domingo, 6 de setembro de 2009

JOÃO VIEIRA (1934-2009)

Ontem (05 de Setembro), faleceu em Lisboa o pintor João Vieira, aos 74 anos, devido a problemas pulmonares após uma operação ao coração, realizada no dia anterior.

João Vieira não era um pintor mediático, sendo conhecido sobretudo por ser um dos fundadores do grupo KWY (1) e pela sua característica pintura de letras (alfabetos) e números, desde 1959. Trabalhou ainda versos de poetas como Cesário Verde e Herberto Helder. Segundo ele próprio explicou em 2006, “queria fazer poemas com pintura”.

Para além dos alfabetos, abordou o tema do corpo em “Mamografias” (1981/82). Os seus trabalhos com espuma de poliuretano remonta ao início dos anos 70, tendo trabalhado como designer na FLEXIPOL (fábrica de espumas) em 1974 e 1975.

A sua irreverência, abertura ao novo e espírito criativo multidisciplinar, tiveram continuidade no seu filho, Manuel João Vieira, também ele artista plástico (sob pseudónimos diversos), vocalista dos Ena Pá 2000 e Irmãos Catita, para além de candidato à Presidência da República em 2001.


João Vieira era natural de Vidago, onde nasceu a 04 de Outubro de 1934. Frequentou a Escola Superior de Belas Artes de Lisboa.

Em 1956, participou pela primeira vez numa exposição colectiva, integrado no grupo do café Gelo. Realizou a primeira exposição individual em 1959, na Galeria do Diário de Notícias, em Lisboa. Ver
exposições e obras.

Nesse mesmo ano, vai para Paris como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian. Na capital francesa, onde ficou até 1961, foi aluno de Henri Goetz e trabalhou com Arpad Szenes.

Regressou a Lisboa em 1962, para leccionar Pintura na Escola de Artes Decorativas António Arroio (1962-64). Em 1965, parte para Londres, tendo leccionado durante um ano no Maidstone College of Art, em Londres.

Regressado definitivamente a Lisboa em 1967, dedicou-se à cenografia de teatro, pintando e expondo regularmente. Recebeu vários prémios de cenografia (1968 – Prémio do Círculo do Teatro Latino de Barcelona, 1971 – Prémio Nacional de Encenação).

Leccionou no IADE (1971), no Conservatório Nacional (cenografia, 1978-79) e na SNBA (1980).

Em 1985, a Fundação Calouste Gulbenkian evocou os seus “25 Anos de Trabalho (1959-1984) com uma importante exposição. Em Abril de 2001, o Centro Cultural de Belém recordou o pioneirismo do grupo KWY.

(1) - Em 1959, em Paris, juntamente com René Bertholo, Lourdes Castro, José Escada, Gonçalo Duarte, Christo e Jan Voss.


João Vieira - Painel do Infante, 1987


terça-feira, 18 de agosto de 2009

Rafael Bordalo Pinheiro no Palácio do Gelo




Assinalando os 125 anos da fundação da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha, decorre até final de Agosto no Palácio do Gelo, em Viseu, uma exposição (1) de obras de cerâmica de Rafael Bordalo Pinheiro. No início de Abril de 2009, a Visabeira, empresa proprietária do Palácio do Gelo, adquiriu a Fábrica de Faianças Artísticas Bordalo Pinheiro Lda. Esta empresa (2), também conhecida por “San Rafael”, foi criada em 1908 pelo filho de Rafael Bordalo Pinheiro, Manuel Gustavo, para dar continuidade à primitiva empresa.

Trabalhadores da Faianças Artísticas Bordalo Pinheiro, com Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro ao centro, atrás dos três aprendizes. Foto do blogue de João B. Serra

Os Bordalo Pinheiro nas Artes

Quando deparo com o nome de Rafael Bordalo Pinheiro, de Columbano ou de Maria Augusta Bordalo Pinheiro lembro-me imediatamente do pai, Manuel Maria Bordalo Pinheiro (Santa Justa, Lisboa, 28/11/1815-Lisboa, 31/01/1880), funcionário público e “artista amador”.

Como funcionário público, Manuel Maria chegou a chefe de repartição na secretaria da Câmara dos Pares. Como artista, chegou a Sócio de Mérito da Academia Real de Belas-Artes. Entre 1849 e 1851, realizou importantes visitas de estudo a Madrid, Paris e Londres, as primeiras das quais ao serviço do influente Marquês – depois Duque - de Palmela, D. Pedro de Sousa Holstein (1781-1850). Essas viagens mudaram a orientação da sua pintura, trazendo até uma nova luz ao Romantismo português, “dando-nos obras curiosas (…) que abriram caminho às novas correntes pictóricas e ultrapassaram o estafado convencionalismo do tempo” (3) Algumas das suas obras foram premiadas em exposições no estrangeiro. Foi ainda gravador, contribuindo para o renascimento da gravura em madeira, e escultor. É o autor, por exemplo, do busto de Camões que se encontra na famosa gruta, em Macau. Ver obras digitalizadas de Manuel Maria Bordallo Pinheiro na BNP.

O lado mais formal e codificado do seu convívio com as maiores figuras da política e da intelectualidade portuguesa de então (retratou políticos e militares, granjeou a admiração e protecção do Marquês de Palmela e colaborou com Alexandre Herculano na fundação do Panorama) viria a manifestar-se no seu filho Columbano, que se comportava como um aristocrata das artes e retratou a intelectualidade do seu tempo. Mas outra faceta da sua obra ajuda a compreender a preferência do filho mais velho, Rafael Bordalo Pinheiro, pela caricatura satírica, já que Manuel Maria se divertia a criar pequenos quadros histórico-anedóticos, tendo produzido ilustrações para jornais do seu tempo e desenhado trajes e figurinos para o Teatro de S. Carlos e D. Maria.

Manuel Maria Bordalo Pinheiro teve nove filhos, três dos quais não só herdaram o seu gosto pelas artes como tiveram o génio de o desenvolverem: Maria Augusta e Rafael Augusto, os primeiros filhos, e Columbano. Cada um deles, de acordo com a sua índole, alcançou inegável sucesso em áreas distintas da Arte.

Apesar da sua condição feminina, então limitadora das aspirações públicas das mulheres, Maria Augusta de Prostes Bordalo Pinheiro (Lisboa, 14/11/1841-22/10/1915) foi uma exímia pintora naturalista mas distinguiu-se particularmente nas artes aplicadas. A ela se deve a recuperação das rendas de Peniche, que haviam caído em desuso, promovendo-as a ponto de conquistar prémios internacionais com trabalhos de sua autoria, em certames como a Exposição Internacional de Antuérpia (medalha de ouro, 1894) e Exposição Internacional de S. Luís, EUA (grande prémio, 1904). Colaborou nas actividades artísticas dos seus irmãos, ajudando Rafael (com Ramalho Ortigão) a fundar a fábrica de faiança nas Caldas da Rainha, onde também foi pintora de faiança, e acompanhou Columbano quando este foi estudar para Paris, servindo-lhe de modelo para alguns dos seus quadros, sobretudo em “A luva cinzenta” e “Concerto de amadores”.
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Rafael Bordalo Pinheiro por Herculano Elias, outro grande ceramista das Caldas

De espírito boémio, extrovertido e polémico, Rafael Augusto Prostes Bordalo Pinheiro (Lisboa, 21/03/1846-23/01/1905) decidiu dedicar-se às artes após uma fugaz passagem pelo funcionalismo. Foi o mais perspicaz e acutilante caricaturista português do século XIX, autor de uma importante obra gráfica na qual avulta a criação do Zé Povinho. Em 1884, fundou a Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha, onde criou variadas peças de cerâmica inspiradas nas formas e cores da natureza – cujos moldes ainda continuam a ser usados na Fábrica de Faianças Artísticas Bordalo Pinheiro Lda.

A figura do Zé Povinho faz hoje parte do imaginário nacional

Columbano Bordalo Pinheiro (Almada, 21/11/1857-Lisboa, 06/11/1929), intelectual e introvertido, marcou a pintura naturalista de finais do século XIX e início do século XX. Sobretudo pintor de composição e de figura, Columbano soltava no intimismo de uma penumbra doce os lampejos psicológicos das suas personagens, construindo retratos intensos mas solitários. A sua paleta única, privilegiando os negros, cinzentos, castanhos e o verde (à Velázquez), desdobrava-se em tons infindáveis nas sombras dos quadros, para as animar subtilmente no todo da orquestração da cena. O génio de Columbano foi descoberto por D. Fernando, o rei artista, e apoiado inicialmente pela Condessa de Edla, que financiou os seus estudos em Paris (1881-1883). Aí conquistaria, em 1900, a mais importante distinção internacional da Exposição Universal de Paris (medalha de ouro), que lhe abriu as portas de muitas instituições portuguesas mas embraveceu os seus rivais e inimigos. A idade acentuou o seu carácter introvertido e o artista encerrou-se num mundo próprio, a meia-luz, desconfiado e egoísta. Apesar de ter leccionado pintura na Escola de Belas-Artes de Lisboa entre 1900 e 1924, não deixou seguidores da sua obra pois considerava intransmissíveis os seus métodos e processos pictóricos.
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Columbano Bordalo Pinheiro "A Luva Cinzenta", 1881, retratando a irmã, Maria Augusta, em Paris


Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro (1867-1920), filho e discípulo de Rafael, distinguiu-se também como caricaturista e ceramista, tendo criado juntamente com seu pai uma escola de ceramistas nas Caldas. Após a morte de Rafael, conseguiu vencer as dificuldades que surgiram (4) e dar continuidade ao seu trabalho. Porém, nunca conseguiu sair da sombra do seu génio, chegando a considerar-se a si próprio “a pior obra de meu pai”.


Notas

(1)-Exposição itinerante. Ver fotos.
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(2)-A empresa Fábrica de Faianças Artísticas Bordalo Pinheiro compreende duas unidades de produção: a fábrica de loiça utilitária e uma outra que reproduz as peças originais de Rafael Bordalo Pinheiro.

(3)-Dicionário de Pintores e Escultores Portugueses, Fernando de Pamplona, volume I, pág. 222 e 223, Livraria Civilização Editora.

(4)-Em 1906, foi exigida pelo Banco de Portugal o pagamento de uma dívida antiga. O edifício da fábrica foi penhorado em 1907 e vendido em hasta pública no início de 1908, com todo o recheio, incluindo os moldes originais de Rafael Bordalo Pinheiro, o que deu origem a uma disputa judicial.

domingo, 16 de agosto de 2009

Fausto Sampaio - Viagem ao Oriente

Fausto Sampaio, auto-retrato


Fausto Sampaio e Tavares Correia

A notícia de uma grande exposição de pinturas e desenhos de Fausto Sampaio na Galeria Sul do Museu da Fundação Oriente, para além do interesse plástico da sua pintura e do tema unificador das 60 obras expostas (“Viagens no Oriente”), lembrou-me a sua amizade com o pintor senense Tavares Correia – que se manteve até à morte de Sampaio (Lisboa, 1956). Mas o que tinham em comum estes dois artistas, o primeiro natural da Anadia (Alféolas, 4 de Abril de 1893) e o outro nascido em Seia (5 de Dezembro de 1908), para além do gosto pelas artes?

Ambos surdos-mudos (Fausto Sampaio em consequência de uma incapacidade auditiva aos 22 meses e Tavares Correia de nascença), conheceram-se e tornaram-se amigos no Instituto de Surdos-Mudos da Casa Pia de Lisboa. Quinze anos mais velho, Sampaio foi mesmo o primeiro pensionista do Instituto e Tavares Correia entrou em 1918 com o nº 15.

Juntos realizaram a instrução primária e iniciaram a sua aprendizagem técnica e artística sob orientação de Augusto de Campos. Prosseguiram estudos de desenho e pintura da Sociedade Nacional de Belas-Artes, onde Fausto Sampaio expôs pela primeira vez em 1929.

Nesse mesmo ano, rumaram juntos a Paris, para desenvolverem a sua técnica de pintura e tentarem a sorte nas selectivas exposições colectivas do principal centro artístico internacional. Acabaram ambos a representar Portugal (com outro jovem pintor português, Carlos Botelho) no prestigioso Salon de Paris, após estudos orientados por Pierre-Paul Lourens e Émile Renard (Fausto Sampaio) e Lyon Arno (Tavares Correia).

De regresso a Portugal realizaram a sua primeira exposição individual em Lisboa, com assinalável sucesso. Fausto Sampaio, logo em 1930, saudado pelo público e pela crítica. Tavares Correia só em 1932, com assinalável sucesso – vendeu todas as 43 obras expostas e a crítica considerou-o “uma revelação no meio artístico português”.

Depois, os seus percursos divergiram. Tavares Correia optou por ficar na sua terra natal, comprometendo uma carreira artística nacional, e entrou para o gabinete técnico da Câmara Municipal de Seia, onde foi, durante décadas, o desenhador mais qualificado. Continuou a pintar e a expor até Agosto de 2000, tendo falecido a 21 de Setembro de 2005, no Hospital da Universidade de Coimbra, a poucos dias do seu 97º aniversário. Fausto Sampaio dedicou-se sobretudo à pintura paisagista, distinguindo-se na interpretação da luz. Captou exemplarmente a atmosfera das terras do Vale do Vouga e do Alto Douro, mas ficou conhecido sobretudo pela tradução do colorido e do clima das paisagens africanas e orientais, assim como pela sua interpretação do exotismo das gentes, usos e costumes de terras distantes. Sobretudo nos anos 30 e 40, construiu uma obra centrada na grandeza heterogénea do então território português, que lhe valeu o título de "Pintor do Ultramar Português” e mesmo de “Pintor do Império". Tavares Correia, por seu lado, ficou conhecido como “Pintor da neve” (jornal “República”, Janeiro de 1934).

Por ocasião do centenário do nascimento de Fausto Sampaio, em 4 de Abril de 1993, Tavares Correia esteve presente na homenagem que a Câmara Municipal de Anadia prestou ao ilustre filho da terra. A cerimónia contou com a presença de Maria Barroso Soares, esposa do Presidente da República.

Sobre Fausto Sampaio, escreveu Fernando de Pamplona: “Verdadeiro pintor do nosso Ultramar nunca esquecido, fez-nos sentir, em suas telas de viva palpitação cromática, o encanto, o sabor, o sortilégio dessas terras espalhadas pelo vasto Mundo” (1) - sentimentos evocados na exposição que decorre no Museu do Oriente até ao dia 27 de Setembro.

Tavares Correia com a viúva de Fausto Sampaio, D. Maria José Sampaio - Anadia, 4 de Abril de 1993


Tavares Correia com a filha de Fausto Sampaio, Drª Teresa Sampaio, que foi Secretária de Estado do governo de Sá Carneiro - Anadia, 4 de Abril de 1993.

Fontes:
Dicionário de Pintores e Escultores Portugueses, (1) volume V, pág. 122.
Dicionário de Autores Casapianos, Biblioteca-Museu Luz Soriano/Ateneu casapiano, de António Bernardo e José dos Santos Pinto.
Catálogo da exposição anual de Tavares Correia, Dezembro de 1993.

sábado, 15 de agosto de 2009

"A Dança dos Ursos"


As grandes exposições colectivas com suporte comum – projectos de arte pública que conciliam a escultura, pintura e instalação, como a exposição itinerante de vacas pintadas, que percorreu diversas cidades europeias – são já populares na Europa. Neste Verão, ocorrem em Portugal duas iniciativas do género, no Porto (“O Homem Total”, promovida pelo Espaço T) e no Algarve (“Dança dos Ursos”, promovida por Karl Heinz Stock com apoio da Câmara Municipal de Lagoa e inserida no programa Allgarve’09).

Inspirado no projecto “Buddy Bears” (Berlim, 2002) e sob o tema “Evolução”, a exposição itinerante algarvia consta de 35 ursos criados desde 2008 pela equipa de escultores e artesãos do KHSculptureGroup e pintados por diversos artistas de várias nacionalidades residentes no Algarve e em Lisboa. Segundo os organizadores, que citam o filósofo chinês Lao Tse (“A viagem de dez mil milhas começa com o primeiro passo”), a exposição pretende “estimular as pessoas e criar um impulso positivo, para demonstrar que é necessário seguir em frente."

Os artistas envolvidos na iniciativa são os seguintes (pela ordem do cartaz): António Alonso; Toin Adams; Petra van Allen; Sofia Barreto; Stela Barreto; Brigitte Baumann; Sylvain Bongard; Cláudia Brito; Ana Canto; Franco Charais; Tara Esaguy Cohen; A. Pedro Correia; Jessica Dunn; João Espada; Meinke Flesseman; Charlie Holt; Brigitte von Humboldt; Mariola Landowska; Vitali Manich; Marion Riddering; Robalot; Ivan Ulmann; Bento Ventura; Kerstin Wagner; Matthew White e Kasia Wrona.

Dois destes artistas já mostraram as suas obras em Seia: Stela Barreto (1993 e 1996) e Mariola Landowska (Artis III, 2004).

A mostra foi inaugurada no dia 19 de Junho em Estombar, por ocasião do Festival de Jazz de Lagoa, tendo já passado pela Praia do Carvoeiro e Monchique. Presentemente, encontra-se no exterior do Museu de Portimão até 16 de Agosto, sendo depois integrada na Fatacil, que decorre em Lagoa entre 21 e 30 de Agosto. De 18 de Setembro a 05 de Outubro, “A Dança dos Ursos” pode ser vista em Loulé (Castelo).

Karl Heinz Stock nasceu na Alemanha e desenvolveu intensa actividade empresarial no sector dos combustíveis e do imobiliário, na Europa e na Rússia. Encantado com o Algarve, comprou em 2007 a Quinta dos Vales, em Estombar (Lagoa) para se dedicar à produção de vinho de qualidade (“Marquês dos Vales”, primeira medalha de ouro atribuída no estrangeiro a um vinho Algarvio) e à sua paixão pela escultura, tendo criado na quinta o atelier KHSculptureGroup.



António Alonso




Stela Barreto

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Fotografias de Herman Mertens



Devido às vastas possibilidades da fotografia digital - que permite fotografar a preto e branco (P/B) utilizando o filtro da máquina, converter fotografias a cores para P/B no computador, retocar e modificar fotos, entre outros efeitos especiais - e sem esquecer as especificidades dessa modalidade fotográfica, que se tornou uma opção artística ainda antes do surgimento da fotografia a cores, é cada vez mais importante valorizar o conteúdo da imagem enquanto produto da poética e da criatividade do fotógrafo.

Essas facilidades da fotografia digital fomentaram a multiplicação de fotógrafos amadores na modalidade da fotografia a cores. Já no P/B, reduto de fotógrafos profissionais e campo experimental de artistas das mais diversas áreas de criação e expressão, poucos se aventuram a lidar com a falta da cor e correspondente necessidade de gerir uma grande variedade de tons e de jogar habilmente com os contrastes. Um deles é o belga Herman Mertens.


Uma das suas fotos mostra a presença distraída da autoridade junto de uma parede antiga na qual alguém escreveu “pequena verdade”. Destaco esta foto pois ela parece resumir o projecto fotográfico de Mertens: reabilitar e valorizar o que está esquecido, abandonado, em vias de perder-se para sempre. A começar pelo tempo, pelo espaço, pelo silêncio – tudo matérias fotografáveis para Herman Mertens.

Nesta foto, "sente-se" o peso do tempo e "ouve-se" o silêncio

Mertens não se importa de fotografar com cor as pequenas e maiores verdades do mundo a cores, mas apanhou bem a pulsação da fotografia a preto e branco para desbravar as sombras por vezes fantasmagóricas do tempo, os caminhos e recantos mágicos dos espaços rurais e urbanos, mais claros ou difusos, socialmente enegrecidos ou artificialmente iluminados, os olhares fundos e escuros das gentes, os vestígios do trabalho e da longa espera do homem ao redor dos tempos, o homem aprisionado no seu quotidiano ou libertando-se nos ritmos da festa.


A composição é versátil - ora dominada pela verticalidade, ora pela combinação de oblíquas com horizontais, mas também simetrias e estruturas triangulares, entre esquemas de composição mais complexos, jogando com o contraste para definir e destacar linhas e manchas orientadoras da composição, mas diluindo a forma principal na sua própria aura de objecto perdido. Noutras obras, parece manter as personagens das suas fotografias presas pelo(s) olhar(es) de quem as vê – através de quem as viu (o fotógrafo) - conduzindo a outra percepção do mundo que nos rodeia, repleto de história(s) que vale a pena ver contar.

Herman Mertens nasceu na Bélgica, perto de Antuérpia, em 1950. Reside em Portugal desde 2000, actualmente em Ervedal da Beira – Oliveira do Hospital. Ver o seu blog.

Estudou publicidade e decoração de interiores, montras e exposições. Durante mais de 25 anos, trabalhou em artigos decorativos, têxtil e móveis.

Participou no curso de Fotografia Aplicada e Fotografia de Grande Formato na Escola Superior de Tecnologia de Tomar e no Estúdio Carlos Relvas, na Golegã. Trabalha actualmente na área da publicidade, que combina com a sua primeira paixão – a fotografia.

Exposições

“Arte e Fogo”

(Um incêndio florestal destruiu a casa de Herman Mertens, em Vale do Ferro, Ervedal da Beira. A tragédia inspirou uma exposição de fotografia no próprio local e depois na sede do concelho)

- Na sua casa ardida, Vale do Ferro, Maio 2007
- Casa da Cultura Dr. César de Oliveira, Oliveira do Hospital, Junho 2007
- Livraria Apolo, Oliveira do Hospital, Julho 2007
- Lagar Vale dos Amores, Ervedal da Beira, Agosto 2007

“Mo(nu)mentos da Vida”

- Lar de Ervedal da Beira, Novembro 2007
- Vale do Ferro, Julho 2008

“Cantos Encantos”

- Livraria Apolo, Oliveira do Hospital, Março 2008
- Vale do Ferro, Julho 2008
"Ligações" - ver post de 04 de Março de 2010
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Foto sem título. Nem precisa. O mundo em que vivemos é feito de pequenas verdades.

Fotos de Herman Mertens, com utilização sujeita a autorização do autor.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Cerâmica de Cargaleiro no Chiado de Coimbra


Na galeria de exposições temporárias do Museu Municipal – Edifício Chiado, decorre desde 04 de Julho uma exposição de cerâmica de Manuel Cargaleiro.

Num espaço muito interessante, com cuidada apresentação, podem apreciar-se painéis de azulejos, placas cerâmicas, jarras, pratos e um canteiro, obras criadas entre 1985 e 2008, pertencentes à Fundação Manuel Cargaleiro.
Actualmente com 82 anos, Cargaleiro reside oficialmente em Paris mas possui atelier em Monte da Caparica, Almada, e em Vietri sur Mare, Itália, onde existe um museu com o seu nome. O Museo Artistico Industriale Manuel Cargaleiro, dedicado à arte da cerâmica, foi inaugurado em 2004.

Em 1990, criou a Fundação Manuel Cargaleiro, à qual doou grande parte das suas obras e a sua colecção de arte e objectos diversos. O ano passado, a Câmara de Castelo Branco e a Fundação Cargaleiro chegaram a um acordo para a instalação das colecções da Fundação no Museu Cargaleiro, criado em 2004 e localizado na Rua dos Cavaleiros, prevendo-se que toda a obra do artista dispersa por França e Itália, assim como a que se encontra em Sobreira da Caparica, tenha como destino o museu albicastrense Manuel Cargaleiro.

Aguarda-se igualmente a construção do Museu Oficina de Artes Manuel Cargaleiro no Seixal, com projecto de Siza Vieira.








Manuel Cargaleiro nasceu a 16 de em Março de 1927, em Chão das Servas, Vila Velha de Ródão, mas foi levado no ano seguinte para a Quinta da Silveira de Baixo, Monte da Caparica.

Frequentou o curso de Geografia e Ciências Naturais na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, que abandonou para se dedicar à cerâmica.

Em 1949, estreou-se nas exposições colectivas (I Salão de Cerâmica, Lisboa) e, dois anos depois, realizou a sua primeira exposição individual de cerâmica. Em 1954, já professor de cerâmica na Escola de Artes Decorativas António Arroio, conheceu Helena Vieira da Silva e Arpad Szènes e visitou Paris.

Em 1957, fixou residência em Paris, após estudar a arte da cerâmica em Faenza, Roma e Florença, com uma bolsa do governo italiano. Seis anos depois, mudou-se para um atelier na Rue des Grands-Augustins 19, Paris, onde passou a residir.

Artista multifacetado, com uma vasta obra abrangendo a pintura, gravura, desenho, tapeçaria e, naturalmente, a cerâmica, Cargaleiro adoptou uma linguagem plástica influenciada por Helena Vieira da Silva (13 de Junho 1908 - 06 de Março 1992), que desenvolveu numa perspectiva de abordagem cerâmica – algumas vezes em obras de grandes dimensões, no domínio da Arte Pública. Em 1987, dirigiu os trabalhos de passagem para azulejo de uma obra de Vieira da Silva destinada à estação de metro da Cidade Universitária, em Lisboa, enquanto realizava um painel cerâmico para a estação de metro do Colégio Militar-Luz. É também autor do painel cerâmico da estação de metro “Champs-Elysées-Clémenceau”, Paris (1995), e de um trabalho mais recente que pode ser visto na estação de serviço de Óbidos (A8), por encomenda da empresa Auto-Estradas do Atlântico.

Recebeu o “Diplôme d´Honneur de la Académie Internationale de la Céramique” no Festival de Cannes, logo em 1955, a Ordem da Cruz de Santiago da Espada, no Dia de Portugal de 1982, o grau de “Officier des Arts et des Lettres” do governo francês em 1984, e a Medalha de Ouro do Concelho de Vila Velha de Ródão.

A "Casa" segundo José Bechara

Instalada no pátio em frente ao Museu Gulbenkian, a "Casa" do artista brasileiro José Bechara (Rio de Janeiro, 1957) parece expulsar o recheio pelas aberturas, sugerindo expressões como “a casa vomita”, “a casa cospe”, “a casa expulsa”.

Bechara desenvolve este tema específico desde há largos anos, tendo apresentado o primeiro projecto num workshop de 100 artistas em residência, realizado a convite da Secretaria de Cultura do Estado do Paraná, em Maio de 2002. Então, Bechara lembrou-se de trabalhar a própria casa que lhe foi atribuída (uma casa térrea, de madeira) mostrando-a a expulsar a mobília pela porta e janelas na série fotográfica “Paisagem Doméstica” (ver “A Casa cospe”, 2002).

Com o desenvolvimento do projecto, a casa foi reduzida à sua mínima expressão construtiva e volumétrica, transformando-a numa escultura que evoca as construções elementares e precárias das favelas (pequenos volumes, geralmente cubos, com pequenas aberturas) até pelos materiais utilizados (contraplacados, lonas e papel oxidados, peles de animais). A mobília também mudou, repetindo-se as escadas/estantes e mesas. Mudou também o sentido global das obras, como em “Preta” (“casa” oxidada, expulsando mobília por aberturas que fazem lembrar uma cabeça, Rio de Janeiro, 2006), “blackblack” (duas “casas” pretas, expulsando mobília preta, obra datada de 2007), ou “Duas Cabeças com Preto” (duas “casas” oxidadas, 2007), enquanto em “Alva” (Rio de Janeiro, 2007), as formas são claras e luminosas.

A “casa” é apresentada como um corpo vivo minimal e em certa medida inteligente, fazendo o oposto do que seria de esperar de uma casa meramente funcional, que é conter, guardar, proteger. “Esta casa inverte tudo isso”, disse o artista numa entrevista à agência Lusa. A revolta da casa, que expulsa o seu conteúdo geralmente por três aberturas, aparece como metáfora das tensões interiores (individuais, familiares, sociais) para as quais é necessário encontrar frequentemente válvulas de escape, mas também dos atritos e conflitos que vão esclarecendo a origem de muitos problemas e forçando a procura de soluções. A série “preta” evoca a violência e o branco (série “Open House” – Alva) o espaço em branco onde tudo se inscreve, “pura disponibilidade” (Cesar Kiraly, crítico de arte brasileiro, em José Bechara: analítica do preto e do branco e suas cores).

A obra de Bechara tornou-se um projecto artístico de sucesso, inspirando análises e teorias diversas, tendo já sido mostrada no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Madrid e Miami. Em Lisboa, encontra-se patente até 30 de Setembro, no âmbito do programa de cultura contemporânea “ Próximo Futuro”.

Visitar AQUI o site oficial de José Bechara