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domingo, 5 de março de 2017

A Arte da Devoção - Ex-votos do concelho de Seia


Publicado no jornal Porta da Estrela nº 1046, 16 dezembro 2016

Encontra-se patente nas galerias da Casa da Cultura de Seia até 06 de janeiro 2017 uma interessante exposição de Ex-Votos, promovida pela Santa Casa da Misericórdia de Seia e organizada pela arqueóloga senense Rita Saraiva.

Intitulada “A Arte da Devoção”, a mostra apresenta uma grande variedade de Ex-Votos (tábuas votivas policromadas, objetos em cera e fotografia) recolhidos em várias igrejas e capelas do concelho, permitindo compreender o fenómeno do ex-voto nesta região no seguimento da sua difusão europeia a partir do século XVII, com maior expressão no século XVIII e XIX. Muitos santuários portugueses ostentam imponentes “salas dos milagres”, repletas de ex-votos, enquanto em algumas igrejas e capelas do Interior ainda há poucos anos continuavam esquecidos em armários ou a apodrecer em vãos de escada. Felizmente que a estima pela arte popular, compreensão da sua importância etnográfica e valorização como Património Cultural, permitiu salvar autênticas preciosidades – como as que podemos apreciar nesta surpreendente exposição.

O termo “ex-voto” deriva da expressão latina “ex-voto suscepto”, que significa “o voto realizado” por força de uma promessa. Exprime assim a religiosidade e devoção mas, ao representar o milagre ou a graça recebida (geralmente a salvação em situação de grande perigo, perda de bens, alívio ou cura de moléstias diversas), mobiliza os saberes e gostos dessa época, localidade, grupo social, e constitui um interessante objeto de estudo para antropólogos, arqueólogos, linguistas, historiadores de arte.

No que respeita à pintura, bem representada na exposição através de tábuas e telas votivas policromadas, com ou sem data, o que salta imediatamente à vista é a adorável ingenuidade das cenas pintadas com os únicos intuitos de agradar ao santo da devoção reconhecendo e publicitando o pedido atendido. Com mais ou menos desenho e pintura, com melhores ou piores tintas. Como escrevia Nicolau Tolentino ainda no séc. XVIII, “São más as tintas; mas é bom o intento”.

Uma boa parte dos ex-votos pintados são oriundos dos Santuários de Nossa Senhora do Desterro e de Santa Eufémia, enquadrando-se nos formatos mais usados em Portugal, de acordo com os estudos de Rocha Peixoto. As cenas pintadas são inspiradas pela pintura erudita, que os fiéis encontram nas igrejas e capelas para as evocações religiosas e catequese, assim como pela pintura das alminhas e “milagres”, com uma estrutura que seguia os modelos da época: o miraculado de um lado, frequentemente o doente acamado, e do outro a radiosa aparição do santo invocado. Em baixo, a legenda explica o ocorrido, identificando o santo, o miraculado e, às vezes, o suplicante.

O nível de representação, uso de tela e de boas tintas revela que estamos na presença de um artista profissional, existindo na exposição dois destes trabalhos, assinados e datados, realizados por Augusto C. R. F. da Costa (Gouveia, 1877) e F. J. Baptista, provavelmente de Viseu. Apenas as pessoas de maior posição social tinham possibilidade de encomendar ex-votos a pintores de maior nível enquanto as restantes recorriam a pintores amadores e aprendizes, que por vezes se encontravam a trabalhar nas pinturas de tetos e aparatos dos altares nas igrejas e capelas do século XVIII e XIX. A dificuldade em obter tintas, à época, assim o sugere, uma vez que a confeção das tintas exigia acesso a materiais por vezes inexistentes na região, alguns importados, assim como conhecimentos técnicos do processo de obtenção das tintas.
Sérgio Reis










quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Artistas senenses pintam mural alusivo ao 20º Cine’Eco e expõem fotografia de Natureza


Uma das atividades paralelas do 20º Cine’Eco, pensada para marcar esta edição histórica, foi a pintura de um mural com cerca de 30 metros, na Avenida D. Ester Barata, junto à Central de Camionagem de Seia. Outra, não menos relevante devido ao interesse das obras, é a exposição de fotografia de Natureza de Pedro Ribeiro, intitulada “Natureza Mágica”, que decorre até final de outubro no foyer do cineteatro. A Associação de Arte e Imagem é uma das principais parceiras do Cine’Eco.

Uma equipa de 5 artistas plásticos, dois de Seia e três convidados, trabalharam intensamente durante todo o dia da abertura do Cine’Eco, mas a chegada da chuva, pelo final da tarde, obrigou ao adiamento dos últimos retoques para o sábado seguinte. Luiz Morgadinho e Tania Antimonova (pelos artistas de Seia), Alexandre Magno (Mangualde), Manuel Machado (Oliveira do Hospital) e Vitor Zapa (Braga), partiram de um esboço inicial organizado a partir de um elemento central, uma película cinematográfica, rodeada por vários elementos naturais e humanos representativos da Serra da Estrela: um rebanho e o respetivo pastor, um burro pastando, um muro antigo de granito, o recorte da montanha, a cidade e a flor que é o símbolo do concelho de Seia, a campanula herminii, típica dos prados e urzais da Estrela. Evoca-se ainda o sistema de projeção antigo, com a tradicional máquina de bobines, uma vez que o cineteatro já dispõe de equipamento digital, tendo os artistas aproveitado a oportunidade para uma singela homenagem ao projecionista Zeca, funcionário da Casa da Cultura.

A pintura mural encontra-se no acesso pedonal ao centro da cidade e é visível de vários ângulos, inclusive das varandas do Hotel Camelo. Espera-se agora que esta iniciativa tenha continuidade e que a própria Câmara promova a pintura artística dos restantes muros.

No Foyer do Cineteatro, Pedro Ribeiro mostra um bom conjunto de fotografias de Natureza, paisagem e vida selvagem, com grande realismo, riqueza de pormenor, sentido estético - na composição e na hábil utilização da cor. Tudo servido por uma qualidade técnica que reforça o poder de sedução das imagens. Quase sentimos o fervilhar da vida em ambientes naturais que os visitantes da Estrela vão encontrando nas suas caminhadas pelo interior da montanha mas raramente com a beleza e intensidade mágica que podemos admirar nestas fotografias.


Pedro Ribeiro é licenciado em Educação Visual e Tecnológica e Mestre em Design Gráfico, incluindo-se a Fotografia e a Pintura na sua formação pluridisciplinar. Na área da fotografia, é fotógrafo freelancer, colaborador de revistas especializadas, com diversos primeiros prémios em concursos organizados por revistas de fotografia e pelo C.I.S.E. – Centro de Interpretação da Serra da Estrela.

 Manuel Machado, Luiz Morgadinho, Alexandre Magno, Vitor Zapa, Tania Antimonova

Sérgio Reis, Manuel Machado, Alexandre Magno e Tania Antimonova