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domingo, 16 de agosto de 2009

Fausto Sampaio - Viagem ao Oriente

Fausto Sampaio, auto-retrato


Fausto Sampaio e Tavares Correia

A notícia de uma grande exposição de pinturas e desenhos de Fausto Sampaio na Galeria Sul do Museu da Fundação Oriente, para além do interesse plástico da sua pintura e do tema unificador das 60 obras expostas (“Viagens no Oriente”), lembrou-me a sua amizade com o pintor senense Tavares Correia – que se manteve até à morte de Sampaio (Lisboa, 1956). Mas o que tinham em comum estes dois artistas, o primeiro natural da Anadia (Alféolas, 4 de Abril de 1893) e o outro nascido em Seia (5 de Dezembro de 1908), para além do gosto pelas artes?

Ambos surdos-mudos (Fausto Sampaio em consequência de uma incapacidade auditiva aos 22 meses e Tavares Correia de nascença), conheceram-se e tornaram-se amigos no Instituto de Surdos-Mudos da Casa Pia de Lisboa. Quinze anos mais velho, Sampaio foi mesmo o primeiro pensionista do Instituto e Tavares Correia entrou em 1918 com o nº 15.

Juntos realizaram a instrução primária e iniciaram a sua aprendizagem técnica e artística sob orientação de Augusto de Campos. Prosseguiram estudos de desenho e pintura da Sociedade Nacional de Belas-Artes, onde Fausto Sampaio expôs pela primeira vez em 1929.

Nesse mesmo ano, rumaram juntos a Paris, para desenvolverem a sua técnica de pintura e tentarem a sorte nas selectivas exposições colectivas do principal centro artístico internacional. Acabaram ambos a representar Portugal (com outro jovem pintor português, Carlos Botelho) no prestigioso Salon de Paris, após estudos orientados por Pierre-Paul Lourens e Émile Renard (Fausto Sampaio) e Lyon Arno (Tavares Correia).

De regresso a Portugal realizaram a sua primeira exposição individual em Lisboa, com assinalável sucesso. Fausto Sampaio, logo em 1930, saudado pelo público e pela crítica. Tavares Correia só em 1932, com assinalável sucesso – vendeu todas as 43 obras expostas e a crítica considerou-o “uma revelação no meio artístico português”.

Depois, os seus percursos divergiram. Tavares Correia optou por ficar na sua terra natal, comprometendo uma carreira artística nacional, e entrou para o gabinete técnico da Câmara Municipal de Seia, onde foi, durante décadas, o desenhador mais qualificado. Continuou a pintar e a expor até Agosto de 2000, tendo falecido a 21 de Setembro de 2005, no Hospital da Universidade de Coimbra, a poucos dias do seu 97º aniversário. Fausto Sampaio dedicou-se sobretudo à pintura paisagista, distinguindo-se na interpretação da luz. Captou exemplarmente a atmosfera das terras do Vale do Vouga e do Alto Douro, mas ficou conhecido sobretudo pela tradução do colorido e do clima das paisagens africanas e orientais, assim como pela sua interpretação do exotismo das gentes, usos e costumes de terras distantes. Sobretudo nos anos 30 e 40, construiu uma obra centrada na grandeza heterogénea do então território português, que lhe valeu o título de "Pintor do Ultramar Português” e mesmo de “Pintor do Império". Tavares Correia, por seu lado, ficou conhecido como “Pintor da neve” (jornal “República”, Janeiro de 1934).

Por ocasião do centenário do nascimento de Fausto Sampaio, em 4 de Abril de 1993, Tavares Correia esteve presente na homenagem que a Câmara Municipal de Anadia prestou ao ilustre filho da terra. A cerimónia contou com a presença de Maria Barroso Soares, esposa do Presidente da República.

Sobre Fausto Sampaio, escreveu Fernando de Pamplona: “Verdadeiro pintor do nosso Ultramar nunca esquecido, fez-nos sentir, em suas telas de viva palpitação cromática, o encanto, o sabor, o sortilégio dessas terras espalhadas pelo vasto Mundo” (1) - sentimentos evocados na exposição que decorre no Museu do Oriente até ao dia 27 de Setembro.

Tavares Correia com a viúva de Fausto Sampaio, D. Maria José Sampaio - Anadia, 4 de Abril de 1993


Tavares Correia com a filha de Fausto Sampaio, Drª Teresa Sampaio, que foi Secretária de Estado do governo de Sá Carneiro - Anadia, 4 de Abril de 1993.

Fontes:
Dicionário de Pintores e Escultores Portugueses, (1) volume V, pág. 122.
Dicionário de Autores Casapianos, Biblioteca-Museu Luz Soriano/Ateneu casapiano, de António Bernardo e José dos Santos Pinto.
Catálogo da exposição anual de Tavares Correia, Dezembro de 1993.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Exposição "Centenário de Tavares Correia"

Foi inaugurada no dia 21 de Fevereiro, na sala de exposições do Posto de Turismo de Seia, uma exposição comemorativa do centenário de Tavares Correia (1908-2008).

Apesar de tardia, a comemoração tem o mérito de proporcionar uma importante exposição, que reune algumas obras interessantíssimas e bem representativas da melhor fase da pintura de Tavares Correia.

Para além de alguns desenhos realizados durante a sua formação na Sociedade Nacional de Belas Artes, nos anos 20, a exposição mostra obras que Tavares Correia exibiu em Paris, de pequeno formato, assim como apontamentos de viagem (desenhos, aguarelas) e um bom conjunto de retratos: sua mãe, a esposa e o avô materno - que Tavares Correia recordava com saudade - para além dos auto-retratos.

O Dr. José Albano do Couto Tavares Segurão (1844-1932) era Sub-Delegado de saúde à data do nascimento do neto - no antigo Solar de Pedro de Cêa, situado na cerca do castelo. Chegou a Presidente da Câmara Municipal (1914) e Administrador do Concelho. Foi o Dr. Albano quem ofereceu a Tavares Correia os primeiros materiais de desenho e pintura, em 1925.

À entrada da sala de exposições, pode ver-se um auto-retrato da última fase da pintura de Tavares Correia, baseado numa foto de que o artista gostava particularmente. Esta foto foi reproduzida em catálogos das suas exposições anuais e no cartaz do Prémio Nacional de Pintura Tavares Correia, a seu pedido, por ocasião dos Encontros de Arte '93. No quadro pode ainda ver-se o brasão dos Corrêa de Carvalho.
Aqui ficam algumas imagens da exposição.

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D. Esther Tavares do Couto Segurão Corrêa




Dr. José Albano do Couto Tavares Segurão

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

O Tavares Correia de Garanhuns

Na sequência do trabalho que venho realizando sobre Tavares Correia, no âmbito das Artes em Seia, fui há dias parar a Garanhuns, cidade brasileira do Estado de Pernambuco e terra natal do actual Presidente do Brasil, Luís Inácio Lula da Silva.
O artista senense Tavares Correia nunca passou por Garanhuns, tendo conhecido apenas o Rio de Janeiro, mas um seu homónimo dá nome a uma praça, um hotel e várias pequenas empresas dessa cidade. Meti-me a caminho de Garanhuns na Enciclopédia Geográfica e depois no Google, com a atenção bem desperta pois é frequente nestas deambulações ocasionais topar-se com particularidades dignas de nota e de muitos sublinhados. Foi o caso.


O Tavares Correia pernambucano foi afinal o “descobridor” de Garanhuns, uma cidade a 228 km de Recife, onde residem cerca de 118 mil almas. A origem de Garanhuns remonta às guerrilhas dos escravos Quilombolas (início do século XVIII) e deve o seu nome a um pássaro preto da região, “Guiránhum”. Ganhou o estatuto de cidade em 1879.

Porém, a maior particularidade de Garanhuns é a sua localização, no alto da Serra da Borborema, a 896 metros de altitude, na região denominada Agreste. Ou seja, em pleno Estado de Pernambuco, conhecido pelas praias magníficas e calor intenso, encontra-se uma cidade cujas temperaturas médias variam entre os 9 graus no Inverno (5 nos pontos mais altos do município) e os 25 graus no Verão (18 nos locais mais elevados) e fica sobre uma reserva hidromineral. Por esta razão é considerada “a suíça brasileira”, disputando o primeiro lugar na “categoria” com outra cidade muito fria para o padrão brasileiro, Campos do Jordão, no Estado de São Paulo.

Não admira, portanto, que Garanhuns viva do turismo, vendendo as benesses refrescantes do clima e a sua famosa água mineral, mas também o vinho – sendo Julho o melhor mês para o vinho e o fondue. No Inverno, uma verdadeira multidão de gorro, cachecol e luvas, reúne-se em Garanhuns para o Festival de Inverno, nove dias de animação “24 sobre 24 horas” com vários pólos de atracção.


A animação inclui as Artes Plásticas, com destaque para a Grande Exposição de Artes Plásticas ao Ar Livre, que reúne obras dos artistas locais, realizada precisamente na Praça Tavares Correia (defronte do Relógio de Flores), com o apoio da Prefeitura de Garanhuns, através do seu Departamento de Cultura.

A Praça Tavares Correia é um dos locais mais aprazíveis da cidade, contendo o busto de Tavares Correia e o Relógio de Flores. Este relógio, único no Norte e Nordeste do Brasil, possui 4 metros de diâmetro e funciona a cristal de quartzo.

Fontes: Enciclopédia Geográfica, SRD / Guia do Recife e Pernambuco / Jornal Folha de São Paulo / IBGE e Governo do Estado de Pernambuco (informação e créditos fotográficos) / wikipedia.

Localização, na planta de Seia, das ruas com nome de artistas

Voltando ao assunto da Rua Tavares Correia, apresenta-se agora o mapa da cidade (1) com a localização dessa e de outras artérias que evocam figuras das artes locais. Ignora-se se a rotunda actualmente em construção junto às piscinas municipais (nº 33 no Mapa), quebrando a Rua Tavares Correia em duas, permitirá manter a actual designação.

Existem várias avenidas e ruas com nomes de escritores / homens de letras locais, sem esquecer o incontornável Luís de Camões ou o agradável Silva Gaio (autor do romance “Mário”, cuja acção decorre em São Romão), mas no que respeita às artes chegámos a 4 nomes.


A – Rua José Tavares Correia de Carvalho (Seia, 1908 – Coimbra, 2005)
B – Rua Pintor Lucas Marrão (Seia, 1824 – Lisboa, 1894)
C – Travessa Eduardo Correia (Fotógrafo, Porto, 1881 – Seia, 1973)
D – Rua Dr. Avelino Cunhal (Seia, 1887 – Lisboa, 1966)



Avelino Henriques da Costa Cunhal não foi propriamente artista plástico mas era um intelectual multifacetado, com obra literária conhecida e alguma produção plástica.

Liberal e republicano, o pai de Álvaro Cunhal chegou a Governador Civil da Guarda durante a I República. Nunca foi comunista mas opôs-se frontalmente ao regime de Salazar ao defender presos políticos em tribunal, leccionando na "Universidade Popular", e até nas actividades de tempos livres, escrevendo e pintando.

Publicou cinco livros: Senalonga, Nevrose e três peças teatrais – sob o pseudónimo de Jorge Serôdio. Foi ainda colaborador da revista Seara Nova.

Na área da pintura, conhecem-se poucas obras de Avelino Cunhal. Há coisa de dois anos, apareceu no mercado um quadro a óleo s/madeira, de sua autoria, que esteve exposto na Sociedade Nacional de Belas Artes.

A propósito de exposição na SNBA, refira-se que um dos seus quadros mais famosos é "O Menino da Bandeira Branca", que foi apreendido pela P.I.D.E. em Maio de 1947, por ocasião da II Exposição Geral de Artes Plásticas na SNBA. A exposição contou com 89 artistas participantes, muitos deles unidos na oposição ao regime salazarista. Avisado dos secretos objectivos da exposição, o regime reagiu na primeira página do jornal Diário da Manhã ("órgão da unidade nacional") e efectuou uma rusga policial à exposição. Foram apreendidos seis quadros, entre os quais o de Avelino Cunhal, e alguns artistas foram interrogados pela P.I.D.E. Este acontecimento é marcante na história do neo-realismo português pois transformou as Exposições Gerais da SNBA num reduto neo-realista e levou a censura prévia à exposição seguinte (Maio de 1948). Foi a primeira vez, em Portugal, que houve censura prévia nas artes plásticas. Eis mais uma curiosidade da vida de Avelino Cunhal.



www.vidaslusofonas.pt/alvaro_cunhal.htm



(Fontes: Roteiro Turístico de Seia, JFS-Héstia (mapa) / Escritores e Artistas Senenses, J. Quelhas Bigotte, 1986 / Exposições Gerais de Artes Plásticas - Arte Portuguesa-Anos Quarenta, FCG, vol.1, 1982.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

No centenário do nascimento de Mestre Tavares Correia

Tavares Correia e Helena Abreu são, sem qualquer dúvida, os mais importantes artistas senenses de sempre. Helena Abreu (Santa Eulália, 1924) tem obra reconhecida e premiada em Portugal e no estrangeiro. Foi homenageada pela Câmara Municipal do Porto, pelo seu contributo para as Artes portuenses, e pelo Município de Seia e Artistas Senenses, enquanto artista natural do concelho.

José Tavares Correia de Carvalho nasceu em Seia pelas 5 horas da madrugada do dia 5 de Dezembro de 1908 e faleceu a 21 de Setembro de 2005*, no Hospital da Universidade de Coimbra, a poucos dias do seu 97º aniversário. Faria 100 anos no passado dia 8 de Dezembro, mês em que o realizador Manoel de Oliveira festejou efectivamente o centenário ainda no activo, cheio de vida e de projectos para mais filmes. Voltando ao artista senense, note-se a curiosa coincidência entre as datas supracitadas e a data do falecimento de sua esposa, D. Lúcia Mota Veiga, que nos deixou a 21 de Dezembro de 1992.

Em Fevereiro de 2009, realizou-se em Seia uma importante exposição evocativa da obra do artista.

A vida e obra de Tavares Correia encerra tais particularidades e curiosidades que ele se tornou, naturalmente, um protagonista das Artes em Seia durante a quase totalidade do século XX e, sem qualquer favor, o seu mais completo representante. Consultar o currículo do artista mais abaixo.


Brasão da Família Correia


Primeiro, pela diversidade dos seus interesses artísticos, pontuados por alguns momentos de experimentalismo, e variedade da sua produção artística, desdobrando-se pelas mais diversas áreas criativas e expressivas, do desenho à escultura, com destaque para a pintura, mas também a escrita (sobretudo autobiográfica e de viagens), a fotografia e o cinema. Depois, pela sua dedicação a Seia, onde residiu e trabalhou quase toda a vida, abdicando de uma promissora carreira artística de âmbito nacional (ler artigo mais abaixo) para se tornar conhecido como artista de província, na terra pacata que o viu nascer, próximo dos familiares e amigos de sempre – sem nunca esquecer os seus antigos companheiros e amigos casapianos. Um imenso carinho pela sua terra natal transparece calaramente na sua obra, desde logo na selecção dos temas (a paisagem natural e urbana com neve, os costumes serranos, a história e personalidades de Seia) mas também no orgulho com que se intitulava “Pintor da Neve”.

Em 1930, à data da exposição na SNBA (foto jornal O Casapiano)

Surdo-mudo de nascença, frequentou o Instituto de surdos-mudos da Casa Pia de Lisboa de 1918 a 1927, realizando aí os seus estudos escolares e artísticos, de 1923 a 1926, sob a direcção de Augusto de Campos e Pedro Guedes. Estes artistas reconheceram a sua vocação para as artes e levaram-no a frequentar os cursos de desenho e pintura da Sociedade Nacional de Belas-Artes, que concluiu em 1929.

Tavares Correia ficou conhecido como “pintor da neve” após uma referência elogiosa do jornal “República” em Janeiro de 1934, a propósito de uma bem sucedida exposição do artista senense em Lisboa, dois anos depois da célebre exposição na Sala Balone (onde vendeu todos os 45 quadros logo na abertura) e três anos após a sua participação na XIX Exposição da Sociedade Nacional de Belas Artes (com três quadros seleccionados por Armando Lacerda). Deixou uma obra imensa e variada, que falta catalogar – no interesse de todos os senenses mas, sobretudo, no dos herdeiros – e dar conhecer, através de exposições temáticas do seu espólio, ou mesmo instituindo um museu. A este propósito, ignora-se a situação da sua Casa-museu e da Fundação D. Lúcia Celeste Mota Veiga e Mestre Tavares Correia.

Distinguido com a Medalha de Mérito Municipal em 1985, o pintor senense faleceu sem ter assistido, em vida, ao sonho de ver o seu nome atribuído a uma rua da cidade de Seia, afinal um compromisso assumido pela Câmara Municipal de Seia em 1988, na homenagem realizada por ocasião do seu 80º aniversário, e apesar dos ofícios do próprio e dos amigos José dos Santos Pinto, J. Quelhas Bigotte, Victor Moura (ao tempo, Vereador do pelouro da Cultura), Joaquim Andrade, José Manuel Marques, Manuel de Almeida Sousa, eu próprio e Mário Jorge Branquinho. Tal incumprimento deveu-se, sobretudo, ao preconceito de incluir na toponímia local o nome de figuras ainda vivas, um complexo já então abandonado por uma boa parte dos municípios portugueses, que inauguravam com pompa e circunstância as suas avenidas, ruas e pracetas homenageando políticos, desportistas, escritores e artistas locais. Não terá ajudado muito a insistência de Tavares Correia no que respeita à escolha da rua, apesar de compreensível pois a Câmara Municipal não propunha alternativa nem deixava propôr. O artista perdeu a paciência e encomendou duas placas toponímicas, uma com o seu nome – para ser colocada na rua que passa junto da casa onde nasceu e residia (Rua Dr. Simões Pereira) e outra com o nome do fundador do castelo de Seia, no século XI, Cavaleiro Pedro de Cêa”, destinada a outra rua, mas a Câmara acolheu mal a iniciativa, nem resposta lhe deu e as ditas placas terão desaparecido. Com a morte de Tavares Correia esfumou-se igualmente o óbice principal, passou-se uma esponja sobre quase vinte anos de indecisão, artigos de jornal, requerimentos, placas desaparecidas, … A 03 de Julho de 2006, no 20º aniversário da elevação de Seia à categoria de cidade, o nome do pintor senense foi finalmente atribuído à rua das escolas, que começa ao fundo da Beira Lã e segue pela piscina municipal a caminho da Escola Secundária. Se é evidente que a vontade do falecido não foi integralmente respeitada, com todos os riscos apontados pela superstição popular, parece-me que a Câmara Municipal acabou por cumprir bem a sua promessa ao associar o nome de Mestre Tavares Correia às escolas - sobretudo à Escola Básica que foi baptizada com o nome do seu primo, Dr. Guilherme Correia de Carvalho - onde o artista e a obra despertarão renovada curiosidade ao longo de gerações, contribuindo certamente para a formação integral dos nossos jovens, a seu tempo protagonistas de um futuro sempre em renovação.

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*Em Junho de 2005, terminara a existência física do poeta Eugénio de Andrade (82 anos) e de Álvaro Cunhal (91 anos), figuras ímpares da Cultura portuguesa do século XX, o segundo dos quais com ligações a Seia, assim como do controverso Vasco Gonçalves (83 anos). Nesse ano, Seia também perderia (entre muitas outras boas pessoas) a Drª. Ester Barata Nunes Pereira (26 de Janeiro), Marciano Galguinho (21 de Novembro) e Manuel Dias da Silva (Dezembro), colaborador do jornal Porta da Estrela.



















"Depois da Feira" - Óleo s/tela


BIOGRAFIA RESUMIDA


José Tavares do Couto Segurão Correia da Silva Carvalho nasceu em Seia, a 5 de Dezembro de 1908. Faleceu a 21 de Setembro de 2005, no Hospital da Universidade de Coimbra.

Surdo-mudo de nascença, foi aluno do Instituto de Surdos-Mudos da Casa Pia de Lisboa entre 1917 e 1926. Nessa instituição, completou a instrução primária e desenvolveu a comunicação com o mundo exterior centrada na expressão artística.

Em 1927, voltou à Casa Pia como pensionista, com o intuito de seguir uma profissão de desenhador ou pintor de arte. Pintava e desenhava todas as manhãs e, à tarde, tinha lições de pintura com Augusto de Campos, em Lisboa. Na Casa Pia, tirou o curso de desenhador, tendo depois frequentado aulas na Escola de Belas Artes de Lisboa, como aluno externo. Aí, conheceu mestre Alves Cardoso, que lhe deu aulas de pintura e propôs a sua entrada na Sociedade Nacional de Belas Artes. Um decreto do Ministério da Educação da altura mudou as regras de admissão à Escola de Belas Artes e Tavares Correia prosseguiu os seus estudos na SNBA. Expôs na XIX Exposição da SNBA, onde obteve uma Menção Honrosa. A 14 de Julho de 1929 fez o seu exame de pintura, tendo obtido 14 valores de um júri presidido pelo mestre Carlos Reis.
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"Envasilhando o vinho do Dão" - Óleo s/tela (Casa-Museu Tavares Correia)


Em 1929, rumou a Paris com o seu amigo casapiano Fausto Sampaio. Na capital francesa, desenvolveu a sua técnica de pintura com Lyon Arno e, juntamente com Fausto Sampaio e Carlos Botelho, representou Portugal no Salão Internacional das Artes de Paris. Depois, expôs em Lisboa em 1932, onde vendeu todas as 43 obras expostas. A crítica de então deu-o como “uma revelação no meio artístico português”. Expôs novamente em Lisboa em 1934 e a crítica lisboeta voltou a enaltecer o seu trabalho e chamou-lhe “pintor da neve”.

Optou, depois, por uma carreira profissional muito absorvente, na Câmara Municipal de Seia, sacrificando uma carreira artística nacional – talvez mesmo internacional – para se dedicar ao desenvolvimento sua terra natal. Durante 41 anos, elaborou milhares de projectos de obras, estradas, águas, calcetamentos de ruas, escolas, cemitérios.

Continuou, no entanto a pintar e a expor, tendo realizado cerca de 40 exposições individuais em Seia, Lisboa, Figueira da Foz e Moimenta da Beira.

Tavares Correia ilustrou, com Luís Melo, a Monografia da Vila/Cidade de Seia, da autoria do Padre Dr. José Quelhas Bigotte, Reitor de Seia e reputado investigador da história senense.

Autor do projecto do Monumento aos Mortos da Grande Guerra, em Seia, do monumento a Nossa Senhora da Conceição, em São Romão, e do Padrão Centenário.

Tavares Correia foi também pioneiro do cinema em Seia, realizando alguns filmes das suas viagens (37 países entre 1950 e 1990) e uma ficção intitulada “O cão perdeu o dono”. Os seus filmes foram premiados no país, antigo Ultramar, Espanha, Malta e África do Sul.


Mário Soares visitando a exposição de Tavares Correia em 1987

A 4 de Março de 1934, por iniciativa do jornal “A Voz da Serra”, foi prestada uma homenagem ao “nóvel artista-pintor Tavares Correia” com almoço no Salão da Associação de Socorros Mútuos de Seia.

Em 25 de Setembro de 1985, foi distinguido pela Câmara Municipal de Seia com a Medalha de Ouro e Diploma de Mérito Municipal.

Em 5 de Dezembro de 1988, foi homenageado pela Casa Pia de Lisboa e Câmara Municipal de Seia, num almoço no Hotel Camelo que reuniu 98 pessoas, incluindo uma representação da Casa Pia de Lisboa (mandatada pelo Provedor de então, Dr. Luís Manuel Martins de Rebelo) Presidente e vereadores da Câmara Municipal de Seia.

A 09 de Março 1996, Tavares Correia foi homenageado na Casa Pia, por ocasião do convívio anual de colaboradores e amigos do jornal “O Casapiano”, com a presença do provedor e da direcção do Ateneu Casapiano (CPAC).

As limitações físicas da idade obrigaram-no a deixar de pintar em 2000. Contava 92 anos de idade e 74 de actividade artística. A sua última exposição (“adeus última”) realizou-se no Salão do Rancho Folclórico de Seia, entre 12 e 20 de Agosto de 2000. Continuou, no entanto, a participar regularmente nas exposições anuais dos artistas senenses.


Em 1993 e 1996 realizaram-se duas edições do Prémio Tavares Correia/Concurso Nacional de Pintura e Desenho, com o apoio da Secretaria de Estado da Cultura e Ministério da Cultura, respectivamente.

A 03 de Julho de 2006, como ponto alto do 20º aniversário da elevação de Seia a Cidade, a Câmara Municipal organizou uma exposição sobre a vida e obra de Tavares Correia, na Casa Municipal da Cultura, e inaugurou a Rua José Tavares Correia de Carvalho.

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"Gansos derrubam o banco do autor" - Óleo s/tela (Casa-Museu Tavares Correia)


Humberto Mota Veiga, dirigente histórico do PCP em Seia, escreveu a propósito do monárquico Tavares Correia: “Viveu e sonhou com a humildade própria da sua grandeza, iluminado por um sentido ímpar de uma vida diferentemente vivida, sem espaço para ódios e vinganças” (Porta da Estrela, 20/05/93).

Tavares Correia saiu de Seia como “menino Zézinho”, em 1917, e regressou em 1929 como pintor de arte, para realizar (a 14 de Agosto) a sua primeira exposição na terra que o viu nascer. A exposição foi um sucesso. Logo depois, partiu de Seia para voltar em 1930 como pintor “estrangeirado”, após representar Portugal (com Fausto Sampaio e Carlos Botelho) numa grandiosa exposição internacional em Paris, realizada em Dezembro de 1929. A Vila de Seia era, então, pouco mais que uma aldeia grande e andava esquecida desde que Afonso Costa (1871-1937) fora obrigado a exilar-se.

A sociedade elitista da época recebeu efusivamente o jovem pintor e vibrou com os estrondosos sucessos das suas primeiras exposições em Lisboa, em 1932 e 1934. A 4 de Março de 1934, por iniciativa do incomparável senense Luís Ferreira Matias, o jornal “A Voz da Serra” promoveu um almoço de homenagem “ao novel artista-pintor Tavares Correia”, que decorreu no Salão da Associação de Socorros Mútuos senense. Estiveram presentes 44 pessoas, certamente “a nata” da sociedade senense da época, e os convites para integrar os quadros técnicos da Câmara Municipal de Seia não se fizeram esperar.

Os primeiros convites foram liminarmente recusados. Os sonhos do jovem artista iam para além de um emprego com limitações de espaço e de horários, mas que oferecia, em contrapartida, a segurança de uma remuneração certa. De resto, era de grande elegância, à época, ocupar os momentos de ócio com actividades “do espírito”, tais como a leitura ou a música, e Tavares Correia foi soçobrando ao apelo das origens, ao aconchego familiar e aos ideais da fidalguia rural – que sempre defendeu pelo menos desde 1925, quando recebeu das mãos de seu pai o anel com o brasão de armas dos Corrêas, um gesto carregado de simbolismo e correspondentes obrigações. A morte do avô materno em Outubro de 1934 e a construção de uma casa com parte dos lucros das exposições em Lisboa, onde vendeu todos os quadros, contribuíram para a fixação definitiva. Em Março de 1937 casou com D. Lúcia Mota Veiga mas não houve descendência.

Durante 41 anos, Tavares Correia foi um qualificado desenhador da Câmara, combinando a prática artística e o desenho técnico na medida do possível, ou seja, descurando a apresentação regular da sua produção artística devido ao absorvente trabalho de gabinete e depois à exploração de novos interesses, com destaque para o cinema e viagens – que chegou a aproveitar para promover os seus filmes. Na verdade, a lista oficial de exposições do artista contempla apenas duas exposições no período compreendido entre Abril de 1937 e Agosto de 1980. Em contrapartida, pode dizer-se que o pintor senense participou activamente na construção da actual cidade de Seia, tantos foram os projectos realizados e as obras de transformação de uma vila que só depois de 1974 se converteu ao betão e à construção em altura, com o primeiro objectivo de conter os limites do centro de Seia e logo depois com a intenção de os alargar cada vez mais a caminho de São Romão – uma inevitabilidade que Tavares Correia compreendia enquanto consequência do crescente desenvolvimento senense nas três últimas décadas mas sem perder uma oportunidade de mostrar o seu desencanto pelo exagero de alguns volumes construídos, a monotonia das fachadas, a desarmonia do conjunto.







Sérgio Reis – “As Artes em Seia” (obra em preparação)

EXPOSIÇÕES INDIVIDUAIS

Exposição de pintura (Seia, Agosto de 1929) – 36 quadros

Exposição de pintura (Seia, Agosto de 1930) – 35 quadros

Exposição de pintura (Seia, Setembro de 1931) – 43 quadros

Exposição de pintura na Sala Balone (Lisboa, Março de 1932)

Exposição de pintura (Seia, Agosto de 1932)

Casa das Beiras (Lisboa, Março de 1934)

Exposição de pintura (Casino da Figueira da Foz, Setembro de 1934)

Exposição de pintura (Seia, Março de 1936)

Exposição de pintura (Salão dos Bombeiros Vol. de Gouveia, 1936)

Exposição de artes plásticas (Viseu, Setembro de 1936)

Exposição de artes plásticas (Estoril, Dezembro de 1936)

Exposição de pintura (Seia, Julho de 1937)

Exposição de aguarela (Seia, Abril de 1947)

Exposição de aguarela (Seia, Agosto de 1950)

Exposição de pintura (Seia, Agosto de 1980)

Exposição de pintura e aguarela (Seia, Julho de 1982)

Exposição de pintura e aguarela (Seia, Março de 1983)

Exposição de pintura (Seia, Março de 1984) – 35 quadros sobre o tema “Neve”

Exposição de pintura e aguarela (Seia, Agosto de 1985)

Exposição de pintura (Seia, Julho de 1986)

Exposição de pintura (Seia, Maio de 1987)

Exposição de pintura (Seia, Julho de 1987)

Exposição retrospectiva (Salão das Magnólias, Seia, Dezembro de 1988)

Exposição de pintura (Seia, Julho de 1989)

Exposição de pintura (Seia, Setembro de 1990)

Exposição de pintura (Seia, Janeiro de 1991)

Exposição de pintura (Moimenta da Serra, Fevereiro de 1991)

Exposição de desenho (Seia, Agosto de 1991)

Exposição de pintura (Escola Secundária de Seia, Fevereiro de 1992)

Exposição de pintura (Escola Evaristo Nogueira, S. Romão, Março de 1992)

Exposição de pintura (Galeria da Biblioteca M. de Seia, Dezembro de 1992)

Exposição de pintura (Res. Serra da Estrela, Seia, 1 a 8 de Dezembro de 1993)

Exposição de pintura e desenho (Res. Serra da Estrela, Seia, 1 a 11 de Dezembro de 1994)

Exposição de pintura e desenho (Res. Serra da Estrela, Seia, 1 a 12 de Dezembro de 1995)

Exposição de pintura e desenho (Galeria da Biblioteca Municipal de Seia, 9 a 17 de Novembro de 1996)

Exposição de pintura (Seia, 1997)

Exposição de pintura e desenho (Seia, 1998)

Exposição de pintura e desenho (Seia, 1999)

Exposição de pintura e desenho (“adeus última”), Salão do Rancho Folclórico de Seia (12 a 20 de Agosto de 2000)

EXPOSIÇÕES COLECTIVAS

Salão de Paris – exposição internacional (Paris, 1929)

Exposição da SNBA (Lisboa, 1930)

Exposição da SNBA (Lisboa, 1931)

II Exposição de Pintura da Casa Pia (Belém, 1935)

Exposição Internacional de Aguarela (Madrid, 1935)

V Exposição de Artes Plásticas (Estoril, 1936)

Colectiva de Artistas da Beira (Museu Grão Vasco, Viseu, 1986)

Exposição de Artistas Senenses (Domfront, França, 1988)

I Colectiva dos Artistas Senenses (Seia, 1999)

II Colectiva dos Artistas Senenses (Seia, 2000)

III Colectiva dos Artistas Senenses (Seia, 2001)

ARTIS II (Seia, 2003)

ARTIS III/Homenagem dos Artistas Senenses (Seia, 2004)

Artistas Senenses em Lisboa, Centro Cultural Casapiano (Belém, 11/09 a 03/10/2004)

PRÉMIOS E DISTINÇÕES


Taça Cineasta Amador, Figueira da Foz (1966)

Taça Cineasta Amador, Guimarães (1967)

Taça Cineasta Amador, Coimbra (1967)

Taça Cineasta Amador, Rio Maior (1967)

Salva de Prata Cineasta Amador, Lisboa (1968)

Salva de Prata, Câmara Municipal de Seia (1979)

Medalha de Mérito Municipal, Câmara Municipal de Seia (1985)

Homenagem promovida pelo jornal senense “A Voz da Serra”, com almoço no Salão da Associação de Socorros Mútuos de Seia, a 04 de Março de 1934.

Homenagem da Casa Pia de Lisboa e da Câmara Municipal de Seia, Dezembro de 1988.

Homenagem na Escola Evaristo Nogueira, por ocasião da entrega do Prémio Tavares Correia e Troféus do Concurso Nacional de Pintura, 27 de Novembro de 1993.

Homenagem da Casa Pia, por ocasião do convívio anual de colaboradores e amigos do jornal “O Casapiano”, com a presença do provedor e da direcção do Ateneu Casapiano (CPAC), 09 de Março de 1996.

Homenagem dos Artistas Senenses na ARTIS III – Auditório da Casa M. da Cultura, 8 de Maio de 2004

Exposição sobre a vida e obra de Tavares Correia, promovida pela CMS na Casa Municipal da Cultura, por ocasião da comemoração do 20º aniversário (03 de Julho de 2006) da elevação de Seia a cidade, e foi inaugurada a Rua José Tavares Correia de Carvalho.