quarta-feira, 10 de junho de 2009

7 Maravilhas Portuguesas no Mundo


Na noite de 10 de Junho, no Portimão Arena, foram divulgadas as 7 Maravilhas Portuguesas no Mundo, de um total de 27 seleccionadas, e entregues os respectivos troféus aos representantes dos 5 países onde se localizam esses monumentos, dispersos por 3 continentes.

Dois desses cinco países, Brasil e India, receberam duas distinções cada - dois anos após terem sido distinguidos nas 7 Maravilhas do Mundo, respectivamente através da Estátua do Cristo Redentor (Rio de Janeiro) e Taj Mahal (Agra). As três restantes foram para Cabo Verde, China e Marrocos, recordando que Portugal é o país com mais património espalhado pelo mundo.

O resultado pareceu-me bem, tanto mais que votei em 4 desses monumentos (Bom Jesus de Goa, Igreja de São Paulo em Macau, Igreja de São Francisco em Ouro Preto e Convento de São Francisco na Bahia). Estes concursos nunca são consensuais, e ainda bem, pois permitem a discussão em torno do Património e um maior conhecimento das riquezas culturais nacionais e mundiais. E o resultado das 7 Maravilhas do Mundo foi bem controverso...

Os monumentos mais votados pelo público, por ordem de divulgação, foram os seguintes:

- Basílica do Bom Jesus de Goa (Índia)
- Cidade Velha de Santiago (Cabo Verde)
- Convento de São Francisco e Ordem Terceira (Bahia, Brasil)
- Fortaleza de Diu (Índia)
- Fortaleza de Mazagão (Marrocos)
- Igreja de São Paulo (Macau, China)
- Igreja de São Francisco de Assis da Penitência (Ouro Preto, Brasil)
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Dos sete, os meus preferidos são a Igreja de São Francisco de Assis em Ouro Preto, e a Basílica do Bom Jesus em Goa.


A Igreja da Ordem Terceira de São Francisco de Assis da Penitência, a mais famosa construção religiosa de Minas Gerais, é uma preciosidade do barroco brasileiro e começou a ser construída em 1766 na então Vila Rica, depois Ouro Preto. António Francisco Lisboa, conhecido por Aleijadinho (1730-1814), assinou praticamente toda a obra, desde o projecto às esculturas da portada e dos púlpitos. A grandiosa pintura do tecto foi realizada entre 1801 e 1812 por Mestre Ataíde (Manoel Da Costa Athayde, 1762-1830), da Escola de Mariana-MG, e representa a Assunção de Nossa Senhora (ver imagens).
O Aleijadinho e Mestre Ataíde são considerados os dois maiores artistas do Brasil colonial.

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A Basílica do Bom Jesus de Goa é um templo jesuíta construído no final do século XVI, no início da ocupação portuguesa (1510-1961). A sua construção demorou apenas 9 anos, um recorde para a época, e foi dedicada ao Menino Jesus. O templo acolhe os restos mortais de S. Francisco Xavier, levados para Goa quase 150 anos após a sua morte, por deferência do Duque da Toscânia, Cosimo III. Jazem num caixão de vidro, colocado dentro de uma caixa de prata decorada por um joalheiro florentino do século XVII (ver imagem).

Actualmente, Goa é o menor estado indiano em território e o 4º menor em população (1,3 milhões) mas tem o PIB per capita mais rico da India.

A declaração oficial das 7 Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo (10/06/2009) teve por base um espectáculo multimédia transmitido em directo pela RTP (canal 1), parceira do projecto. Em 2007, a parceira de media foi a TVI.

As 7 Maravilhas terão continuidade em 2010, com as 7 Maravilhas Naturais de Portugal, a divulgar nos Açores, segundo foi anunciado pela Realizar S.A., que tem organizado estes eventos em Portugal, juntamente com a Young & Rubicam Brands S.A.

Estas iniciativas tiveram origem no projecto suíço New 7 Wonders, que permitiu eleger as 7 Novas Maravilhas do Mundo em 2007, através de um concurso informal e popular por telefone ou internet. A declaração oficial decorreu em Lisboa em 07/07/2007, numa cerimónia no Estádio do Sport Lisboa e Benfica. Na mesma ocasião, foram anunciadas as 7 Maravilhas de Portugal.

As 7 Maravilhas de Portugal (anunciadas em 07/07/2007) são as seguintes:

- Castelo de Guimarães

- Castelo de Óbidos

- Mosteiro de Alcobaça

- Mosteiro da Batalha (ou de Santa Maria da Vitória)

- Mosteiro dos Jerónimos (ou de Santa Maria de Belém), Lisboa

- Palácio da Pena, Sintra

- Torre de Belém, Lisboa

terça-feira, 9 de junho de 2009

PIMENTA NUNES



Pimenta Nunes nasceu em Figueiró dos Vinhos em 1964 e faleceu em 1998, em consequência de um acidente de viação. Residia em Coimbra, na Alameda Calouste Gulbenkian.

Licenciado em Pintura pela ARCA/ETAC, leccionou no Instituto Almalaguês, em Coimbra, e em Montemor-o-Velho – onde também dirigia a Galeria Alcáçova, da qual era co-proprietário. Foi membro fundador da Associação Cultural “O Senáculo”.

Leccionou no Instituto de Almalaguês, Coimbra e na Escola Secundária de Montemor.o-Velho.

Começou a expor em 1988, tendo participado em exposições colectivas em Coimbra (1988, 1989, 1993), Viseu (1989), Penacova (1991, 1992), Carregal do Sal (1991), Seia (Exposição Nacional de Pintura/Prémio Tavares Correia - tendo participado nas extensões dessa exposição em Lisboa e Porto, em 1994), Maia (1994), Leiria (1995), Soure (1995).

Expôs individualmente em Lisboa (Galeria do Terreiro do Trigo, 1989), Coimbra (Galeria de S. Francisco, 1995), Figueiró dos Vinhos (1991 e 1995) e Figueira da Foz (Galeria Milenium, 1997).
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Na I Exposição Colectiva dos Artistas Senenses, em Maio de 1999, foi-lhe prestada uma singela mas sentida homenagem.
Pimenta Nunes elegeu como tema principal da sua obra plástica a “Natureza-morta”, que pretendia revitalizar. Nas suas obras mais apreciadas, as formas naturais eram cuidadosamente dispostas em ambientes artificiais, geométricos. No quadro “Cubinhos para os meus amores” (1993), as formas naturais aparecem convertidas em cubos sobre um plano (tampo de mesa, prateleira) vislumbrado por uma abertura na parede.

Outra particularidade da sua obra é o recurso a texturas, por vezes tácteis, combinadas com elementos geométricos, formas hiper-realistas e até a inclusão de pequenos personagens da BD na pintura. Um exemplo da utilização de texturas “tácteis” é o quadro “Natureza-morta sem título”, com três abóboras rigorosamente pintadas sobre um fundo muito texturado, imitando o volume e a cor do doce de abóbora.





Conheci Pimenta Nunes na Escola Superior de Educação de Coimbra, em 1996, durante a formação para orientadores de estágio no 5º Grupo. Lembrava-me do seu nome, por ter participado na Exposição Nacional de Pintura/Prémio Tavares Correia, que organizei em 1993, e ficámos amigos. Trocámos quadros. Entre outras coisas, devo-lhe ter-me apresentado Pinho Dinis e sua esposa, Dalila, que também me deram o favor da sua amizade. Em 1997, convidou-me a expor na sua galeria, em Montemor-o-Velho. A exposição foi um sucesso e logo agendámos outra para o ano seguinte. Na última vez que telefonei, para confirmar as datas da exposição, Pimenta Nunes já não atendeu o telemóvel.


Fontes: catálogos de exposições de Pimenta Nunes.






PINHO DINIS


“A arte não é uma ciência, a arte é um conjunto de emoções, é para trazer emoções, é para agradar, é para as pessoas verem e sentirem emoções. E é para isso que um artista trabalha, para provocar sentimentos nas pessoas que vêm a sua obra.”

Pinho Dinis – citado pelo neto, Pedro Pereira, no seu blog

Pinho Dinis nasceu em Coimbra a 16 de Dezembro 1921 e aí faleceu, na madrugada de 03 de Setembro de 2007.

Frequentou a Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa (1946-48) e o círculo artístico Mário Augusto (1948-50). Na sua formação artística são ainda fulcrais as viagens de estudo aos principais museus de Espanha, França e Itália, em 1950, e as pesquisas de cerâmica com Américo Dinis em Coimbra, entre 1950 e 1953. Em 1954, estudou a técnica do fresco com o pintor Dórdio Gomes, na Escola de Belas Artes do Porto.
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Incompatibilizado com a situação nacional, emigrou para o Brasil, onde viveu entre 1957 e 1975.

Realizou diversas exposições individuais e participou em inúmeras colectivas em Portugal e no Brasil.

Comemorando 30 anos de actividade artística, realizou uma grande exposição retrospectiva na Galeria de São Bento, Lisboa, que decorreu entre 8 de Maio e 13 de Junho de 1999. A 15 de Maio, foi homenageado em Seia, na abertura da
I Exposição Colectiva dos Artistas Senenses. Nos anos seguintes, o artista de Coimbra participaria em diversos acontecimentos artísticos em Seia.

Catraia de São Romão, Seia, 1999: Pinho Dinis, Sérgio Reis, Machado Lopes, Paulino Mota Tavares,...

Em 2002, realizou na sala de exposições do Posto de Turismo de Seia uma exposição retrospectiva, integrada na ARTIS 1 - Festa das Artes em Seia, que decorreu entre 11 e 26 de Maio.

Sempre apaixonado por Coimbra, que envolveu na sua obra, participou activamente na vida cultural da cidade e foi presidente do MAC – Movimento Artístico de Coimbra. Participou também em diversos júris de selecção e premiação e influenciou de modo positivo a obra de jovens artistas, a quem nunca recusou uma orientação.

Em Novembro de 2005, já doente (Alzheimer), realizou a sua última exposição individual, "Desenhos e Guaches", na Galeria Minerva, em Coimbra.

Do seu currículo fazem parte vários prémios e distinções recebidos no Brasil, entre os quais o prémio monetário do Salão Anual de Arte Moderna no Rio de Janeiro (1959), menção honrosa no Salão de Arte Moderna de Curitiba (1960), medalha de bronze no Salão Paulista de Arte Moderna (1961) e medalha de prata no Salão Anual de Arte Moderna do Rio de Janeiro (1963).

Em 2001, recebeu a medalha de Mérito Cultural da Câmara Municipal de Coimbra.

A Câmara Municipal de Coimbra deu o seu nome à galeria da Casa Municipal da Cultura, que passou a designar-se Galeria Pinho Dinis em 2008.

Segundo Paulino Mota Tavares, um dos amigos fiéis do artista, “Pinho Dinis revela-se, neste lugar em que se cruzam a sabedoria e a imaginação criadora, como um singular artista da composição e do desenho.”

As tonalidades singulares e a homenagem feita às mulheres são as principais características distintivas da obra de Pinho Dinis, muito influenciada por Goya e Caravaggio, mas que percorreu vários universos da Arte Moderna, desde “uma figuração de contornos muito definidos e sombrios, próxima das preocupações neo-realistas desse período (…)”(1), no início dos anos 50, os caminhos do abstraccionismo nos anos 60, o geometrismo e o neo-cubismo na década de 70, e o “conflito” entre um expressionismo “selvático” e a geometrização, que foi resolvido nos anos 80.

Dedicou-se ainda à cerâmica, na área do figurado e do objecto, realizando inclusive azulejos e painéis de cerâmica em colaboração com arquitectos e decoradores.

(1)-Maria João Fernandes, catálogo da retrospectiva na Galeria de São Bento, Lisboa, 8 de Maio a 13 de Junho de 1999).


"O teu menino é d'oiro", óleo s/tela, 2000


Fontes: catálogos das exposições de Pinho Dinis; currículo e fotos fornecidas pelo artista em 2002.

terça-feira, 2 de junho de 2009

José Santos em Cantanhede

Fotografia de José Santos, do conjunto "Luzes"
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Continua a digressão da exposição "Luzes", de José Santos. Após a inauguração em Viseu, no Museu Grão Vasco, as fotografias foram mostradas no Museu de Lamego até 31 de Maio e encontram-se patentes ao público na Biblioteca Municipal de Cantanhede. A mostra prolonga-se até ao fim de Junho.
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No dia 06 de Junho, e só durante esse dia, esteve patente no Hotel Marialva, em Cantanhede, a sua exposição de fotografia "Senhor e Deus", que já esteve na Igreja Nova de São Romão e no Posto de Turismo de Seia. Esta série de fotografias tem por base a imagem de cristo crucificado, desfocada ou distorcida por métodos próximos da "light painting" (pintura com luz), termo que o autor considera insatisfatório para enquadrar o seu método fotográfico - que lhe permite obter resultados visuais muito próximos do desenho e da pintura.
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O conceito "light painting" é propositadamente amplo, não fazendo sentido criar subdivisões num método criativo que utiliza meios mecânicos, movimentos de máquina, iluminação artificial e até retoque digital recorrendo a software apropriado, tudo em interacção expressiva, ou separadamente, com preciosismos especializados. Os resultados podem variar - e ainda bem que a linguagem estética desta modalidade de fotografia artística permite múltiplas variações. Veja-se, por exemplo, os trabalhos de pura encenação ambiental de Brian Hart .
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Por outro lado, parece-me bem distinguir a expressão e produção artística da "light painting" de conceitos tecnológicos do género "Arrastar e Soltar" do sistema "Sense and Simplicity", desenvolvido pela Philips - pelo menos enquanto não evoluirem para propostas estéticas de renovação dos ambientes visuais. O sistema "Sense and Simplicity" permite transformar as paredes da nossa casa em telas com formas luminosas em movimento, utilizando um "pincel mágico".
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Numa visão parcelar do trabalho fotográfico de José Santos, que é multifacetado (como sugere a fotografia que apresenta na ARTIS 8 - em Seia), continua a parecer-me que as fotos de "Luzes" são únicas na forma e no conteúdo, valendo à priori pela sua riqueza plástica, e dispensam maior categorização. A procurar um termo específico seria no âmbito desses efeitos e não nos métodos, se é mais "pintura" ou mais fotografia, dúvida que já não acontece nos trabalhos de "Senhor e Deus". Aí, o autor explora os limites reconhecíveis da forma fotografável intensificando o dramatismo da crucificação com deformações intencionais - evocando em certa medida a gramática visual de Francis Bacon.
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A exposição "Senhor e Deus" tem convites para Gouveia e Moimenta da Beira, ainda sem data marcada. "Luzes" tem convite para Sernancelhe, ainda sem data, e para Resende, no próximo ano, havendo a possibilidade de passar por Idanha-a-nova ainda em 2009.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

DIA DA CRIANÇA

Monumento à Criança, em Torroselo - escultura de Reis Duarte

Neste Dia da Criança, nós, crianças de ontem, adultos de hoje, nas vésperas de três importantes actos eleitorais, devemos reflectir seriamente sobre o que queremos para as crianças em Portugal - e não me refiro apenas às crianças portuguesas.

Os casos Joana Guerreiro, Maddie McCann, Esmeralda e Alexandra, por serem demasiado exemplares, não devem distrair-nos do que se passa ao nosso redor, pois as maiores tragédias começam com pequenas distracções.

Claro que esses casos são mediáticos por serem excepções (ou será que são excepções por serem mediáticos?), mas são excepções que envergonham a regra. E as excepções, quando falamos de crianças, deveriam ser extraordináriamente boas.

O que se passa, em Portugal e noutros países com leis mais avançadas na matéria, é que as leis bem intencionadas, talvez por causa disso mesmo, por dificuldades de aplicação na prática, não têm reflexos nos costumes nem nos tribunais, nem sequer a prazo. Veja-se o arrastamento insano do processo Casa Pia e as peripécias internacionais dos casos Maddie e Alexandra. "Portugal corre o risco de se tornar num “viveiro” de casos de polícia ou tribunal envolvendo crianças" (Jorge Mourinho, Público), mas o risco é recente e relativo. É que os crimes cometidos contra crianças tornaram-se fenómenos televisivos e, como tal, entraram a todo o vapor na guerra de audiências entre canais.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Centenário da Electricidade em Seia

Antiga sede da EHSE, no Largo Marques da Silva

Em Dezembro de 2009 passam 100 anos sobre a criação da Empresa Hidroeléctrica da Serra da Estrela e da electricidade em Seia, dois acontecimentos de grande relevo para o concelho que se encontram interligados.
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No Natal de 1909, a iluminação pública na então Vila de Ceia deixou de se fazer a petróleo e a noite tornou-se “brilhante como o dia” graças às lâmpadas de incandescência com poder iluminante de 16 velas e às lâmpadas de arco voltaico de 600 velas. Apesar do crescente progresso de Seia ao longo do século XX, essa novidade demorou a chegar a todo o concelho: a última localidade a receber a luz eléctrica foi Relvas, Póvoa Nova, em 23 de Janeiro de …1997 (1).

A facilidade actual de acesso ao usufruto da electricidade e a sua abundância induz-nos a tomar a energia eléctrica por um bem trivial, só a valorizando plenamente quando falta e desperdiçando-a muitas vezes sem hesitação nem remorso. No início do século XX, porém, a electricidade para todos não passava ainda de uma promessa, tal como escreveu Emile Zola em 1901: “Irá chegar o dia em que a electricidade será para todos, como a água dos rios e o vento dos céus. Não deve ser apenas fornecida, mas sim em abundância, para que as pessoas a usem segundo a sua vontade, como o ar que respiram.”

As experiências eléctricas, embora marcadas pela fraca intensidade da corrente e insuficiência dos meios, com geradores sujeitos a constantes avarias e material de iluminação muito limitado, anunciavam já no final do século XIX uma completa revolução em todos os domínios da vida humana rumo a um verdadeiro progresso. A electricidade passou então a ser uma justa aspiração de todos, que avidamente lutaram pela chegada da electricidade às suas terras, assim como motivo para autênticas guerras empresariais e comerciais, desde a localização das centrais hidroeléctricas até às batalhas quase campais pelas concessões, passando pelas querelas entre os adeptos da Corrente Contínua e os defensores da Corrente Alternada.

Em Seia, a disputa pela concessão foi muito breve e teve apenas dois intervenientes, António Marques da Silva e António Rodrigues Nogueira, com quem a Câmara Municipal desse tempo (presidida pelo Dr. António Augusto da Fonseca Saraiva) celebrou contratos distintos, talvez encantada com as vantagens oferecidas pela proposta do engenheiro Rodrigues Nogueira e para tirar partido da concorrência entre concessionários, ou ainda para acalmar fervores e rivalidades locais, como refere J. Quelhas Bigotte na sua Monografia de Seia.

A rivalidade entre Seia e Gouveia era então uma questão de honra e “coincidência ou não”, como escreve Lúcia Moura (obra cit, pág. 36), a Câmara Municipal de Seia decidiu abrir um concurso para instalar a energia eléctrica na sede do concelho no mesmo mês em que Gouveia inaugurou a iluminação pública eléctrica: Janeiro de 1903.

Apesar de todos os esforços, não apareceu qualquer concorrente nos dois primeiros concursos e a Câmara senense só voltou a abrir concurso para a iluminação eléctrica em Outubro de 1906, tendo então aparecido António Marques da Silva, industrial de Gouveia, onde nascera a 26 de Julho de 1868.

Segundo J. Quelhas Bigotte, a pág.s 214 da obra citada, o contrato celebrado com António Marques da Silva a 5 de Dezembro de 1906, aprovado por Decreto em 07 de Fevereiro de 1907, cedia ao concessionário o direito e posse de todas as águas do Rio Alva e da Ribeira da Caniça que quisesse utilizar, assim como os terrenos industriais atravessados pela captação e entre os leitos das ribeiras. Em contrapartida, Marques da Silva obrigava-se a fornecer energia eléctrica para a iluminação pública e particular e para as indústrias de Seia e do concelho durante 35 anos. A iluminação pública em Seia limitava-se a um raio de mil metros com centro na Câmara Municipal – então situada na actual Praça da República (2) - mas que abrangia então toda a Vila. De início, a iluminação pública custaria anualmente ao município 6500 réis por cada lâmpada de 16 velas, num total de 100 lâmpadas, com oferta da iluminação de duas lâmpadas de arco voltaico a instalar no então largo da Câmara, ou seja, a entrada da actual Praça da República (3). De referir que, na época, um jornal diário custava em média 10 réis e um litro de azeite, 320. O contrato de concessão limitava ainda o custo do quilowatt para particulares e usos industriais e não impedia a electrificação de outras localidades do concelho.

Colégio de Música no antigo edifício da Câmara Municipal de Seia

Em Outubro de 1907, quando já decorria a construção de açudes e levadas no rio Alva, a Câmara Municipal recebeu uma proposta de António Rodrigues Nogueira, capitão do estado-maior de engenharia, residente em Lisboa, que pretendia a concessão da exploração das águas da bacia hidrográfica da Lagoa Comprida e a cedência de terrenos para as obras que julgasse necessárias. O proponente pagaria à Câmara cinco contos de réis, para além de uma renda anual de 400 mil réis até ao final do contrato de Marques da Silva, em 1942, após o qual forneceria gratuitamente 100 lâmpadas de 16 velas e duas lâmpadas de arco voltaico de 600 velas cada.


Exemplo de lâmpada de arco voltaico (Foto FPHESP*)

As negociações entre a Câmara e Rodrigues Nogueira arrastaram-se durante meses. Segundo J. Quelhas Bigotte, os termos do contrato de concessão só foram aprovados em 16 de Agosto de 1908. Entretanto, constou que haveria interesses estrangeiros em jogo e o jornal Correio de Ceia chegou a noticiar, em Setembro desse ano, não só o nome da empresa, “Societé Hydro-électrique Estrella”, como o seu capital garantido: seis milhões de francos.

Esta empresa nunca chegou a constituir-se mas, a 07 de Julho de 2009, os dois concessionários uniram meios e esforços numa nova sociedade, a "Empresa Hidro-Eléctrica da Serra da Estrela". A escritura foi celebrada em Gouveia e, segundo J. Quelhas Bigotte (citando o Dr. José Nunes Pereira, que foi advogado da E.H.E.S.E.), a Câmara só teve conhecimento oficial desse facto a 09 de Dezembro. Nessa sociedade inicial, participavam António Marques da Silva, António Rodrigues Frade, Guilherme Cardoso Pessoa e António Rodrigues Nogueira.


Central da Senhora do Desterro, São Romão - Seia

Em 23 de Dezembro de 1909, e electricidade fornecida pela central da Senhora do Desterro (entretanto construída) chegava finalmente a Seia, uma das primeiras localidades do país a ter luz eléctrica a partir do aproveitamento hidroeléctrico – 18 anos depois da entrada em funcionamento da primeira central hidroeléctrica (Godalming, Inglaterra) e 6 anos depois da chegada do primeiro automóvel a Seia, adquirido pelo Dr. Elisário Mota Veiga (4).

Como acontecia em todas as vilas que iam aderindo ao “grande melhoramento” da luz eléctrica, houve festa em Seia: “na Câmara uma sessão solene em que foi homenageado M. da Silva; na igreja matriz um Te-Deum de acção de graças e à tarde a inauguração da luz, com grandes manifestações de alegria popular.” (J. Quelhas Bigotte, ob. cit. Pág. 215).

Esse melhoramento estendeu-se logo depois a São Romão (07 de Julho de 1910) e chegou a Loriga em 17 de Novembro de 1912, graças aos esforços de uma “Comissão da Luz”, no ano em António Rodrigues Nogueira iniciou a construção da barragem da Lagoa Comprida.

Em 1910 e 1911, com os ventos da República a aquecerem os ânimos da população, que receava ficar prejudicada com o transporte de energia para as indústrias de Gouveia, quase houve um levantamento popular e a Câmara colocou a empresa em tribunal após alguns cortes de energia terem deixado a vila sem iluminação pública. Este problema só foi resolvido em 1915 com a intervenção do Ministério do Interior, que conciliou as partes sem dar razão a nenhuma delas: Marques da Silva podia levar energia para fora do concelho desde que o fornecimento de electricidade à vila não saísse prejudicado.
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Casa da família Marques da Silva, à entrada da cidade de Seia

Procurando melhorar a sua imagem junto dos senenses, Marques da Silva mudou-se para Seia e envolveu-se intensamente na dinâmica local, contribuindo com inúmeros apoios para o progresso e enriquecimento de Seia. A sua única filha casou com o Dr. António Simões Pereira, que viria a tornar-se exemplo nacional da dedicação à medicina (5).

O Comendador Marques da Silva (6) faleceu em Seia em 1953, aos 85 anos de idade, mas continua a faltar ainda hoje a justa homenagem. O largo em frente ao edifício que foi sede da sua empresa, pertencente à EDP após a nacionalização da E.H.E.S.E. em 1975, recebeu o seu nome mas encontra-se lá colocada, desde 1981, a estátua de Afonso Costa.


Seia à noite (vista parcial)

Em Março de 1999, a Câmara Municipal aprovou uma proposta de homenagem da cidade de Seia a Marques da Silva nos 90 anos da fundação da Empresa Hidroeléctrica da Serra da Estrela. A proposta de homenagem incluía a mudança da estátua de Afonso Costa para a rotunda da Central de Camionagem (onde viria depois a ser construída uma fonte luminosa, que lá continua, sem graça), para dar lugar ao busto de Marques da Silva. Na altura, o jornal Notícias da Serra (7) acrescentou, oportuno, que assim até se mudavam as estátuas para os lugares certos, uma vez que "a estátua de Afonso Costa está no Largo Marques da Silva e o busto de Marques da Silva está na Avenida Afonso Costa".

Não será esta a oportunidade (100 anos da criação da E.H.E.S.E. e da inauguração da electricidade em Seia) para, pelo menos, se corrigir de vez este inusitado – mas teimoso – desacerto?

Sérgio Reis

(1) - Jornal Porta da Estrela Nº 455 - Janeiro de 1997.

(2) – Onde hoje se encontra instalado o Colégio de Música de Seia e funcionava o Pólo de Seia do IPG. Só em Março de 1919 os Paços do Concelho passaram para o Palácio das Obras, adquirido a 01 de Setembro de 1918 por decisão da Câmara então presidida pelo Dr. Borges Pires.

(3) - Até 1916, o largo da Câmara, depois Praça da República era apenas um pequeno espaço em frente ao edifício, ligado ao actual Largo da Misericórdia por duas ruas, a Rua Direita - do lado da actual sede do PNSE - e a Rua Esquerda - do lado oposto. Júlio Vaz Saraiva fez uma reconstituição da planta dessa zona "à data do incêndio que devastou o quarteirão de casa entre as Ruas Direita e Esquerda, em 27 de Outubro de 1916", editado pelo Museu do Brinquedo de Seia em formato postal no âmbito de uma exposição temporária de homenagem aos Bombeiros, em 2004.

(4) - "O Fidalgo da Família Correia (Casa da Sobreira), José Tavares Correia de Carvalho, ed. autor, 1982, pág. 25.

(5) – Vitimado pelo Tifo em Maio de 1927, após tratar alguns doentes em Loriga, onde grassava uma epidemia.

(6) – Comendador da Ordem de Mérito Agrícola e Industrial (Classe de Mérito Industrial) em 1943.

(7) - Nº 01, Série II, 12 de Março de 1999, mas também o Jornal de Santa Marinha Nº 142, de 01 de Março de 1999.

Fontes: "O Concelho de Seia em Tempo de Mudança", Maria Lúcia de Brito Moura; "Monografia da Cidade e Concelho de Seia", J. Quelhas Bigotte (Seia, 1986); "Histórias de Senaserra, Marques da Silva - o genial criador da Hidroeléctrica da Serra da Estrela", de Hermano M. Santos, Jornal de Santa Marinha Nº 140, 01 de Fevereiro de 1999; "História dos Grandes Inventos", SRD; "Portugal Século XX", de Joaquim Vieira, vol. I, Círculo de Leitores. * Foto de uma das lâmpadas de arco voltaico que iluminaram São Paulo entre 1888 e 1920 - Fundação Património Histórico da Energia de São Paulo, Brasil.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Serralves em Festa!


A 6ª edição do Serralves em Festa vai decorrer durante o fim-de-semana de 30 e 31 de Maio de 2009, com 40 horas non-stop de actividades nas áreas da música, dança, performance, fotografia, vídeo, cinema, teatro e circo.

Este ano, o festival coincide com a comemoração dos 20 anos da Fundação de Serralves e o 10º aniversário do Museu de Arte Contemporânea de Serralves. No Museu, poderá ser visitada a exposição comemorativa "Serralves 2009 - a Colecção", composta por peças da Colecção de Serralves.

A Festa começa logo no dia 29, na baixa do Porto. Ver programa desse dia.

Serralves em Festa tem entrada livre, das 08.00 horas de Sábado às 24.00 horas de Domingo.


Serralves em Festa 2007 - uma das exposições no MAC (foto GRL)