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segunda-feira, 13 de maio de 2013

Alberto Carneiro, artista-poeta da natureza


Os ramos parecem tocar a superfície espelhada de um lago, na qual se refletem. Foto: Glória Reis

A obra de Alberto Carneiro, artista-poeta da natureza, encontra-se de regresso (1) a Serralves. Até 24 de junho, decorre no Museu de Serralves a exposição intitulada “A Arte Vida/Vida Arte: Revelações de Energias e Movimentos da Matéria”.

A exposição integra 21 momentos, cada qual com uma unidade própria, partindo de elementos naturais de que o artista se apropriou, isolando-os do seu espaço lógico, do espaço vivo, incorporando-os no espaço da memória – na medida em que fazem parte da vida do artista – para o tornar um espaço físico de sensações e emoções, um espaço estético, um espaço vivo. A Arte é Vida.

Mas também um espaço partilhado, no qual o visitante é chamado a fazer parte das obras - refletido nos diversos espelhos que as integram, ao circular entre elas, perspetivando a sua presença material em contraponto com a “natureza viva” (pessoas, avistamentos do jardim de Serralves) e os espaços do Museu criados por Siza Vieira. Uma exposição que reúne a arte, a natureza e as pessoas” (2).

Alberto Carneiro (n. São Mamede do Coronado, Trofa, 1937) familiarizou-se muito cedo com a escultura em madeira e pedra, trabalhando desde os 10 até aos 21 anos numa oficina de santeiros em São Mamede do Coronado. Após terminar o curso de escultura na Escola Superior de Belas Artes do Porto, em 1967, partiu para Londres, onde contactou com as novas tendências da arte britânica, em particular a arte minimal e concetual. A abertura estética que caraterizou os anos 60 e 70 do século XX, levaram-no a conciliar abordagens artísticas de vanguarda com materiais recolhidos na natureza, numa perspetiva ecológica. Nessa época, a ecologia era um conceito novo em Portugal, com potencial vanguardista – no pensamento e nas expressões artísticas – e mesmo político, considerando os parâmetros e objetivos revolucionários dos seus defensores. Basta ver que a “Land Art”, a expressão mais cenográfica da arte ambiental (3), começou como protesto artístico nos anos 60. Outros artistas portugueses dessa época procuraram novos caminhos na arte concetual (4) mas Alberto Carneiro beneficiou da autenticidade e pureza das suas memórias da ruralidade. As “Energias e Movimentos da Matéria” que o artista nos apresenta para partilhar connosco são, afinal, a essência da natureza – patentes nas formas naturais que converteu em obras de arte isolando-as do seu ambiente original, das outras energias e movimentos da natureza, através de experimentadas alquimias. “Eu vibro mais com isto do que com a Mona Lisa”, confessou numa entrevista recente (5) pois as suas obras, criadas com raízes e troncos de oliveiras, laranjeiras, bambus e vimes do seu pomar e propriedades de amigos, estão muito longe de ser apenas matéria de origem natural ou matéria artística – são principalmente memórias e o seu reflexo. O que faz toda a diferença.


(1) - Em 1991, Serralves acolheu uma importante exposição antológica de Alberto Carneiro.
(2) - Suzanne Cotter, diretora artística do Museu de Serralves, Diário de Notícias, 19/04/2013.
(3) - Considerando a amplitude do conceito “arte ambiental”, sugerem-se as seguintes pesquisas complementares: arte ecológica, Land Art, Site-specific art, Arte Povera.
(4) - Como Clara Menéres (“Mulher-Terra-Vida”) e outros, com obra apresentada em 1977, em jeito de balanço, na famosa exposição “Alternativa Zero - Tendências Polémicas na Arte Portuguesa Contemporânea”, organizada por Ernesto de Sousa na Galeria Nacional de Arte Moderna, em Lisboa.
(5) - Público, 19/04/2013.


O espaço da memória: objetos e espelhos aparentemente colocados ao acaso para repararmos neles. Foi a última exposição comissariada por João Fernandes para Serralves. Foto: Glória Reis

Linhas ligeiras, formas ágeis - e o seu reflexo. Foto: Glória Reis



"Arte Vida/Vida Arte". 


Fotos: © Glória Reis. Direitos reservados.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Arte turca em foco na ARCO 2013



A 32ª edição da ARCO abre amanhã em Madrid, reunindo 201 galerias sediadas em 27 países – 11 das quais portuguesas. É a edição mais internacional dos últimos anos, com 66% de galerias (133) estrangeiras.

Este ano, o destaque vai para a Turquia, em colaboração com a Embaixada da Turquia em Espanha e 10 galerias de arte turcas, mas a principal novidade é a mundialização da feira através da Internet, com a oferta do catálogo online, ARCO Bloggers e códigos BiDi para artistas em destaque, mas sobretudo com a ARCO Collect, um mercado online de obras de arte, em colaboração com as galerias. Assim, até 24 de fevereiro, estarão disponíveis para venda através da Internet mais de 1.000 obras com valor abaixo de 5.000 euros. Uma seleção dessas obras, realizada por Tania Pardo, será exposta no pavilhão 10 de feira.

Outra iniciativa em destaque é o 2º Encontro de Museus Europeus e Latino-americanos, que contará com a presença do português João Fernandes, desde janeiro na direção do Museu Nacional Centro de Arte Rainha Sofia – no cargo de subdiretor de conservação, investigação e difusão. Também estará presente a nova diretora do Museu de Serralves, Suzanne Cotter.

As galerias portuguesas presentes na ARCO 2013, são:

- Baginski, Galeria / Projetos, Lisboa – que destaca o artista André Romão (n. Lisboa, 1984. Vive e trabalha em Lisboa)
- Carlos Carvalho, Lisboa – destacando Daniel Blaufuks (n. Lisboa, 1963. Vive e trabalha em Lisboa)
- Carolina Pagés Gallery, Lisboa (Campo de Ourique) – Jesús Alberto Benitez (n. Venezuela, 1978. Vive e trabalha em Lyon).
- Filomena Soares, Lisboa – Pedro Barateiro (n. Lisboa, 1979. Vive e trabalha em Lisboa)
- Fonseca Macedo, Ponta Delgada – Catarina Botelho (n. Lisboa, 1981. Vive e trabalha em Lisboa)
- Mário Sequeira, Braga – Julian Opie (n. GB, Londres, 1958)
- Nuno Centeno, Porto – Carla Filipe (n. em Vila Nova da Barquinha, 1973. Vive e trabalha no Porto)
. Pedro Cera, Lisboa – Matt Keegan (n. EUA, 1976. Vive e trabalha em Nova Iorque)
- Quadrado Azul, Porto – Mika Tajima (n. EUA, 1975. Vive e trabalha em Nova Iorque)
- Vera Cortés, Lisboa – Daniel Gustav Cramer (n. Alemanha, 1975. Vive e trabalha em Berlim)
- 3+1 Contemporary Art, Lisboa (Chiado) – Rosana Ricalde (n. Brasil, Niterói, 1971. Vive e trabalha no Rio de Janeiro)

Duas galerias espanholas destacam a artista Esther Ferrer (San Sebastián, 1937), conhecida pelas suas performances.

A obra vencedora do Prémio Audemar Piguet, da autoria de Juan Luis Moraza (n. Vitoria, 1960), estará exposta no salão VIP.

sábado, 1 de dezembro de 2012

"Noites Brancas" em Serralves


Abriu ao público em Serralves a mais completa retrospetiva da obra de Julião Sarmento realizada até hoje, “Noites Brancas”, integrando mais de 160 obras produzidas desde o final dos anos 60. A última exposição comissariada por João Fernandes, que vai abandonar a direção do museu em dezembro para assumir a direção do Museu Nacional Centro de Arte Rainha Sofia, em Madrid, é uma das maiores exposições já vistas em Serralves, ocupando praticamente todos os espaços do Museu.

A abertura da exposição reuniu muito público, sobretudo na Casa de Serralves, que foi aí confrontado com situações insólitas, integradas no prometido programa de performances, com especial destaque para a senhora que suscitou as mais diversas reações passeando demoradamente entre os convidados totalmente nua, apenas coberta com uma capa de plástico transparente, ou dois gémeos que se observavam narcisicamente, cada qual tomando o outro pelo seu reflexo.

O trabalho de Julião Sarmento (n. Lisboa, 1948) convoca as mais variadas linguagens artísticas para uma abordagem crua do ser humano enquanto corpo e indivíduo, da pose moral ao despojamento psicológico, da perplexidade à solidão. As suas instalações integram pintura, escultura, som, vídeo e multimédia, muitas das quais concebidas para locais específicos (site-specific art).

O termo “noites brancas” é utilizado nos países nórdicos para designar as horas correspondentes ao período noturno durante o verão, quando o sol é visível 24 horas por dia. Em São Petersburgo, as “Noites Brancas” reúnem um conjunto de eventos artísticos oferecidos à população para ocupar as longas “noites” de verão.

sábado, 3 de novembro de 2012

Exposição de Pintura em Seia, 1989

Sérgio Reis, "Mon Diego", 1989, óleo s/tela (Col. José Santos)

Acontecimentos recentes levaram-me a recordar a segunda exposição que realizei em Seia, em 1989, ano em que fui colocado na Escola Secundária de Seia para profissionalização e ainda não contava fixar residência na então jovem cidade (desde 1986). Calhou dar-me com um grupo de pessoas de espírito aberto, vontade de trabalhar e gosto pela sua terra, que me acolheram muito bem e envolveram nas suas dinâmicas sociais e culturais.

Em 1989, Seia não dispunha de uma sala de exposições digna desse nome. Quando havia necessidade de realizar alguma exposição documental ou de arte, optava-se normalmente pelos Paços do Concelho ou pela antiga sala do bingo, no piso superior do cineteatro, onde hoje se encontra o auditório da Casa da Cultura. Quando se tratava de mostras e exposições de grande envergadura, procurava-se o salão de festas dos bombeiros voluntários (como aconteceu com a Exposição Nacional de Pintura “Prémio Tavares Correia”, que organizei em 1993 no âmbito dos Encontros de Arte’93) ou o pavilhão gimnodesportivo, junto ao parque municipal, onde se mostravam anualmente as potencialidades industriais e comerciais do concelho, o principal objetivo da FIAGRIS – Feira Industrial, Comercial e Agrícola de Seia. A feira de negócios completava-se com a feira popular, tal como a festa religiosa não dispensa os excessos profanos, atraindo muita gente dos concelhos vizinhos e turistas de verão, mas principalmente os emigrantes que vinham da Europa e das Américas matar saudades da sua terra natal e dar corda aos negócios familiares.

Em suma, interessava-me mostrar os meus trabalhos durante a FIAGRIS, perto do recinto da feira e em local digno. Como a Câmara organizava então a FIAGRIS (só em 1995, salvo erro, as associações setoriais passaram a organizar a feira), apresentei uma proposta ao vereador da Cultura, Victor Moura, que não só apoiou a ideia da exposição como apresentou uma solução que me agradou desde logo e foi determinante para o sucesso da exposição: uma ampla loja desocupada na cave do Edifício Europa (Construções Ventura), voltada para o anfiteatro e a dois passos de uma das entradas da feira. A loja onde se encontra hoje a AGRISEIA, na rua Dr. António Melo Mota Veiga.



Graças às amplas janelas, iluminação melhorada e porta aberta para a rua, a exposição suscitava curiosidade e foi muito visitada, mantendo-se aberta no horário da feira graças à colaboração de alguns jovens – entre os quais Beto Cruz, que vive presentemente na Amadora mas sem nunca esquecer a terra natal. Esteve presente nas últimas edições da ARTIS com os seus projetos fotográficos “Marcas de Amor” (2008) e “Não Lápide” (2009), que também expôs em diversos locais de Lisboa e em várias localidades do país.

Foram expostas 10 telas e 4 guaches. O quadro principal era uma pintura a óleo intitulada “Mon Diego”, inspirada numa das várias lendas sobre a origem do nome do rio Mondego, mas a sua maior particularidade nada tem a ver com o tema mas sim com a técnica, já que deixei de pintar a óleo por essa altura e essa foi, até hoje, a minha última pintura a óleo. Felizmente, faz parte da coleção de um bom amigo, à data da exposição um respeitável desconhecido, tal como os outros visitantes que distinguiram o meu trabalho adquirindo algumas obras.

A exposição decorreu em Julho e Agosto de 1989 e as obras expostas eram as seguintes:

1 – “Mon Diego”, óleo s/tela
2 – “Interioridade”, acrílico s/tela
3 – “O Camponês e Suas Propriedades”, acrílico s/tela
4 – “Pescadores”, acrílico s/tela
5 – “Marionetas”, acrílico s/tela
6 – “Caminhos de Névoa”, acrílico s/tela
7 – “Ao entardecer”
8 – “O Pastor e a Sua Atitude”, acrílico s/tela
9 – “Iluminações”, acrílico s/tela
10 – “Recordações da Penha do Gato”, acrílico s/tela
11 – “Arqueologia do Gesto - I”, guache s/papel
12 – “Mineiros”, guache s/papel
13 – “Primavera”, guache s/papel
14 – “Sombras”

Outra curiosidade desta exposição é que, no seguimento de uma entrevista, promovi um concurso através da rádio da feira (som local), com uma pergunta de algibeira sobre Pablo Picasso. A participação do público foi generosa mas não houve vencedor, pelo menos a cem por cento, e o participante que se aproximou mais da resposta certa recebeu uma pequena pintura como lembrança.


Sérgio Reis, "Interioridade", 1989, acrílico s/tela (Col. José Santos)

Sérgio Reis, "O Camponês e Suas Propriedades", 1989, acrílico s/tela (Col. José Santos)

Sérgio Reis, "Mineiros", 1989, guache s/papel (Col. João Fernandes)