sábado, 19 de fevereiro de 2011

EM BUSCA DA PIOR PINTURA

O pintor fictício Pavel Jerdanowitch

O Concurso Internacional de Pintura Pavel Jerdanowich, que se realiza desde 2006, pretende encontrar a pior pintura produzida em cada ano. Em 2010, a obra “Modelo Sentado” , do russo Sergey Bugrovsky, foi considerada a pior. “Eu Sou Artista”, do britânico Luke Wilson, foi a segunda pintura mais votada.

O pintor russo Pavel Jerdanowich foi inventado em 1924 pelo jornalista e escritor americano Paul Jordan-Smith (Los Angeles, EUA, 1885 – 1971) para embaraçar os críticos de arte moderna do seu tempo. Segundo ele, o crítico de arte e literatura modernas receava destoar das tendências vanguardistas da sua geração e por isso evitava dar opiniões honestas sobre méritos artísticos, especialmente quando esses méritos não eram evidentes.
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Paul Jordan-Smith era filho de um sacerdote Metodista. Seguindo os passos do pai, fez estudos religiosos e tornou-se pastor em 1908, cargo do qual se demitiu em 1910, após ter sido acusado de heresia. Para ganhar a vida, deu aulas de latim e dedicou-se à escrita. Foi casado com a escritora Sarah Bixby Smith (California, EUA, 1871-1935).
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Em 1924, Jordan-Smith pintou um quadro intitulado “Exaltação”, representando uma mulher selvagem empunhando uma casca de banana, com a intenção de concorrer a exposições de arte com uma identidade fictícia. Para conferir exotismo à sua personagem, escolheu um nome russo aparentado ao´seu nome verdadeiro, Pavel Jerdanowitch, que imaginou ter nascido em Moscovo e emigrado com os pais para os EUA. Quando estudava arte em Chicago, Jerdanowitch contraiu tuberculose, doença da qual se curou com uma longa estadia nas ilhas do mar do sul - onde terá encontrado inspiração para pintar. Esta biografia fictícia evoca o protagonismo dos artistas russos nas vanguardas artísticas da época (Larionov, que chegou a trabalhar nos Ballets Russes, Kandinsky, um dos fundadores da Bauhaus, ou Malevitch, o fundador do Suprematismo), assim como aspectos da vida de Gauguin e ecos de Van Gogh. Jordan-Smith foi ainda mais longe e imaginou a sua obra como paradigma de um novo movimento artístico, que baptizou como “Disumbrationism” - destacando a particularidade de não pintar sombras nos quadros.

“Exaltação” foi exposto em Nova Iorque em 1925, onde foi descoberto pelo crítico de arte francês Comte Chabrier. Já em Paris, Chabrier escreveu a Jerdanowitch pedindo-lhe alguns dados biográficos e uma foto. Smith fez-se fotografar com ar tresloucado e enviou essa foto a Chabrier, juntamente com uma biografia inventada. A notícia da fundação de um novo movimento artístico, criado na Califórnia por um artista de origem russa, não tardou a ser publicada na revista francesa de arte “Revue du Vrai et du Beau” (Nº 67, Paris, 10 de Setembro de 1925). Apresentando o artista, Chabrier, o autor do artigo, escreveu arrebatadamente que “Pavel Jerdanowich não se contenta em seguir os caminhos ordinários da arte. Ele prefere descobrir, nesse domínio, as regiões escarpadas, mesmo junto ao abismo.” Nascia mais um mito da arte moderna?

Em 1926 e 1927, Jerdaniwitch pintou mais algumas obras, com destaque para “Aspiração” e “Adoração”, que estiveram expostas em Chicago e Buffalo e foram reproduzidas na “La Revue Moderne” (Paris, Junho de 1927), assim como na obra de divulgação “L'Art Contemporain - Livre d'Or” (Éditions de La Revue du Vrai et du Beau, Paris, 1927).

A 14 de Agosto de 1927, Paul Jordan-Smith fartou-se da brincadeira e contou a história ao jornal “Los Angeles Times”, colocando um ponto final na fugaz carreira artística de Jerdanowitch. A revelação escandalizou os meios artísticos, pelo embuste mas sobretudo devido a afirmações do género: “Tive mais publicidade com esta pequena brincadeira, que me ocupou apenas uma hora por ano durante três anos, do que com muitas décadas de trabalho sério.”

A “má” pintura de Pavel Jerdanowitch inspirou um prémio para a pior pintura apresentada anualmente a concurso. Apesar de se tratar de uma piada artística, não é fácil vencer esta competição. Mesmo colocando de lado as preocupações artísticas e técnicas, há que dar tratos à imaginação para reduzir a pintura à sua pior expressão e, sobretudo, produzir uma obra que desagrade ao “júri”, constituído pelos milhares de visitantes do site do concurso.

O prazo do concurso de 2011 termina no dia 01 de Abril (inscrição online imagens em formato jpeg ou gif, máximo de 200KB) e os resultados serão conhecidos a 01 de Setembro.
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Fontes
Ensaio de Mikhail Simkin e obras de P. Jerdanowitch ("Os Sete Pecados Mortais")

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

ESCULTURA DE ANTÓNIO NOGUEIRA

"Queijeira" - Gouveia, 2009


Ao longo da última década, o escultor senense António Nogueira tem desenvolvido uma intensa atividade escultórica no centro do país, onde a sua obra pública se encontra particularmente representada.
Escultor figurativo, de inspiração realista, desenvolve sobretudo temas alegóricos e etnográficos. Neste último caso, parte de figuras representativas das práticas e manifestações mais tradicionais da cultura local e regional para alimentar e até renovar o imaginário popular. Essas homenagens poéticas, de cuidada composição de volumes e contido dinamismo de formas, caracterizam a sua obra pública.
Formado pela A.R.C.A. e com experiência técnica como escultor numa empresa de mármores em Alfarelos, na região que escolheu para viver e trabalhar, trabalha preferencialmente o mármore e a pedra calcária, que combina com o granito e betão em conjuntos de maior volume, como no Monumento ao Pescador da Praia da Leirosa, Monumento às Tecedeiras (Fioso, Crestuma), Peixeira da Praia da Leirosa, Homem dos Campos do Mondego (Montemor-o-Velho), Queijeira (Gouveia), Homem a Jardar (Gouveia), Moleiro da Gândara (Figueira da Foz), Monumento A Todas as Mães (Montemor-o-Velho), ou Mulher dos Enchidos (Quiaios).

António Manuel Marques Nogueira nasceu em Seia em 1967. Reside em Lavariz, Carapinheira, desde 1999.
Licenciado em escultura pela A.R.C.A. em 1994. Durante o curso, exerceu a atividade de escultor na empresa Mármores do Centro, em Alfarelos.
Participou num workshop de escultura em Montemor-o-Velho em 1998.
Entre 1995 e 1999, lecionou Educação Visual em várias escolas próximas de Montemor-o-Velho.
Autor de diversas esculturas e monumentos, entre os quais: imagem de São Silvestre (São Silvestre, 1999), Monumento ao Pescador da Praia da Leirosa (2000), Monumento às Tecedeiras (Fioso, Crestuma, 2001), Peixeira (Praia da Leirosa, 2003), Busto do Dr. Armando Gonçalves (Tentúgal, 2003), Homem dos Campos do Mondego (Rotunda da Carapinheira, EN 111, Montemor-o-Velho, 2004), Homem a Jardar (Gouveia, 2005), Moleiro (Moinhos da Gândara, Figueira da Foz, 2005), Pescador do Rio (Ereira), Bombeiro (Montemor), Gandaresa (Arazede), Monumento A Todas as Mães (Montemor-o-Velho, 2009), Queijeira (Gouveia, 2009), Mulher dos Enchidos (Quiaios, 2009).

Exposições individuais

2002 - Exposição de escultura, no Hospital da Universidade de Coimbra.

Exposições colectivas

2003 - Exposição de escultura, na Casa da Cultura em Seia.
2003 - Exposição de escultura, no museu da Figueira da Foz.
2004 – ARTIS III – Festa das Artes e das Ideias em Seia

"Queijeira" - Gouveia, 2009


"Homem a Jardar" - Gouveia, 2005

Fotos: Sérgio Reis
Fontes: ARTIS; Site do artista; Cultura do Centro - Museu virtual de Arte Pública

sábado, 22 de janeiro de 2011

PINTURA DE ALFREDO BARROS EM SEIA


Abriu hoje ao público na Casa Municipal da Cultura de Seia, uma importante exposição de Alfredo Barros, artista natural de Matosinhos e professor em duas das mais prestigiadas escolas de ensino superior artístico portuguesas, cuja obra mereceu diversos prémios nacionais e internacionais.
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A exposição consta de 31 telas a óleo, em diversos formatos, abrangendo várias temáticas: natureza morta, paisagem, temas alegóricos centrados na figura humana.
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A pintura realista de Alfredo Barros é marcada por uma acentuada exigência de qualidade técnica e pela preocupação com o conteúdo poético de cada obra. Pode até dizer-se que, ao contrário das intenções hiper-realistas, Alfredo Barros coloca todo o seu virtuosismo técnico ao serviço dessa poesia da imagem, por vezes com forte orientação narrativa.
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Pormenor de "Estudo a lápis para um tubo de tinta", 2007, óleo s/tela

A mostra decorre até 13 de Março 2011, no horário normal de funcionamento (das 10.00 às 18.00 horas) e ao domingo (das 14.30 às 17.30 horas).




quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

ALFREDO BARROS - Exposição em Seia

Pintura, Casa Municipal da Cultura de Seia - 22 de Janeiro a 28 de Fevereiro 2011

"O Mundo de Dante"


“Preocupo-me sempre que o quadro tenha uma estória que procuro contar, mas que depois tenha milhares de interpretações, cada pessoa é uma interpretação dessa estória. E preocupo-me que haja subjacente a essa estória uma componente poética” (1).
Alfredo Barros

Pintor figurativo, Alfredo Barros desenvolveu uma obra consistente, nos temas e nas técnicas.

Apaixonado pelo classicismo, o artista concilia esses valores estéticos com a modernidade, fugindo à frieza imediata do hiper-realismo, que “é só a habilidade da execução” (1). A obra de arte contém necessariamente uma dimensão poética que remete para a subjectividade do seu tempo e não, apenas, para a realidade factual, explorada com melhor proveito pela fotografia – que possui já uma dimensão “pictórica”, proporcionada sobretudo pelos avanços da fotografia digital.

O que não oferece qualquer dúvida é a qualidade quase obsessiva da pintura de Alfredo Barros, que o músico e também pintor A. Cunha e Silva (n. Leça da Palmeira, 1941) considera “um perfeccionista de carácter impulsivo”(2).

Os temas preferidos enquadram-se igualmente numa evocação classicista, sobretudo as naturezas-mortas e os fundos com paisagens, privilegiando as paisagens açorianas, que Alfredo Barros muito admira e visita regularmente, mas também na evocação mitológica e onírica das figuras humanas, através da pose, definição de volumes e atributos distintivos.

Trata-se de uma pintura de composição e pormenor, dominada pelo equilíbrio e pela harmonia, cujo conteúdo plástico e literário visa atrair o espectador aos ambientes poéticos e por vezes oníricos criados pelo artista, comprometendo um e outro no sentido global de cada obra.

Alfredo Barros nasceu em Matosinhos.
Licenciado pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, onde leccionou durante vários anos. Presentemente é professor da Escola Superior de Artes e Design (ESAD).
Do seu vasto currículo artístico, para além das diversas exposições individuais e participação em inúmeras exposições colectivas, destacam-se os prémios internacionais – o último dos quais, em 2009, foi o Prémio Carreira da Asssociação italiana Progetto Athanôr.
A sua actividade criativa estende-se à cenografia e ilustração de obras de literatura infantil (3) e livros didácticos.

(1)-Entrevista ao jornal Matosinhos Hoje
(2)-Texto da exposição “O tempo eterno em fragmentada suspensão”, Galeria Artes Solar Stº António, Porto, 2009
(3)-Principalmente obras de Nazaré de Castro.


"Era uma vez um pimento"

"A festa"

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

ARCO 2011 - 30 ANOS

A Feira Internacional de Arte Contemporânea de Madrid, ARCO 2011, que este ano celebra 30 anos, decorrerá entre os dias 16 (18, para o público em geral) e 20 de Fevereiro, no Centro de Exposições de Madrid.

Visando promover a arte contemporânea, criar património e apoiar a recolha e galerias de arte, o evento agora dirigido por Carlos Urroz apresenta este ano mais de cem exposições de artistas de vários países.

Como principais pólos de interesse desta edição de aniversário, regista-se uma panorâmica da arte russa contemporânea através da participação de uma dezena de galerias russas seleccionadas por Daria Pyrkina, “solo projects” de artistas latinoamericanos e destaque para jovens galerias europeias com menos de 8 anos.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

MALANGATANA (1936-2011)


Já não se encontra entre nós o artista e poeta moçambicano Malangatana Valente Ngwenya, que o cancro levou a 5 de Janeiro de 2011, a cinco meses de completar 75 anos.

Nascido a 6 de Junho de 1936 na vila de Matalana, então território português, a sua vida é um exemplo de persistência e compromisso na luta por um futuro melhor para todos. Após diversas ocupações e empregos modestos(1), teve a sorte de conhecer homens como o arquitecto Garizo do Carmo (que lhe despertou o gosto pelas artes), Augusto Cabral e Zé Júlio (que o apoiaram nos primeiros passos como artista) e o arquitecto “Pancho” Guedes (2) (que patrocinou a sua estreia e primeiros sucessos como artista profissional), mas Malangatana também soube corresponder – e bem – às expectativas. Uma vida preenchida, que se estendeu por vários países, sempre com Moçambique e Portugal no centro de todos os rumos e no coração, prestigiando Moçambique e desenvolvendo culturalmente a sua terra natal, sobretudo através da Fundação Malangatana e do Centro Cultural de Matalana, graças a protocolos e colaboração diversa com organismos e entidades internacionais. E também como deputado nacional (1990) e membro da Assembleia Municipal de Maputo (1998, 2003).

Centro Cultural de Matalana

Como artista, praticamente autodidata, tocou quase todos os géneros: desenho, pintura, gravura, escultura, cerâmica, murais (pintados ou gravados em cimento), tapeçaria. Frequentou em Lourenço Marques (actual Maputo) o Núcleo de Arte e foi bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian em 1971, para estudar gravura e cerâmica em Portugal.

As suas temáticas acompanharam a situação colonial de Moçambique até 1975, incluindo toda a guerra colonial (realizou a primeira exposição individual em 1961), a independência e a guerra civil, passando depois a destacar a dureza da vida quotidiana enquadrada por valores humanistas e, desde a década de 80, a sensualidade e o amor. Os seus textos e poemas (Malangatana foi também músico e poeta, encontrando-se representado na “Antologia da Poesia Moderna Africana”), assim como as entrevistas que concedeu, reafirmam paralelamente as preocupações dominantes em cada fase da sua obra, o que reforça a sua consistência global, confrmando-o não só como o “Picasso” africano mas, sobretudo, como figura incontornável da Cultura africana do século XX.

Notas
(1) -
Relance sobre a vida de Malangatana (Fundação José Saramago).
(2) - O arquitecto Amâncio d’Alpoim Miranda Guedes, conhecido como Pancho Guedes, nasceu em 1925 em Portugal. Estudou em diversas cidades africanas, de S. Tomé e Príncipe a Joanesburgo, Lisboa e Porto. Leccionou arquitetura na Universidade de Witwatersrand, em Joanesburgo. Foi também pintor, escultor e coleccionador de arte e artesanato.
Nos anos 50 e 60, viveu em Moçambique, onde realizou mais de 500 projectos de arquitectura - e conheceu Malangatana. Começou a pintar quando ainda era estudante de arquitectura em Joanesburgo. Participou na Bienal de S. Paulo, Brasil, em 1961, e na Bienal de Veneza em 1975.
Comendador da Ordem de Santiago e Espada, recebeu a Medalha de Ouro de Arquitetura do Instituto dos Arquitectos Sul-africanos. Doutor “honoris causa” pelas universidades de Pretória e Wits, na África do sul.