quarta-feira, 7 de julho de 2010

GÓIS ARTE 2010

Auditório da Casa do Artista

No Auditório da Casa do Artista, decorreu a sessão solene de abertura do GóisArte 2010, com intervenções das diversas personalidades que constituíam a mesa e a presença destacada, entre o público, dos presidentes das Juntas de Freguesia e de um representante do Turismo do Centro.
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Nos discursos oficiais, salientou-se a importância do GóisArte no contexto local e sua relação com a Galiza - particularmente com o Município de Oroso, localidade galega que se geminou com Góis - registando-se a participação de cerca de 20 artistas galegos na exposição colectiva e no grupo luso-galaico de escultores que trabalhou duas semanas na concepção do monumento alusivo à geminação Góis-Oroso, assim como em 6 esculturas individuais - que estiveram em destaque no auditório durante a sessão de abertura.
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Seguidamente, foi inaugurada a exposição colectiva de obras participantes, nas galerias da Casa do Artista. Este ano sob o signo da biodiversidade / biodiversid'arte, a exposição reúne cerca de uma centena de obras de pintura, escultura, serigrafia e fotografia, num espaço que começa a ser pequeno para tantas obras ... e público.
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Foram seleccionadas para o GóisArte 2010 quatro obras de artistas senenses: Francisco Paulo (F. Paulo); Luíz Morgadinho; Sérgio Reis e Virgínia Pinto. No que me diz respeito, é a terceira vez que participo na colectiva de Góis: 2000, 2001 e 2010.
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O GóisArte foi criado em 1997, durante a presidência de José Cabeças, num esforço conjunto da Câmara Municipal de Góis e da Associação de Desenvolvimento de Góis e da Beira Serra, que contaram depois com o envolvimento pontual de outros organismos e associações. O executivo camarário seguinte, presidido por José Girão Vitorino (1947-2010) desenvolveu a iniciativa dando-lhe projecção nacional e criou laços com a Galiza. A actual presidente da Câmara, Maria de Lurdes Oliveira Castanheira, propõe-se levar ainda mais longe a iniciativa criada e desenvolvida pelos antecessores. Parece-me importante, mesmo urgente, começar por melhorar as condições de exposição das galerias da Casa do Artista, já que a mostra colectiva é a raiz e o cerne do GóisArte. Saúda-se o alargado intercâmbio cultural com Oroso e a próxima criação do Museu de Góis, no edifício do antigo hospital que se encontra em fase de recuperação.
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Ao longo das suas 14 edições, o júri de selecção do GóisArte integrou artistas de relevo das artes ibéricas, como Armando Martinez, Camarro, Geraldes da Silva, Jacqueline Moys, Mário Silva, Pinho Dinis (1921-2007), entre outros. Integrou ainda o júri, nos primeiros anos do evento, a mais importante artista local, Alice Sande (Pombal, 1925-Góis, 2005), que participou na Expo'98 com uma interessante exposição de pintura no Pavilhão do Território. Na Casa Museu Alice Sande funciona actualmente o Posto de Turismo de Góis.
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Sessão solene de abertura do GóisArte 2010, no auditório da Casa do Artista. Da esquerda para a direita: Dr. José Machado Lopes (representante do júri e do Movimento Artístico de Coimbra); José António Pereira de Carvalho (Presidente da Assembleia Municipal); Drª Maria de Lurdes Castanheira (Presidente da Câmara Municipal de Góis); D. Manoel Miras Franqueira (Alcaide de Oroso - Galiza, Espanha); Dr. António Sérgio (representante do Governo Civil de Coimbra).

Inauguração da exposição colectiva


Vista parcial da segunda sala da exposição colectiva.

Recanto da sala principal: ao centro, uma pintura de Maria Margaretha Velzeboer (Marvel), que participou na ARTIS IX em Seia. Antonia Broos e Antje Margaretha Iedema (AMIe) também estão em Góis e participaram na ARTIS 2010.


Carlos Inácio - "Biodiversida-me, Biodiversida-te, Biodiversida-nos", acrílico s/tela


Francisco Paulo - técnica mista

Geraldes da Silva

Luíz Morgadinho - "Faina Inumana e Criminosa", óleo s/tela

Oscar Aldonza Torres - "La Via del Conocimiento", terracota

Rita Duarte - "Espaços de Luz", óleo s/tela

Virgínia Pinto

Após a inaguração da exposição colectiva do GóisArte 2010, foi inaugurado um monumento evocativo da geminação Góis-Oroso. O monumento concebido por artistas portugueses e galegos, localiza-se na rotunda da saída rodoviária para a Lousã.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

OS BUSTOS DA REPÚBLICA

SIMÕES DE ALMEIDA (SOBRINHO) E O BUSTO DA REPÚBLICA

A representação tradicional da República foi inspirada na figura central de uma pintura panfletária de Eugène Delacroix (1798-1863), “A Liberdade Guiando o Povo” (1830). Neste quadro, o principal pintor do Romantismo francês mostra uma figura feminina com um barrete frígio, representando a Liberdade, destemida e determinada. Os seios descobertos, sem intuitos lascivos, exprimem a ideia de liberdade absoluta, contra os normativos morais vigentes. O barrete frígio, já utilizado na antiguidade pelos habitantes da Frígia (actual Turquia), foi adoptado pelo povo como símbolo revolucionário na tomada da Bastilha (1789) e tornou-se um dos principais símbolos da República Francesa.

Eugène Delacroix - "La Liberté guidant le peuple" (1830)

A Liberdade imaginada por Delacroix em 1830 foi logo depois representada em busto por diversos escultores, reproduzida e reinterpretada ao longo dos anos e décadas, até ao presente. Manteve o ar decidido, o barrete frígio, cobriu-se o peito e acrescentou-se o ramo de loureiro triunfal ou a foice, simbolizando a abundância.

Na França, a figura que representa a República é conhecida desde sempre por Marianne mas mudou várias vezes de aspecto desde 1944. Após o fim da II Guerra Mundial, a Associação dos Autarcas Franceses decidiu actualizar periodicamente a representação da República utilizando como modelo jovens francesas famosas, como a actriz Brigitte Bardot (1968), a cantora Mireille Mathieu (1978), a actriz Catherine Deneuve (1985), a modelo e designer Inès de la Fressange (1989), ou a modelo e actriz Laetitia Casta (2000). A apresentadora de TV Èvelyne Thomas (2003) foi a escolha mais controversa, apesar da sua popularidade.

Em Portugal, a propósito das Comemorações do Centenário da República, o escultor João Cutileiro lançou a discussão sobre uma eventual alteração do busto português mas a Comissão do Centenário opôs-se com autoridade e a proposta não reuniu consenso.

O busto português da República retém, assim, os traços fisionómicos de Ilda Pulga, uma jovem natural de Arraiolos que morreu em 1993 com 101 anos, mas a escolha dessa peça escultórica foi complexa e rodeada de polémicas – à boa maneira portuguesa.

Em 1910, a Câmara Municipal de Lisboa promoveu um concurso nacional para a criação do busto oficial da República portuguesa – naturalmente à imagem e semelhança da Marianne francesa. Concorreram 9 escultores. O vencedor, Francisco dos Santos (1878-1930), regressado de Paris em 1909, apresentou um busto elegante, com traços refinados, um trabalho erudito condizente com o modelo francês. Em segundo lugar ficou Simões de Almeida (sobrinho) (1880 – 1950), autor da proposta intitulada “Fraternitas”, que apresentava os traços da portuguesíssima Ilda Pulga, de rosto cheio e seios fartos. O terceiro lugar coube a Júlio Vaz Júnior (1877-1963), com a proposta intitulada “Austera” – um busto expressivamente austero, semblante grave e peito pudicamente encoberto por um enorme ramo de loureiro.

O júri do concurso escolheu de facto a obra mais bela e erudita mas foi o busto de Simões de Almeida que acabou por ser adoptado como símbolo oficial da República portuguesa em 1911. A razão desta preferência tem a ver com a sensibilidade e gosto populares, mas deve-se sobretudo à precipitação da propaganda republicana.
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As três propostas vencedoras (da esquerda para a direita):
Francisco dos Santos; Simões de Almeida; Júlio Vaz Júnior.
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Conhecido por José Simões de Almeida (sobrinho) para se distinguir do seu tio (Mestre escultor José Simões de Almeida), o autor do busto português da República nasceu em Figueiró dos Vinhos em 1880 e faleceu em Lisboa em 1950.
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Formou-se em Escultura em 1903, na Academia Real de Belas-Artes (depois Escola de Belas-Artes de Lisboa), onde foi aluno de seu tio e mais tarde professor de desenho e pintura.
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Bolseiro da Academia Nacional de Belas Artes, estudou escultura em Paris e Roma.
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Após a conquista da Câmara de Lisboa pelos republicanos nas eleições de 1 de Novembro, o novo presidente da Câmara, Anselmo Braamcamp Freire (1849 –1921), encomendou a Simões de Almeida (sobrinho) um busto para a República, que o escultor executou utilizando como modelo a jovem Ilda Pulga.

A República só teve símbolos oficiais em 1911 (e efígies republicanas nas moedas em 1912), razão pela qual esse busto marcou presença em diversos acontecimentos republicanos e cerimónias oficiais logo após o 5 de Outubro de 1910, com destaque para o funeral conjunto de Miguel Bombarda e de Cândido dos Reis (6 de Outubro de 1910), e granjeou a preferência de muitos lideres republicanos. Para o concurso nacional de 1910, Simões de Almeida apresentou uma proposta baseada nesse primeiro busto, com alterações suficientes para cumprir a exigência regulamentar de obras inéditas, mas rapidamente identificada pelo comum dos republicanos e a proposta vencedora do concurso nacional não teve aceitação popular. Encontra-se hoje exposta no Museu da República.
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Sérgio Reis
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*Publicado no jornal "Ecos da Nossa Escola" - Agrupamento de Escolas de Tourais-Paranhos, nº 16, Maio 2010

"A Ilustração Portuguesa"

sexta-feira, 2 de julho de 2010

O RELÓGIO DO EDIFÍCIO PALLADIUM


O edifício das Galerias Palladium, antigos Grandes Armazéns Nascimento, situado no cruzamento da Rua de Santa Catarina com a Rua de Passos Manuel, mostra um interessante relógio com carrilhão e figuras que se movimentam no exterior do edifício.

De três em três horas, saem do relógio e apresentam-se de frente para Santa Catarina, num patamar do 1º andar, quatro imagens representando figuras emblemáticas do Porto: S. João, o Infante D. Henrique, Almeida Garrett e Camilo Castelo Branco. Após um desfile de dois minutos, ao som do carrilhão, as figuras regressam ao relógio.

O edifício foi projectado pelo arquitecto José Marques da Silva (Porto, 1869-1947) para o industrial António Nascimento. Construído em 1914, fazia parte do vasto plano de reconversão da baixa portuense realizado nessa época. A designação actual advém do facto de ter aí existido um café, o Palladium, entre 1939 e os anos 70.


Fotos: artes-vivas.blogspot.com

quinta-feira, 1 de julho de 2010

BMW ART CARS

Automóveis com Arte

Jeff Koons - BMW M3 GT2 Art Car 2010 Le Mans

O automóvel é uma área extremamente ligada ao design mas também propícia às abordagens artísticas, sem falar dos pintores que se dedicam aos temas da competição automóvel. É inegável a harmonia formal dos automóveis modernos, acentuada pelos aspectos aerodinâmicos, e existe uma estética indissociável dos automóveis de competição. Para além da beleza agressiva das formas, a pintura e decoração exterior dos carros de corrida, regra geral com objectivos distintivos e publicitários, não dispensam cuidados estéticos. Desde os pequenos mas aguerridos carros dos troféus aos ligeiros e rápidos monolugares da Fórmula 1, as linhas, formas e cores que os cobrem são parte importante no todo do automóvel e delas depende o próprio funcionamento da equipa. Reforçando esses laços, a BMW criou há 35 anos a BMW Art Car Collection, através das 24 Horas de Le Mans, a mais mediática prova de resistência mundial.

A ideia de correr com um carro decorado por um artista famoso foi levada à prática pela primeira vez em 1975, por Hervé Poulain, um piloto francês também dado às artes. A BMW gostou da ideia e Poulain convidou o artista americano Alexander Calder, seu amigo pessoal, para pintar um BMW 3.0 CSL destinado às 24 Horas de Le Mans de 1975. O carro #93 foi inscrito por Hervé Poulain, que alternou ao volante com Sam Posey (USA) e Jean Guichet (F) mas abandonou durante a corrida. Esse trabalho foi um dos últimos de Calder, que faleceu no ano seguinte.

O BMW #41 com a decoração de Stella

Em 1976, Poulain não correu em Le Mans, cabendo a Peter Gregg (USA) e Brian Redman (GB) pilotar o BMW decorado pelo pintor minimalista americano Frank Stella.

Esta iniciativa da BMW repetiu-se 17 vezes ao longo dos últimos 35 anos. Em 1977, o carro decorado pelo artista pop americano Roy Lichtenstein, inscrito e pilotado por Hervé Poulain, Marcel Mignot (F) e Anny-Charlotte Verney (F), terminou em 9º lugar.

Em 2010, Jeff Koons projectou a decoração do BMW M3 GT2 inscrito na prova clássica francesa pela BMW Motorsport e pilotado por Andy Priaulx (GB), Dirk Muller (DE) e Dirk Werner (DE). O BMW recebeu o número 79 evocando o sucesso de 1979, mas não terminou a corrida. Em 1979, o carro pintado por Andy Warhol e inscrito por Hervé Poulin terminou em 6º lugar, conduzido pelo próprio Poulain, Marcel Mignot (F) e Manfred Winkelhock (Alemanha). Os BMW Art Car só regressariam às 24 Horas de Le Mans em 2010.

Olafur Eliasson ligou a ciência à arte em 2007 e "escondeu" o BMW H2R

Em 2007, o 16º BMW Art Car foi directo das pistas de testes para o museu. Partindo do BMW H2R, um carro conceptual a hidrogénio, o artista dinamarquês Olafur Eliasson criou uma surpreendente estrutura integrando luz e som. Na pista de testes de Miramas, o carro com motor de 12 cilindros e 6.0 litros atingiu os 300 km/h.

Em 2009, Robin Rhode usou um BMW Z4 como "pincel"

Em 2009, a artista sul-africana Robin Rhode usou como “pincel” um BMW Z4 equipado com latas de tinta azul, vermelho e amarelo, para criar uma pintura expressionista abstracta. A experiência durou 12 horas e algumas imagens foram integradas num filme publicitário da BMW, “An expression of joy”.
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O Art Car de 2010 foi apresentado no Centro Pompidou, evocando as circunstâncias da apresentação do 3º Art Car, em 1977, decorado pelo artista americano Roy Lichenstein, e Hervé Poulain foi um dos convidados de honra.

O trabalho de Jeff Koons para o BMW M3 surpreendeu agradavelmente pela sugestão dinâmica e vibração das cores. Trata-se de um dos mais impressionantes Art Cars e cala muitos dos seus detractores. Para muitos críticos, Jeff Koons é um génio da arte mundial mas, para outros, o ex-marido de Cicciolina, política e actriz porno italiana, não passa de um artista vulgar.

Outra particularidade da sua participação na BMW Art Car Collection reside no método de trabalho, pois Koons não intervém directamente na execução das suas obras, tal como a maioria dos artistas pós-modernos. Ao contrário do que fizeram os artistas seus antecessores, Koons não pintou directamente na chapa do automóvel. A decoração foi impressa numa fina película autocolante, de acordo com o projecto do artista, e colada na carroçaria pintada com a cor de base.

Os carros da BMW Art Car Collection reflectem a evolução tecnológica, design e oscilações dos gostos culturais dos anos 70, 80, 90 e da última década, tendo sido expostos ao lado de outras obras de arte em museus como o Museu do Louvre, em Paris, Royal Academy, em Londres, Whitney Museum of Modern Art de Nova Iorque, Palazzo Grassi, em Veneza, Powerhouse Museum, em Sydney, Tel Aviv Museum of Art e museus Guggenheim de Nova Iorque e de Bilbao.

Lista dos 17 BMW Art Car (1975-2010)
Clicar sobre o nome do artista para ver um video no youtube

(Ano - modelo - artista/país – resultado em Le Mans)

1975 - BMW 3.0 CSL - Alexander Calder (USA) – versão de corrida: #93 (abandonou)
1976 - BMW 3.0 CSL - Frank Stella (USA) – versão de corrida: #41 (abandonou)
1977 - BMW 320i Group 5 - Roy Lichtenstein (USA) – versão de corrida: #50 (9º)
1979 - BMW M1 Group 4 - Andy Warhol (USA) – versão de corrida: #76 (6º)
1989 - BMW M3 Group A - Ken Done (Austrália)
1991 - BMW Z1A - R. Penck (Alemanha)
1991 - BMW 525i - Esther Mahlangu (África do Sul)
1995 - BMW 850CSi - David Hockney (Grã-Bretanha)
1999 - BMW V12 LMR - Jenny Holzer (USA) – versão de corrida: #16 (não participou)
2007 – BMW H2R – Olafur Eliasson (Dinamarca)
2010 - BMW M3 GT2 - Jeff Koons (USA)-versão de corrida: #79 (abandonou)

Fontes:

1975 - Alexander Calder

1976 - Frank Stella

Roy Lichenstein trabalhando no projecto

1977 - Roy Lichenstein

Andy Warhol

1979 - Andy Warhol

1982 - Ernest Fuchs

1986 - Robert Rauschenberg

1989 - Jagamara Nelson

1989 - Ken Done

1990 - César Manrique

Esther Mahlangu

1991 - Esther Mahlangu

1991 - R. Penck

1992 - Sandro Chia


1995 - David Hockney


Jenny Holzer

1999 - Jenny Holzer

quarta-feira, 30 de junho de 2010

ACÁCIO DE CARVALHO

T R A Ç O S


90 - AC - 09

Acácio de Carvalho (foto de José Santos)

Foi inaugurada em Seia no passado sábado, dia 3 de Julho, feriado municipal (1), uma importante exposição (quase) retrospectiva de Acácio de Carvalho, com obras representativas de diversas fases da sua carreira artística.

A exposição é dominada por trabalhos de grande dimensão, que recordam e explicitam a correspondência entre a produção plástica (para não reduzirmos o interesse da mostra à pintura) de Acácio de Carvalho e a cenografia. Em certo sentido, o "quadro" já é uma cena, mas a preferência pelas grandes dimensões revela a preocupação do artista em transformar a parte em todo, o pequeno em enorme, simplificando as evidências, focando o sentido da imagem, fixando o símbolo - ou já a sua interpretação teatral, o lugar teatralizado do símbolo, a face dramática da convenção: nas abordagens mais realistas, onde não falta o "trompe l'oeil" da perspectiva, como nos trabalhos mais expressionistas ou já nas incursões abstractas. Os seus trabalhos mais recentes, como que produto de experiências acumuladas ou já a consecução de uma transversalidade que unifica a sua obra, combinam todos estas preocupações em jeito de súmula desconstrutiva. As obras em resina, decalcando a realidade à escala natural (tampas de saneamento, portas, ...) exaltam uma cenografia absurda centrada no objecto que resume o cenário representando não só o ambiente da cena mas o próprio sentido da estória; não só o elemento poético da paisagem mas a própria poesia da paisagem - ou o mundo ainda em peças, para montar e desmontar em todos os palcos possíveis.

Esta exposição de Acácio de Carvalho é um momento único da história da Casa Muncipal da Cultura de Seia e representa uma viragem na exigência de qualidade da sua programação.
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Vista parcial da inauguração
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Mário Jorge Branquinho, Manuela Bronze e Acácio de Carvalho

Sérgio Reis, Manuela Bronze, Acácio de Carvalho
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Vista parcial da exposição


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90-AC-09 na imprensa regional:

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Retrospectiva de Acácio Carvalho na Casa da Cultura de Seia

No dia 3 de Julho, pelas 15 horas, será inaugurada nas Galerias da Casa Municipal da Cultura de Seia a exposição “90 – AC – 09”, de Acácio Carvalho.

“90 – AC – 09” é uma exposição retrospectiva dos últimos 20 anos (1990-2009) de actividade artística de Acácio Carvalho, onde prevalece a relação do artista com o teatro, marcada pelo diálogo fértil entre a pintura e a criação cenográfica. As suas telas assumem o estatuto de fragmentos cenográficos, remetendo para uma dramaturgia que o artista situa em Samuel Beckett ou Eugène lonesco, dois autores unidos pelo conceito de teatro do absurdo.

A exposição integra-se nas comemorações do 3 de Julho, Feriado Municipal, e decorre até final de Agosto, de segunda a sexta-feira das 10 às 18 Horas.
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(1) - A 3 de Julho de 1986, na sua reunião plenária, a Assembleia da República aprovou o projecto de Lei de elevação de Seia (Nº 45/IV) à categoria de Cidade, apresentado pelo então deputado Jorge Correia a 20 de Novembro de 1985.

terça-feira, 29 de junho de 2010

ESCULTURA DE ZULMIRO DE CARVALHO NO PORTO


Desde o dia 26 de Junho que o Porto conta com mais uma obra pública, a escultura de Zulmiro de Carvalho para o PortoCartoon - World Festival 2010, erigida frente à Igreja de São Francisco.

A 12ª edição do Porto Cartoon - World Festival decorre este ano sob o tema "Aviões e Máquinas Voadoras". A obra vencedora, do cartunista polaco Jerzy Gluszek, intitula-se "In the air tonight" (que também é o título de um´tema de Phil Collins) e tem como elemento principal uma asa de avião utilizada como tábua de engomar por uma senhora de penteado extravagante.

A obra escultórica de Zulmiro de Carvalho, distinguida com diversos prémios nacionais, caracteriza-se pela simplicidade, sobriedade e grandiosidade das estruturas, em ferro, bronze e aço, materiais que combina frequentemente com o mármore, a ardósia e a madeira. No Porto, podem ser vistas outras esculturas do autor no Jardim de S. Lázaro, no Cemitério do Prado Repouso, no BCP, no Mercado Abastecedor ou na Prelada.
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Zulmiro Neves de Carvalho nasceu na Aldeia Alegre, Valbom, Gondomar, a 12 de Março de 1940.
Curso de Escultura da Escola Superior das Belas Artes do Porto (1963-1968), onde lecciona desde 1969.

Pós-Graduação na St. Martin’s School of Arts em Londres.
Leccionou na Escola Superior de Belas Artes desde 1969 até 1995, ano em que se aposentou como professor auxiliar.

Desde 1967 tem participado em exposições colectivas no país e no estrangeiro e em simpósios internacionais de escultura. Realizou diversas exposições individuais.

Entre as suas prinicpais obras, contam-se as três obras intituladas “Escultura” (1987), a escultura em granito polido do cemitério do Prado Repouso (1989), a escultura da Prelada, no Porto (1993), “Pórtico do Monte Castro”, Gondomar (1994), a escultura em Antuã (1995) ou “O Arco do Oriente”, em Macau (1996).
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domingo, 20 de junho de 2010

OS GRANDES TRANSPARENTES


Poema de Nuno Júdice, "Receita Para Fazer Azul" (Meditação Sobre Ruínas, 1994), lido por Antonino de Resende Jorge na inauguração da exposição:

"Receita Para Fazer Azul

Se quiseres fazer azul
pega num pedaço de céu e mete-o numa panela grande,
que possas levar ao lume do horizonte;
depois mexe o azul com um resto de vermelhoda madrugada, até que ele se desfaça;
despeja tudo num bacio bem limpo,
para que nada reste das impurezas da tarde.
Por fim, peneira um resto de ouro da areia
do meio-dia, até que a cor pegue ao fundo de metal.
Se quiseres, para que as cores se não desprendam
com o tempo, deita no líquido um caroço de pêssego queimado.
Vê-lo-ás desfazer-se, sem deixar sinais de que alguma vez
ali o puseste; e nem o negro da cinza deixará um resto de ocre
na superfície dourada. Podes, então, levantar a cor
até à altura dos olhos, e compare-la com o azul autêntico.
Ambas as cores te parecerão semelhantes, sem que
possas distinguir entre uma e outra.
Assim o fiz - eu, Abraão bem Judá Ibn Haim,
iluminador de Loulé - e deixei a receita a quem quiser,
algum dia, imitar o céu."






Sousa Dias: “Não há arte a partir do interior, das profundidades do eu. Antes sempre como captura de “poderes” selvagens, nem interiores nem exteriores, nem subjectivos nem objectivos, mas entre os dois, entre-seres impensáveis, apenas vivíveis, sensíveis (...), definindo não um Mundo mas um Entre-mundo.” (1)

O ponto de partida sempre foi o desafio de captar ambientes e sensações através de formas e cores. Não se trata de uma mera representação mas sim de repetidos exercícios de fixação de espaços voláteis, com contrastes de luz, cheios e vazios, repletos de presenças e de ausências, sombras, personagens abstractos que “vão e voltam, atravessam os quadros, saem de um para regressar noutro, passeiam através deles” (Teolinda Gersão). Pairam, diluem-se na cena, desaparecem em seguida nos seus armários e armaduras de fantasmas emancipadores do homem, anjos e demónios libertadores.

(1) – Sousa Dias, “Arte, Verdade, Sensação”.