terça-feira, 10 de novembro de 2009

RON MUECK

O genro australiano de Paula Rego
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Mask II (2001-02) - Ron Mueck

Nascido na Austrália (Melbourne, 1958), o escultor Ron Mueck vive e trabalha na Grã-Bretanha, sendo conhecido internacionalmente pelas suas esculturas hiper-realistas (realismo fotográfico, fotorrealismo), reproduzindo o corpo humano com grande detalhe mas jogando com a escala para obter desconcertantes efeitos visuais: bebés e crianças gigantescas, homens e velhinhas minúsculas, gigantes tímidos, …

Mueck começou por trabalhar como construtor de modelos e de bonecos para filmes e programas de TV (com Jim Henson). Estabeleceu-se depois em Londres, onde criou uma empresa de fotografia e animações para a indústria da publicidade.

Em 1996, iniciou-se nas belas artes pela mão da sua sogra, Paula Rego. Coube a Mueck produzir as figuras que integravam a exposição da artista portuguesa na Hayward Gallery e foi ela quem apresentou o genro a Charles Saatchi, que apoiou e divulgou o seu trabalho. Deve-se a Saatchi parte do sucesso da escultura “Dead Dad” (1996-97), que tornou Mueck famoso. Nesse trabalho, o escultor reproduziu o corpo do pai nu em silicone, a uma escala reduzida (dois terços do tamanho real). Para um maior realismo e identificação com a escultura, utilizou algum do seu próprio cabelo.

A partir de então, as suas esculturas são sucessos garantidos. Em 1999, a sua escultura “Boy”, representando com todo o realismo um rapaz com cinco metros de altura, foi apresentada na Millennium Dome (a fantástica estrutura arquitectónica construída em Greenwich, Inglaterra, para a passagem do Milénio) e depois na Bienal de Veneza.

Em 2007, o Museu de Arte Moderna de Fort Worth (Texas, EUA) exibiu 30 obras de Ron Mueck, incluindo as famosas esculturas “Untitled” (Mulher Sentada) (1999), Dead Dad (1996-97), In Bed (2005), Untitled (Gigante) (2000), Two Women (2005), Crouching Boy in Mirror (1999-2000), Spooning Couple (2005), Mask II (2001-02), Mask III (2005), Wild Man (2005), e “A Girl” (2006).

Em 2008, Ron Mueck realizou a sua primeira exposição no Japão (21st Century Museum of Contemporary Art, Kanazawa), após grandes exposições na Grã-Bretanha, EUA, Canadá e França.

Links:
Ver obras de R.M. em energiaradiante.wordpress.com
Ver obras de R.M. em washingtonpost.com - 29/12/2005
http://en.wikipedia.org/wiki/Internet_Movie_Database
http://www.creativepool-compensis.de/mood_art/mueck.html

Mais uma grande tarde de inaugurações simultâneas na Miguel Bombarda

Circuito Cultural Miguel Bombarda
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A Rua de Miguel Bombarda tornou-se definitivamente o centro artístico portuense, promovendo regularmente inaugurações simultâneas de exposições nas quase trinta galerias de arte instaladas no quarteirão, novas colecções nas lojas de design e moda, tudo condimentado com muita animação e intervenções artísticas nas ruas e no CCB – Centro Comercial Bombarda.

A iniciativa realiza-se há uma década (1), sempre num sábado à tarde, a partir das 16 horas. Atenta ao fenómeno, a Câmara Municipal do Porto decidiu apoiar o meritório esforço de galeristas e lojistas da zona, baptizando o acontecimento como “Circuito Cultural Miguel Bombarda”. A sétima "BOMBARDA" de 2009 (2) decorreu no passado dia 07 de Novembro. No mesmo dia, pelas 15.00 horas, foi lançada na Livraria Leitura (3) a revista “bombart”nº 06, de Novembro/Dezembro 2009 (4).

Pouco depois das 16 horas, a rua e as galerias começaram a encher-se de gente. Enquanto uma troupe de palhaços despertava risos e colhia aplausos ao longo da rua, as galerias propunham os seus artistas e respectivos projectos, muito diversificados, criativos e estimulantes:

Cirurgias Urbanas: ilustração de Cristina Furtado – “Todas Elas Têm Uma História”. Até 20 de Janeiro de 2010.
Esteta7: Júlia Pintão – “Do(o)r”. Até 16 de Janeiro de 2010.
Franchini’s Galeria: colectiva de 130 artistas brasileiros e convidados (portugueses e alemães) – “Pequenas Grandes Obras – Digital”. Até 31 de Dezembro.
Franchini’s Galeria: Manuel Gio – “Crianças Indigo”. Até 31 de Dezembro.
Franchini’s Galeria: Muchagata – “Paisagem Interior”. Até 31 de Dezembro.
Franchini’s Galeria Sala Oficina 2000&5: pintura de Fernando Durão – “Magia de duas Fronteiras”. Até 31 de Dezembro.
Galeria Alvarez: Catarina Machado – “Translation Movement”. Até 10 de Dezembro.
Galeria Artes Solar Stº António: colectiva de pintura e escultura – “Questão de estilo”. Até 31 de Dezembro.
Galeria Arthobler – Porto: Pio Silva – “The New Normal”. Até 5 de Dezembro. www.arthobler.com
Galeria Fernando Santos: Group Show - Gerardo Burmester, Pedro Cabrita Reis, Patrícia Garrido, José Loureiro, João Louro, Pedro Quintas, Rui Sanches.
Galeria Fernando Santos – Project Room: José Almeida Pereira – “Olhar Amplo”. Até 23 de Dezembro.
Galeria João Lagoa: desenho de António Gonçalves. Até 30 de Novembro.
Galeria da Miguel Bombarda: Pinto Pereira – “Homem Tijolo”. Até 30 de Dezembro.
Galeria Presença: Mafalda Santos – “One day every wall will fall”. Até 16 de Janeiro 2010.
Galeria Quadrado Azul – desenho e fotografia de Pedro Tropa – “Travessia. Evidência. O Monte Rosa”. Até 18 de Dezembro.
Galeria Serpente: Pedro Constantino – “All the imperfect things”. Até 22 de Dezembro.
Galeria Simbolo: Maria Paredes – “Fios de Tempo”. Até 12 de Dezembro.
Galeria Trindade: Rui Coutinho – “Europetour”. Até 15 de Dezembro.
Mariana Jones: projecto de Célia Machado, Filipa Guimarães, Ilídio Candja, Isabel Monteiro, Maurizio Lanzillotta, Mónica Oliveira e Nuno Machado – T6+1. Até 30 de Dezembro.
Por Amor à Arte Galeria Seara. Até 5 de Dezembro.
Reflexus – Arte Contemporânea: Carlos Noronha Feio – “Tentando alcançar o ponto zero”. Até 2 de Dezembro.
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As exposições decorrem nos espaços referidos, com diferentes horários (consultar sites das galerias) até Dezembro, sendo de supor que haverá novas inaugurações simultâneas e festa na Miguel Bombarda em Janeiro de 2010.

E em Lisboa?

Na capital, realiza-se anualmente uma iniciativa do género, a Príncipe Real Live, que decorreu entre 05 e 08 de Novembro e contou, este ano, com a inauguração da Casa Décor 2009. Esta feira reune cerca de 50 artistas (decoradores de interiores, artistas plásticos, designers, arquitectos) e caracteriza-se por ter tudo à venda, desde o mais pequeno objecto até ao próprio palacete (dois milhões de euros) que alberga o certame. Isabel Sá Nogueira, Margarida Bugarim e Pedro Canoilas contam-se entre os artistas representados este ano.

A Príncipe Real Live resulta de parceria entre os lojistas da Praça do Príncipe Real, Rua D. Pedro V e Rua da Escola Politécnica.

(1)-Em 1996, Fernando Santos mudou a sua galeria de arte para a Rua Miguel Bombarda, entre a Rua de Cedofeita e o Palácio de Cristal. Dois anos depois, foi criado o Artes em Partes, a origem do movimento comercial e cultural. Nessa altura, havia cinco galerias na rua. Actualmente, o quarteirão acolhe noventa por cento das galerias portuenses.
(2)-As anteriores, tiveram lugar no dia 17 de Janeiro, 07 de Março, 18 de Abril, 06 de Junho, 04 de Julho e 19 de Setembro.
(3)-
Livraria Leitura - Rua de Ceuta, Porto.
(4)-A revista “bombart” é uma edição da Bienal de Vila Nova de Cerveira Projecto – Núcleo de Desenvolvimento Cultural, dirigida por Augusto Canedo, um artista ligado à Galeria Alvarez.


Rua Miguel Bombarda
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Tocador de realejo no CCB - Centro Comercial Bombarda
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Muchagata - "Paisagem Interior", Franchini's Galeria

Manuel Gio - "Crianças Indigo", Franchini's Galeria

T6+1 - Galeria Mariana Jones


T6+1 - Galeria Mariana Jones


Pinto Pereira - "Homem Tijolo", Galeria da Miguel Bombarda

Pinto Pereira - Galeria da Miguel Bombarda

Pedro Tropa - Galeria Quadrado Azul

Animação de rua
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Mafalda Santos - "One day every wall will fall"

Galeria Presença

Júlia Pintão - "Do(o)r", Esteta7

Galeria Arthobler

Pio Silva - pormenor de uma obra da exposição "The New Normal", Galeria Arthobler

Uma interessante colectiva ("Questão de estilo") na Galeria Artes Solar Stº António

Seara - Galeria Por Amor à Arte

Galeria Fernando Santos - Exposição colectiva

José Almeida Pereira - Project Room da Galeria Fernando Santos

Carlos Noronha Feio - Reflexus

Maria Paredes - "Fios de Tempo", Galeria Simbolo


Fim de tarde na Rua Miguel Bombarda

Este post aparece referenciado no 12º RPA, de Anjos Mendes.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

A instrospecção transformativa nos desenhos de Ricardo Cardoso

Post actualizado em 23 de Julho 2010
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"Morro no Altar de Mim" - Desenhos de Ricardo Cardoso, Turismo Municipal de Almeida, de 01 a 29 de Julho 2010.
"Morro no Altar de Mim" - Desenhos de Ricardo Cardoso, Posto de Turismo de Seia/ARTIS IX, Maio/Junho 2010.
“Morro no Altar de Mim” – Desenhos de Ricardo Cardoso, Fábrica de Braço de Prata, de 5 a 29 de Novembro 2009.
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Post com uma referência no blogue seiaportugal.

Painel 1

Sob a temática da identidade e do corpo, a exposição do jovem artista senense na Fábrica Braço de Prata consta de 15 desenhos repartidos por 3 painéis, ao longo dos quais questiona sequencialmente os auto-conceitos de interioridade e de identidade através das máscaras e poses exteriores do corpo. O projecto "visa questionar o que somos e a introspecção que fazemos de nós próprios(1).

A construção da sequência narrativa, ao jeito da banda desenhada, parte do exterior para o interior, de fora (corpo, máscara) para dentro (espírito, intelecto) e termina com uma reacção libertária. “O corpo não é o mais importante, mas sim o que habita nele, é isso que mais interessa representar(1).

Painel 2

Esta temática tem sido explorada, nas suas múltiplas vertentes, por diversos artistas. Em certa medida pode até considerar-se uma característica do expressionismo, mas Ricardo Cardoso acrescenta à necessidade de libertação, a meu ver, uma certa necessidade de purificação. Nietzsche: “Os mais cuidadosos, hoje, perguntam: “Como se há-de preservar o homem?” Zaratustra, porém, é o primeiro e único a perguntar: “Como se há-de superar o homem?” (2).

Painel 3

No primeiro painel de 5 desenhos de “Morro no Altar de Mim”, vê-se o artista enquanto restaurador e conservador de Arte Sacra (3) ou em poses contemplativas. “Este Projecto surgiu da ideia de egocentrismo, andar em torno de si, e a dado momento vai existir uma quebra, um sair de si que coincide com o momento em que se constrói conhecimento a partir do exterior(4). No segundo painel de 5 desenhos, dá-se uma transformação, “o sair de si”, a descaracterização. Finalmente, no terceiro painel, a desfiguração e desindividualização atingem o auge e são-nos mostrados em grandes planos auto-retratos distorcidos, com expressões lupinas.

“Morro no Altar de Mim” compreende-se melhor enquanto corolário (por ser totalmente explícito) de um tema que Ricardo Cardoso vem tratando desde 2008. Como tudo o que faz sentido na arte – e na vida – resulta de uma renovada percepção dos labirintos interiores do Homem, uma viagem que se faz muitas vezes à beira do abismo. Abrindo a exposição, Ricardo Cardoso cita Fernando Pessoa: “De que te serve o teu mundo interior que desconheces? Talvez, matando-te, o conheças finalmente…Talvez acabando, comeces…”.

Num trabalho anterior, “Confronto” (2008), o artista toma consciência de que o seu corpo alberga mais que um ser, ele próprio (auto-retratado) e um estranho, reflectido no espelho. “O corpo é um espaço onde só habita um ser, neste caso pretendi colocar um corpo (o meu) onde estão mais que um ser ou forças opostas, espaço de confronto e de divisão, pondo em causa o equilíbrio psicológico da personagem, podendo levar á loucura. O confronto trata-se de um jogo trágico ao qual Nietzsche designou por um jogo entre as forças apolíneas e dionisíacas, estando sempre em confronto, ou se sobrepondo uma à outra(6). A personagem reflectida no espelho invade a série de desenhos, em poses delirantes, terminando “virada para nós com um ar agressivo e animalesco, mas não é para nós que está a olhar, é para dentro de si para o confronto de forças que estão a decorrer em si, que dificilmente entraram em concilio, poderá é haver o adormecimento de uma delas, deixando uma prevalecer. Essas forças espirituais são tão presentes que praticamente se exteriorizam, deixando assim o observador perceber o tormento deste ser(6).

Noutro trabalho de 2008, “Procura de uma liberdade”, o artista ensaiou uma libertação de si próprio ao longo de uma sequência de 19 desenhos. O artista sente-se repartido entre o seu ser interior e o ser que tem de dar ao exterior, e representa a sua “morte espiritual, para que possa sobreviver como técnico de restauro de arte sacra, e ter dinheiro para viver neste mundo materializado e capitalista. E desta forma poder trabalhar naquilo que gosto, embora tenha de esconder algumas partes de mim e alguns dos meus ideais, ou seja, tenho de ter duas caras(6). Ou duas identidades, à semelhança de certos super-heróis da banda desenhada, de Dr. Jekyll e Mr. Hyde, do mito do lobisomem.

A intensidade dramática das poses contorcidas e expressões atormentadas nos desenhos de Ricardo Cardoso, cuja energia contida faz lembrar a série de Paula Rego da “Mulher Cão”, estão igualmente na linha dos “retratos imaginados” de Francis Bacon, seja como representação da introspecção transformativa da personagem, buscando o âmago da interioridade, seja para emitir em todas as direcções o alerta de que a parte do ser humano que nos habituámos a designar por espírito nada tem afinal de angélico – e nessa medida poderíamos evocar alguns trabalhos (7) dos anos 70 do artista suíço Urs Lüthi (n. 1947). Recordo ainda uma exposição organizada por Luís Serpa em 1990, “Je est un autre” (8) e o registo de uma obsessiva busca interior numa série de auto-retratos desenhados de Pedro Cabrita Reis na exposição “O Rosto da Máscara”, em 1995, no Centro Cultural de Belém (9).

Pedro Cabrita Reis - CCB, 1995


Ricardo Cardoso nasceu em Seia em 1982. Reside em Seia.

Licenciatura em Artes/Desenho na Escola Superior Artística do Porto – extensão de Guimarães (2009). Curso de Conservação e Restauro de Arte Sacra – Madeiras do Cearte, Coimbra.
Membro da Associação de Arte e Imagem de Seia e da ARGO – Associação Artística de Gondomar.

Foi homenageado pelos Artistas Senenses na ARTIS IX (2010).

Expôs individualmente no Turismo Municipal de Almeida (Julho 2010), na Galeria do Posto de Turismo de Seia - exposição integrada na ARTIS IX (Maio/Junho 2010), na Fábrica de Braço de Prata (Lisboa, Novembro 2009), no Restaurante Velho Minho, Povoa de Lanhoso (2008), Whisky Bar, Prado (2005), Casa Municipal da Cultura de Seia (2004), Posto de Turismo de Seia (2002 e 2004), Hotel de Gouveia (2003), e em bares - Conta-Gotas (Seia, 2002 e 2004), No Limite (Seia, 2003), Preto e Branco (Seia, 2003).

Participou em várias exposições colectivas, entre as quais: Exposição EXIT’09 Sociedade Martins Sarmento, Guimarães (2009); Exposição Aberta da Povoa de Lanhoso (2008); Exposição no Castelo da Povoa de Lanhoso (2007); Exposição Aberta da Povoa de Lanhoso (2005); Exposição de Artistas da Argo, Auditório Municipal de Gondomar (2004); Artistas Senenses em Lisboa, Centro Cultural Casapiano (Belém, 11/09 a 03/10/2004); ARTIS I, II, III, IV, V, VI (Seia, 2002, 2003, 2004, 2005, 2006, 2007); 7ª Arte Jovem/Prémio Galeria Jovem – Casa D. Ana Nogueira (São Romão, 2002); I, II e III Exposição de Arte da Biblioteca da Escola Secundária de Seia (2002, 2003 e 2004); IV AgirArte (Oliveira do Hospital, Dezembro de 2001); I, II e III Exposição Colectiva de Artistas Senenses (1999, 2000, 2001).

Realizou a performance "Sem Título: ...?" na ARTIS IX (2010). Ver no youtube.

(1)- Textos do autor no seu blogue.
(2)-Nietzsche, Friedrich, “Assim falava Zaratustra".
(3)-Empresa de Conservação e Restauro (CR), habilitada para as seguintes áreas de intervenção: talha dourada, esculturas policromadas, mobiliário, azulejo, metais, pintura mural, pintura de cavalete. Realiza ainda trabalhos de pintura artística.
(4)-Textos do autor no seu blogue.

(5)-Alguns artistas levam a problemática da libertação a extremos verdadeiramente físicos, como acontece nas mutilações cirúrgicas da artista francesa Orlan (n.1947),ou nas auto-mutilações da italiana Gina Pane (1939-1990).
(6)-Textos do autor no seu blogue.

(7)-Sobretudo em The Number Girl (1973) e Just another story about leaving, 1974, sobre o auto-retrato e o corpo.
(8)-Galeria Cómicos e Serralves, 1990.
(9)-“A Auto-representação na Arte Portuguesa”, CCB, 1995.

domingo, 1 de novembro de 2009

Centenário de Francis Bacon (1909-2009)

Francis Bacon, Auto-retrato

A 28 de Outubro de 2009, passaram 100 anos sobre o nascimento do pintor autodidacta Francis Bacon. Nascido em Dublin, a infância difícil levou-o a adoptar um comportamento de oposição ao pai, homem rude e violento, e a desdenhar a Irlanda natal, à semelhança de outros conhecidos irlandeses, Oscar Wilde e James Joyce.

O reconhecimento tardio do seu génio (em 1944, graças ao tríptico “Three Studies for Figures at the Base of a Crucifixion”), após ter trabalhado vários anos como decorador e designer de mobília e alcatifas, foi ampliado pelo escândalo da sua primeira exposição individual em 1945, na Lefevre Gallery. Quando ninguém queria recordar os horrores da guerra e só se falava na urgência de construir a paz e o bem-estar geral, Bacon expôs telas pintadas com tons sanguíneos, representando entranhas.

Ao longo da sua actividade artística, Bacon tratou com grande frontalidade alguns temas tabus que ainda hoje chocam a sociedade (como a pedofilia, as fantasias masoquistas, a mutilação e desmembramento de corpos, a representação do corpo recorrendo aos seus fluidos, a violência sexual, …), captando a atenção dos media e provocando a reacção do público, obrigado a concordar ou a discordar, a procurar justificações do artista e semelhanças com outros casos. A verdade é que muitas obras de Bacon provocaram mais repulsa do que admiração mas não se esgotavam em si próprias, sendo até concebidas para envolver e absorver a crítica do público e dos media. Ficaram famosas as suas abordagens transgressivas dos retratos do Papa Inocêncio X, de Diego Velázquez – na linha das abordagens de Picasso a conhecidas obras do mesmo artista.

Picasso foi, aliás, uma das referências de Bacon, juntamente com Rembrant, Grünewald, os expressionistas alemães, os surrealistas, assim como por alguns mestres da fotografia e do cinema. Entre o material de inspiração e de trabalho do artista, contavam-se recortes de jornais e revistas com reportagens de crimes violentos, mas sobretudo as fotos de amigos e amantes tiradas por outros amigos (como John Deakin, fotógrafo da Vogue britânica), pois Bacon só pintava em completo isolamento, num atelier caótico (VER foto).

Com a morte dos amigos que gostava de pintar, dedicou-se mais ao auto-retrato, reinterpretando o próprio rosto através de fotografias, muitas delas tiradas em cabinas fotográficas públicas.

Nos anos 80, dedicou-se sobretudo à paisagem e inspirou-se em novos materiais – como, por exemplo, a poesia de Garcia Lorca.

A história da arte enciclopédica e as notícias do centenário evocam as suas obras mais consensuais, como "Crucificação", de 1965, apesar de serem exemplos limitados da modernidade defendida por Francis Bacon. No entanto, certo é que contribuiu para alargar os caminhos da arte moderna e, sobretudo, intensificar a sua função social.

Entre as grandes exposições que assinalam o centenário, conta-se a retrospectiva da Tate Gallery (que já tinha organizado em 1985 uma grande retrospectiva, com a colaboração e presença do artista) – Londres, entre 11 de Setembro de 2008 e 04 de Janeiro de 2009, Museu do Prado – Madrid, 03 de Fevereiro a 19 de Abril de 2009 (78 telas), e no Metropolitan Museum of Art – New York, de 20 de Maio a 16 de Agosto de 2009 (66 telas).

Em 2003, a sua obra foi mostrada no Museu de Serralves.

O pintor faleceu em Madrid, com 82 anos, a 28 de Abril de 1992. Seis anos depois, John Maybury escreveu e realizou “Love Is the Devil: Study for a Portrait of Francis Bacon (1998, 90 min), uma biopic centrada na relação amorosa do artista (interpretado por Derek Jacobi) com o seu maior e mais conhecido amante, George Dyer (Daniel Craig). O filme coleccionou prémios (7) em grande parte pela corajosa abordagem do tema da homossexualidade na arte. VER trailer do filme.

Os seus últimos 16 anos de vida foram partilhados com um ex-barman analfabeto, John Edwards, 41 anos mais novo que ele.
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Links para obras de Francis Bacon na Internet:
http://pintura.aut.org/BU04?Autnum=11.193&EmpNum=15531
http://www.ocaiw.com/catalog/?lang=pt&catalog=pitt&author=229

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Prémio Amadeo de Souza-Cardoso 2009

Exposição de obras concorrentes ao Prémio Amadeo de Souza-Cardoso 2009, Museu Municipal Amadeo de Souza-Cardoso, Amarante, 31 de Outubro de 2009 a 03 de Janeiro de 2010. Entrada livre.


João Vieira e Ana Luísa Ribeiro foram os artistas portugueses distinguidos este ano na 7ª edição do Prémio Amadeo de Souza-Cardoso.

Ana Luísa Ribeiro nasceu em Lisboa em 1962. Estudou Bioquímica em Coimbra e Lisboa e realizou estudos de pintura na Ar.Co, Lisboa, entre 1988 e 1992. No ano seguinte, iniciou no Royal College of Art, em Londres, uma série de estudos no estrangeiro, tendo sido bolseira da Fundação Luso-Americana e da Fundação Calouste Gulbenkian. MA (“Master of Arts”) em Belas Artes (1) pelo Goldsmiths College, Universidade de Londres, em 1995. Vive e trabalha em Colónia, Berlim e Lisboa. Ver o site de Ana Luísa Ribeiro AQUI e a obra vencedora no site do Museu.

Concorreram ao prémio Amadeo de Souza-Cardoso 289 artistas, com o total de 483 obras. Para a exposição, foram seleccionadas 72 obras de 49 artistas.

O Grande Prémio Amadeo de Souza-Cardoso foi atribuído a João Vieira (1934-2009), a título póstumo. O artista, falecido no início de Setembro, explorou os valores formais e simbólicos das letras do alfabeto, pelo que a distinção da obra “Sem título (Subject metter)”, de Ana Luísa Ribeiro, permite reconhecer pontos de contacto e estabelecer correspondências entre as duas abordagens plásticas.

Os prémios serão entregues a 31 de Outubro, pelas 16 horas, no Salão Nobre dos Paços do Concelho de Amarante, possivelmente com a presença da nova Ministra da Cultura (2).


(1) - O M.A. – “Master of Arts” – é o segundo grau universitário em Artes no Reino Unido, excepto na Escócia, onde é o primeiro.
(2) - Presença sujeita a confirmação, segundo o Convite.

Um retrato da família de Abel Manta na Guarda

“Retrato de família” – Museu da Guarda – 21 de Outubro a 29 de Novembro 2009. Entrada livre.

Comemorações do 120º Aniversário do nascimento de Abel Manta (1888-2008)

Decorre até ao final de Novembro, no Museu da Guarda, a exposição “Retrato de Família”, reunindo obras de pintura de Abel Manta (1888-1982), Clementina Moura (1898-1992), João Abel Manta (81 anos) e Isabel Manta (57 anos). A iniciativa conta com a colaboração da Câmara Municipal de Gouveia e Museu de Abel Manta, inserindo-se nas comemorações do 120º aniversário do nascimento do pintor gouveense e um dos pioneiros do modernismo português, a par de Amadeo de Souza-Cardoso ou Eduardo Viana.

Abel Manta, Auto-retrato com paleta, 1939

Abel Manta nasceu em Gouveia, a 12 de Outubro de 1888. Aos seis anos, passou a residir em Lisboa, mas, ao longo da sua vida, nunca perdeu o contacto com a sua terra natal.

Entre 1908 e 1915, estudou Pintura na Escola de Belas Artes de Lisboa. Em 1919, partiu para Paris, onde ficou seis anos, viajando pela Europa para estudar a pintura dos grandes mestres. Destacou-se como paisagista, onde alcançou um estilo próprio após a influência inicial de Cézanne, e como retratista, compondo expressivos auto-retratos e retratos incisivos de personalidades como Aquilino Ribeiro, Teófilo Russel, Paiva Couceiro, Bento de Jesus Caraça, o violinista Bohet, José de Bragança, o jornalista Luís Teixeira, para além do retrato de conjunto “Grupo do Consultório”, também conhecido por “A Leitura” (1955). Ainda na pintura, abordou igualmente com desenvoltura o tema da “natureza-morta”, sendo também autor de inúmeros desenhos e gravuras, alguns vitrais e caricaturas.

Abel Manta não foi mais conhecido pois era um artista discreto, movimentando-se sobretudo num grupo restrito de amigos cultos. Participou em diversas e importantes exposições colectivas mas, em toda a sua vida, realizou apenas uma exposição individual – em 1925, em Lisboa, no Salão Bobone. Concorreu a várias iniciativas internacionais como a Bienal de Veneza (1950) e Bienal de São Paulo (1955), mas essas tentativas não tiveram seguimento pois Abel Manta não pertencia ao “status quo” da época, apesar de ser admitido frequentemente nos salões do S.P.N. e nas exposições da SNBA, onde recebeu uma medalha em 1934. No entanto, realiza a magnífica composição “Beira” (obra que se perdeu no incêndio da Galeria de Arte Moderna, em 1981) para o pavilhão de Portugal na Exposição de Paris de 1937, três anos depois de ter sido recusado no concurso para professor da Escola Superior de Belas Artes de Lisboa - facto que o próprio pintor consideraria depois ter sido decisivo para a sua carreira, permitindo-lhe manter-se na vanguarda do modernismo. Com alguma ironia, certamente, dizia que as suas “modestas pinturas” eram produto de “trabalho a horas vagas” (1).

Em 1927, casou com a pintora Clementina Carneiro de Moura (Lisboa, 1898-Lisboa, 1992). Diplomada em Pintura pela Escola de Belas Artes de Lisboa, onde foi dicípula de Columbano, Clementina Moura dedicou-se ao ensino técnico (nas escolas Afonso Domingos, Machado de Castro e Josefa d'Óbidos), sendo autora da obra “História da Arte Popular em Portugal”. A sua obra plástica inclui a pintura (“Auto-Retrato com o Filho João Abel“, “Vista de Gouveia”, … entre outras obras patentes no Museu Abel Manta, e as artes aplicadas aos tecidos. Neste contexto, ficou conhecida como a “mestre do pachwork”.

A 29 de Janeiro de 1928, nasceu em Lisboa o filho de Abel Manta e Clementina Moura, João Abel Manta, que se formou em Arquitectura em 1951. Mais conhecido como cartoonista e designer gráfico, João Abel Manta possui igualmente uma obra importante no âmbito da “arte pública” – integrada em edifícios e espaços públicos (murais, azulejos, pavimentos, etc.). Ler biografia de J. A. M. por Osvaldo Macedo de Sousa AQUI.

Em 1952, nasceu a neta de Abel Manta, Isabel Manta, filha de João Abel e de sua mulher, Sílvia. Diplomada em Arquitectura, é mestre em História de Arte pela Universidade Lusíada. Docente do ensino secundário desde 1979, lecciona História de Arte e Desenho. “No que respeita à pintura, não me levo muito a sério”, disse, numa entrevista. “Foi por opção e não por obrigação, que sou professora”.

Abel Manta pintou o seu último auto-retrato em 1975, quatro anos antes de ser condecorado pelo Presidente da República, Ramalho Eanes, com a comenda da Ordem de Sant'Iago de Espada. Outra distinção importante foi o 1º Prémio de Pintura na I Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian, em 1957.

O pintor gouveense faleceu em Lisboa a 09 de Agosto de 1982. Residia no Bairro Alto.

Ao longo dos últimos 27 anos, tem sido recordado em diversas iniciativas, exposições, edições e comemorações, com destaque para a retrospectiva na Bienal do Avante de 1984, comemorações do centenário do nascimento (1988) e 25 anos do seu desaparecimento (2007). Nesta última evocação, foi criado o Prémio Abel Manta de Pintura. O vencedor de 2009 foi um artista de Penacova, José Fonte – que participou em 1993 no Prémio Nacional de Pintura Tavares Correia, realizado em Seia.

José Fonte, "One Hundred and Twenty" - Prémio Abel Manta, Maio 2009. Isabel Manta fez parte do júri.

Para saber tudo sobre o Mestre gouveense, pode visitar o excelente site de Eduardo Mota, A Casa de Abel Manta, clicando AQUI. Eduardo Mota dirigiu o Museu Municipal de Arte Moderna Abel Manta, em Gouveia, que foi inaugurado em 1985, e publicou em 1987 o livro “Abel Manta”, uma edição integrada nas comemorações do I Centenário do Nascimento do Pintor Abel Manta.

(1)-citado por Eduardo Mota, “Abel Manta”, Gouveia, 1987.

sábado, 17 de outubro de 2009

15ª Festa do Cinema em Seia

Festival de Cinema de Ambiente da Serra da Estrela é hoje uma referência internacional

Sérgio Reis
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artigo publicado no semanário Terras da Beira, suplemento Especial CineEco, 15 de Outubro de 2009)

Fazendo uma retrospectiva mesmo ligeira dos 14 anos do CineEco - Festival Internacional de Cinema e Video do Ambiente da Serra da Estrela e do que testemunhei enquanto colaborador (1999), membro de júris (2000, 2001 e 2002) ou na mera qualidade de espectador interessado desde 1995, fica a impressão global de um acontecimento único na história de Seia, com potencialidades e benefícios evidentes para o concelho e região da Serra da Estrela. Além do afamado “Bom Cinema e Bom Ambiente”, há a destacar as múltiplas iniciativas paralelas para as quais foram convocados e envolvidos outros agentes culturais e os mais diversos públicos, sendo hoje clara a importância do festival no contexto global do desenvolvimento cultural senense e na projecção nacional e internacional de Seia, enquanto marca de qualidade e campo fértil de novas oportunidades. Quando participei nos júris do CineEco, o Festival tinha já uma ligação segura com os países lusófonos e ganhava crescente prestígio na Europa latina. Hoje, o festival senense beneficia de um grande prestígio internacional e afirmou-se finalmente na região e no país contra ventos e marés adversos.

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O Festival Internacional de Cinema e Video do Ambiente da Serra da Estrela nasceu de uma experiência relativamente bem sucedida, o I Festival Nacional de Vídeo Serra da Estrela, organizado em 1994 por um grupo de cinéfilos do qual faziam parte Carlos Teófilo Furtado e Mário Jorge Branquinho – ainda hoje as principais figuras da comissão executiva do CineEco. Por sua vez, esse festival de vídeo tinha surgido no contexto de uma nova dinâmica transversal criada pela vitória de Eduardo Brito nas eleições autárquicas de 1993, informada por dois grandes debates muito participados sobre as perspectivas culturais do concelho: a conferência integrada no II Encontro dos Antigos Alunos do Colégio Simões Pereira, em Novembro de 1992, e o debate organizado pelo Telecentro Rural de Seia, jornal Porta da Estrela e Associação Projecto Beirão, em Maio de 1994, quatro meses após a tomada de posse de Eduardo Brito. Ainda à procura de uma estratégia cultural no adiado desenvolvimento de Seia, o novo executivo decidiu em boa hora apoiar a transição do pequeno festival de vídeo para um verdadeiro festival internacional de cinema e vídeo. O primeiro CineEco serviu também para inaugurar o novo Salão dos Congressos, a primeira obra pública de vulto da nova Câmara.

Tratando-se de um festival dispendioso, no contexto das finanças locais, a Câmara Municipal procurou desde logo parceiros promotores, sobretudo na área do ambiente – considerando o peso institucional do Parque Natural e a marca turística Serra da Estrela. Nos primeiros anos, o CineEco foi crescendo ao sabor das ambições da organização em diálogo com a disponibilidade financeira dos promotores e patrocinadores. Em 1997, as limitações financeiras comprometeram a evolução do CineEco para Festival da Lusofonia, uma aspiração veiculada pela designação desse ano, a única a conter uma alusão à lusofonia (III Festival Internacional de Cinema e Vídeo de Ambiente e Lusofonia da Serra da Estrela) mas não impediram a criação do prémio especial da lusofonia, o segundo maior do festival, que se manteve até ao presente. Em 2001 e 2006, as vitórias de Eduardo Brito nas eleições autárquicas com maioria absoluta (59,4 e 62,91%, respectivamente) prometiam novos impulsos financeiros para o CineEco mas os promotores e outros patrocinadores deixaram a Câmara como único suporte fiável do festival por ocasião das fortes restrições orçamentais impostas pelo governo de Durão Barroso em 2002, que quase paralisaram a dinâmica cultural nacional, agravada pela crise de 2003, a crise política gerada pelo curto governo de Santana Lopes, a contenção orçamental praticada pelo governo de maioria absoluta de José Sócrates, mais tarde agravada pela crise internacional. Mesmo assim, estes foram anos de grandes festivais, com destaque para o CineEco 2003, até então o maior de sempre (mais de trezentas obras a concurso, representando quarenta e um países) e o CineEco 2005, com novos recordes (mais de 400 obras de 45 países) que só seriam batidos em 2008 (512 filmes oriundos de cerca de 50 países). A qualidade global e moldura humana alcançadas em 2005, rondando os 10 mil espectadores, permitiram a conquista em 2006 de um importante galardão, o Prémio Nacional do Ambiente, atribuído pela Confederação Portuguesa de Associações de Defesa do Ambiente, integrada por 110 Associações de Defesa do Ambiente/ONGs de Ambiente.

A 15ª edição do CineEco representa o fim de uma era, assinalando o final de quatro mandatos consecutivos de Eduardo Brito à frente da Câmara de Seia (16 anos) e o fim de mais de 30 anos de actividade autárquica. São de esperar, por isso, algumas mudanças significativas no CineEco 2010, assim como nas mais diversas áreas da vida concelhia influenciadas pela autarquia. Quase certo será o envolvimento das escolas nas actividades promovidas pela Câmara, um dos sinais distintivos da estratégia cultural de Eduardo Brito, logo adoptada como princípio programático pelo CineEco. O festival possui uma inegável vocação formativa, ao nível da programação mas também da competição, atribuindo anualmente o Prémio de Educação Ambiental.

O principal objectivo do CineEco é promover e divulgar obras de cinema e vídeo que de algum modo abordem a problemática do Ambiente na sua mais ampla acepção, a do Homem no seu Meio – e por essa razão uma das secções paralelas do festival denomina-se precisamente “Outras terras, Outras gentes”. Nesse sentido, o festival contribuiu desde a primeira edição para a evolução de um conceito até então limitado ao Meio Ambiente. A sensibilidade pelos temas e problemas ambientais mudou muito desde 1995, à escala mundial, sendo hoje mais fácil encontrar grandes filmes abertamente ambientalistas, como os célebres documentários de Al Gore e Leonardo Di Caprio, que passou no CineEco 2007, ou o fantástico “Home”, a exibir em 2009. Além disso, verifica-se um acréscimo de inscrições (e da qualidade, segundo Lauro António) de filmes produzidos na Beira Interior, incluindo o concelho de Seia, comprovando os reflexos positivos do CineEco na área da criação e produção do cinema de autor.


O premiadíssimo filme de Jorge Pelicano passou no CineEco 2007

Sendo o Homem parte indissociável e até produto do seu Ambiente, com o qual interage muitas vezes com resultados positivos, não quero deixar de me referir às pessoas excelentíssimas que conheci no CineEco, a começar pelo seu director técnico desde a primeira edição, Lauro António, a alma do festival senense e o elo fundamental de ligação com realizadores, produtores e outros festivais nacionais e internacionais. Mereceu plenamente a Campânula de Mérito Municipal (2009) pelos serviços prestados à Cultura senense desde 1995.

As equipas lideradas por Carlos Teófilo Furtado fizeram maravilhas com os meios disponíveis e orçamentos muito limitados. Como membro do júri tive acesso a quase todos os momentos representativos desses festivais e recordo com muito agrado a organização atenta, positiva e dinâmica. Não esteve isenta de erros, que são inevitáveis nos grandes eventos, mas foi suficientemente elástica para absorver contrariedades em vez de perder tempo e energias a lutar contra elas, aprendeu com os erros e superou-os prontamente.

Diversificados mas unidos pelas causas do bom cinema e do bom ambiente, os júris têm sido determinantes para elevar o patamar da qualidade e prestígio do festival. Recheados de nomes sonantes e personalidades fabulosas, a começar pelos distintos presidentes dos júris internacionais homenageados nas cerimónias oficiais do CineEco. Para reunir essas conhecidas figuras do cinema e das televisões nacionais, valeu o conhecimento e prestígio de Lauro António, que estruturou e moldou os júris (também) de acordo com a máxima do festival, “Bom Cinema e Bom Ambiente”.

Um Bom Ambiente que passa por amizades de fortes laços, com destaque para o inesquecível Camacho Costa. O actor participou no CineEco pela primeira vez em 1996, como elemento do júri, tendo depois colaborado activamente na promoção e divulgação do festival. Esteve pela última vez no CineEco 2002 para rever amigos e apresentar o livro de Palmira Correia. A morte levou-o em 2003, ano em que a cerimónia de abertura do festival foi marcada pelas emoções: uma homenagem a Camacho Costa, que passou a ter um prémio com o seu nome no CineEco, e um espectáculo de Raul Solnado, assinalando os 50 anos de carreira do actor.

Por tudo isto e o muito mais que paira nas entrelinhas ou ficou por dizer, termino subscrevendo as palavras que Mário Jorge Branquinho escreveu a propósito do 10º CineEco, em Outubro de 2004: “Até aqui, valeu muito a dita Vontade e o empenho de quem na iniciativa apostou. A partir daqui a história deve continuar”.