terça-feira, 15 de março de 2011

Exposição de Pintura na Moita


Se fosse necessário intitular esta exposição, escolheria um poema de Nuno Júdice, “A Vida”. O poema todo – pois transparecem nesses versos, como ecos, os principais conteúdos poéticos dos meus quadros - a vida que nos anima, cerca e enlaça, o inevitável peso da presença e da ausência, da incerteza e do acaso, dos jogos de luz e de sombra na construção da memória.

Sérgio Reis

A Vida

A vida, as suas perdas e os seus ganhos, a sua
mais que perfeita imprecisão, os dias que contam
quando não se espera, o atraso na preocupação
dos teus olhos, e as nuvens que caíram
mais depressa, nessa tarde, o círculo das relações
a abrir-se para dentro e para fora
dos sentidos que nada têm a ver com círculos,
quadrados, rectângulos, nas linhas
rectas e paralelas que se cruzam com as
linhas da mão;

a vida que traz consigo as emoções e os acasos,
a luz inexorável das profecias que nunca se realizaram
e dos encontros que sempre se soube que
se iriam dar, mesmo que nunca se soubesse com
quem e onde, nem quando; essa vida que leva consigo
o rosto sonhado numa hesitação de madrugada,
sob a luz indecisa que apenas mostra
as paredes nuas, de manchas húmidas
no gesso da memória;

a vida feita dos seus
corpos obscuros e das suas palavras
próximas.

Nuno Júdice
(Teoria Geral do Sentimento, 1999)

Ver também:

Imagens da exposição

"Pintura na Moita"

domingo, 13 de março de 2011

As três faces da Deusa

Exposição de cerâmica e escultura de Victor Mota e Carlos Oliveira
Sala de exposições temporárias do Posto de Turismo de Seia, de 4 a 31 de Março 2011
Obras de Victor Mota

Nas Caldas da Rainha, berço e escola de grandes ceramistas, “indústria cerâmica” é praticamente sinónimo de “cerâmica artística”, na tradição dos Bordalo Pinheiro mas também com boa abertura ao arrojo técnico e estético inspirados pela contemporaniedade. Não é por acaso que o CENCAL - Centro de Formação Profissional para a Indústria Cerâmica, no âmbito das suas atribuições formativas em contexto fabril, dá particular atenção à cerâmica criativa (1), organizando workshops, colóquios e seminários com a participação de artistas, investigadores, designers e técnicos locais, nacionais e estrangeiros. A cidade das Caldas da Rainha dispõe ainda de uma Escola Superior de Artes e Design, com um curso de Design de Cerâmica e Vidro, o Museu da Cerâmica (para além do Museu José Malhoa, do Atelier-Museu António Duarte e do Museu (Salvador) Barata Feyo) e das bienais Festa da Cerâmica e Simpósio de Escultura em Pedra, à vez. Em 2011, realiza-se a III Festa da Cerâmica.

O ceramista e escultor Victor Mota, que agora expõe na sala de exposições temporárias do Posto de Turismo de Seia, bebeu das nobres tradições ceramistas caldenses (Manuel Mafra, Rafael Bordalo Pinheiro, Avelino Belo, Francisco Elias) aprendendo com Herculano Elias (2) e Euclides Rebelo, sendo igualmente reconhecível alguma influência moderna de Armando Correia (3). Porém, o que transparece nos trabalhos de Victor Mota é a predisposição a inovar, explorando com preocupações de escultor os limites estruturais da forma e a conjugação de vários níveis de figuração, bem patentes nas suas figuras “estilizadas”. Se em peças como “Mãe Sentada”, “Mulher Grávida” ou “Mulher Pousando”, se destaca a transição fluída dos volumes, cheios e pesados, para elementos dinâmicos ritmados, ou se a verticalidade cónica e fria das figuras das “Mães” é salva pela poética graciosa do seu gesto materno, o ceramista/escultor arrisca-se na série “Mulheres Estilizadas”, combinando o pormenor modelado com realismo e “estilizações” estruturais, relacionando “estilos” diversos, apontamentos estéticos distintos, recorrendo ao grafismo (4), animando com vidrados as texturas e cores oferecidas pelo grés. Em peças como “Mulher Insinuante”, destaca-se ainda um sujestivo dinamismo das formas, no caso um dinamismo insinuante, que excede a mera exigência de representação.

No texto de apresentação da exposição, pode ler-se: “O trabalho de Victor Mota define-se com base numa profunda e criteriosa pesquisa sobre a sensibilidade e a relação de formas e conteúdos, no estudo moroso e cuidado de esboços que originam e enquadram o seu processo criativo”.

A estranheza do resultado, pedaços de realismo presos a formas antropomórficas simplificadas, incompletas, fala do compromisso do artista, tentando atravessar o espelho da natureza e da tradição rumo às maravilhas do artificialismo moderno. Ou, simplesmente, das vantagens de combinarmos o antigo e o moderno, as cadeias cíclicas da evolução, para projectarmos avisadamente o futuro. Ou ainda, como sugere o título da exposição, a representação do tempo através dos degraus míticos da vida da mulher, “As três faces da Deusa: Donzela, Mãe e Anciã”.

A exposição integra ainda oito esculturas de Carlos Oliveira, em alabastro cristalino, inseridas na mesma temática mas com preocupações essencialmente ornamentais, tirando partido da particularidade translúcida desse material para iluminar as formas esculpidas. Nas suas obras, Carlos Oliveira toda a experiência reunida ao longo do seu percurso, na indústria cerâmica, do vidro e das resinas, assim como através de pesquisas e investigação na área dos materiais e técnicas de aplicação.


Victor Mota, "Mãe Sentada", Grés


Victor Mota nasceu em Peniche em 1967.

Frequentou os cursos de modelação decorativa (1987), com o mestre Herculano Elias e Euclides Rebelo, e de escultura cerâmica de figura humana (1988) no CENCAL - Centro de Formação Profissional para a Indústria Cerâmica das Caldas da Rainha.

Participou ainda em workshops de cerâmica, com o ceramista e artista plástico galego Xhoan Viqueira (trabalhos sobre Bordalo Pinheiro) e com o designer belga Francis Beths (trabalhos sobre mobiliário urbano em cerâmica).

Iniciou a actividade artística na década de 90, tendo participado em várias exposições colectivas de cerâmica e escultura nas Caldas da Rainha, Óbidos e Massamá.

Em 1993, realizou a primeira exposição individual, nas Caldas da Rainha. Em 2010, mostrou o seu trabalho artístico em quatro importantes exposições individuais de cerâmica e escultura, na Capela de São Sebastião (“50 Esculturas de Santo António” e “60 Presépios”), no Céu de Vidro - Parque D. Carlos I (“Biodiversidade no Parque”) e na Junta de Freguesia de Nossa Senhora do Pópulo (“Presépios”), todas nas Caldas da Rainha.

Carlos Oliveira - escultura em alabastro


Carlos Oliveira nasceu nas Caldas da Rainha em 1963.

Formação nas áreas de desenho e moldagem no CENCAL, onde teve como mestres Artur Lopes, Armando Correia e Herculano Elias.

Em 1989, fundou o seu atelier, onde realiza desde então todo o tipo de obras em cerâmica e escultura, bronze, fibras e resinas.

Expõe os seus trabalhos desde 2001, tendo realizado exposições individual nas Caldas da Rainha, Lisboa, Barreiro, Almada, Tui, Arruda dos Vinhos, Sobral de Monte Agraço. Participou em diversas exposições colectivas de cerâmica e escultura, nacionais e internacionais. Ver currículo completo.

Participou na realização de vários monumentos, no Funchal, Alemanha, Oeiras, Sagres, Cascais e Golegã.

Encontra-se representado em colecções particulares nacionais e estrangeiras.

É referenciado nos livros “Cerâmica e Escultura”, de Carlos Bajouca, e no Anuário Internacional de 2003, de Fernando Infante do Carmo.

NOTAS:
(1) Alguns ceramistas formados no CENCAL: Ana Sobral, Carlos Enxuto, Elsa Rebelo, José Almeida, Leonel Telo, Mário Sousa, Nadine Gueniou, Rui Ribas, Vera Brás, Virgílio Peixe, Zaida Caramelo. Ana Sobral, Elsa Rebelo, Rui Ribas e Virgílio Peixe, vieram mais tarde a ser também formadores do CENCAL.

(2) Herculano Elias (n. 1932) é um ceramista caldense conhecido sobretudo pelas miniaturas cerâmicas, uma tradição familiar. As miniaturas são pequenas peças de faiança representando de modo realista figuras típicas, costumes regionais, cenas históricas ou representações religiosas tradicionais. A modelação é fundamental, destacando a destreza do artista pois dá ênfase ao pormenor à escala. Esta exigência de detalhe muito reduzido e a recusa de vidrado, impõe uma cuidada selecção de argilas e o recurso ao método da patine, para consolidar as peças e fortalecer os pormenores, o que confere às peças um brilho suave e discreto.

(3) Nos anos 80, as peças de Armando Correia (1936-2008) eram arredondadas e bojudas, evocando a escultura de Jorge Vieira, que foi seu professor na então Escola Técnica das Caldas da Rainha (actual Escola Secundária Rafael Bordalo Pinheiro). Os volumes geometrizados e as texturas sensuais são características da obra de A.C. Nos anos 90, os projectos de correspondência com a literatura proporcionaram o desenvolvimento de uma gramática formal variada, com formas estilizadas, de que são exemplo as figuras do teatro de Gil Vicente e os mitos da Antiguidade Clássica. Na última década, as formas cónicas serviram de base a desenvolvimentos temáticos a cargo do desenho e da cor – como os presépios / reis magos, que realizou com a colaboração dos seus filhos Ivo Ximenes e Ruben Correia, que certamente darão continuidade às preocupações estéticas do artista caldense, falecido em 2008.

(4) Recorrente no figurado contemporâneo e que Armando Correia desenvolveu nas suas últimas peças.


Vista parcial da exposição


Victor Mota, "Mãe de Regaço", Grés


Victor Mota, "Mãe Adormecendo", Grés


Carlos Oliveira - "Mãe de Paz", alabastro

quinta-feira, 3 de março de 2011

Demasiado ocupado para pintar?

Dan Gurney



Afinal Bansky não ganhou o Óscar do Melhor Documentário. Se calhar, foi melhor para todos - artista e seus admiradores, Academia de Hollywood e Ministério Público. O vencedor foi o oportuno "Inside Job - A verdade da crise" (EUA, 2010), de Charles Ferguson, com narração de Matt Damon.

A personagem da foto acima não é Bansky nem outro esmerado ghost artist, mas sim o piloto americano Dan Gurney (Port Jefferson, 1931) em plena década de 60, testando uma protecção em couro para o rosto, em complemento do capacete aberto característico da época, anos antes do aparecimento do capacete integral.

Por falar em ghost artists, encontrei na web este pequeno anúncio de 1952 (Washington Post, 05 de Fevereiro de 1952):

"Demasiado ocupado para pintar? Chame
Os Artistas Fantasmas.
Nós pintamos - você assina!"

quarta-feira, 2 de março de 2011

Serafim Correia, fotógrafo de Seia

Serafim Correia (1922-2011)
“Primoroso artista da fotografia” (J. Quelhas Bigotte)


A Cultura senense ficou mais pobre com o recente desaparecimento de Serafim Correia. O mais conhecido e respeitado fotógrafo de Seia faleceu a 23 de Fevereiro de 2011, aos 88 anos de idade.
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Para J. Quelhas Bigotte (“Escritores e Artistas de Senense”, 1986), Serafim Correia era um “primoroso artista da fotografia” e, digo eu, todas as pessoas de inegável mérito são insubstituíveis, ainda mais aquelas que nos deixam uma obra preciosa, ímpar, fruto do seu trabalho incansável, muitas vezes lutando com as mais diversas contrariedades. O resultado foi "só" o registo sistemático de praticamente todos os acontecimentos senenses desde 1940, através de fotografias de grande qualidade que constituem documentos fundamentais para a compreensão das transformações da então Vila na actual cidade de Seia. Serafim Correia não deve ser esquecido e a sua obra merece urgente divulgação e reconhecimento público.

De Serafim Correia não se pode dizer simplesmente que é um fotógrafo. A sua actividade profissional é a fotografia mas, na medida em que recusa a produção de fotografias em série (utilizando máquinas que qualquer indivíduo pode operar) e porque privilegia a fotografia a preto e branco (estética e tecnicamente mais difícil), pode – e deve – ser considerado artista. Um artista que “pinta” com a luz.

Será talvez supérfluo sublinhar a importância deste espólio para uma correcta e completa história de Seia desde 1940, que não dispensa uma rede de fotobiografias cruzadas, assim como os registos fotográficos da evolução física da cidade, ou seja, da paisagem urbana, suas convulsões e desenvolvimentos. E se Serafim Correia é um excelente artista do retrato, é aqui – na classificação retórica de “paisagem” – que ele se revela um autêntico mestre, tirando partido da luz e da sombra para despertar a emoção do observador perante os volumes da serra, as texturas das pedras com história, os degraus do tempo, a segurança dos caminhos e o aconchego cúmplice dos recantos de Seia antiga e moderna.



Serafim Correia, D. Rosa, D. Elvira, Eduardo Correia, Fernando e António Correia


Serafim dos Santos Correia nasceu no Porto, na Freguesia de Santo Ildefonso, em 12 de Outubro de 1922. Com 9 anos, vem para Seia, onde fez a 4ª classe. De volta ao Porto, frequenta a Escola Industrial de Faria Guimarães. Só em 1939 regressa a Seia, para trabalhar com o pai, tendo casado com D. Rosa Augusto Monteiro Correia, que lhe deu dois filhos: Fernando Correia e António Correia, que herdaram do pai e do avô o gosto pela fotografia.

Na Escola de Belas Artes do Porto, com o pintor portuense Joaquim Lopes, Serafim Correia apurou as técnicas de retoque fotográfico, que exige muita sensibilidade e rigor, mas foi com o pai – o grande fotógrafo Eduardo Correia (1889-1973) – que aprendeu as técnicas fotográficas, podendo ter sido um fotógrafo famoso a nível nacional, não fossem os custos da interioridade e a sombra majestosa do pai, cujos sucessos incluem diversos prémios em exposições nacionais e internacionais. Chegou a trabalhar dois anos num estúdio fotográfico em Paço D’Arcos, regressando depois a Seia, onde manteve a sua loja e estúdio desde 1964.

As suas fotografias foram publicadas em jornais e revistas nacionais e locais, tendo uma delas merecido destaque na primeira página do Diário de Notícias a propósito da inauguração da estátua de Afonso Costa pelo então presidente da República, General Ramalho Eanes, em 08 de Novembro de 1981. Na verdade, Serafim Correia fotografou todos os presidentes e figuras da República que passaram por Seia desde o início dos anos 60.

Participou em algumas exposições de fotografia mas os seus melhores trabalhos não se encontram divulgados por resultarem de encomendas particulares. Entre estes últimos, destaca-se um trabalho de grande dimensão (mais de dois metros de comprimento por um metro e meio de largura) e grande envolvimento visual, pertencente à firma MRG - Manuel Rodrigues Gouveia.

Em 2004, foi homenageado pelo Rotary Clube de Seia.
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Em 1996, em colaboração com o seu filho António Correia, também fotógrafo, elaborei um texto que foi publicado na PE/Revista” nº 2, suplemento do jornal Porta da Estrela de 20/01/1996:





quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

GHOST ARTISTS

Bansky quer receber um óscar disfarçado de macaco
Slinkachu é o artista urbano mais (des)conhecido
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Após a época áurea das manifestações espontâneas do graffiti, desde as mais despojadas e anónimas às assumidas intervenções artísticas de “writers” briosos do seu "tag" (pseudónimo) e orgulhosos da sua "crew" (equipa), uma vertente da arte pública actual recorre a situações de estranheza e mesmo “no-sense” para intervir no quotidiano das cidades de um modo criativo e com critérios estéticos, geralmente recorrendo ao pseudónimo e mesmo ao anonimato. O mistério em torno da verdadeira identidade destes “ghost artists” e a curiosidade que a sua obra suscita, provocam uma verdadeira “caça” ao artista, no terreno e através das redes sociais.

Na Grã-Bretanha, os artistas urbanos mais (des)conhecidos são Bansky e Slinkachu. No que respeita ao primeiro, as especulações sobre a sua identidade têm feito notícia e o seu anonimato faz a actualidade em Hollywood, a propósito da entrega dos Óscares 2011. Também realizador, Bansky é um dos candidatos à estatueta dourada para o Melhor Documentário e promete comparecer na cerimónia magna do cinema mascarado de macaco. Slinkachu é considerado um dos expoentes da arte urbana mas as suas obras já chegaram às galerias.

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Pintura mural de Bansky

BANSKY

Conhecido pelos seus trabalhos de rua em Londres, Bansky terá nascido em Bristol em 1975 – não se sabe ao certo, já que ninguém confirma a sua verdadeira identidade. Há entrevistas e até uma notícia que alegadamente revela o seu rosto mas subsiste a dúvida, alimentada pelo próprio artista.

Os seus graffiti e pinturas de rua, utilizando stencil, são a sua marca pessoal. Inesperadas e divertidas, as suas obras revelam grande cuidado ao nível da concepção e despertam facilmente a simpatia do observador. Através de imagens irónicas e sarcásticas, carregadas de crítica social, questiona os conceitos de autoridade e poder, chegando a realizar acções não autorizadas nos jardins zoológicos de Londres e de Bristol (entrando nas jaulas dos animais para deixar mensagens ao público visitante) ou na Disneylândia da Califórnia, EUA (boneco insuflável representando um prisioneiro de Guantánamo) em 2006.

A sua maior ousadia até à data foi levada a cabo em 2004, quando entrou no Museu do Louvre com uma tela de sua autoria com uma interpretação pessoal da Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, e pendurou-a sem cerimónias numa das paredes do museu .


Referências ao documentário no site do artista

Bansky também se tornou famoso pelo seu documentário "Exit through the gift shop", com o qual vem concorrendo a importantes festivais de cinema na Europa e nos Estados Unidos (1), aproveitando para espalhar a sua arte urbana. Este ano, o seu filme é um dos candidatos ao óscar de Melhor Documentário e pode vencer. Porém, Bansky não quer revelar a sua identidade e anunciou que receberia o prémio mascarado de macaco. A Academia declarou que não vai proibir que Bansky suba ao palco para receber a estatueta mas preferia entregar o óscara um seu representante. A cerimónia de entrega dos óscares será realizada no teatro Kodak, em Los Angeles, no dia 27 de Fevereiro. Até lá, a diplomacia de Hollywood resolverá certamente o problema a contento de todos. (Ir para actualização).
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Uma das micro instalações de Slinkachu, à escala 1:87


SLINKACHU

As obras de Slinkachu caracterizam-se pela reduzida dimensão pois são micro instalações. Indicado em 2010 como um dos expoentes da arte urbana, as primeiras obras conhecidas de Slinkachu remontam a 2006.

O projecto é conhecido por “Pequenas Pessoas”, geralmente bonecos de escala reduzida (1:87, a escala dos comboios eléctricos em miniatura) organizados em cenas simples criadas pelo artista e abandonadas em locais de passagem, mais ou menos frequentados. Não se trata apenas de referenciar uma presença, ao género do Tenente Gaff , personagem de “Blade Runner – Perigo Eminente”(2), que abandonava miniaturas de animais em origami por onde passava. Sendo praticamente invisíveis no espaço urbano, liliputianas entre as enormes massas de uma cidade fervilhando de vida e movimento, as micro instalações de Slinkachu destinam-se a ser encontradas e usufruídas por observadores ocasionais mais atentos aos pormenores e particularidades da paisagem urbana. A descoberta e contacto no local com estas obras implica uma atenta exploração do terreno, mas a divulgação e reconhecimento público do trabalho do artista intensificou-se a partir de 2008, com a edição de livros (3) e exposições.
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As micro instalações de Slinkachu integraram diversas exposições colectivas desde 2007 e, no ano seguinte, realiza a primeira exposição individual, "Ground Zero", na Cosh Gallery, em Londres. Prepara actualmente nova exposição individual na Andipa Gallery (que também representa Bansky), intitulada “Concrete Ocean”, a decorrer entre 03 de Março e 02 de Abril 2011.


Notas
(1)- o seu primeiro filme, “Exit Through The Gift Shop” é o seu primeiro filme, estreado no Festival de Filmes de Sundance (21 a 31 de Janeiro de 2010) e que participou em vários festivais de cinema, entre os quais o 60º Festival de Cinema de Berlim / Berlinale de 2010.
(2)-Filme de Ridley Scott, 1982.
(3)-“Little People in the City: the street art of Slinkachu”, Boxtree, Londres, 2008; “Big Bad City”, Lebowski Publishers, Amsterdão, 2010.
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Links

sábado, 19 de fevereiro de 2011

EM BUSCA DA PIOR PINTURA

O pintor fictício Pavel Jerdanowitch

O Concurso Internacional de Pintura Pavel Jerdanowich, que se realiza desde 2006, pretende encontrar a pior pintura produzida em cada ano. Em 2010, a obra “Modelo Sentado” , do russo Sergey Bugrovsky, foi considerada a pior. “Eu Sou Artista”, do britânico Luke Wilson, foi a segunda pintura mais votada.

O pintor russo Pavel Jerdanowich foi inventado em 1924 pelo jornalista e escritor americano Paul Jordan-Smith (Los Angeles, EUA, 1885 – 1971) para embaraçar os críticos de arte moderna do seu tempo. Segundo ele, o crítico de arte e literatura modernas receava destoar das tendências vanguardistas da sua geração e por isso evitava dar opiniões honestas sobre méritos artísticos, especialmente quando esses méritos não eram evidentes.
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Paul Jordan-Smith era filho de um sacerdote Metodista. Seguindo os passos do pai, fez estudos religiosos e tornou-se pastor em 1908, cargo do qual se demitiu em 1910, após ter sido acusado de heresia. Para ganhar a vida, deu aulas de latim e dedicou-se à escrita. Foi casado com a escritora Sarah Bixby Smith (California, EUA, 1871-1935).
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Em 1924, Jordan-Smith pintou um quadro intitulado “Exaltação”, representando uma mulher selvagem empunhando uma casca de banana, com a intenção de concorrer a exposições de arte com uma identidade fictícia. Para conferir exotismo à sua personagem, escolheu um nome russo aparentado ao´seu nome verdadeiro, Pavel Jerdanowitch, que imaginou ter nascido em Moscovo e emigrado com os pais para os EUA. Quando estudava arte em Chicago, Jerdanowitch contraiu tuberculose, doença da qual se curou com uma longa estadia nas ilhas do mar do sul - onde terá encontrado inspiração para pintar. Esta biografia fictícia evoca o protagonismo dos artistas russos nas vanguardas artísticas da época (Larionov, que chegou a trabalhar nos Ballets Russes, Kandinsky, um dos fundadores da Bauhaus, ou Malevitch, o fundador do Suprematismo), assim como aspectos da vida de Gauguin e ecos de Van Gogh. Jordan-Smith foi ainda mais longe e imaginou a sua obra como paradigma de um novo movimento artístico, que baptizou como “Disumbrationism” - destacando a particularidade de não pintar sombras nos quadros.

“Exaltação” foi exposto em Nova Iorque em 1925, onde foi descoberto pelo crítico de arte francês Comte Chabrier. Já em Paris, Chabrier escreveu a Jerdanowitch pedindo-lhe alguns dados biográficos e uma foto. Smith fez-se fotografar com ar tresloucado e enviou essa foto a Chabrier, juntamente com uma biografia inventada. A notícia da fundação de um novo movimento artístico, criado na Califórnia por um artista de origem russa, não tardou a ser publicada na revista francesa de arte “Revue du Vrai et du Beau” (Nº 67, Paris, 10 de Setembro de 1925). Apresentando o artista, Chabrier, o autor do artigo, escreveu arrebatadamente que “Pavel Jerdanowich não se contenta em seguir os caminhos ordinários da arte. Ele prefere descobrir, nesse domínio, as regiões escarpadas, mesmo junto ao abismo.” Nascia mais um mito da arte moderna?

Em 1926 e 1927, Jerdaniwitch pintou mais algumas obras, com destaque para “Aspiração” e “Adoração”, que estiveram expostas em Chicago e Buffalo e foram reproduzidas na “La Revue Moderne” (Paris, Junho de 1927), assim como na obra de divulgação “L'Art Contemporain - Livre d'Or” (Éditions de La Revue du Vrai et du Beau, Paris, 1927).

A 14 de Agosto de 1927, Paul Jordan-Smith fartou-se da brincadeira e contou a história ao jornal “Los Angeles Times”, colocando um ponto final na fugaz carreira artística de Jerdanowitch. A revelação escandalizou os meios artísticos, pelo embuste mas sobretudo devido a afirmações do género: “Tive mais publicidade com esta pequena brincadeira, que me ocupou apenas uma hora por ano durante três anos, do que com muitas décadas de trabalho sério.”

A “má” pintura de Pavel Jerdanowitch inspirou um prémio para a pior pintura apresentada anualmente a concurso. Apesar de se tratar de uma piada artística, não é fácil vencer esta competição. Mesmo colocando de lado as preocupações artísticas e técnicas, há que dar tratos à imaginação para reduzir a pintura à sua pior expressão e, sobretudo, produzir uma obra que desagrade ao “júri”, constituído pelos milhares de visitantes do site do concurso.

O prazo do concurso de 2011 termina no dia 01 de Abril (inscrição online imagens em formato jpeg ou gif, máximo de 200KB) e os resultados serão conhecidos a 01 de Setembro.
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Fontes
Ensaio de Mikhail Simkin e obras de P. Jerdanowitch ("Os Sete Pecados Mortais")

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

ESCULTURA DE ANTÓNIO NOGUEIRA

"Queijeira" - Gouveia, 2009


Ao longo da última década, o escultor senense António Nogueira tem desenvolvido uma intensa atividade escultórica no centro do país, onde a sua obra pública se encontra particularmente representada.
Escultor figurativo, de inspiração realista, desenvolve sobretudo temas alegóricos e etnográficos. Neste último caso, parte de figuras representativas das práticas e manifestações mais tradicionais da cultura local e regional para alimentar e até renovar o imaginário popular. Essas homenagens poéticas, de cuidada composição de volumes e contido dinamismo de formas, caracterizam a sua obra pública.
Formado pela A.R.C.A. e com experiência técnica como escultor numa empresa de mármores em Alfarelos, na região que escolheu para viver e trabalhar, trabalha preferencialmente o mármore e a pedra calcária, que combina com o granito e betão em conjuntos de maior volume, como no Monumento ao Pescador da Praia da Leirosa, Monumento às Tecedeiras (Fioso, Crestuma), Peixeira da Praia da Leirosa, Homem dos Campos do Mondego (Montemor-o-Velho), Queijeira (Gouveia), Homem a Jardar (Gouveia), Moleiro da Gândara (Figueira da Foz), Monumento A Todas as Mães (Montemor-o-Velho), ou Mulher dos Enchidos (Quiaios).

António Manuel Marques Nogueira nasceu em Seia em 1967. Reside em Lavariz, Carapinheira, desde 1999.
Licenciado em escultura pela A.R.C.A. em 1994. Durante o curso, exerceu a atividade de escultor na empresa Mármores do Centro, em Alfarelos.
Participou num workshop de escultura em Montemor-o-Velho em 1998.
Entre 1995 e 1999, lecionou Educação Visual em várias escolas próximas de Montemor-o-Velho.
Autor de diversas esculturas e monumentos, entre os quais: imagem de São Silvestre (São Silvestre, 1999), Monumento ao Pescador da Praia da Leirosa (2000), Monumento às Tecedeiras (Fioso, Crestuma, 2001), Peixeira (Praia da Leirosa, 2003), Busto do Dr. Armando Gonçalves (Tentúgal, 2003), Homem dos Campos do Mondego (Rotunda da Carapinheira, EN 111, Montemor-o-Velho, 2004), Homem a Jardar (Gouveia, 2005), Moleiro (Moinhos da Gândara, Figueira da Foz, 2005), Pescador do Rio (Ereira), Bombeiro (Montemor), Gandaresa (Arazede), Monumento A Todas as Mães (Montemor-o-Velho, 2009), Queijeira (Gouveia, 2009), Mulher dos Enchidos (Quiaios, 2009).

Exposições individuais

2002 - Exposição de escultura, no Hospital da Universidade de Coimbra.

Exposições colectivas

2003 - Exposição de escultura, na Casa da Cultura em Seia.
2003 - Exposição de escultura, no museu da Figueira da Foz.
2004 – ARTIS III – Festa das Artes e das Ideias em Seia

"Queijeira" - Gouveia, 2009


"Homem a Jardar" - Gouveia, 2005

Fotos: Sérgio Reis
Fontes: ARTIS; Site do artista; Cultura do Centro - Museu virtual de Arte Pública