samakh e Victoria Klotz, os brasileiros Rodrigo Braga e Paulo Meira e a portuguesa Laetitia Morais.

Na sua 16ª edição, a Bienal de artes mais antiga de Portugal oferece um conjunto diversificado de iniciativas centradas nas exposições em Vila Nova de Cerveira, conhecida no norte de Portugal e na vizinha Galiza como a “Vila das Artes”. As obras do concurso internacional e artistas convidados (cerca de centena e meia de obras de pintura, escultura, instalação, fotografia, desenho, video, cerâmica, arte digital) distribuem-se pelo Fórum Cultural e Castelo de Cerveira. No Convento de San Payo, pode ser visitada uma exposição de homenagem ao escultor José Rodrigues. A Bienal integra ainda exposições em Vigo e no Porto, para promover e alargar o âmbito do evento.

VER este texto na edição Internet do jornal Correio da Beira Serra

sábado, 23 de julho de 2011

LUCIAN FREUD (1922-2011)

Francis Bacon, "Três estudos para um retrato de Lucian Freud".

Lucian Freud nasceu em Berlim em 1922. Quando ele tinha 11 anos, a sua família emigrou para Londres voluntariamente. Era neto de Sigmund Freud, que também partiu para Londres em 1938, depois da anexação da Áustria pela Alemanha – ao contrário das suas quatro irmãs, que pereceram em campos de extermínio nazis. Lucian Freud adquiriu a nacionalidade britânica em 1939 e serviu brevemente na marinha mercante britânica durante a II Guerra Mundial, tendo sido devolvido aos estudos de Belas-Artes por uma doença incapacitante. Viria a tornar-se um dos mais famosos pintores neofigurativos contemporâneos.

A pintura que o tornou conhecido privilegia o retrato com modelo, cujos volumes preferencialmente nus trabalhou com pinceladas expressivas. Para muitos, as suas melhores obras foram realizadas nos anos 50, antes dos primeiros nus (anos 60) e nus masculinos (finais dos anos 70) e, por isso, é considerado um pintor do pós-guerra. Pintou também naturezas mortas e retratos de família e amigos, sem restrições nem pudor, apresentando inperpretações plásticas muito próprias, às vezes crueis, outras vezes grotescas, mas sempre perturbantes “pelas razões de sempre - a presença real (mais do que realista) da figura humana nos seus quadros, a excessiva veemência física dos corpos representados como carne, a nudez crua dos seus modelos femininos e masculinos observados sem complacência e sem pudor, a desmesura e a deselegância de algum desses modelos, a relação pessoal do pintor com os corpos devassados e expostos das suas mulheres, amantes, filhos e amigos.”(1) Recorde-se, a propósito, o polémico retrato da rainha Elizabeth II, que o artista pintou em 2001, por ocasião dos 50 anos do seu reinado. A rainha pousou para o retrato, posteriormente doado pelo artista à Royal Collection, mas a crítica conservadora não apreciou a obra de pequeno formato, apresentando a rainha com feições distorcidas e excessivo envelhecimento da face.

Freud realizou a sua primeira exposição individual em 1944, na Alex Reid and Lefevre Gallery, em Londres. Representou a Inglaterra na 27ª Bienal de Veneza (com Ben Nicholson e Francis Bacon) em 1954, mas só em 1987 ganhou visibilidade internacional graças à retrospetiva organizada pelo British Council na capital norte-americana. Foi a sua primeira grande exposição fora de Inglaterra, mostrada depois em Paris, Londres e Berlim. A sua obra teve grande projeção internacional nos anos 90 e na primeira década do século XXI, com grandes exposições e várias retrospetivas na Europa, Japão, Austrália e EUA. Uma das suas obras (“Naked Girl with Egg”, 1980-81) encontra-se atualmente exposta no Porto, integrada na exposição “My Choice”, na sede da EDP no Porto, até 23 de outubro. Não está representado na Coleção Berardo. Muitos dos seus trabalhos atingiram valores impressionantes, especialmente "Benefits Supervisor Sleeping", um retrato de 1995, foi vendido em 2008 por 33,6 milhões de dólares.

Lucian Freud viveu e trabalhou sempre em Londres. Aí faleceu, no passado dia 2o de julho, em consequência de uma doença não divulgada.


(1) – Alexandre Pomar, AQUI.
VER FOTOS E FILMES sobre Lucian Freud.

OFF THE WALL


Arte "fora da parede" e obras de arte ativadas pelo visitante

“Off the Wall” é o título da exposição patente no Museu de Serralves até 02 de outubro 2011, reunindo diversas ações performativas de artistas internacionais de referência, realizadas principalmente na segunda metade do século XX. Trata-se de uma versão da mostra apresentada em 2010 no Whitney Museum of American Art, em Nova Iorque, acrescentada com novas obras, sobretudo de artistas portugueses - Helena Almeida, Alberto Carneiro e Fernando Calhau, e prolongada com a exposição de obras de Robert Morris.

Umas das principais características da arte do século XX é o cruzamento de géneros artísticos e formas de expressão, o que permite reinventar os modos de produção artística, alargar o conceito de arte e integrá-la mais diretamente no quotidiano. A obra de arte deixa de ser apenas um quadro para pendurar na parede, ou uma escultura, mas sim o próprio acontecimento artístico, gestos e atos performativos onde interagem as artes visuais, as artes do movimento, a música e a experimentação sonora. Porém, o caráter sempre efémero desses atos é minimizado através de registos fotográficos, cinema e video – e são estes registos que se apresentam em Serralves, quase todos na parede.

Os dadaístas, que pregavam a não-arte e criavam obras totalmente ao arrepio das conceções artísticas da época, estão na origem de todas as irreverências, mas a performance, enquanto género artístico, nasce com a compreensão e valorização do próprio ato criativo e não exclusivamente na obra final, exposta para ser contemplada no plano vertical da parede. Artistas como Jackson Pollock transformaram o ato de criar em autênticas performances, enquanto outros preferem intervir mais diretamente no espaço real da vida, para veicular mensagens filosóficas e poéticas de redescoberta da individualidade e sentido da existência, muitas vezes com intuitos de crítica social. O que o artista procura é romper os limites opressivos do quadro (formatos, bidimensionalidade, imobilidade, silêncio) e dos espaços artísticos convencionais (sala de exposição, galeria, museu), também no sentido que lhe dá Michael Jackson no seu tema de 1979 “Off the Wall”, (“Live life off the wall”, etc.), de rotura com os padrões e normas sociais, o que implicou um desenvolvimento do conceito de Arte e de museu. Nem por acaso, a exposição abre com uma obra de John Baldessari, de 1971, com uma só frase escrita centenas de vezes nas paredes da entrada: “I will not make any more boring art” (Nunca mais farei arte aborrecida).

Off the Wall / Fora da Parede, apresenta o desenvolvimento da Performance desde 1948, ano de realização da obra mais antiga da exposição (o filme de Maya Deren, “Meditation on Violence”) até aos anos 80 – um percurso resumido de modo simples e claro por Chrissie Iles (curadora do Whitney Museum of American Art) no texto de apresentação da exposição.

A partir de hoje, 23 de julho, pode também ser visitada em Serralves a exposição “Robert Morris: filmes, vídeos e “BodySpaceMotionThings”. Robert Morris (Kansas City, EUA, 1931), engenheiro de formação e um dos fundadores do Judson Dance Theater em Nova Iorque, desenvolveu uma obra centrada nos novos materiais e novas perspetivas artísticas, criando esculturas com materiais reciclados, intervenções artísticas de grandes dimensões na paisagem (“earthworks”), performances relacionando o corpo e o espaço e experiências inovadoras conjugando o cinema e as artes visuais. Representado na exposição “Off the Wall”, Morris foi o primeiro artista a conceber uma exposição cujas obras de arte são ativadas pela participação física do visitante – que deixa, assim, de ser um mero espectador passivo para se tornar parte integrante da obra.

Artistas representados na exposição Off the Wall (por ordem alfabética do apelido): Vito Acconci; Helena Almeida; Carl Andre; John Baldessari, Lynda Benglis, Dara Birnbaum; Jonathan Borofsky; James Lee Byars; Fernando Calhau; Alberto Carneiro; John Coplans, Maya Deren; Jimmy DeSana; Trisha Donnelly; Simone Forti; Dara Friedman; Jack Goldstein; Dan Graham, Scott Grieger; Walter Gutman; David Hammons; Lyle Ashton Harris; Jenny Holzer; Peter Hujar; Joan Jonas; Richard Kostelanetz; Elad Lassry; Roy Lichtenstein; Kalup Linzy, Robert Longo; Nate Lowman; Robert Mapplethorpe; Anthony McCall; Paul McCarthy; Ray K. Metzker; MICA-TV; Robert Norris; Bruce Nauman, Claes Oldenburg; Yoko Ono; Dennis Oppenheim, Tony Oursler & Sonic Youth; Frank Owen; Jack Pierson; Yvone Rainer; Charles Ray; Martha Rosler; David Salle; Lucas Samaras; Raymond Saroff; Carolee Schneemann; Richard Serra; Cindy Sherman; Laurie Simmons; Jack Smith; Keith Sonnier; Rudolf Stingel; Francesc Torres; Andu Warhol; Hannah Wilke; Jordan Wolfson; Francesca Woodman.

Para quando, já agora, uma exposição de John Baldessari em Serralves?


John Baldessari "I will not make any more boring art", 1971


John Baldessari, "6 Colorful Inside Jobs", 1977 - filme 16 mm, 30 m, cor, mudo.

Jack Goldstein, "A Suit of Nine 7'' inch Records with Sound Effects", 1976,



Alberto Carneiro, "A Floresta", 1978 - fotografia e desenho s/papel (24 elementos)

quarta-feira, 20 de julho de 2011

DESENHAR LISBOA

Nos dias 21, 22 e 23 de Julho, decorre em Lisboa o II International Urban Sketching Symposium. Cerca de 200 desenhadores de 20 países percorrerão o centro de Lisboa (consultar itinerários e horários) registando nos seus cadernos de esboços, diários gráficos ou diários de viagem, a tipicidade da paisagem urbana da nossa capital, os pormenores visuais, histórios e culturais que mais os surpreendam. Paralelamente, decorrerão workshops, palestras e exposições centradas no desenho, em particular esta modalidade – que reúne um significativo número de adeptos e praticantes em Portugal, entre os quais: Eduardo Salavisa, Jorge Colombo, Manuel San Payo, Mário Linhares, Mónica Cid, Luís Ançã, António José Gonçalves.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

16ª BIENAL DE CERVEIRA

Inês Osório distinguida com o Prémio Bienal de Cerveira
Presidente da República na homenagem a José Rodrigues
Artista de Oliveira do Hospital presente na Bienal

O escultor José Rodrigues foi homenageado na abertura da bienal

O Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, inaugurou este ano a mais antiga bienal de artes portuguesa, que se realiza desde 1978. Na ocasião solene, recebeu das mãos do Presidente da Câmara de Vila Nova de Cerveira, José Manuel Vaz Carpinteira, a chave de ouro do município. A criação da Bienal deve-se principalmente a Jaime Isidoro (1924-2009) mas um dos artistas mais ligados às suas origens e consolidação é o escultor José Rodrigues, homenageado na cerimónia de abertura e através de uma exposição no Convento de San Payo. José Rodrigues, que fará 75 anos em outubro, recebeu o maior troféu da Bienal, o Cervo de ouro, das mãos do Presidente da República. A exposição de homenagem no Convento de San Payo permite conhecer uma faceta menos divulgada do escultor, a de cenógrafo. Recordo-me bem da sua colaboração com o Teatro Experimental do Porto nos anos 80, quando vários escultores portuenses decidiram experimentar a cenografia e conceberam diversos cenários e objetos cénicos para o TEP e Seiva Trupe.

O júri da 16ª Bienal de Cerveira deliberou atribuir o Prémio Bienal de Cerveira (10 000 euros) a Inês Osório. O júri foi composto por Ana Luísa Barão (crítica de arte), Augusto Canedo (diretor da Bienal), Silvestre Pestana (artista plástico), Xurxo Oro Claro (artista plástico) e Carlos Casteleira (curador), a substituir Fátima Lambert, que não pôde comparecer. Na apresentação da Bienal, Augusto Canedo referiu a prioridade do júri de selecionar e distinguir jovens artistas.

A artista portuense Inês Osório foi distinguida pela sua instalação com tiras de borracha preta e anilhas metálicas patente no castelo de Cerveira

Inês Osório nasceu no Porto em 1984. Licenciatura em Artes Plásticas – Escultura (2008) e Mestrado em Escultura (2009) pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto – com a Tese “Do Espaço à Escultura: Transferências de um Corpo” – a base teórica da instalação patente no castelo de Cerveira, a obra vencedora do Grande Prémio da 16ª Bienal.
A artista desenvolve diversas correspondências e interações artísticas sobretudo nas áreas da escultura e instalação – um processo dinâmico que extrai contributos da sua formação multifacetada (Ballet Clássico e Dança Contemporânea, Design de Produto-especialização em cerâmica, fotografia, escultura, artes digitais, desenho técnico assistido por computador e, recentemente, teatro). Leciona em Matosinhos e dinamiza, no Porto, o Espaço João Pedro Rodrigues – Oficina de Artes. Mostra publicamente o seu trabalho desde 2006, através de intervenções/instalações em espaços públicos e galerias, individualmente ou integrada em projetos coletivos.


Nuno Nunes Ferreira – “Camouflage”, técnica mista s/tela, 250X180 cm – Prémio IPJ

Nuno Nunes Ferreira nasceu em Lisboa em 1976. Licenciado em Arquitetura pela Universidade Lusíada de Lisboa. Participou em diversas exposições coletivas na Alemanha e sobretudo em Espanha, com presença nas feiras de arte internacionais Arte Lisboa, Arco, Arte Santander e Valência Art. A obra premiada na Bienal de Cerveira, da série “Camouflage”, representa o trabalho plástico do jovem artista, que recorre de modo obsessivo a imagens de árvores e florestas para explorar “a temática da memória retratando o horror com uma estética de belo, invertendo o que é do senso comum”.

Na sua 16ª edição, a Bienal oferece um conjunto diversificado de iniciativas (ver programa completo), centradas nas exposições de arte. As obras do concurso internacional e artistas convidados (cerca de centena e meia de obras de pintura, escultura, cerâmica, instalação, fotografia, video, desenho) distribuem-se pelo Forum Cultural e Castelo de Cerveira. No Forum Cultural e na vizinha Casa Vermelha, podem ser visitados vários projetos curatoriais. Num deles, intitulado “Ecúmeno”, participa um artista de Oliveira do Hospital, Rui Monteiro, ao lado dos artistas franceses Erick Samakh e Victoria Klotz, dos brasileiros Rodrigo Braga e Paulo Meira e da portuguesa Laetitia Morais.

O interessante projeto de Rui Monteiro apresentado na Bienal de Cerveira

Rui Monteiro reside em Oliveira do Hospital. Licenciado em Design pelas Belas Artes do Porto, chegou a trabalhar como designer gráfico mas dedica-se atualmente à investigação das novas tecnologias nas áreas da Música Eletroacústica e Digital, Visão por Computador e Programação. Um aspeto fundamental da sua obra é a interação entre Arte, Ciência e Tecnologia, traduzida em Performances Sonoras, Instalações Interativas e Composições Audiovisuais. Na Bienal de Cerveira, apresenta uma curiosa correspondência entre a interpretação matemática da paisagem natural e a representação tridimensional desses dados. No site de Rui Monteiro, podemos conhecer outros projetos curiosos, entre os quais “Spectrum portrait “ (2005) e “2handmotion” (2010).
As suas obras já foram apresentadas no Porto 2001, XI Bienal de Cerveira, na Futurartes (Caldas da Rainha) e Agirarte (Oliveira do Hospital), entre outros acontecimentos e festivais em Portugal, França e EUA.

Organizada pela primeira vez pela Fundação Bienal de Cerveira (reconhecida pelo Governo em janeiro 2010), sob o tema “Redes 2011”, a Bienal alarga-se este ano a Vigo e ao Porto - uma aposta iniciada em 2007 através da realização de atividades paralelas nos concelhos vizinhos e nos municípios galegos de Porriño, Tuy e Goyan. Na sua intervenção, Cavaco Silva referiu o contributo das Artes para o desenvolvimento de Vila Nova de Cerveira, justamente designada “Vila das Artes”, e para a projeção internacional de Portugal. Dessa intervenção, que pode ser lida na íntegra no
site da Presidência da República, gostaria de destacar alguns parágrafos que podem servir de exemplo ou de motivação para outros municípios.

“Já havia, é verdade, muito antes da Bienal, boas razões para visitar Vila Nova de Cerveira, desde o castelo à paisagem, passando pelas igrejas e solares de frontaria apalaçada.
O património natural e histórico, um pouco à semelhança do que acontece em outros lugares do nosso País, reveste-se aqui de uma exuberância e riqueza que impressionam o visitante.
Não basta, porém, termos herdado um património do qual podemos legitimamente orgulhar-nos. É preciso também saber geri-lo, dinamizá-lo, de forma a que as populações possam usufruir dele, quer do ponto de vista cultural e estético, quer do ponto de vista do desenvolvimento e da qualidade de vida. E, desse ponto de vista, a Bienal veio acrescentar uma dimensão completamente nova às potencialidades já existentes em Vila Nova de Cerveira.
A princípio, foi apenas um acontecimento efémero, aparentemente insólito, que surgia só de longe em longe. Com o correr do tempo, a música e outras artes associaram-se à pintura; o número de artistas e de visitantes foi aumentando; surgiram galerias e, muito em breve, será inaugurado um museu com obras apresentadas na Bienal. Damo-nos, pois, conta de que Vila Nova de Cerveira, além do local aprazível que sempre foi, é também um pólo internacional de arte contemporânea e um destino turístico para quem quiser conhecer os movimentos e tendências da arte nas últimas três décadas.
A importância que a Bienal adquiriu é bem visível no facto de ela se desenvolver, este ano, simultaneamente, aqui em Cerveira, no Porto e em Vigo. Mas o seu alcance vai muito para lá dessa dimensão local e regional. Ao projetar-se como iniciativa sem fronteiras, onde concorrem artistas de todo o Mundo, é também a imagem de Portugal que Cerveira projeta: a imagem de um País com um profundo enraizamento histórico e uma forte identidade, mas um País, também, onde a contemporaneidade tem lugar cativo.”

A 16ª Bienal Internacional de Cerveira decorre até 17 de Setembro 2011.


IMAGENS DA ABERTURA DA BIENAL (FORUM CULTURAL)



A Bienal de Cerveira à espera de Cavaco Silva.


O Presidente da República assina o livro de honra


O Presidente da Câmara Municipal de Cerveira, José Manuel Vaz Carpinteira, entrega ao Presidente da República a chave de ouro do município


O diretor da Bienal, Augusto Canedo


"Ó Kartistas" (Andrea Inocencio e Ana Maria)



Muito público


Vista parcial da exposição


A inauguração incluía uma prova de sabores locais.