sábado, 7 de fevereiro de 2009

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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

OBRAS DE ARTE EM SEIA - 1

“Torneio dos Doze de Inglaterra” – fresco de Martins Barata (1966)
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Quem passar pela sala de reuniões da Câmara Municipal de Seia, onde funcionou a sala de audiências do Tribunal de Seia até Outubro de 1998, encontrará um fresco de grandes dimensões representando um torneio medieval. Intitulada “Torneio dos Doze de Inglaterra”, a obra é da autoria do pintor Jaime Martins Barata e evoca o célebre episódio dos doze cavaleiros, que se reuniram em Seia antes de partirem para Inglaterra. Ver mais em Martins Barata.

O fresco do antigo Tribunal de Seia data de 1966 e insere-se no vasto plano de remodelação da rede de Tribunais portugueses, iniciado no final dos anos 50 do século XX, que mobilizou diversos arquitectos e artistas. Jaime Martins Barata já era então conhecido pelos seus frescos e, em 1959, chegou mesmo a descobrir um importante melhoramento nessa técnica, que se reflectiu nos resultados visuais dos trabalhos que realizou durante os anos 60.

Jaime Martins Barata nasceu em Castelo de Vide em 1899 e faleceu em 1970, em Lisboa. Ver mais dados em
www.geneall.net/P/per_page.php?id=283703.

Conviveu com grandes figuras do seu tempo (Cottinelli Telmo, Jorge Barradas, Abel Manta, Almada Negreiros, Fernando Pessoa, Abel Manta, Leitão de Barros...), em particular Roque Gameiro, de quem se tornou amigo e partilhou o gosto pela aguarela, acabando por casar com a sua filha em 1925. Era já, então, professor de Desenho no Liceu de Setúbal, uma profissão com a qual sempre se identificou, mesmo quando alcançou a fama, em 1940, com dois trípticos de grandes dimensões destinados ao Pavilhão de Lisboa da Exposição do Mundo Português e posterior convite para realizar uma série de selos para os CTT. O seu trabalho seguia temas consensuais e os valores estéticos do regime, o que agradava aos decisores políticos. Chamado a colaborar com o Estado nos anos 60, Martins Barata realizou uma série de frescos em vários edifícios públicos (sobretudo Palácios da Justiça), dispersos um pouco por todo o país, sendo dignos de destaque os seus frescos nos Palácios de Justiça do Montijo (1959), do Porto (1961), Aveiro (1962), Olhão (1963), Fronteira (1966), Castelo Branco (1968), e Vila Pouca de Aguiar (1969). O fresco do Palácio de Justiça de Fronteira, representando a batalha dos Atoleiros, era considerado pelo artista como a sua melhor obra, tendo sido realizado no mesmo ano do fresco de Seia (1966), o que permite curiosas comparações.

Para além de frescos, Martins Barata produziu alguns cartões para tapeçaria e alguma pintura a óleo, sobretudo retratos. No Palácio de Justiça de Oliveira do Hospital, encontra-se uma tapeçaria deste artista multifacetado e polivalente, intitulada "Viriato" (1966). O facto de ser hoje relativamente desconhecido no contexto da arte nacional deve-se à sua opção por uma vida de isolamento (não apreciava a vida social, não expunha os seus trabalhos nem dava entrevistas), mas também ao esquecimento a que foi votado após o 25 de Abril de 1974, ocorrido quatro anos após a sua morte, devido ao seu alinhamento com a estética do Estado Novo.

Após a construção e entrada em funcionamento do novo Tribunal de Seia, a Câmara Municipal tomou posse do espaço, que sofreu obras de remodelação, e encomendou em 2002 a limpeza e restauro do fresco de Martins Barata à empresa Pintura Livre, Lda, especializada em conservação e restauros, que devolveu à obra a integridade e colorido originais.

Fontes: sites indicados;“Martins Barata, um Pintor (quase) esquecido”, Notícias Magazine / DN, 25/03/2001. Agradecimentos especiais a João M. B. Cabral.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

1000

Saiu para as bancas no passado dia 28 de Janeiro, o JL nº 1000, com uma edição especial e a oferta de um livro de poesia da Leya, a dois meses de festejar 29 anos de existência - sempre com o mesmo director, José Carlos de Vasconcelos.
Tudo começou em 1981 - e pode dizer-se que o JL me tem acompanhado ao longo da minha actividade de professor pois comecei a leccionar no ano lectivo de 1980-81 e a ler o Jornal de Letras, Artes e Ideias, desde o nº1.
Criado por um grupo de amigos (José Carlos Vasconcelos, Eduardo Pardo Coelho, Augusto Abelaira e Fernando Assis Pacheco) para substituir os suplementos literários que pontuavam nos jornais nacionais de então, o JL mostrou ser um jornal diferente logo no primeiro número, saído a 3 de Março de 1981. A primeira página era dominada pelo desenho de João Abel Manta, que assina igualmente mais oito ilustrações dispersas pelas 36 páginas do jornal, sem contar com a última página, onde se repete toda a primeira página mas invertida da direita para a esquerda, criando um efeito original. O jornal custava 25$00 - 12,5 cêntimos.
Folheando o meu precioso exemplar, releio uma entrevista de Assis Pacheco a José Cardoso Pires, um conjunto de notícias breves sobre a publicação de Poesia Toda, de Herberto Helder, uma homenagem a Óscar Lopes nos 40 anos de vida literária, várias sobre teatro, música e dança, nova exposição de Júlio Pomar em Paris. Francisco Belard escreve sobre cinema português e Eduardo Prado Coelho sobre cinema húngaro. As páginas 12 e 13 são dedicadas à TV e à rádio. Nas três páginas seguintes, Eduardo Lourenço escreve sobre Jorge de Sena, de quem se dá a conhecer três poemas inéditos. Segue-se um artigo de Augusto Abelaira, um texto de Eduardo Prado Coelho sobre Vergílio Ferreira, com algumas páginas inéditas do seu livro "Conta-Corrente 2", outro de Fernando Belo sobre "A crise dos cristãos de esquerda". José Sesinando escreve sobre música na página 22 e Alexandre Pinheiro Torres na página 23, antecedendo um artigo de Nuno Bragança. Na página 26, Manuel Maria Carrilho escolheu "Metamorfoses do Corpo", de José Gil, para "O livro da quinzena", seguido de um magnífico estudo de Paula Morão sobre a fotografia de Jorge Molder. Seguem-se algumas páginas de crítica e teoria literária, história, cinema (Resnais, e um texto de João Mário Grilo sobre Godard), música (incluindo um texto de João Freitas Branco), teatro ("O Judeu" no Teatro Nacional) e a crítica (e crítica a sério, sublinhe-se) de Sílvia Chicó às exposições mais recentes.
O JL nº1 criou grandes expectativas em relação ao nº 2 (17 de Março de 1981), amplamente satisfeitas ao longo das suas 32 páginas recheadas de artigos assinados por grandes nomes das letras e da cultura, com diversas ilustrações de João Abel Manta, seguindo o modelo do primeiro número excepto na solução invertida da capa na última página.

Ao longo dos 1000 números publicados, o JL foi mudando de aspecto gráfico e formato (actualmente mais pequeno que o inicial), passou a edição a cores, actualizou os seus conteúdos e diversificou-se ainda mais com o recurso a suplementos especializados e parcerias editoriais, acabando por seguir uma linha mais comercial, pertencendo actualmente ao grupo Impresa / Mediapress de Pinto Balsemão. Este rumo não comprometeu os objectivos e especificidades do jornal, permitindo uma mais ampla presença e acção nos diversos espaços de cultura, inclusive nos cantos remotos do espaço lusófono.
Continuo a depositar grandes esperanças na continuidade do JL e, tal como aconteceu com o nº 2, aguardo com expectativa a publicação do nº 1001.

Dora Tracana - Pessoa poética


Nasceu a 1 de Janeiro na Guarda e vive actualmente entre Seia – onde trabalha – e Coimbra – onde concluiu a licenciatura em escultura / variante Pedra e Madeira, em 1995, na Escola Superior de Tecnologias Artísticas de Coimbra, e frequenta actualmente o mestrado em comunicação estética.


A escultura de Dora Tracana faz sentido, desdobra-se em simbologias e narrativas poéticas perspectivadas pelo título - “A Porca da Vida” ou “O Tempo; Pêndulo, Cruz, Paixão”, por exemplo (ver estas e outras esculturas em www.amar-arte.blogspot.com), mas sua principal característica distintiva é o modo como explora a dialéctica dos materiais e a interacção de formas significantes para questionar o sentido da vida e comunicar a sua interpretação do mundo.


Organizando alguns dos temas recorrentes, obtemos uma espécie de mapa de leitura: o Corpo, o Tempo, o Sofrimento, a Verdade, o Amor. Em "O Tempo; Pêndulo, Cruz, Paixão", por exemplo, para além da articulação específica de formas e de materiais, que têm uma gramática e sentidos próprios, a autora combinou os diversos elementos simbólicos para conferir ao conjunto um acentuado dramatismo, sobrepondo a ideia da passagem/contagem do tempo à de sofrimento para nos confrontar com duas verdades incontornáveis da vida e despoletar em cada um de nós a reflexão fundamental: quando, onde, como sofri, e porquê - pois só através desta reflexão conseguiremos saber se nos identificamos ou não com a perspectiva da autora. Seja qual for a conclusão, essa experiência passará a fazer parte das nossas vidas.


O conjunto de cinco peças expostas na Casa da Cultura de Seia (anteriormente vistas no CISE) permite uma experiência igualmente enriquecedora. Num texto intitulado "Pessoa", a autora explicita o seu projecto e apela à construção criativa da autenticidade da Pessoa, convocando cada um em particular ("TU").


"PESSOA


Este projecto pretende reflectir uma sociedade, através de cinco exemplares. Pode-se visualizar, nas peças escultóricas, um tronco (corpo), as raízes que o aguentam (suporte) e uma hélice em volta do corpo (vida). O corpo é o suporte do rosto (mascara), consoante a forma como esse suporte segura a mascara assim esta nos transmite uma expressão diferente. Temos então cinco corpos, Cinco suportes diferentes e cinco expressões diferentes. Tento com isto transmitir que muitas vezes somos moldados pelo meio em que estamos inseridos. A PESSOA pode ser a interpretação do papel que lhe coube representar. Consoante o texto que lhe foi destinado assim pensa, fala, actua, vive. Podemos encarnar a PESSOA do papel que nos foi destinado a representar no palco da vida. Podemos adaptar-nos ao molde que nos foi sorteado. A identidade do indivíduo tem por base o molde do meio que nos sufoca ou liberta, mas nunca a identidade de um indivíduo é uma realidade definitivamente estabelecida.


TU podes construir A PESSOA


Depende de ti seres TU.”



As 5 peças relacionam-se pela estrutura comum (poste/tronco; base/raízes/pés/garras) e por uma faixa branca que "estende" aos pés das figuras um excerto conclusivo de um texto da autora:
“A identidade do indivíduo tem por base o molde do meio que nos sufoca ou liberta, mas nunca a identidade de um indivíduo é uma realidade definitivamente estabelecida.”
A identidade de cada figura é dada por uma máscara suspensa do tronco por uma espécie de mola/hélice que envolve todo o "corpo" criando espaços próprios de movimento, acção, vida.

Fontes (biografia e foto da artista): Agenda Cultural CMS/Casa Municipal da Cultura de Seia.

Lucas Marrão nasceu em Seia há 185 anos

Lucas de Almeida Marrão nasceu em Seia a 5 de Fevereiro de 1824, há 185 anos, na quinta do fidalgo senense Luís Pinto de Mendonça Arrais, futuro Visconde de Valongo, de quem seus pais eram caseiros.

Nascido na Casa das Obras, em Seia, a 04 de Julho de 1787, Luís Pinto de Mendonça Arrais tornou-se 1º Barão (1835) e depois 1º Visconde de Valongo (1842) pelo seu valoroso desempenho nas Lutas Liberais - comandando o Batalhão de Voluntários da Rainha D. Maria II que desembarcou numa praia próxima do Porto (e não no Mindelo, Vila do Conde) e nas batalhas travadas em Valongo em 1832 e 1833, onde quase perdeu a vida. Já com o título de Visconde, foi Governador Civil do Porto em 1847.

Reza a história que o próprio Visconde de Valongo descobriu a vocação do jovem Lucas, vendo-o esculpir num pedaço de madeira uma figura religiosa (Nossa Senhora, segundo Quelhas Bigotte; Santo António, na versão do Dr. Luís Pinto de Albuquerque, relatada pelo Dr. António Dias) e que o tomou sob a sua protecção. No entanto, a certidão de baptismo de Lucas Marrão mostra claramente que ele já vinha sendo protegido desde criança pois os seus padrinhos de baptismo eram fidalgos da Casa de Tourais, um oficial de nome Lucas Maximo de Frias, oficial do Regimento de Milícias da Covilhã, e sua mulher, Francisca Augusta Napoles. Sem colocar em causa a verdade historiável, não deixa de ser curiosa tanta preocupação fidalga com o filho de um simples caseiro.

Sob a protecção da família Mendonça Arrais, frequentou a aula de Desenho Histórico da Academia de Belas-Artes, entre 1847 a 1852, onde foi discípulo de António Manuel da Fonseca (1796-1890), pintor e escultor que exerceu larga influência no seu tempo. Ali, obteve prémios nos concursos de 1847/48, 1948/49 e 1949/50.

Participou na exposição da Academia Real de Belas Artes em 1852, com quatro telas originais e uma cópia de uma tela de Vieira Portuense (“Júpiter e Leda”), assim como na Exposição da Sociedade Promotora de Belas Artes de 1880 e na de 1884.

Entre as suas obras mais conhecidas, destacam-se o “Retrato da Infanta D. Isabel Maria” (col. Conde de Almarjão); “Defronte de um Altar”, de 1879 (col. D. Caetano de Portugal); “Retrato de El-Rei D. Luís” (Câmara Municipal da Seia). Retratou o Visconde de Valongo (1842), D. José Pinto de Mendonça Arrais (irmão do Visconde de Valongo, bispo de Pinhel e da Guarda) e o Dr. José da Mota Veiga, entre outros. (Ver AQUI alguns trabalhos de Lucas Marrão na Biblioteca Nacional Digital).

Em Seia, não restam (ao que se saiba) muitas obras de Lucas Marrão. Num artigo publicado no jornal “A Voz de Seia”, segundo notícia de José Alberto Ferreira Matias, o Dr. António Dias referia a existência de muitos desenhos desse autor na Casa das Obras de Vila Cova. Pintou as bandeiras da confraria do Santíssimo Sacramento e dois quadros com “Os Evangelistas” para a extinta capela do Morgado de Nossa Senhora das Preces. São-lhe atribuídos sete dos oito quadros representando a Via-sacra existentes nas paredes laterais da Igreja da Misericórdia – já que um deles é nitidamente de outro autor, tal como J. Quelhas Bigotte já havia notado pois omitiu-a. Várias pinturas de Lucas Marrão encontram-se na posse de descendentes do Visconde de Valongo - como a Viscondessa de Valdemouro, filha do 2º Visconde de Valdemouro, nascido em Seia em 1896 e falecido em Águeda em 1938.

A obra mais conhecida do artista senense, pelo nível artístico e insubstituível valor documental é a litografia “Vista da Villa de Cea, tirada do alto da Senhora do Rosário” (1845). Em 1997, foi editada pela Câmara Municipal de Seia uma reprodução dessa litografia, colorida pelo artista senense António Júlio Vaz Saraiva.


A litografia mostra com grande pormenor a Casa das Obras (da família do Visconde de Valongo, hoje Câmara Municipal de Seia), a Colegiada (destruída à passagem das tropas francesas invasoras), o castelo em ruínas e a zona envolvente, o Solar dos Botelhos, a Capela de S.Pedro e a Igreja da Misericórdia.

O Dr. António Dias levou aos jornais senenses do seu tempo, nos anos 40 do século XX, os ecos do trabalho publicado pelo Coronel Henrique de Campos Ferreira de Lima (“Dois artistas esquecidos - Lucas de Almeida Marrão e João Baptista Minas”) na “Revista de Guimarães”, em 1944, acrescentando-lhes o resultado da sua própria pesquisa, muito esclarecedora e incontornável para um estudo sério sobre Lucas Marrão. Em 1997, a propósito da edição, pela Câmara Municipal, da “Vista da Villa de Cea, tirada do alto da Senhora do Rosário”, José Alberto Ferreira Matias (filho do grande jornalista e insigne senense Luís Ferreira Matias) divulgou essa pesquisa em quatro artigos do Jornal de Santa Marinha (nº 96, 98, 100 e 101, de 1 de Março a 16 de Maio de 1997) ilustrados com as fotos e reproduções que aqui se mostram, com a devida referência e agradecimentos a José Alberto Ferreira Matias, a Serafim Correia (autor das fotografias dos quadros da Misericórdia), à Misericórdia de Seia e ao Jornal de Santa Marinha, na pessoa do seu Director, Eduardo Cabral.

As telas atribuídas a Lucas Marrão. Ao centro, o quadro de outro autor (fotos de Serafim Correia - JSM).


Outra obra muito conhecida de Lucas Marrão evoca o episódio político da Revolta do Porto, em Outubro de 1846, que degenerou em guerra civil: a prisão do Duque da Terceira e companheiros na Cadeia da Relação do Porto, por ordem de Silva Passos. Entre eles, estava o Visconde de Valongo, nomeado para comandar a 4ª Divisão Militar. Lucas Marrão também estaria com o Visconde de Valongo, considerando a pormenorizada descrição da cena na litografia de 1848, ou esse desenho terá sido inspirado e instruído pelo Visconde? Certo é que a Patuleia foi uma guerra civil cruel, que terminou em Junho de 1847, antecâmara da grave crise de 1849 (em que até os teatros fecharam), acontecimentos vividos por Lucas Marrão aos vinte e poucos anos, antes e durante a frequência da Academia de Belas Artes de Lisboa como “aluno voluntário”, ou seja, aluno externo. Aliás, a sua matrícula data de 10 de Novembro de 1847, ainda no rescaldo da guerra civil, mas no ambiente protector da capital. Vinte dias depois, o Visconde de Valongo é nomeado Governador Civil do Porto, onde os vapores revolucionários ainda pairavam. Já existia a Academia Portuense de Belas-Artes, criada por Passos Manuel em Novembro de 1836 e que ainda hoje funciona no mesmo edifício, como Escola Superior de Belas Artes da Universidade do Porto.

Lucas Marrão dedicou-se também à fotografia, uma novidade na época, que conciliou com a pintura. Abriu um estúdio em Lisboa, a “Photographia Artística”, chegando a realizar alguns trabalhos fotográficos para a Casa Real - segundo refere J. Quelhas Bigotte na sua Monografia de Seia.

Faleceu em Lisboa a 20 de Agosto de 1894. Em 1981, a Câmara Municipal de Seia atribuiu o seu nome a uma rua de Seia (junto ao Mercado Municipal, do lado do Solar de Santa Rita/Museu do Brinquedo) - ver Ruas de Seia com nome de artistas em "Escrita(s)".


Fontes:
Bigotte, J. Quelhas, “Monografia da Vila e Concelho de Seia”, 2ª edição,1986.
Bigotte, J. Quelhas, “Escritores e Artistas Senenses”, 1986.
H.C. Ferreira Lima, “Dois artistas esquecidos - Lucas de Almeida Marrão e João Baptista Minas” in “Revista de Guimarães”, vol. 54, Fasc. 1-2, 1944 - Biblioteca da Fundação Calouste Gulbenkian
Pamplona, Fernando, “Dicionário de Pintores e Escultores”, Vol. IV
Matias, José Alberto Ferreira, “A propósito duma litografia de Seia”, in Jornal de Santa Marinha nº 96, 98, 100 e 101, Seia, 1997.
Biblioteca Nacional de Portugal/Biblioteca Digital

sábado, 31 de janeiro de 2009

Carlos Moura - 20 anos de fotografia


Em Janeiro, a Casa Municipal da Cultura apresentou a exposição "20Ver" - 20 anos de fotografia de Carlos Moura, uma selecção de imagens fotográficas do autor, que comemora em 2009 não só os 20 anos de profissão mas também o 40º aniversário, a 6 de Julho.


Trata-se de uma pequena exposição retrospectiva, que evidencia o seu gosto pela cor e pelas texturas, muito bem interligadas nas fotografias do "Sino de Santa Rita", da vinha ("Curva"), das árvores com as cores do Outono ("Fim-de-tarde") ou das mãos da queijeira (cartaz de uma Feira do Queijo, salvo erro em 2003). No entanto, a exposição pareceu-me sumária, muito breve e sem apresentar dados técnicos sobre as fotografias (título, local, ano, dados técnicos), importantes para definir uma cronologia dos 20 anos e distinguir os momentos mais importantes desse percurso - que se vislumbram na biografia distribuída. Assim, passa ao lado do visitante a presumível importância dessas imagens no contexto dos 20 anos, mas também a noção exacta do nível artístico atingido por Carlos Moura - que pode ser mais e melhor observado no seu blog: www.carlosmoura-cmoura.blogspot.com
Confirma-se, aí, a existência de um "estilo" pessoal de combinação da cor e da textura, mais evidente na fotografia não-documental, onde o artista se liberta, mas cuja gramática consegue aplicar em outros tipos de trabalho fotográfico - o que constitui sem dúvida uma garantia acrescida de qualidade.

"Carlos Moura (C. Moura) nasceu em Loriga em 1969. Reside em Seia. Em Janeiro de 1989 “abraça a fotografia”, iniciando um percurso que o leva a obter vários destaques dignos de registo no seu currículo artístico. De 1990 a 1998 é fotógrafo profissional. Trabalhou como fotojornalista em Lisboa, em 1994 e 1995. Em 2006, iniciou a prática da fotografia digital, ano em que efectua a 301ª reportagem de casamento.

No seu currículo regista a participação na Exposição de Fotografia a Preto e Branco (Loriga e Lisboa, 1995); Curso de Foto Estúdio IADE (Lisboa, 1995); 1º Lugar no Concurso Nacional de Fotografia de Seia (1995); Fotografismo Publicações Europa – América (1995/1996); Colaborador Fotográfico no Centro Nacional de Cultura (1996); Exposição de Fotografia (Seia, 1997 e 2004); Exposição de Fotografia (Celorico da Beira, 2004) e ARTIS IV, V, VI e VII (Seia, 2005, 2006, 2007 e 2008).


É detentor de um arquivo fotográfico de cerca de 50 mil fotogramas e é autor de 3 colecções de postais. As suas fotos têm sido publicadas por diversos jornais e revistas, com destaque para o jornal “Expresso” , revistas “Visão” e “Foto” e nos jornais locais – “Porta da Estrela”, “Noticias da Serra”, “Garganta de Loriga” “A Neve”, “Folha do Centro”, Jornal do Deficiente, e Midia Shoping.Carlos Moura anda há 20 anos de olho na objectiva, apesar da sua deficiência visual, daí esta exposição – “20Ver”."

Fontes:
Informação da Casa Municipal da Cultura / folheto de apresentação do autor e da exposição.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Porta da Estrela - a "cena" do título

Há alguns dias, em conversa com amigos a propósito da recente demissão do Director do jornal Porta da Estrela, Albano Figueiredo, surgiu novamente a confusão sobre os títulos do PE no período de tempo em que eu desempenhei efectivamente (Outubro de 1994-Novembro de 1996) o cargo de Director. Em tempo, prestei alguns esclarecimentos sobre aquilo a que um desses amigos chamou “a cena do título” e julguei que esse episódio estivesse compreendido e assimilado, mas parece que ainda não.

Em Setembro de 1994, o então Director do jornal Porta da Estrela, António Silva Brito, teve de abandonar o cargo por motivos pessoais, após seis anos de esforçado e produtivo desempenho – descrito em jeito de balanço, pelo próprio, na PE Revista nº 2 (suplemento do PE nº 418, 20/01/1996), pág. 12, e PE nº 648, 20/12/2002, pág. 12). Durante esses anos, o jornal Porta da Estrela evoluiu substancialmente, parecendo-me muito justa a constatação de “um progresso continuado” em todos os domínios, sobretudo atendendo aos meios então disponíveis. A paginação electrónica do PE começou a fazer-se timidamente no final de 1995, já no meu tempo. Não havia meios para tratamento e edição da imagem e tudo o que fosse publicar desenho ou pintura levantava mil e um problemas pois até o tipo de papel e a qualidade da tinta utilizada pela tipografia limitava a qualidade da reprodução. Esta, fez-se a preto e branco (com títulos a uma cor) até Junho de 1996 (PE nº 432).



“Porta da Estrela”, 1988

“Porta da Estrela”, 1994

Quando fui convidado a substituir Silva Brito, imaginei uma renovação do jornal a partir do esquema gráfico, com um novo título e outra arrumação das matérias. O antigo Director criara uma importante ligação às freguesias do concelho, fomentando a colaboração de correspondentes, chegavam regularmente à redacção matérias das mais diversas áreas e a publicidade tinha já um volume respeitável, mas faltava arrumar tudo isso perseguindo o mesmo objectivo traçado a 15 de Dezembro de 1988 por Silva Brito: “melhorar até onde for possível o conteúdo e o aspecto gráfico do PE de modo que cada leitor possa abordá-lo com mais agrado e reconhecê-lo mais familiar em cada página”.

O novo título, criado por mim, destacava as iniciais "P E" criando um logótipo com forma de chave, relacionável com o conceito de “Porta da Estrela”. O jornal PE passaria a ser apresentado como “chave” de entrada na Estrela, permitindo conhecer a realidade do concelho e constituir um espaço efectivamente partilhado pelos leitores. A estrela de cinco pontas que se destacava no título, remetia para o símbolo maior da região, utilizado por diversas instituições e empresas de toda a região da Serra da Estrela. Apareceu pela primeira vez no PE nº 374, de 10/10/1994.

“Porta da Estrela”, 1994

O objectivo da cor no título (vermelho, verde ou azul) era destacá-lo na primeira página a preto e branco, variando de número para número de modo a impedir uma fixação da função simbólica da cor.

O logótipo PE funcionou bem na revista, a primeira a ser publicada como suplemento de um jornal regional no interior (1 de Dezembro de 1994). O segundo número, previsto para Dezembro de 1995, atrasou-se um pouco e saiu apenas em Janeiro de 1996.
“PE Revista” Nº1 (Dezembro de 1994)


"PE Revista Nº2 (Janeiro de 1996)
Com a mudança para a cor, em Junho de 1996, colocando-se a questão das cores do título, foi decidido manter a proposta original, com fundo azul – evocando os espaços abertos, a cor dos volumes serranos na paisagem, a profundidade cerúlea – e o vermelho intenso, vibrante. Perdeu-se, no entanto, a estrela do título, a pedido de quem de direito. Parece que, apesar de identificada com a serra que a leva no nome, incomodou algumas pessoas habituadas a descortinar politiquice em tudo, até nas estrelas, e substituí-a por um traço enigmático no mesmo local.

“Porta da Estrela”, 1996

Muito diferente foi a introdução abusiva do desenho da Torre a preto e branco no espaço do título, sem qualquer explicação. Acabei por abandonar o cargo no final de 1996, mas o meu nome continuou a sair como Director do jornal até final de 2002, devido a alegada dificuldade para encontrar sucessor, apesar das providências tomadas.

“Porta da Estrela” nº 645

A 20 de Novembro de 2002, caiu definitivamente o pano sobre a “cena” do título, não sem um derradeiro desvario “técnico”: ao mesmo tempo que anunciavam “nova Imagem e nova Direcção” para o número seguinte, a “renovada” equipa escangalhava totalmente a primeira página do nº 645 (20 de Novembro de 2002), o último jornal a sair com a indicação de Sérgio Reis como Director.

“Porta da Estrela” nº 646


No mesmo espírito da “nova Imagem e nova Direcção”, a revista “25 Anos Passados para 25 Futuros” foi distribuída com o PE nº 646, o primeiro número da nova direcção (Luís Vaz) e novo grafismo (Márcio Martins), sem qualquer referência às revistas PE suas antecessoras nem ao anterior Director. No meio de tanta celebração, nem uma palavra. Um ano depois (Novembro de 2003), Luís Vaz demitiu-se do cargo de Director do PE mas não por motivos pessoais. Dá que pensar.

Já agora, o PE nº 849, de 12 de Janeiro de 2009, não indica o nome do Director nem do Subdirector. Por lapso?