A Máquina
de Sonhar
À pergunta do surrealista Breton, "Não pode o sonho ser aplicado também na
solução de problemas fundamentais da vida?" (1), tentou responder
Stephen LaBerge inventando a máquina de sonhar, mas também o fizeram e fazem todos
os artistas que exploram de algum modo a interação entre o mundo visível,
palpável e finito, e o mundo imaginário, irreal, maravilhoso e mesmo absurdo. A
Arte é na verdade uma poderosa máquina que induz
sonhos lúcidos. Uma máquina de fazer sonhar. Seja com o objetivo de (re)vender
sonhos, subverter a lógica instituída, buscar avidamente uma alternativa de futuro imaginado, uma nova utopia, a arte do
nosso tempo pode ser entendida (também) como um filme onírico, com desfecho marcado para a primeira cena do próximo
filme. Pois o sonho, que “comanda a vida” (António Gedeão), é afinal o
motor mais impulsionante da humanidade.
A Pintura
de Sérgio Reis
A pintura de
Sérgio Reis possui vários aspetos distintivos, ao nível da forma e do conteúdo:
o diálogo entre desenho e pintura, que convivem sem artifícios nas suas obras;
predomínio das formas e cores planas, reduzindo a complexidade da forma à sua
verdade essencial; utilização
efusiva da cor, explorando os seus significados mais complexos e ocultos; predominância de conteúdos poéticos; o
anonimato dos rostos, vazios, “desenhados pela ausência e pela
distância, suficientemente transparentes para cabermos quase todos neles, para
nos revermos uns aos outros em todos nós” (2). Trata-se
de uma pintura pensada, uma estética refletida, não para exprimir o lado
visível da realidade exterior mas sim o que ela inspira e produz no interior do
indivíduo. E aí o artista aparece como o filtro interpretante e organizador do
turbilhão de sensações por ele experienciadas e vividas, mas também como
testemunha das transformações que marcam o seu tempo e redirecionam
continuamente o futuro da humanidade.
(1) – André Breton, Manifesto do Surrealismo,
1924.
(2)
- Texto de apresentação da exposição “Esta Gente”, Pintura de Sérgio Reis Museu
Serpa Pinto, Cinfães, abril 2011
LER TEXTO NA PÁGINA OFICIAL DO CINE'ECO 2012