quarta-feira, 30 de junho de 2010

ACÁCIO DE CARVALHO

T R A Ç O S


90 - AC - 09

Acácio de Carvalho (foto de José Santos)

Foi inaugurada em Seia no passado sábado, dia 3 de Julho, feriado municipal (1), uma importante exposição (quase) retrospectiva de Acácio de Carvalho, com obras representativas de diversas fases da sua carreira artística.

A exposição é dominada por trabalhos de grande dimensão, que recordam e explicitam a correspondência entre a produção plástica (para não reduzirmos o interesse da mostra à pintura) de Acácio de Carvalho e a cenografia. Em certo sentido, o "quadro" já é uma cena, mas a preferência pelas grandes dimensões revela a preocupação do artista em transformar a parte em todo, o pequeno em enorme, simplificando as evidências, focando o sentido da imagem, fixando o símbolo - ou já a sua interpretação teatral, o lugar teatralizado do símbolo, a face dramática da convenção: nas abordagens mais realistas, onde não falta o "trompe l'oeil" da perspectiva, como nos trabalhos mais expressionistas ou já nas incursões abstractas. Os seus trabalhos mais recentes, como que produto de experiências acumuladas ou já a consecução de uma transversalidade que unifica a sua obra, combinam todos estas preocupações em jeito de súmula desconstrutiva. As obras em resina, decalcando a realidade à escala natural (tampas de saneamento, portas, ...) exaltam uma cenografia absurda centrada no objecto que resume o cenário representando não só o ambiente da cena mas o próprio sentido da estória; não só o elemento poético da paisagem mas a própria poesia da paisagem - ou o mundo ainda em peças, para montar e desmontar em todos os palcos possíveis.

Esta exposição de Acácio de Carvalho é um momento único da história da Casa Muncipal da Cultura de Seia e representa uma viragem na exigência de qualidade da sua programação.
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Vista parcial da inauguração
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Mário Jorge Branquinho, Manuela Bronze e Acácio de Carvalho

Sérgio Reis, Manuela Bronze, Acácio de Carvalho
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Vista parcial da exposição


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90-AC-09 na imprensa regional:

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Retrospectiva de Acácio Carvalho na Casa da Cultura de Seia

No dia 3 de Julho, pelas 15 horas, será inaugurada nas Galerias da Casa Municipal da Cultura de Seia a exposição “90 – AC – 09”, de Acácio Carvalho.

“90 – AC – 09” é uma exposição retrospectiva dos últimos 20 anos (1990-2009) de actividade artística de Acácio Carvalho, onde prevalece a relação do artista com o teatro, marcada pelo diálogo fértil entre a pintura e a criação cenográfica. As suas telas assumem o estatuto de fragmentos cenográficos, remetendo para uma dramaturgia que o artista situa em Samuel Beckett ou Eugène lonesco, dois autores unidos pelo conceito de teatro do absurdo.

A exposição integra-se nas comemorações do 3 de Julho, Feriado Municipal, e decorre até final de Agosto, de segunda a sexta-feira das 10 às 18 Horas.
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(1) - A 3 de Julho de 1986, na sua reunião plenária, a Assembleia da República aprovou o projecto de Lei de elevação de Seia (Nº 45/IV) à categoria de Cidade, apresentado pelo então deputado Jorge Correia a 20 de Novembro de 1985.

terça-feira, 29 de junho de 2010

ESCULTURA DE ZULMIRO DE CARVALHO NO PORTO


Desde o dia 26 de Junho que o Porto conta com mais uma obra pública, a escultura de Zulmiro de Carvalho para o PortoCartoon - World Festival 2010, erigida frente à Igreja de São Francisco.

A 12ª edição do Porto Cartoon - World Festival decorre este ano sob o tema "Aviões e Máquinas Voadoras". A obra vencedora, do cartunista polaco Jerzy Gluszek, intitula-se "In the air tonight" (que também é o título de um´tema de Phil Collins) e tem como elemento principal uma asa de avião utilizada como tábua de engomar por uma senhora de penteado extravagante.

A obra escultórica de Zulmiro de Carvalho, distinguida com diversos prémios nacionais, caracteriza-se pela simplicidade, sobriedade e grandiosidade das estruturas, em ferro, bronze e aço, materiais que combina frequentemente com o mármore, a ardósia e a madeira. No Porto, podem ser vistas outras esculturas do autor no Jardim de S. Lázaro, no Cemitério do Prado Repouso, no BCP, no Mercado Abastecedor ou na Prelada.
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Zulmiro Neves de Carvalho nasceu na Aldeia Alegre, Valbom, Gondomar, a 12 de Março de 1940.
Curso de Escultura da Escola Superior das Belas Artes do Porto (1963-1968), onde lecciona desde 1969.

Pós-Graduação na St. Martin’s School of Arts em Londres.
Leccionou na Escola Superior de Belas Artes desde 1969 até 1995, ano em que se aposentou como professor auxiliar.

Desde 1967 tem participado em exposições colectivas no país e no estrangeiro e em simpósios internacionais de escultura. Realizou diversas exposições individuais.

Entre as suas prinicpais obras, contam-se as três obras intituladas “Escultura” (1987), a escultura em granito polido do cemitério do Prado Repouso (1989), a escultura da Prelada, no Porto (1993), “Pórtico do Monte Castro”, Gondomar (1994), a escultura em Antuã (1995) ou “O Arco do Oriente”, em Macau (1996).
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domingo, 20 de junho de 2010

OS GRANDES TRANSPARENTES


Poema de Nuno Júdice, "Receita Para Fazer Azul" (Meditação Sobre Ruínas, 1994), lido por Antonino de Resende Jorge na inauguração da exposição:

"Receita Para Fazer Azul

Se quiseres fazer azul
pega num pedaço de céu e mete-o numa panela grande,
que possas levar ao lume do horizonte;
depois mexe o azul com um resto de vermelhoda madrugada, até que ele se desfaça;
despeja tudo num bacio bem limpo,
para que nada reste das impurezas da tarde.
Por fim, peneira um resto de ouro da areia
do meio-dia, até que a cor pegue ao fundo de metal.
Se quiseres, para que as cores se não desprendam
com o tempo, deita no líquido um caroço de pêssego queimado.
Vê-lo-ás desfazer-se, sem deixar sinais de que alguma vez
ali o puseste; e nem o negro da cinza deixará um resto de ocre
na superfície dourada. Podes, então, levantar a cor
até à altura dos olhos, e compare-la com o azul autêntico.
Ambas as cores te parecerão semelhantes, sem que
possas distinguir entre uma e outra.
Assim o fiz - eu, Abraão bem Judá Ibn Haim,
iluminador de Loulé - e deixei a receita a quem quiser,
algum dia, imitar o céu."






Sousa Dias: “Não há arte a partir do interior, das profundidades do eu. Antes sempre como captura de “poderes” selvagens, nem interiores nem exteriores, nem subjectivos nem objectivos, mas entre os dois, entre-seres impensáveis, apenas vivíveis, sensíveis (...), definindo não um Mundo mas um Entre-mundo.” (1)

O ponto de partida sempre foi o desafio de captar ambientes e sensações através de formas e cores. Não se trata de uma mera representação mas sim de repetidos exercícios de fixação de espaços voláteis, com contrastes de luz, cheios e vazios, repletos de presenças e de ausências, sombras, personagens abstractos que “vão e voltam, atravessam os quadros, saem de um para regressar noutro, passeiam através deles” (Teolinda Gersão). Pairam, diluem-se na cena, desaparecem em seguida nos seus armários e armaduras de fantasmas emancipadores do homem, anjos e demónios libertadores.

(1) – Sousa Dias, “Arte, Verdade, Sensação”.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

TERESA BLACK EM SEIA


JOSÉ SARAMAGO (1922-2010)

Já se disse e escreveu muito mas não certamente tudo sobre José Saramago, nascido na pobre e até há bem poucos anos desconhecida Azinhaga a 16 de Novembro de 1922, escolhido não importa por que motivos nem com que critérios para receber o Prémio Nobel da Literatura em 1998, autor de obras literárias marcadas pela rebeldia e por uma técnica de escrita pontuada de acordo com os ritmos da oralidade, o escritor que, pela sábia e redonda apreciação da Real Academia Sueca, “com parábolas portadoras de imaginação, compaixão e ironia torna constantemente compreensível uma realidade fugidia”.

Hoje, 18 de Junho de 2010, morreu na árida Lanzarote o escritor português que mais longe levou a língua portuguesa, Prémio Camões em 1995 e não só o primeiro português a receber o Prémio Nobel da Literatura, como muitas notícias adiantam, mas, sublinhe-se, o primeiro Prémio Nobel – e para já o único - concedido a um escritor de língua portuguesa.
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O discurso de Saramago na cerimónia da entrega do Nobel é importante para a compreensão do Homem e do Escritor. Pode ler esse discurso em:

segunda-feira, 17 de maio de 2010

ALFREDO KEIL - compositor de imagens e de sons

Pintor premiado em Portugal e no estrangeiro, Alfredo Keil distinguiu-se igualmente na música, compondo a marcha “A Portuguesa” durante a onda patriótica e anti-britânica de 1890. Essa marcha foi tocada na Revolta do Porto em 1891 e por esse motivo esteve proibida durante quase 20 anos, até ser adoptada como Hino oficial da República Portuguesa pela Constituição de 1911.


Filho de um alfaiate alemão radicado em Lisboa, Johan Christian Keil, Alfredo Cristiano Keil nasceu a 8 de Julho de 1854 na capital portuguesa. Em criança, teve aulas de pintura e música, para as quais revelava grande talento. Aos 14 anos, foi estudar artes para Nuremberga, na Baviera, em cuja Academia os alunos aprendiam desenho, pintura e música. Dois anos depois, regressou a Portugal por motivos de saúde e devido à Guerra franco-prussiana, continuando os seus estudos de pintura na Academia das Belas Artes de Lisboa. Expôs pela primeira vez os seus trabalhos em 1875, na Sociedade Promotora de Belas Artes – onde ganhou duas medalhas de bronze, às quais somou as duas medalhas de prata no ano seguinte, uma Menção Honrosa na Exposição Universal de Paris em 1878 e a medalha de Ouro da Exposição do Rio de Janeiro em 1879. Todo este sucesso internacional nas artes plásticas, em poucos anos, convenceu o governo português a agraciá-lo com o hábito de Cristo, em 1885, e logo no ano seguinte foi a Espanha receber a Ordem de Carlos III.

Considerado um romântico tardio ou um neo-romântico, devido à sua formação artística alemã e às características da sua pintura, “de um romantismo discreto, amável, sem exageros, temperado pelo clima realista da pintura do seu tempo” (Fernando de Pamplona), gosto pelos requintados interiores aristocráticos e “maneira delicada de tratar as figuras femininas” (Maria Luísa Bártolo).

"A Carta", óleo s/tela, 1874, 92x73 cm

No seu atelier de pintura na Avenida da Liberdade, havia um piano a que o artista recorria frequentemente para tocar as melodias ditadas pela inspiração e a música começou a conquistar progressivamente as suas preocupações e prioridades. Compôs melodias e óperas que foram sucessos colossais no seu tempo, tendo escrito também peças de teatro. Sobretudo na última década do século XIX, escreveu hinos e marchas promovendo os valores e heróis nacionais. A sua composição mais famosa foi a marcha “A Portuguesa”, inspirada por sentimentos patrióticos contra o ultimato do governo inglês de 11 de Janeiro de 1890.

Esta marcha teve uma enorme receptividade popular e, a 31 de Janeiro de 1891, os revoltosos do Porto marcharam contra a monarquia ao som de “A Portuguesa”. Após o fracasso da revolta, Alfredo Keil, que fora amigo do rei D. Luís I (1838-1889), perdeu prestígio junto dos seus amigos monárquicos e a marcha ficou proibida de ser tocada em público. Só voltaria a ouvir-se no dia 5 de Outubro de 1910. Foi declarada Hino oficial da República Portuguesa pela Constituição de 1911, reconfirmado pela Constituição de 1976. A letra do Hino, cujos versos foram ligeiramente alterados pelo Estado Novo em 1957(1), deve-se a Henrique Lopes de Mendonça (1856-1931), oficial da Marinha de Guerra Portuguesa, historiador, arqueólogo, poeta, romancista e dramaturgo.

Alfredo Keil já não viveu os acontecimentos de Outubro de 1910. Falecera exactamente três anos antes da proclamação da República, em Hamburgo, de doença. Viajava muito, participando em diversos acontecimentos musicais e para apresentar as suas obras no estrangeiro. Em 1893, a apresentação da sua ópera “Irene” em Turim foi um sucesso de tal ordem que o pintor-compositor-maestro português recebeu uma condecoração do rei Humberto de Itália. Através da sua música neo-romântica exaltou grandes figuras da História de Portugal, sendo considerado um pioneiro do “nacionalismo musical”. À data da sua morte, com apenas 57 anos, trabalhava na ópera comemorativa da chegada de Vasco da Gama à Índia, que deixou inacabada.

Alfredo Keil foi também um grande coleccionador de arte e autor de contos, romances e estudos artísticos, mas caiu no esquecimento nos tempos conturbados da Primeira República (1910-1926) devido às suas antigas amizades monárquicas. A sua filha Guida foi a primeira portuguesa a obter o divórcio em Portugal após a proclamação da República, para casar com Francisco Coelho do Amaral Reis, 1º Visconde de Pedralva, de Canas de Senhorim.

No antigo solar do visconde, na rua Keil do Amaral – Canas de Senhorim, residem actualmente o arquitecto Francisco “Pitum” Keil do Amaral (bisneto de Alfredo Keil, filho de Francisco Keil do Amaral, arquitecto e 2º visconde de Pedralva, e da pintora Maria Keil), a esposa Lira e a filha, a bailarina Leonor Keil do Amaral. Nas Casas do Visconde, têm promovido importantes actividades culturais, animando sem apoios institucionais a vida cultural de Canas de Senhorim.

Sérgio Reis


(1)-Para além da actualização ortográfica, foram alterados os versos “Contra os Bretões marchar, marchar” e “Desfralda a invicta bandeira”.


"A Portuguesa": música de Alfredo Keil e letra de Lopes de Mendonça
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Escutar no YouTube: "Poursuite op.12 Nº3" de Alfredo Keil. A pianista é Gabriela Canavilhas, actual Ministra da Cultura - em 2010, desde Outubro de 2009.