terça-feira, 18 de agosto de 2009

Rafael Bordalo Pinheiro no Palácio do Gelo




Assinalando os 125 anos da fundação da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha, decorre até final de Agosto no Palácio do Gelo, em Viseu, uma exposição (1) de obras de cerâmica de Rafael Bordalo Pinheiro. No início de Abril de 2009, a Visabeira, empresa proprietária do Palácio do Gelo, adquiriu a Fábrica de Faianças Artísticas Bordalo Pinheiro Lda. Esta empresa (2), também conhecida por “San Rafael”, foi criada em 1908 pelo filho de Rafael Bordalo Pinheiro, Manuel Gustavo, para dar continuidade à primitiva empresa.

Trabalhadores da Faianças Artísticas Bordalo Pinheiro, com Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro ao centro, atrás dos três aprendizes. Foto do blogue de João B. Serra

Os Bordalo Pinheiro nas Artes

Quando deparo com o nome de Rafael Bordalo Pinheiro, de Columbano ou de Maria Augusta Bordalo Pinheiro lembro-me imediatamente do pai, Manuel Maria Bordalo Pinheiro (Santa Justa, Lisboa, 28/11/1815-Lisboa, 31/01/1880), funcionário público e “artista amador”.

Como funcionário público, Manuel Maria chegou a chefe de repartição na secretaria da Câmara dos Pares. Como artista, chegou a Sócio de Mérito da Academia Real de Belas-Artes. Entre 1849 e 1851, realizou importantes visitas de estudo a Madrid, Paris e Londres, as primeiras das quais ao serviço do influente Marquês – depois Duque - de Palmela, D. Pedro de Sousa Holstein (1781-1850). Essas viagens mudaram a orientação da sua pintura, trazendo até uma nova luz ao Romantismo português, “dando-nos obras curiosas (…) que abriram caminho às novas correntes pictóricas e ultrapassaram o estafado convencionalismo do tempo” (3) Algumas das suas obras foram premiadas em exposições no estrangeiro. Foi ainda gravador, contribuindo para o renascimento da gravura em madeira, e escultor. É o autor, por exemplo, do busto de Camões que se encontra na famosa gruta, em Macau. Ver obras digitalizadas de Manuel Maria Bordallo Pinheiro na BNP.

O lado mais formal e codificado do seu convívio com as maiores figuras da política e da intelectualidade portuguesa de então (retratou políticos e militares, granjeou a admiração e protecção do Marquês de Palmela e colaborou com Alexandre Herculano na fundação do Panorama) viria a manifestar-se no seu filho Columbano, que se comportava como um aristocrata das artes e retratou a intelectualidade do seu tempo. Mas outra faceta da sua obra ajuda a compreender a preferência do filho mais velho, Rafael Bordalo Pinheiro, pela caricatura satírica, já que Manuel Maria se divertia a criar pequenos quadros histórico-anedóticos, tendo produzido ilustrações para jornais do seu tempo e desenhado trajes e figurinos para o Teatro de S. Carlos e D. Maria.

Manuel Maria Bordalo Pinheiro teve nove filhos, três dos quais não só herdaram o seu gosto pelas artes como tiveram o génio de o desenvolverem: Maria Augusta e Rafael Augusto, os primeiros filhos, e Columbano. Cada um deles, de acordo com a sua índole, alcançou inegável sucesso em áreas distintas da Arte.

Apesar da sua condição feminina, então limitadora das aspirações públicas das mulheres, Maria Augusta de Prostes Bordalo Pinheiro (Lisboa, 14/11/1841-22/10/1915) foi uma exímia pintora naturalista mas distinguiu-se particularmente nas artes aplicadas. A ela se deve a recuperação das rendas de Peniche, que haviam caído em desuso, promovendo-as a ponto de conquistar prémios internacionais com trabalhos de sua autoria, em certames como a Exposição Internacional de Antuérpia (medalha de ouro, 1894) e Exposição Internacional de S. Luís, EUA (grande prémio, 1904). Colaborou nas actividades artísticas dos seus irmãos, ajudando Rafael (com Ramalho Ortigão) a fundar a fábrica de faiança nas Caldas da Rainha, onde também foi pintora de faiança, e acompanhou Columbano quando este foi estudar para Paris, servindo-lhe de modelo para alguns dos seus quadros, sobretudo em “A luva cinzenta” e “Concerto de amadores”.
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Rafael Bordalo Pinheiro por Herculano Elias, outro grande ceramista das Caldas

De espírito boémio, extrovertido e polémico, Rafael Augusto Prostes Bordalo Pinheiro (Lisboa, 21/03/1846-23/01/1905) decidiu dedicar-se às artes após uma fugaz passagem pelo funcionalismo. Foi o mais perspicaz e acutilante caricaturista português do século XIX, autor de uma importante obra gráfica na qual avulta a criação do Zé Povinho. Em 1884, fundou a Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha, onde criou variadas peças de cerâmica inspiradas nas formas e cores da natureza – cujos moldes ainda continuam a ser usados na Fábrica de Faianças Artísticas Bordalo Pinheiro Lda.

A figura do Zé Povinho faz hoje parte do imaginário nacional

Columbano Bordalo Pinheiro (Almada, 21/11/1857-Lisboa, 06/11/1929), intelectual e introvertido, marcou a pintura naturalista de finais do século XIX e início do século XX. Sobretudo pintor de composição e de figura, Columbano soltava no intimismo de uma penumbra doce os lampejos psicológicos das suas personagens, construindo retratos intensos mas solitários. A sua paleta única, privilegiando os negros, cinzentos, castanhos e o verde (à Velázquez), desdobrava-se em tons infindáveis nas sombras dos quadros, para as animar subtilmente no todo da orquestração da cena. O génio de Columbano foi descoberto por D. Fernando, o rei artista, e apoiado inicialmente pela Condessa de Edla, que financiou os seus estudos em Paris (1881-1883). Aí conquistaria, em 1900, a mais importante distinção internacional da Exposição Universal de Paris (medalha de ouro), que lhe abriu as portas de muitas instituições portuguesas mas embraveceu os seus rivais e inimigos. A idade acentuou o seu carácter introvertido e o artista encerrou-se num mundo próprio, a meia-luz, desconfiado e egoísta. Apesar de ter leccionado pintura na Escola de Belas-Artes de Lisboa entre 1900 e 1924, não deixou seguidores da sua obra pois considerava intransmissíveis os seus métodos e processos pictóricos.
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Columbano Bordalo Pinheiro "A Luva Cinzenta", 1881, retratando a irmã, Maria Augusta, em Paris


Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro (1867-1920), filho e discípulo de Rafael, distinguiu-se também como caricaturista e ceramista, tendo criado juntamente com seu pai uma escola de ceramistas nas Caldas. Após a morte de Rafael, conseguiu vencer as dificuldades que surgiram (4) e dar continuidade ao seu trabalho. Porém, nunca conseguiu sair da sombra do seu génio, chegando a considerar-se a si próprio “a pior obra de meu pai”.


Notas

(1)-Exposição itinerante. Ver fotos.
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(2)-A empresa Fábrica de Faianças Artísticas Bordalo Pinheiro compreende duas unidades de produção: a fábrica de loiça utilitária e uma outra que reproduz as peças originais de Rafael Bordalo Pinheiro.

(3)-Dicionário de Pintores e Escultores Portugueses, Fernando de Pamplona, volume I, pág. 222 e 223, Livraria Civilização Editora.

(4)-Em 1906, foi exigida pelo Banco de Portugal o pagamento de uma dívida antiga. O edifício da fábrica foi penhorado em 1907 e vendido em hasta pública no início de 1908, com todo o recheio, incluindo os moldes originais de Rafael Bordalo Pinheiro, o que deu origem a uma disputa judicial.

domingo, 16 de agosto de 2009

Fausto Sampaio - Viagem ao Oriente

Fausto Sampaio, auto-retrato


Fausto Sampaio e Tavares Correia

A notícia de uma grande exposição de pinturas e desenhos de Fausto Sampaio na Galeria Sul do Museu da Fundação Oriente, para além do interesse plástico da sua pintura e do tema unificador das 60 obras expostas (“Viagens no Oriente”), lembrou-me a sua amizade com o pintor senense Tavares Correia – que se manteve até à morte de Sampaio (Lisboa, 1956). Mas o que tinham em comum estes dois artistas, o primeiro natural da Anadia (Alféolas, 4 de Abril de 1893) e o outro nascido em Seia (5 de Dezembro de 1908), para além do gosto pelas artes?

Ambos surdos-mudos (Fausto Sampaio em consequência de uma incapacidade auditiva aos 22 meses e Tavares Correia de nascença), conheceram-se e tornaram-se amigos no Instituto de Surdos-Mudos da Casa Pia de Lisboa. Quinze anos mais velho, Sampaio foi mesmo o primeiro pensionista do Instituto e Tavares Correia entrou em 1918 com o nº 15.

Juntos realizaram a instrução primária e iniciaram a sua aprendizagem técnica e artística sob orientação de Augusto de Campos. Prosseguiram estudos de desenho e pintura da Sociedade Nacional de Belas-Artes, onde Fausto Sampaio expôs pela primeira vez em 1929.

Nesse mesmo ano, rumaram juntos a Paris, para desenvolverem a sua técnica de pintura e tentarem a sorte nas selectivas exposições colectivas do principal centro artístico internacional. Acabaram ambos a representar Portugal (com outro jovem pintor português, Carlos Botelho) no prestigioso Salon de Paris, após estudos orientados por Pierre-Paul Lourens e Émile Renard (Fausto Sampaio) e Lyon Arno (Tavares Correia).

De regresso a Portugal realizaram a sua primeira exposição individual em Lisboa, com assinalável sucesso. Fausto Sampaio, logo em 1930, saudado pelo público e pela crítica. Tavares Correia só em 1932, com assinalável sucesso – vendeu todas as 43 obras expostas e a crítica considerou-o “uma revelação no meio artístico português”.

Depois, os seus percursos divergiram. Tavares Correia optou por ficar na sua terra natal, comprometendo uma carreira artística nacional, e entrou para o gabinete técnico da Câmara Municipal de Seia, onde foi, durante décadas, o desenhador mais qualificado. Continuou a pintar e a expor até Agosto de 2000, tendo falecido a 21 de Setembro de 2005, no Hospital da Universidade de Coimbra, a poucos dias do seu 97º aniversário. Fausto Sampaio dedicou-se sobretudo à pintura paisagista, distinguindo-se na interpretação da luz. Captou exemplarmente a atmosfera das terras do Vale do Vouga e do Alto Douro, mas ficou conhecido sobretudo pela tradução do colorido e do clima das paisagens africanas e orientais, assim como pela sua interpretação do exotismo das gentes, usos e costumes de terras distantes. Sobretudo nos anos 30 e 40, construiu uma obra centrada na grandeza heterogénea do então território português, que lhe valeu o título de "Pintor do Ultramar Português” e mesmo de “Pintor do Império". Tavares Correia, por seu lado, ficou conhecido como “Pintor da neve” (jornal “República”, Janeiro de 1934).

Por ocasião do centenário do nascimento de Fausto Sampaio, em 4 de Abril de 1993, Tavares Correia esteve presente na homenagem que a Câmara Municipal de Anadia prestou ao ilustre filho da terra. A cerimónia contou com a presença de Maria Barroso Soares, esposa do Presidente da República.

Sobre Fausto Sampaio, escreveu Fernando de Pamplona: “Verdadeiro pintor do nosso Ultramar nunca esquecido, fez-nos sentir, em suas telas de viva palpitação cromática, o encanto, o sabor, o sortilégio dessas terras espalhadas pelo vasto Mundo” (1) - sentimentos evocados na exposição que decorre no Museu do Oriente até ao dia 27 de Setembro.

Tavares Correia com a viúva de Fausto Sampaio, D. Maria José Sampaio - Anadia, 4 de Abril de 1993


Tavares Correia com a filha de Fausto Sampaio, Drª Teresa Sampaio, que foi Secretária de Estado do governo de Sá Carneiro - Anadia, 4 de Abril de 1993.

Fontes:
Dicionário de Pintores e Escultores Portugueses, (1) volume V, pág. 122.
Dicionário de Autores Casapianos, Biblioteca-Museu Luz Soriano/Ateneu casapiano, de António Bernardo e José dos Santos Pinto.
Catálogo da exposição anual de Tavares Correia, Dezembro de 1993.

sábado, 15 de agosto de 2009

"A Dança dos Ursos"


As grandes exposições colectivas com suporte comum – projectos de arte pública que conciliam a escultura, pintura e instalação, como a exposição itinerante de vacas pintadas, que percorreu diversas cidades europeias – são já populares na Europa. Neste Verão, ocorrem em Portugal duas iniciativas do género, no Porto (“O Homem Total”, promovida pelo Espaço T) e no Algarve (“Dança dos Ursos”, promovida por Karl Heinz Stock com apoio da Câmara Municipal de Lagoa e inserida no programa Allgarve’09).

Inspirado no projecto “Buddy Bears” (Berlim, 2002) e sob o tema “Evolução”, a exposição itinerante algarvia consta de 35 ursos criados desde 2008 pela equipa de escultores e artesãos do KHSculptureGroup e pintados por diversos artistas de várias nacionalidades residentes no Algarve e em Lisboa. Segundo os organizadores, que citam o filósofo chinês Lao Tse (“A viagem de dez mil milhas começa com o primeiro passo”), a exposição pretende “estimular as pessoas e criar um impulso positivo, para demonstrar que é necessário seguir em frente."

Os artistas envolvidos na iniciativa são os seguintes (pela ordem do cartaz): António Alonso; Toin Adams; Petra van Allen; Sofia Barreto; Stela Barreto; Brigitte Baumann; Sylvain Bongard; Cláudia Brito; Ana Canto; Franco Charais; Tara Esaguy Cohen; A. Pedro Correia; Jessica Dunn; João Espada; Meinke Flesseman; Charlie Holt; Brigitte von Humboldt; Mariola Landowska; Vitali Manich; Marion Riddering; Robalot; Ivan Ulmann; Bento Ventura; Kerstin Wagner; Matthew White e Kasia Wrona.

Dois destes artistas já mostraram as suas obras em Seia: Stela Barreto (1993 e 1996) e Mariola Landowska (Artis III, 2004).

A mostra foi inaugurada no dia 19 de Junho em Estombar, por ocasião do Festival de Jazz de Lagoa, tendo já passado pela Praia do Carvoeiro e Monchique. Presentemente, encontra-se no exterior do Museu de Portimão até 16 de Agosto, sendo depois integrada na Fatacil, que decorre em Lagoa entre 21 e 30 de Agosto. De 18 de Setembro a 05 de Outubro, “A Dança dos Ursos” pode ser vista em Loulé (Castelo).

Karl Heinz Stock nasceu na Alemanha e desenvolveu intensa actividade empresarial no sector dos combustíveis e do imobiliário, na Europa e na Rússia. Encantado com o Algarve, comprou em 2007 a Quinta dos Vales, em Estombar (Lagoa) para se dedicar à produção de vinho de qualidade (“Marquês dos Vales”, primeira medalha de ouro atribuída no estrangeiro a um vinho Algarvio) e à sua paixão pela escultura, tendo criado na quinta o atelier KHSculptureGroup.



António Alonso




Stela Barreto

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Fotografias de Herman Mertens



Devido às vastas possibilidades da fotografia digital - que permite fotografar a preto e branco (P/B) utilizando o filtro da máquina, converter fotografias a cores para P/B no computador, retocar e modificar fotos, entre outros efeitos especiais - e sem esquecer as especificidades dessa modalidade fotográfica, que se tornou uma opção artística ainda antes do surgimento da fotografia a cores, é cada vez mais importante valorizar o conteúdo da imagem enquanto produto da poética e da criatividade do fotógrafo.

Essas facilidades da fotografia digital fomentaram a multiplicação de fotógrafos amadores na modalidade da fotografia a cores. Já no P/B, reduto de fotógrafos profissionais e campo experimental de artistas das mais diversas áreas de criação e expressão, poucos se aventuram a lidar com a falta da cor e correspondente necessidade de gerir uma grande variedade de tons e de jogar habilmente com os contrastes. Um deles é o belga Herman Mertens.


Uma das suas fotos mostra a presença distraída da autoridade junto de uma parede antiga na qual alguém escreveu “pequena verdade”. Destaco esta foto pois ela parece resumir o projecto fotográfico de Mertens: reabilitar e valorizar o que está esquecido, abandonado, em vias de perder-se para sempre. A começar pelo tempo, pelo espaço, pelo silêncio – tudo matérias fotografáveis para Herman Mertens.

Nesta foto, "sente-se" o peso do tempo e "ouve-se" o silêncio

Mertens não se importa de fotografar com cor as pequenas e maiores verdades do mundo a cores, mas apanhou bem a pulsação da fotografia a preto e branco para desbravar as sombras por vezes fantasmagóricas do tempo, os caminhos e recantos mágicos dos espaços rurais e urbanos, mais claros ou difusos, socialmente enegrecidos ou artificialmente iluminados, os olhares fundos e escuros das gentes, os vestígios do trabalho e da longa espera do homem ao redor dos tempos, o homem aprisionado no seu quotidiano ou libertando-se nos ritmos da festa.


A composição é versátil - ora dominada pela verticalidade, ora pela combinação de oblíquas com horizontais, mas também simetrias e estruturas triangulares, entre esquemas de composição mais complexos, jogando com o contraste para definir e destacar linhas e manchas orientadoras da composição, mas diluindo a forma principal na sua própria aura de objecto perdido. Noutras obras, parece manter as personagens das suas fotografias presas pelo(s) olhar(es) de quem as vê – através de quem as viu (o fotógrafo) - conduzindo a outra percepção do mundo que nos rodeia, repleto de história(s) que vale a pena ver contar.

Herman Mertens nasceu na Bélgica, perto de Antuérpia, em 1950. Reside em Portugal desde 2000, actualmente em Ervedal da Beira – Oliveira do Hospital. Ver o seu blog.

Estudou publicidade e decoração de interiores, montras e exposições. Durante mais de 25 anos, trabalhou em artigos decorativos, têxtil e móveis.

Participou no curso de Fotografia Aplicada e Fotografia de Grande Formato na Escola Superior de Tecnologia de Tomar e no Estúdio Carlos Relvas, na Golegã. Trabalha actualmente na área da publicidade, que combina com a sua primeira paixão – a fotografia.

Exposições

“Arte e Fogo”

(Um incêndio florestal destruiu a casa de Herman Mertens, em Vale do Ferro, Ervedal da Beira. A tragédia inspirou uma exposição de fotografia no próprio local e depois na sede do concelho)

- Na sua casa ardida, Vale do Ferro, Maio 2007
- Casa da Cultura Dr. César de Oliveira, Oliveira do Hospital, Junho 2007
- Livraria Apolo, Oliveira do Hospital, Julho 2007
- Lagar Vale dos Amores, Ervedal da Beira, Agosto 2007

“Mo(nu)mentos da Vida”

- Lar de Ervedal da Beira, Novembro 2007
- Vale do Ferro, Julho 2008

“Cantos Encantos”

- Livraria Apolo, Oliveira do Hospital, Março 2008
- Vale do Ferro, Julho 2008
"Ligações" - ver post de 04 de Março de 2010
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Foto sem título. Nem precisa. O mundo em que vivemos é feito de pequenas verdades.

Fotos de Herman Mertens, com utilização sujeita a autorização do autor.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Cerâmica de Cargaleiro no Chiado de Coimbra


Na galeria de exposições temporárias do Museu Municipal – Edifício Chiado, decorre desde 04 de Julho uma exposição de cerâmica de Manuel Cargaleiro.

Num espaço muito interessante, com cuidada apresentação, podem apreciar-se painéis de azulejos, placas cerâmicas, jarras, pratos e um canteiro, obras criadas entre 1985 e 2008, pertencentes à Fundação Manuel Cargaleiro.
Actualmente com 82 anos, Cargaleiro reside oficialmente em Paris mas possui atelier em Monte da Caparica, Almada, e em Vietri sur Mare, Itália, onde existe um museu com o seu nome. O Museo Artistico Industriale Manuel Cargaleiro, dedicado à arte da cerâmica, foi inaugurado em 2004.

Em 1990, criou a Fundação Manuel Cargaleiro, à qual doou grande parte das suas obras e a sua colecção de arte e objectos diversos. O ano passado, a Câmara de Castelo Branco e a Fundação Cargaleiro chegaram a um acordo para a instalação das colecções da Fundação no Museu Cargaleiro, criado em 2004 e localizado na Rua dos Cavaleiros, prevendo-se que toda a obra do artista dispersa por França e Itália, assim como a que se encontra em Sobreira da Caparica, tenha como destino o museu albicastrense Manuel Cargaleiro.

Aguarda-se igualmente a construção do Museu Oficina de Artes Manuel Cargaleiro no Seixal, com projecto de Siza Vieira.








Manuel Cargaleiro nasceu a 16 de em Março de 1927, em Chão das Servas, Vila Velha de Ródão, mas foi levado no ano seguinte para a Quinta da Silveira de Baixo, Monte da Caparica.

Frequentou o curso de Geografia e Ciências Naturais na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, que abandonou para se dedicar à cerâmica.

Em 1949, estreou-se nas exposições colectivas (I Salão de Cerâmica, Lisboa) e, dois anos depois, realizou a sua primeira exposição individual de cerâmica. Em 1954, já professor de cerâmica na Escola de Artes Decorativas António Arroio, conheceu Helena Vieira da Silva e Arpad Szènes e visitou Paris.

Em 1957, fixou residência em Paris, após estudar a arte da cerâmica em Faenza, Roma e Florença, com uma bolsa do governo italiano. Seis anos depois, mudou-se para um atelier na Rue des Grands-Augustins 19, Paris, onde passou a residir.

Artista multifacetado, com uma vasta obra abrangendo a pintura, gravura, desenho, tapeçaria e, naturalmente, a cerâmica, Cargaleiro adoptou uma linguagem plástica influenciada por Helena Vieira da Silva (13 de Junho 1908 - 06 de Março 1992), que desenvolveu numa perspectiva de abordagem cerâmica – algumas vezes em obras de grandes dimensões, no domínio da Arte Pública. Em 1987, dirigiu os trabalhos de passagem para azulejo de uma obra de Vieira da Silva destinada à estação de metro da Cidade Universitária, em Lisboa, enquanto realizava um painel cerâmico para a estação de metro do Colégio Militar-Luz. É também autor do painel cerâmico da estação de metro “Champs-Elysées-Clémenceau”, Paris (1995), e de um trabalho mais recente que pode ser visto na estação de serviço de Óbidos (A8), por encomenda da empresa Auto-Estradas do Atlântico.

Recebeu o “Diplôme d´Honneur de la Académie Internationale de la Céramique” no Festival de Cannes, logo em 1955, a Ordem da Cruz de Santiago da Espada, no Dia de Portugal de 1982, o grau de “Officier des Arts et des Lettres” do governo francês em 1984, e a Medalha de Ouro do Concelho de Vila Velha de Ródão.

A "Casa" segundo José Bechara

Instalada no pátio em frente ao Museu Gulbenkian, a "Casa" do artista brasileiro José Bechara (Rio de Janeiro, 1957) parece expulsar o recheio pelas aberturas, sugerindo expressões como “a casa vomita”, “a casa cospe”, “a casa expulsa”.

Bechara desenvolve este tema específico desde há largos anos, tendo apresentado o primeiro projecto num workshop de 100 artistas em residência, realizado a convite da Secretaria de Cultura do Estado do Paraná, em Maio de 2002. Então, Bechara lembrou-se de trabalhar a própria casa que lhe foi atribuída (uma casa térrea, de madeira) mostrando-a a expulsar a mobília pela porta e janelas na série fotográfica “Paisagem Doméstica” (ver “A Casa cospe”, 2002).

Com o desenvolvimento do projecto, a casa foi reduzida à sua mínima expressão construtiva e volumétrica, transformando-a numa escultura que evoca as construções elementares e precárias das favelas (pequenos volumes, geralmente cubos, com pequenas aberturas) até pelos materiais utilizados (contraplacados, lonas e papel oxidados, peles de animais). A mobília também mudou, repetindo-se as escadas/estantes e mesas. Mudou também o sentido global das obras, como em “Preta” (“casa” oxidada, expulsando mobília por aberturas que fazem lembrar uma cabeça, Rio de Janeiro, 2006), “blackblack” (duas “casas” pretas, expulsando mobília preta, obra datada de 2007), ou “Duas Cabeças com Preto” (duas “casas” oxidadas, 2007), enquanto em “Alva” (Rio de Janeiro, 2007), as formas são claras e luminosas.

A “casa” é apresentada como um corpo vivo minimal e em certa medida inteligente, fazendo o oposto do que seria de esperar de uma casa meramente funcional, que é conter, guardar, proteger. “Esta casa inverte tudo isso”, disse o artista numa entrevista à agência Lusa. A revolta da casa, que expulsa o seu conteúdo geralmente por três aberturas, aparece como metáfora das tensões interiores (individuais, familiares, sociais) para as quais é necessário encontrar frequentemente válvulas de escape, mas também dos atritos e conflitos que vão esclarecendo a origem de muitos problemas e forçando a procura de soluções. A série “preta” evoca a violência e o branco (série “Open House” – Alva) o espaço em branco onde tudo se inscreve, “pura disponibilidade” (Cesar Kiraly, crítico de arte brasileiro, em José Bechara: analítica do preto e do branco e suas cores).

A obra de Bechara tornou-se um projecto artístico de sucesso, inspirando análises e teorias diversas, tendo já sido mostrada no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Madrid e Miami. Em Lisboa, encontra-se patente até 30 de Setembro, no âmbito do programa de cultura contemporânea “ Próximo Futuro”.

Visitar AQUI o site oficial de José Bechara

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Amadeo, a Gripe A e Manuel Laranjeira

Amadeo Souza-Cardoso e a gripe H1N1

Amadeo Souza-Cardoso em 1906

A segunda metade da segunda década do século XX ficou marcada por duas grandes tragédias praticamente à escala mundial, ambas com origens difusas. Como em todos os fenómenos complexos, não é possível apontar com certeza uma causa única para a I Guerra Mundial (1914-1918) nem para a pandemia de gripe que, em apenas dois anos (1918-1919) fez mais vítimas mortais que a guerra.

Então conhecida como febre ou gripe espanhola (1), gripe pneumónica, peste pneumónica ou simplesmente “pneumónica”, a pandemia causada pelo subtipo H1N1 do vírus Influenza A (o mesmo que se espalha actualmente por todo o mundo) vitimou o primeiro artista português modernista, Amadeo Souza-Cardoso, aos 30 anos de idade, e o pianista Pedro Blanco (Leon, 1883 – Porto, 1919). A gripe fez milhões de vítimas em vários continentes, não poupando sequer o eleito e proclamado Presidente do Brasil, Francisco Rodrigues Alves, que faleceu em Janeiro de 1919, sem tomar posse.

O compositor e pianista espanhol Pedro Blanco

Quando Amadeo Souza-Cardoso chegou a Paris em 1906, acompanhado pelo amigo Francisco Smith, deixava saudades também em Espinho, onde tinha casa e passava largas temporadas na companhia do seu amigo íntimo, o médico e escritor Manuel Laranjeira (1877-1912), para além de outros amigos de tertúlia.
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O "Café Chinez" e o Casino Peninsular, na Avenida Serpa Pinto*

Espinho era então o mais chique destino de férias da burguesia nortenha, trazida pelos rápidos e cómodos comboios da ligação ferroviária Lisboa-Porto (2), e as famílias mais endinheiradas mantinham ali a sua casa de Verão, que lhes servia de refúgio ao longo do ano. A Vila oferecia ainda o Casino Peninsular e alguns cafés com esplanadas, onde as elites locais se reuniam e os visitantes confraternizavam, e pelas quais também deambulava a figura do “brasileiro” – o emigrante que regressava rico do Brasil.

Nos anos em que viveu em Paris, Espinho esteve sempre presente na vida do pintor português através da correspondência com Manuel Laranjeira e de visitas ocasionais após o trágico desaparecimento do amigo, em 1912. Desesperado com a doença que o matava aos poucos, Laranjeira suicidou-se com um tiro de pistola.

Amadeo e Lucie Souza-Cardoso em 1914*
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O início da guerra, no Verão de 1914, encontrou Amadeo Souza-Cardoso em Madrid, onde se demorara após uma passagem por Barcelona para visitar Antoni Gaudí, e o artista amarantino regressou a Portugal com Lucie Pecetto – que conhecera em Paris em 1908. Ainda em 1914, casou-se no Porto com Lucie e a sua vida repartiu-se entre Espinho e Amarante. Em Manhufe, instalou o atelier na Casa do Ribeiro, pertencente ao seu tio materno Francisco Cardoso (3) e trabalhou desenfreadamente com vista a duas exposições, no Porto e em Lisboa, dois importantes acontecimentos do Modernismo em Portugal.



A primeira exposição, realizada em Novembro no Salão do Jardim Passos Manuel (4), intitulava-se “Abstraccionismo” e era composta por 84 pinturas a óleo e a cera, 19 aguarelas e 11 desenhos. Em Lisboa, contou com o apoio de José de Almada Negreiros e do Grupo da Revista Orpheu, expondo na Liga Naval (Palácio Calhariz) em Dezembro de 1916. Ambas as exposições foram mal recebidas pelo público burguês, de gostos conservadores, originando sarcasmos e até cenas de pugilato e de bengalada.

O que ficou para a História foi a quantidade e qualidade das obras produzidas por Amadeo nesses anos de guerra, adiantando-se algumas vezes às próprias vanguardas. Um período excepcional, marcado pela experimentação de novas formas e técnicas de expressão pictórica, “cujos estudos precederam muitas vezes os de Fernand Léger ou os de Robert Delaunay. Sensível a todas as correntes modernas, alguns dos seus quadros são superiores, pela intensidade cromática e pelo sopro lírico, aos dos mais conhecidos mestres daquele período” (5), desenvolvendo o cubismo analítico e o expressionismo no apogeu do movimento.

Nos seus últimos trabalhos, o arrojo experimental é evidente com a colagem de objectos diversos (vidros, espelhos, pedaços de papel, …) sobre a tela, articulando as suas formas com os espaços pintados.

Em Abril de 1918, a gripe espanhola chegou à Europa, um mês após se detectarem os primeiros casos nos EUA (Kansas e Nova Iorque), causando diversas baixas entre as tropas francesas, britânicas e americanas estacionadas nas zonas portuárias de França. Em Maio, a epidemia alastrou à Grécia, Espanha e Portugal.

As entidades sanitárias nacionais não tiveram tempo, nem meios, para alertar a população e socorrer as vítimas. Muita gente morreu por desconhecimento do perigo e falta de cuidados:

“Caso sintomático é o de uma família de Amarante, o casal Castro. Regressou de Madrid e no dia seguinte foi a tragédia. Morreu o marido, a mulher, o padre que os enterrou (os enterros não esperam 24 horas), o sacristão, os homens que levaram a urna, a cozinheira, os vizinhos, e até o cão e o gato”. (5)

Impedido de pintar devido a uma doença de pele, Amadeo foi para Espinho. A 25 de Outubro, adoeceu subitamente e faleceu, vitimado pela gripe H1N1, na sua casa em frente ao cais da gare ferroviária, Avenida Serpa Pinto (actual Avenida 8), nº 66. Completaria 31 anos no dia 14 do mês seguinte, três dias após o final da I Guerra Mundial (11 de Novembro de 1918).

Em Portugal e no estrangeiro, os amigos choraram a sua morte. Em Paris, o seu amigo Modigliani (que conhecera em 1909), “chorou como uma criança” (6). Dois anos depois, o artista italiano morreu devido a uma combinação de tuberculose, toxicodependência e alcoolismo.

A pandemia de gripe de 1918-19 fez cerca de 27 milhões (7) de vítimas mortais em todo o mundo, a maioria das quais em África, Índia em China. Só em Portugal, em 1918, as epidemias levaram 70.000 vidas (cerca de 100 mil em 1918-19) e a taxa de mortalidade subiu para o dobro (8).
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A sorte foi particularmente madrasta com Amadeo Souza-Cardoso, cerceando uma carreira artística que se adivinhava a todos os níveis marcante para as artes nacionais e internacionais. Nesse ano amargo de 1918, lamenta-se também a morte prematura de Santa-Rita Pintor (Lisboa, 1889 - Lisboa, 29/04/1918), companheiro de Amadeo em Paris e considerado o introdutor do Futurismo em Portugal. A epidemia de gripe vitimou ainda, em Portugal, o poeta João Lúcio (1880-1918) e o compositor António de Lima Fragoso (1897-1918) - para além do já referido Pedro Blanco.

Com a morte de Amadeo Souza-Cardoso, encerrou-se a primeira fase do Modernismo português.

Amadeo Souza-Cardoso e Manuel Laranjeira

Entre os visitantes regulares de Espinho na primeira década do século XX, em férias ou por obrigações profissionais, contavam-se diversos artistas, homens de letras, compositores, que se reuniam às tertúlias locais, no Café Chinês ou no Peninsular. Nessas tertúlias, sobressaía a figura do médico e escritor residente em Espinho, Manuel Laranjeira.

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A pose mais divulgada de Laranjeira
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Manuel Fernandes Laranjeira era natural da Vergada, concelho da Feira, onde nasceu em 1877. Não faltam testemunhos nem estudos que atestem a sua inteligência crítica, a ampla e diversificada cultura (que revelava conhecimento e compreensão do seu tempo), a intuição psicológica e riqueza afectiva. Bastaria recordar o que sobre ele escreveu Miguel Unamuno, seu amigo e correspondende, que ML conheceu em 1908: “Foi Laranjeira quem me ensinou a ver a alma trágica de Portugal… e não poucos recantos dos abismos tenebrosos da alma humana” (9). Na verdade, ML viveu uma existência marcada por “tempestades interiores”, que lhe provocavam sucessivos períodos de melancolia ou explosões de revolta e desespero.

A família de Amadeo Souza-Cardoso passava férias de verão em Espinho, onde o jovem estudante universitário e Manuel Laranjeira acabaram por se encontrar. A personalidade de Amadeo e os seus dotes para o desenho terão surpreendido ML, que não só lhe ofereceu a sua amizade como lhe augurou imediatamente um futuro brilhante nas artes:

Há dois anos disse-lhe eu a você que você era um artista na absoluta significação do termo. Faltava-lhe apenas lapidá-lo, faltava-lhe apenas pôr a lume as preciosas qualidades artísticas que você então revelava. Isso viria com o estudo, com o trabalho afincado, tenaz. E veio. Hoje reconheço com segurança indiscutível que não me enganei (carta de M. Laranjeira a Amadeo Souza-Cardoso, Espinho, 23/10/1907, ob. cit., pág. 265)

Ao tempo, Amadeo de Souza-Cardoso ainda não pintava. As primeiras pinturas foram realizadas já em Paris e a sua actividade artística reduzia-se então a alguns desenhos e caricaturas, existindo pelo menos três caricaturas de Laranjeira por Amadeo, todas de 1906: uma caricatura de perfil, muito apreciada por Laranjeira (que a equiparou, em conteúdo artístico, a um retrato que António Carneiro lhe pintara em 1906 e que editou em postal em Fevereiro de 1907); uma caricatura de Laranjeira, sentado de costas à mesa do café; auto-caricatura de Amadeo e caricatura de Laranjeira, pedalando uma bicicleta de dois lugares – veículo então muito popular na praia de Espinho, com dois ou mais lugares, havendo casas especializadas que as alugavam.


Amadeo fixou nesta caricatura o ar introspectivo e melancólico de Laranjeira
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Auto-caricatura de Amadeo e caricatura de Laranjeira, 1906

Manuel Laranjeira foi uma das pessoas que mais influenciou Amadeo, para além do tio materno do artista, Francisco Cardoso (3). A fortuna familiar (10) e o apoio do “tio Chico”, muitas vezes contra a vontade do pai, permitiu-lhe rumar a Paris sem uma bolsa de estudo, com o objectivo nunca concretizado de realizar estudos superiores, após uma breve passagem pelo Curso de Direito da Universidade de Coimbra e pelo Curso de Arquitectura da Sociedade Nacional de Belas Artes, em 1905.

Francisco Cardoso, o "tio Chico", retratado por António Carneiro

Foi intensa a correspondência entre Amadeo e Manuel Laranjeira, que chegou mesmo a considerar a hipótese de se reunir ao amigo em Paris (então o centro do mundo moderno ou, nas palavras de ML, “o mundo onde se vive, onde se sente, onde se pensa, onde se trabalha”) mas foi ficando em Espinho, cuja vida quotidiana considerava “cinzenta” e “um tédio”, com a desculpa de “servir de estaca à velhice” da mãe. Mais tarde, confessaria a Amadeo não ter ido para Paris por falta de dinheiro (Carta a Amadeo, Espinho, 30/11/1907, ob. cit.).

Da Capital do Mundo, Amadeo remetia ao amigo alguns desenhos, caricaturas e fotos. A 06 de Maio de 1908, comentando uma foto encenada por Amadeo e os amigos de Paris: “Vi “Los borrachos”, “d’aprés” Velasquez, que me enviou. Você é um Baco magnífico. Quantas meninas românticas têm sonhado com um Baco assim!”. No Verão, o pintor português esteve em Portugal de férias e passou pelo menos uma semana em Espinho (carta de Manuel Laranjeira a Pedro Blanco, 03/09/1908, pág. 318, ob. cit.).

No final de Dezembro de 1908, Laranjeira enviou a Amadeo palavras de motivação (o amigo preparava-se para a admissão à Academia de Belas Artes de Paris, frequentando ateliers e a Academia Vitti) que se adaptam perfeitamente (cada vez mais?) à actualidade das artes:

E a arte, amigo, não é uma profissão, é uma vocação, é uma devoção, é um instinto. Quem não for artista assim, devotadamente, por fé, por instinto, misticamente, é melhor que não o seja.
Ser artista profissional é uma coisa híbrida, abstrusa, indigna: é ainda pior e menos compreensível do que ser militar, do que ser herói profissional, a tanto por mês. São uma praga detestável os profissionais de coisas que sobretudo exigem fé, devoção, instinto, heroísmo místico. É por isso que as prostitutas, que são profissionais do amor, são desprezadas. Foram os profissionais que estragaram a religião e, é preciso dizê-lo com tristeza, são eles que estão estragando a arte. Em suma – um profissional em arte faz-me lembrar um profissional do amor…
(in carta a Amadeo, Espinho, 30/12/1908, ob. cit., pág. 346.)

Amadeo, Retrato de Alexandre Ferraz de Andrade, 1910*

Amadeo não foi admitido na Academia de Belas Artes mas, em 1911, expôs no no Salão dos Independentes de Paris e aproximou-se de artistas como Modigliani, Brancusi, Archipenko, Juan Gris e Robert Delaunay, afirmando-se progressivamente no contexto das vanguardas internacionais, como reza e explica a História.
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Em Agosto de 1911, já doente, Manuel Laranjeira é eleito Presidente da Comissão Municipal Administrativa de Espinho mas o conhecimento que tinha do seu estado, como médico, não lhe dava qualquer esperança. “Decididamente isto há-de acabar mal”, confidenciara ele ao amigo Amadeo Souza-Cardoso. Desesperado, matou-se com um tiro de pistola a 22 de Fevereiro de 1912, na casa onde residia, na Rua Bandeira Coelho (actual Rua 19), nº 275, Espinho. Tinha 34 anos. Seis anos depois, a gripe H1N1 vitimaria Amadeo de Souza Cardoso também em Espinho.
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De referir, em jeito de conclusão, a proximidade das idades com que faleceram Amadeo Souza-Cardoso (30 anos), Manuel Laranjeira (34), Pedro Blanco (36) e Santa-Rita Pintor (29) não era ao tempo incomum. Em 1920, afastada a epidemia de gripe, a esperança média de vida dos portugueses era de 35,2 anos para os homens e 35,8 para as mulheres (8).
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Notas:
(1)- Assim chamada devido às notícias alarmistas veiculadas em primeira mão pela imprensa espanhola.
(2)- Concluída em 1877 com a construção da ponte D. Maria Pia, que permitiu a ligação ferroviária entre Gaia e Porto.
(3)- Francisco José Lopes Ferreira Cardoso (1865-1947), o “Tio Chico”, teve forte influência sobre Amadeo, aconselhou-o e apoiou as suas decisões. Era um homem muito viajado, de grande cultura e sensibilidade artística e literária, que estabeleceu muitas amizades no mundo da política, das letras, das artes e até do espectáculo. Entre os seus amigos, contavam-se o rei D. Carlos, António Cândido, Teixeira de Pascoaes e D. António Barroso (bispo do Porto).
(4)-Inaugurado em 18 de Março de 1908, o Jardim Passos Manuel existiu até 1938 onde actualmente se ergue o Coliseu do Porto. Inspirado nos jardins parisienses da Belle Époque, foi local privilegiado das noites boémias portuenses, oferecendo o animatógrafo mais evoluído do seu tempo, grandes espectáculos de “music-hall”, os maiores êxitos musicais da época e outros acontecimentos culturais. Era de tal modo importante para a cidade que se cunhou uma moeda própria, aceite em transacções correntes nas lojas e cafés das redondezas - o mais próximo dos quais era o Majestic.
(5)-“Diário da História de Portugal”, José Hermano Saraiva e Maria Luísa Guerra, SRD, Maio 1998, pág. 513.
(6)-"Modigliani senza leggenda", Jeanne Modigliani, Vallecchi-Editore, Firenze, 1958.
(7)-"História do Século XX", nº 32.
(8)-"Portugal Século XX - Crónica em Imagens, 1910-1920", Joaquim Vieira, CL, pág. 207.
(9)-Citado na versão original em “Miguel de Unamuno e Manuel Laranjeira”, Júlio Garcia Morejón / Dicionário de Literatura, vol. 2, Figueirinhas, 1989.
(10)-O pai, José Emygdio de Souza Cardoso, era um abastado proprietário rural e chegou a Presidente da Câmara Municipal de Amarante.

Outras fontes:
Biografia de Amadeo Souza-Cardoso, Museu Municipal Amadeo de Souza-Cardoso – Amarante; Manuel de Laranjeira (1877-1912) – Vivências e imagens de uma época”, Orlando da Silva, 1992.

*Fotos em Galeria da Biblioteca de Arte – Fundação Calouste Gulbenkian, no domínio público, sem restrições de direitos autorais conhecidos.