terça-feira, 12 de abril de 2011

CASA COMUM

Casa Comum – Obras na Colecção do CAM” – Centro de Arte Contemporânea Graça Morais, Bragança – 09 de Abril a 26 de Junho 2011


Através de obras de 31 artistas da colecção do CAM, a exposição “Casa Comum” remete-nos para os mais diversos aspectos da ideia de Casa, onde se originam e centram “arquétipos fundamentais da constituição do humano”.

A exposição esteve patente até 27 de Março 2011 na Galeria 1 do CAM – Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

Artistas representados: Amadeo de Souza-Cardoso António Areal António Carneiro Bernardo Marques Carlos Botelho Emmerico Nunes Fernando Lemos Filipa César Gil Heitor Cortesão Graça Pereira Coutinho João Abel Manta Joaquim Bravo Jorge Barradas José de Almada Negreiros José Dominguez Alvarez José Pedro Croft Julião Sarmento Júlio Resende Lourdes Castro Manuel Amado Manuel Bentes Maria Beatriz Mário Eloy Nadir Afonso Pedro Cabrita Reis Pedro Calapez Pedro Gomes Rui Filipe Sarah Afonso Thomas Weinberger Thomaz de Mello.


VER video da visita guiada no CAM, a 28 de Janeiro 2011, com os artistas Pedro Gomes e Gil Heitor Cortesão.

domingo, 3 de abril de 2011

RENATA CARNEIRO - Exposição em Paris



Histórias Contadas


"São histórias contadas em conversas simples, em locais simples, em cidades simples, em países simples, iguais a todas as outras, mas nem tudo o que é simples é o na realidade. A conversa adensa-se, prolonga-se na imaginação e agarra-se a ela. Daí evolui no subconsciente, alimentando os testemunhos contados, em sentimentos sentidos, que perduram e perturbam. Estas histórias em leques contadas transformam uma ideia em imagem, uma máscara desvendada de uma sociedade que é tudo menos simples. É como um jogo de palavras, de emoções que se encaixam, que se formam mas que no entanto nunca terminam. Esta é a realidade simples, de conversas simples, de apelos ou sem eles, num impulso de abanar e seguir abanando como que de um leque se tratasse, para receber um vento repleto de ambições, desejos, de objectivos a alcançar; como que de um vento trazido em histórias contadas numa simples mesa de café, ao sabor de um chá, numa simples conversa entre elas."


Renata Carneiro

Galeria Espace 181, Paris

quarta-feira, 30 de março de 2011

ÂNGELO DE SOUSA (1938-2011)



Ângelo de Sousa desenvolveu uma obra marcada pelo experimentalismo em áreas tão diversas como o desenho, a pintura, a escultura, a fotografia, o cinema e o video, cuja correspondência estabelecia com naturalidade a nível teórico e concretizava nas suas obras mais “encenadas”, estruturadas no espaço com uma dinâmica por assim dizer cinematográfica, do objecto em metamorfose de fotograma em fotograma, fundindo forma e cor mesmo quando a forma parece dobrar-se sobre si própria, introvertida, ou desdobrar-se – abrir-se no espaço como asas de pássaro ou de estranhas máquinas voadoras. Um experimentalismo balizado pelas novas concepções estéticas, continuamente em busca de novos materiais e novas técnicas.

Ângelo César Cardoso de Sousa nasceu em Moçambique (Lourenço Marques, actual Maputo) a 2 de Fevereiro de 1938 e faleceu no Porto no dia 29 de Março de 2011. Estudou na Escola de Belas Artes do Porto, onde se licenciou em pintura com a nota máxima de 20 valores. O artista gostava de desvalorizar esse facto, atribuindo-o a uma rivalidade entre as Escolas de Belas Artes do Porto e de Lisboa. A nota máxima foi igualmente atribuída a Armando Alves, José Rodrigues e Jorge Pinheiro, com os quais fundou, no Porto, nos anos 60, o grupo “Os Quatro Vintes”.

No final dos anos 60, frequentou em Londres a State School of Art e a Saint Martin’s School of Art, com bolsas da Fundação Calouste Gulbenkian e do British Council.

Leccionou na Escola Superior de Belas Artes do Porto de 1962 a 2000, ano em que se jubilou com a categoria de professor catedrático.

Expôs individualmente desde 1959 e foi distinguido com importantes prémios, entre os quais o Prémio Internacional da Bienal de Arte de São Paulo, Brasil (1975) e o Prémio Fundação Calouste Gulbenkian/Arte (2007).


sábado, 26 de março de 2011

Recordações da Casa Rosa

"Recordações da Casa Rosa" - Casa de Serralves, 24 Março a 12 Junho 2011


Vista parcial da exposição (antiga sala de estar da Casa)


Na Casa de Serralves, até ao dia 12 de Junho, encontra-se em exposição um conjunto de obras de António Areal, Jorge Queiroz e Paula Rego, pertencentes à colecção da Fundação de Serralves.

No folheto da apresentação da exposição, pode ler-se: "O confronto destes três universos, que em comum apresentam o recurso à figura e à narrativa - ainda que a realidade seja neles subvertida pela possibilidade da ficção - revela outros tantos imaginários que se poderão rever no espaço da Casa de Serralves, também ele fortemente ficcionado pela utopia do seu passado."
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Intitulada "Recordações da Casa Rosa", a exposição foi inaugurada no dia 24 de Março pela Ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas.



Concebida e projectada principalmente (1) por Charles Siclis e José Marques da Silva, destinada a residência de Carlos Alberto Cabral (1895-1968), 2º Conde de Vizela, a Casa foi construída entre 1925 e 1944 na antiga quinta de férias da família, que lhe coubera em herança.
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O Conde habitou a Casa com a esposa, Blanche Daubin, de 1944 a 1957, ano em que vendeu a quinta de Serralves ao industrial Delfim Ferreira (1888-1960), devido a dificuldades financeiras. Uma das condições do negócio era que a casa e a propriedade nunca fossem modificadas, uma condição que a família de Delfim Ferreira honrou sempre, até 1986, ano em que foi adquirida pelo Estado, sendo Teresa Patrício Gouveia (2) a Secretária de Estado da Cultura (3).
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Exemplar único da arquitectura Arte Déco, a Casa foi classificada em 1996 como “imóvel de Interesse Público”.

(1) Na realidade, a Casa de Serralves é uma obra colectiva. Charles Siclis (Paris, 1889-Nova Iorque, 1942) e José Marques da Silva (Porto, 1869-1947) foram os principais arquitectos mas o projecto também acolheu alterações do próprio Conde, do decorador Émile Jacques Ruhlmann e do seu sobrinho, o arquitecto Alfred Porteneuve.
(2) Mais tarde, foi presidente do Conselho de Administração da Fundação Serralves (2001-2003) e é administradora da Fundação Calouste Gulbenkian desde 2004. Teresa Gouveia foi casada com o poeta e publicitário Alexandre O'Neill.
(3) Os Governos de Cavaco Silva (X, XI e XII governos constitucionais) nunca tiveram um ministro expressamente para a Cultura e o cargo foi efectivamente desempenhado por secretários de Estado.

terça-feira, 22 de março de 2011

ANTÓNIO SENA

Grande prémio Amadeo de Souza-Cardoso 2011
"ESTATIS-TIKA", 1979, 70X100 cm, carvão e grafite s/papel
(LIS'79 - Lisbon International Show)

O Grande Prémio Amadeo de Souza-Cardoso 2011 foi atribuído (11 de Março) ao pintor António Sena, conhecido pelas suas composições abstractas (abstracionismo lírico) de pendor caligráfico e com referências ao graffiti, incorporando manchas e grafismos diversos em apurada tensão cromática e ritmos que exploram a escrita como desenho e os limites do quadro e da pintura.

António Sena nasceu em Lisboa em 1941. Frequentou um curso de engenharia no Instituto Superior Técnico, que trocou pela pintura por influência de pintores como Eurico Gonçalves e Fernando Conduto. Em 1964, realizou a sua primeira exposição individual, na Galeria 111. Entre 1965 e 1967 foi bolseiro da Fundação Gulbenkian em Londres, na Saint Martin´s School of Art. Actualmente, vive e trabalha em Lisboa e Londres.

A sua obra mereceu vários prémios internacionais (Prémio G.M. 67, II Palette d'Or 1972, LIS' 79, Prémio de Desenho EDP 2002) e foi reunida numa importante exposição antológica no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, em 2003. Em 2002, realizou uma exposição individual de pintura no Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão – Fundação Calouste Gulbenkian. Em 2009, Jorge da Silva Melo realizou o documentário “António Sena: a mão esquiva”, que estreou no DocLisboa a 18 de Outubro desse ano, a partir da preparação da sua exposição “Books=Cahiers” (Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva, 2009).

O Grande Prémio Amadeo de Souza-Cardoso é atribuído de dois em dois anos a um artista consagrado e vai na 8ª edição. Nas edições anteriores, foram distinguidos os seguintes artistas: João Vieira (2009), Ângelo de Sousa (2007), Nikias Skapinakis’ (2005), Júlio Pomar (2003), Costa Pinheiro (2001), Fernando Azevedo (1999) e Fernando Lanhas (1997). Trata-se de um prémio não pecuniário mas que permite a aquisição de uma ou mais obras do artista consagrado para as colecções do Museu Municipal Amadeo de Souza-Cardoso, até ao valor de 25.000,00 euros.

Para além do Grande Prémio, será ainda atribuído em Setembro de 2011 o Prémio Amadeo de Souza-Cardoso, em concurso destinado a premiar uma obra de um artista nacional ou estrangeiro.

segunda-feira, 21 de março de 2011

CHOCOLATE

O cacau medicinal do senhor azedo*

O senhor de meia idade que atravessa a rua, indolente e cabisbaixo, a caminho do seu apartamento frio esquecido nas entranhas da cidade aborrecida, detesta doces, vocifera contra o mel, abomina açúcar, odeia chocolate. Todos os chocolates, sem excepção. O último amigo do senhor tristonho, preocupado com o seu bem-estar, pois nem todos os ódios descontrolados ferem apenas o bom humor, tentou inutilmente convencê-lo das virtudes e bondades do chocolate. Que até se atribui a um deus asteca o roubo das sementes do cacau do jardim do Éden, para benefício do homem, provando-se assim que certos crimes compensam pois o abuso do cacau transformava os rapazes em homens e os homens em deuses. O senhor de meia idade maneava teimosamente a cabeça, que não, que as virtudes e bondades do chocolate eram enganos pecaminosos, pode lá um homenzeco lambuzado comparar-se a um deus? Pecados enganados, corrigia pacientemente o último amigo do senhor amargo. Que antes de ser pecaminosa tentação, o cacau correu como vinho na boda de casamento de Luís XIII de França, trazido do Brasil por monges espanhóis. Pois foi, troçou o senhor azedo, e por isso o rei demorou quatro anos a deitar-se com a rainha e o reinado deu no que deu, no Richelieu, que também detestava guloseimas mas tinha grandes defeitos. Que nada, insistia delicadamente o amigo, mas acabava por desistir da questão aborrecido com a teimosia cega do senhor azedo. Seguiam depois cada qual para seu lado, o senhor de meia idade cada vez mais fortalecido de razões para continuar amargo e o último amigo cada vez menos amigo até se tornar apenas o último.

O senhor de meia idade que atravessa sozinho a rua, de queixo e ombros caídos, a caminho do seu apartamento gelado no coração obscuro da cidade embrutecida, detesta tudo o que seja doce ou lhe pareça adocicado, mesmo à distância de um breve olhar de repulsa. Já não tem amigos, que julga ter perdido por serem intolerantes e rancorosos, mas descobriu recentemente com incontido espanto que o cacau, antes de ser uma bebida doce, era mezinha tão amargosa e intragável que só os corajosos a tomavam sem ameaças e as crianças fugiam sequer de falar nela. Ao senhor azedo não apetecem os aromas e os sabores complexos do cacau, muito menos o soberbo toque aveludado e o aconchego voluptuoso do chocolate. A lembrança dos malefícios, desde as maleitas dentárias ao pesadelo da obesidade, acodem-lhe ao espírito como tsunamis. Tentando apaziguar os piores temores, afunda o corpo seco na sua poltrona nua, cruza as finas canelas diante da lareira apagada e imagina-se a mastigar estoicamente o cacau amargo medicinal. Coroou-se a si próprio com uma coroa de espinhos artificiais e conforta-se com o prazer enganado, amargo e gelado, de ter afinal muitos motivos para detestar chocolate. Todos os chocolates, sem excepção.

Sérgio Reis

*Texto publicado no jornal “Vivências”, do Agrupamento de Escolas de Seia, Nº1, Fevereiro de 2011, escrito por ocasião do encontro promovido pela Biblioteca Escolar da EB 2 3 de Tourais/Paranhos sob o lema “Cacau, Chocolate – Origens”.